Mostrar mensagens com a etiqueta Infância. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Infância. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, novembro 30, 2006

Pausa para o Almoço



Lembro-me de a avó fazer o almoço para o avô, meter tudo numa cesta, tapadinho por um pano e levá-lo à cabeça, até à fazenda, onde ele estivesse a trabalhar.
Acompanhei a avó algumas vezes, nestas viagens, quase sempre enebriado pelo cheiro dos petiscos que fazia, para dar energia ao seu homem.
Quando chegávamos, eu olhava com enlevo para a comida e o avô sorria e acabava por a partilhar comigo. A avó não achava piada e chamava-me guloso, que já tinha almoçado, etc, mas aquele cheiro do farnel era mais forte que eu...
Recordo-me, que às vezes o meu pai também ia trabalhar para fora e levava almoço. Quando ele chegava adorava rebuscar a sua mala, à espera das sobras. A mãe fazia muitas vezes carne panada, e lá estava eu à espera de um panadinho...
Pois é, os petiscos são uma coisa fabulosa, especialmente os cheiros...
O óleo que ilustra este texto é a "Sesta" de José Malhoa, mas como este momento de descanso, está acompanhado da cesta do farnel, acabei por a escolher...

domingo, novembro 19, 2006

A Minha Primeira Viagem à Margem Sul



Não me canso de dizer, que a nossa memória é uma coisa surpreendente!
Consigo recordar-me da primeira vez que visitei a Margem Sul, embora não tivesse mais de cinco, seis anos.
Lembro-me de atravessar o Tejo de Cacilheiro, de ter feito a viagem à janela, ao colo do meu pai. E mais, recordo que os bancos eram de madeira, envernizados...
Não me lembro da maneira que fomos até ao Cristo-Rei (provavelmente fomos de táxi, não estou a ver o meu pai à procura de uma carreira que fosse até ao Santuário...).
Lembro-me sim, de estar naquele sitio alto e olhar cá em baixo para o rio Tejo e descobrir os barcos muito pequeninos, como se fossem de brincar... da estátua do Cristo de cimento, lembro-me mais de o olhar cá de baixo. Lá em cima, a sua grandeza deve-me ter confundido.
A Ponte tinha acabado de ser inaugurada, mas não retive qualquer imagem desta passagem de tão grande utilidade para a Outra Margem...
Quem diria, que desta vez as minhas "viagens" escaparam do Oeste e vieram até à Minha Margem...

quinta-feira, novembro 09, 2006

As Estórias do Avô



Uma das coisas inesquecíveis da minha infância foram as estórias com cheiro a lenda que o avô nos contava, deixando-nos deliciados a ouvi-lo, sentados na escada de cimento que dava para a casa de fora, ao lado do forno.
Havia um pouco de tudo, desde cobras voadoras que sobrevoavam as fazendas, ao homem que aparecia dentro da lua, quando ela estava completamente cheia, com um molho de vides às costas. Segundo o avô, tratava-se de um sujeito que tinha sido apanhado a trabalhar ao domingo e acabou por ser transportado para a Lua pelo Deus dos cristãos, para que servisse de exemplo aos homens da terra de que era proibido trabalhar ao domingo, dia santo.
Geralmente, estas conversas eram interrompidas pela avó, que tinha um jeito especial para quebrar todo aquele ambiente de magia, criado à volta do avô.
Ela nunca percebeu a importância das estórias e lendas na vida das crianças, sempre foi, exageradamente, real.
E claro que também havia ali um pouco de ciúme, compreensível...



A foto que ilustra este texto é dos meus avós maternos, Manuel e Henriqueta, com os netos (falta o João, que ainda não tinha chegado de "França", no bico de uma Cegonha...).

quinta-feira, novembro 02, 2006

Que Saudades do Pão da Avó...



Hoje, sem saber explicar muito bem porquê, lembrei-me de uma coisa maravilhosa: da minha avó a cozer pão no forno. Pão que tinha aquele gosto especial, que não conseguimos encontrar nas várias imitações do pão caseiro, que se vão vendendo por aí.
A própria farinha ainda vinha dos moinhos de vento, através de um processo de troca por troca, que já não existe. O avô trocava alguns alqueires de trigo por sacos de farinha já moída.
A avó fazia sempre umas brandeiras (pãozinhos pequenos) que partia a meio e polvilhava com açúcar amarelo quando ainda estavam quentes e que ficava imediatamente derretido no pão e era uma delícia...
Mas havia mais. Comer o pão ainda quente com manteiga, que também ficava completamente derretida, era outra delícia...
Tenho saudades do cheiro da lenha, de ver a minha avó de volta do forno com um pano branco a cobrir-lhe a cabeça, com aquela espécie de pá com que tirava o pão (à Padeira de Aljubarrota), quando já estava bem cozido, nas mãos... e de ficar alí, à volta do forno, à espera do meu "bolo", juntamente com o meu irmão e os primos...
Às vezes a avó até deixava que fossemos nós a fazer o nosso pequeno pão, com aquela massa de farinha, que se colava aos dedos...
Infelizmente nessa altura não se tiravam muitos retratos, pelo que não tenho qualquer fotografia deste episódio tão memorável. Para ilustrar estas palavras socorri-me de uma imagem de Jean Dieuzaide, um fotógrafo francês que nos visitou nos anos cinquenta e deixou excelentes fotografias do Portugal de então.

segunda-feira, outubro 02, 2006

A Outra Janela



Escolhi esta janela pintada por Pierre Bonnard (1867 - 1947) para ilustrar este meu pequeno apontamento, sobre outra janela, porque a achei irresistível...
Devo começar por dizer, que sempre gostei de janelas debruçadas para o Mundo.
Quando vim viver para Cacilhas, houve um pormenor decisivo na escolha da minha casa: a janela da sala, com vista para o Tejo.
Hoje, quando começou a chover, recordei-me da minha primeira janela especial, a da sala da casa onde vivi a minha infância, no Bairro dos Arneiros. Foi lá que aprendi a olhar para as coisas, com olhos de ver.
Passava horas entretido a brincar com os meus carrinhos, no parapeito da janela, enquanto olhava para a chuva que caia na rua...
Ficava deliciado a ver a Rua 26 transformar-se num grande lamaçal, quase intransitável. Sorria ao ver os transeuntes circularem aos ziguezagues, tentando escapar das poças de água. De vez em quanto lá surgia um carro, preparado para dar um banho de água castanha a quem não se precavia. O meu sorriso transformava-se numa gargalhada sempre que isto acontecia, porque nós crianças, adoramos estas cenas "maléficas", dignas de qualquer um filme tragico-cómico.
Nesta altura o alcatrão ainda era um miragem, pelo menos nos bairros limitrofes da Cidade das Termas...

sábado, setembro 30, 2006

Nomes de Guerra



Um das aspectos mais curiosos no futebol é a forma como alguns “nomes de guerra” ficam para a história, sendo usados de formas diferentes, e tantas vezes, sem explicação aparente.
Por exemplo, um dos casos que nunca percebi, foi porque razão deram a alcunha de “Garrincha” a um jogador do Caldas, dos anos setenta, sem grande talento futebolístico e sem qualquer parecença física com o grande fantasista brasileiro. Ao contrário do verdadeiro Garrincha, que adorava andar com a redondinha rente à relva, colada aos pés e sentar os adversários que lhe apareciam pela frente, este era um jogador defensivo e adepto do chuto para o ar.
Um dos jogadores mais “famosos” do meu bairro, além de ser meu homónimo, também era conhecido na gíria futebolística como “Pélé”. Este “nome de guerra” assentava-lhe bem, porque, apesar de ter a pele clara, era o melhor jogador do Bairro dos Arneiros. Fez parte de uma grande equipa de juvenis do Caldas, onde também pontificava o Vital, um grande avançado centro, que foi pescado para as camadas jovens do Benfica e marcou centenas de golos ao longo da sua carreira. Carreira essa que teve como ponto alto os títulos de Campeão Nacional conquistados no Futebol Clube do Porto do Senhor José Maria Pedroto e a chamada à selecção A.
Curiosamente, uma das únicas alcunhas que tive no futebol, foi colocada pelo “Pélé”, o tal craque do meu bairro, num dos primeiros jogos que fiz num pelado a sério (O campo de futebol de onze do F.C. das Caldas). Devia ter uns doze anos e fui convidado para jogar, misturado com rapazotes entre os quinze e os dezassete anos. Em vez de me assustar com a sua envergadura física, jogava de igual para igual com eles, embrulhando-me nas suas canelas e conseguindo tirar-lhes a bola... deixando-os furibundos. O “Pélé”, além de me proteger dos “maus fígados” dos adversários, apelidou-me de “Esgravulha Batata”. Claro que foi uma alcunha de um só dia...
Mas os “nomes de guerra” valem o que valem... não me esqueço de um vizinho baixinho e quase quadrado, que continua a ser conhecido nas redondezas por “Maradona”... e este cognome, deve-se apenas às parecenças físicas (altura e peso...) e não ao talento futebolístico...