terça-feira, setembro 26, 2006

A Linha do Oeste



O comboio é o melhor transporte do mundo.
Sei que esta frase pode parecer excessiva, mas não é, pelo menos para mim.
Há pelo menos três razões, que me fazem escolher os caminhos de ferro como o meio de transporte ideal: é o único meio de transporte que permite andar de um lado para o outro, livremente, desde a primeira até à última carruagem; é o único lugar que oferece uma visão da paisagem em ângulos mais próximos, mais variados e contemplativos (como devem calcular não estou a pensar nos TGV...); e fundamentalmente, porque são o melhor transporte para ler um livro, uma revista ou um jornal, pela sua estabilidade.
Durante quase duas décadas anos viajei regularmente na Linha do Oeste. Só deixei de o fazer no final da década de noventa, por entender que os horários eram cada vez mais absurdos (fiquei sempre com a sensação que a CP me estava a lançar um convite para utilizar outro transporte qualquer...), e também porque o nascimento dos meus filhos "obrigou-me" a render à comodidade do automóvel...

Outra coisa boa das viagens de comboio era contacto com as pessoas. Havia sempre a possibilidade de encontrarmos alguém conhecido e colocarmos a conversa em dia, partilhando as mudanças normais das nossas vidas, encurtando a viagem...

Tenho acompanhado com algum distanciamento a quase "morte anunciada" da Linha do Oeste, pela ausência de investimentos do Estado e também pelo desinteresse dos autarcas da Região, mais motivados com os negócios do alcatrão e do cimento, que na transformação da linha num espaço mais funcional e acessível para os utentes habituais, e sobretudo mais atractivo para os visitantes.
Sei que promessas e projectos não têm faltado ao longo dos anos, o difícil é sairem do papel...
A fotografia que ilustra este texto mostra a estação das Caldas da Rainha na actualidade, onde, felizmente, ainda imperam os bonitos azulejos azuis que retratam, muito bem, os lugares mais atractivos do Concelho.

9 comentários:

jcfrancisco disse...

Quando fiz a tropa (1972-1974) fiz muitas vezes a viagem Caldas-Lisboa no sábado à hora de almoço e a viagem Lisboa-Caldas no domingo à tarde. Saía de Lisboa às 17,20h e chegava a Caldas às 19,20h. Apanahava a carreira para a Santa Catarina, jantava com a minha avó, via a família e vinha na última carreira ainda a tempo de chegar a Caldas com a porta de armas aberta. O meu armário era um mini-supermercado com pão, vinho, queijo, fruta e bolos. O declínio do caminho de ferro é um sinal da civilização em declínio. Fecham os cinemas porqeu as pessoas levam os filmes para casa. Há um convite a usar o carro mas como será quando acabar o petróleo?

Sininho disse...

Além do declínio do uso do comboio e do encerramento das grandes salas de cinema - substituídas pelas pequenas, tipo "estúdio", de poucos lugares mas com direito a pipocas - há a morte lenta do comércio tradicional, engolido pelos hiper-mercados e centros comerciais. É toda uma geração a desaparecer, substituída por uma outra, deslumbrada e com demasiada pressa de viver.
Provàvelmente, o facto de repararmos em tudo isto, é sinal de que já não vamos para novos...

Luis Eme disse...

Pois é Zé do Carmo Francisco, o declínio do comboio é um sinal do declínio da civilização.
No entanto eu acho que o comboio tenha tudo para acompanhar o progresso... mas parou no tempo. Se exceptuarmos os Alfas e os Pendulares, a velocidade e o tempo de duração das viagens, é quase o mesmo de há cinquenta anos.
Assim é difícil concorrer com as autoestradas e com os carros e "expressos".

Luis Eme disse...

Sininho, todas as coisas que referiste, podem ser um sinal de que já estamos com algum uso, mas são sobretudo, o sinal de um grande desencanto sobre o que está a acontecer com pequenas coisas simples, que estão a ser engolidas por um progresso, que não é de todos.

Nia disse...

Pois...e também era assim na "minha" Linha da Beira Alta.
Era assim mais os garrafões e os nacos de pão com chouriço cortado com uma navalha que parecia a navalha de fazer a barba do meu avô.Eram os beirões a pic-nicar em pleno combóio, que as viagens eram loooooooooooongas!
O comboio do Tua, que também experimentei ,era a melhor montanha russa do mundo!Não se lia, não havia tempo para pic-nicar mas havia tempo de ficar com os cabelos em pé ao olharmos para o caminho do rio nas ravinas de perder o fôlego!Saíamos de lá todos aos ziguezgues de sermos abanados como se estivessemos dentro de um mixer gigante.Aí não se lia, nem se ia "calma de sossego"...era o frisson da montanha russa.
Agora, para a Beira Alta , já se vai de intercidades que, atépelo seu nome, parece não ligar patavina às aldeias e apeadeiros!
Já vamos sentadinhos com um tabuleiro para comer e ler...dois a dois, isolados como meninos que se portaram mal.

Luis Eme disse...

Nunca viajei na Linha do Tua e deve ser de facto um passeio, inesquecível, Nia...
Não só pela paisagem mas também pela própria composição do comboio.

Maria Jo disse...

E que tal, chegar à estação de Meleças/Mira Sintra e ficar a saber que o comboio não avança mais, que o próxino a fazer serviço é no dia seguinte, porque para o Oeste resolveram deixar de fazer horário nocturno... A estação, muito moderna, está num ermo, deserta, sem comunicações, sem nada a que se possa recorrer. Aconteceu há dias a uma amiga, que para chegar a casa teve de andar a pedir boleia e favores da sorte.

Luis Eme disse...

É por isso que os comboios andam vazios Maria Jo...
Como afirmo no "post", fica no ar a sensação que a própria REFER ou CP, andam a dar tiros nos próprios pés.
É uma pena...

Anónimo disse...

Em Caldas da Rainha,como em muitas outras cidades, vilas e aldeias os políticos, não pensam em preservar é só deitar abaixo e fazer de novo porque fica mais barato e, quando há uma requalificação,não há, por parte de muito cidadão, "respeito " pela obra que é de todos.