quinta-feira, agosto 17, 2006

O Lavadouro


A "Clara", pintada segundo o olhar especial do meu querido conterrâneo, José Malhoa, foi o ponto de partida para uma pequena viagem pelo lavadouro público de Salir de Matos.
Visitei este espaço povoado de mulheres, várias vezes, na companhia da avó Henriqueta e do meu irmão, provavelmente para a ajudarmos no transporte da roupa, pois este ainda ficava distante de casa.
O lavadouro estava erguido junto a uma mina de água e possuia dois tanques de água corrente, um para a lavagem de roupa e outro para a sua passagem. Ficava envolvido por pinhais, para onde eu e o meu irmão éramos enviados, sempre que a conversa entre as mulheres aquecia e aquele espaço era invadido por palavras proibidas, pelo menos para os ouvidos de duas crianças.
Claro que muitas vezes ficávamos à escuta. Sorríamos um para o outro, enquanto escutávamos algumas estórias picantes que enriqueciam o nosso vocabulário...
Há quem diga, que as mulheres quando estão juntas são piores que os homens, no vernáculo que utilizam. Não partilho dessa opinião. São sim, melhores lavadouras de "roupa suja". Falam de tudo com mais pormenores e até intimidade. E se pensarmos que aquele lugar até se prestava para esse fim...
Num tempo em que as máquinas de lavar eram um luxo, mesmo nas cidades, sobra a memória de ver a avó a caminhar com as mãos na cintura e um alguidar cheio de roupa à cabeça, num equilíbrio digno de qualquer circo.
De certeza que aquele peso era aliviado pelo seu pensamento, ainda preso, às histórias de escárnio e mal dizer, soltas no lavadouro, pela língua comprida de algumas mulheres.

7 comentários:

Nia disse...

Pois...seria pelo acto em si (o de "lavar roupa suja") que as mulheres lavavam lavavam-tagarelavam até que a roupa ficasse como a Beatriz Costa dizia na tal canção da "roupa branca";)
Não é apanágio único das mulheres a "língua suja" mas que também as há..ai lá isso há!!Eheheheh!E que esfreganço com sabão algumas línguas mereceriam!..

Luis Eme disse...

Claro que a "língua suja" não é apanágio único das mulheres, Nia.
Esqueci-me de referir que aquele espaço era um dos poucos existentes, onde as mulheres de Salir de Matos (e de outras aldeias...) se sentiam em liberdade (apesar de estarem a lavar a roupa de toda a família...), sem estarem subjugadas pelo poder masculino da sociedade de então.
Obrigado pela visita. Aparece sempre.

Minda disse...

Na terra dos meus avós paternos também havia um lavadouro público. Mas a minha avó morava "nos casais", a +- 3kms de distância (o que significava uma viagem de 6 kms no total. Por isso, a roupa era lavada no ribeiro que corria na propriedade. Ora, raramente isso era feito em grupo, a não ser quando a minha "tia Taresa" por lá aparecia... era, de facto, um lavar de "roupa suja" com afinco, cada peça bem esfregadinha (dono incluído) e dava-se uma ajudinha virtual à roupa de outros familiares e conhecidos. Quanto à suposta "língua suja"... há muito boa gente que nem com uma "boa sabonária" seguida de um "repouso na lixívia" consegue limpar esse órgãos imundo. Adorei ler estas memórias. Tal como no artigo anterior, fizeram-me ir ao baú das recordações buscar imagens da minha infância... Obrigada Luís por partilhares connosco esses maravilhosos momentos.

Luis Eme disse...

Minda, acho que o mais gratificante para quem escreve, é saber que as suas palavras proporcionam aos leitores, viagens aqui e ali, dentro e fora de nós.
O que é que posso dizer mais? Que
as tuas palavras deixam-me bastante feliz.

jcfrancisco disse...

Na minha terra o rio onde as mulheres lavavam a roupa tinha uma particularidade: ficava atrás da baliza norte do campo de futebol. Ao domingo à tarde quando havia jogo e as mulheres tinham roupa a córar havia sempre guerra por causa da bola... só a roupa é que corava porque elas não coravam com as histórias que circulavam entre as pedras, o sabão e as duas margens do Rio da Pedra. «Rais parta à bola!» diziam elas perante o sorriso dos maridos e dos filhos. Venderam o campo para ser um pomar mas a fruta não se desenvolve. É castigo, julgo eu.

Luis Eme disse...

Deviam ser uns domingos deliciosos...

jcfrancisco disse...

É verdade. Foi nesses domingos à tarde que me tornei naquilo que sou hoje. Passava o tempo a olhar para o «meu» primeiro jornalista desportivo - Juventino Freire. Tio do Vítor Lúcio que jogou no Caldas e foi campeão de juniores no Benfica ao lado do Shéu e do Rui Caçador. Tudo começou no Rio da Pedra: já fui a Bologna, aos Açores, à Madeira, a Braga, a Faro, às Caldas, a tudo quanto é sítio para escrever sobre futebol mas tudo começou ali, naquele peqeuno bloco de apontamentos do «tio» JUventino Freire.