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quarta-feira, maio 01, 2019

O Meu Primeiro de Maio...



O Meu Primeiro de Maio

Sozinho, sempre sozinho,
mesmo quando vou a teu lado.

De ti que constróis o rumor das cidades
e no campo, semeias, lavras,
e pisas
o sabor do vinho.

Sozinho, sempre sozinho.
Aqui vou a teu lado
eu, o poeta, operário de palavras
- as palavras «sonho», «bandeira», «esperança», «liberdade» -
instrumentos de pureza irreal
que tornam a Realidade
ainda mais real
e transformam os bairros de lata
em futuras cidades de cristal
num planeta de paisagens de prata
onde as bocas das flores, das manhãs, dos vulcões,
da brancura do linho
e das foices de gume doirado
cantarão um dia connosco a Internacional
- que eu continuarei a cantar sozinho,
sempre sozinho,
a teu lado.

José Gomes Ferreira

(Fotografia de autor desconhecido)

terça-feira, setembro 11, 2018

A Poesia com Memória...


Embora nem tenha grandes pretensões a chamar-lhe poesia, acabei por aproveitar uma notícia absurda da Nova Zelândia (uma aldeia que quer por fim aos gatos...) e recordar a minha avó, que nos seus últimos anos de vida, desistiu de ter gatos, graças ao seu espírito libertário e também suicida (além de a deixarem sozinha lá por casa, acabavam por ficar sempre debaixo de algum carro...).
Também quis recordar e homenagear a Gena, que adorava gatos e é a autora da fotografia...

uma notícia, duas memórias…

Quando li a notícia sobre a aldeia neozelandesa
Que quer proibir os gatos domésticos
Pensei em ti avó (e na Gena…).

Sei que ias ser contra
Apesar de não gostares
«de toda aquela liberdade»
Porque saiam de casa e deixavam-te sozinha

Talvez tenhas percebido, demasiado tarde,
que os gatos são donos de si próprios,
e não tanto nossos animais de estimação.

Eu não te disse,
Mas o que eu mais adorava, e adoro, nos gatos
Era, e é, esta forma de vida, livre e espontânea…

Palavras de Luís [Alves] Milheiro

Fotografia de Gena Souza

(este poema e esta fotografia fazem parte da 3.ª Exposição de Poesia Ilustrada da SCALA, patente na sede /galeria da SCALA, em Almada)

quarta-feira, março 21, 2018

A Poesia com "A Tua Janela"


Não sou tão antigo quanto isso, mas recordo-me de um quase namoro de janela, talvez no fim da adolescência, começo de idade adulta, vivido no Bairro onde cresci.

Este poema que publico por aqui, por ser Dia Mundial da Poesia, foi escrito muitos anos depois, mas Ela também devia lá estar, no meio destas palavras...

A Tua Janela


Venho passear por aqui

Olho a tua janela
E sinto saudade de ti

Este bairro foi feito
À medida do nosso amor.

E tu foste feito

À minha medida.

Luís [Alves] Milheiro

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, fevereiro 17, 2018

"Os Loucos de Lisboa (e "Menina Nua"...)


As "Viagens" não ficaram esquecidas nesta minha vontade de divulgar os poemas do meu caderno, "Praça Miguel Bombarda". 

Escolhi o poema, Os Loucos de Lisboa", que está ilustrado com a fotografia, "Menina Nua", do nosso Parque e da minha exposição, "Arte com História e com Gente".


os loucos de lisboa
  
no início eram apenas três
mas foram aumentando
vêm de todo o lado
até do café gelo
e de outras tertúlias
presas por um fio
ao passado

o mais giro é o pacheco
primo do rapaz dos vintes
dos livros e da comunidade.
mas todos eles escrevem poemas
e desenrascam-se bem
a pintar a realidade
com os cheiros e as cores
que só são conhecidas
pelos poetas de verdade

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, junho 01, 2017

Armando Silva Carvalho Procurou Abrigo na Sombra do Mar...


Soube do desaparecimento do Poeta pelo Henrique, na sua “Antologia do Esquecimento" depois passei pelo site do ”Público”, onde fiquei a saber mais pormenores através da notícia que transcrevo:

«O poeta Armando Silva Carvalho morreu esta quinta-feira de manhã, aos 79 anos, no Hospital Montepio Rainha D. Leonor, nas Caldas da Rainha, na sequência de um cancro de pulmão. O corpo será velado a partir das 15h30 em Olho Marinho, no concelho de Óbidos, onde o escritor nasceu, e o funeral está marcado para sexta-feira às 17h30, também em Olho Marinho. A missa será celebrada pelo seu amigo, e também poeta, José Tolentino Mendonça.
Nascido em 1938, Armando Silva Carvalho estreou-se há mais de 50 anos, em 1965, com  Lírica Consumível. Venceu com ele o Prémio de Revelação da Sociedade Portuguesa de Escritores. A Sombra do Mar, o último a chegar às livrarias, em 2016, foi distinguido com o Grande Prémio Casino da Póvoa na edição deste ano do Correntes d' Escritas. Trata-se, possivelmente, do seu melhor livro desde Lisboas (2000) — pelo meio houve títulos como O Amante Japonês (2008), Anthero Areia e Água (2010) ou De Amore (2012).»

Ia escrever que a poesia do Oeste tinha ficado mais pobre, mas é apenas mais um lugar-comum, que até pode ser mentiroso.

Não seria nada do outro mundo que o desaparecimento do Armando Silva Carvalho despertasse no mínimo curiosidade sobre a sua obra poética…

(Fotografia de Autor Desconhecido)

sábado, outubro 03, 2015

A Balada dos 90 Anos da "Gazeta das Caldas"


Presto aqui a minha homenagem à "Gazeta das Caldas", da qual sou assinante há já umas três décadas, pelos seus 90 anos cheios de vitalidade e bom jornalismo, com um poema da autoria do poeta caldense, José do Carmo Francisco.

Balada para 90 anos da «Gazeta das Caldas»

Na balada que é só minha
A memória é uma mistura
Estou nas Caldas da Rainha
Cruzo a Rua da Amargura
Faço exames numa escola
Em Abril e era a terceira
Num frio de usar camisola
O medo era uma torneira
Em Julho a quarta classe
O diploma vem de Leiria
E sem que eu esperasse
Tive um fato nesse dia
Nos Armazéns do Chiado
Que era na Praça da Fruta
Anos depois assustado
Eu começava outra luta
Minha prima Deolinda
Tinha manteiga no pão
Na recruta que não finda
Seu amor era oração
Reencontrei Juventino
Num café à sua mesa
Mal sabia que o destino
Me reservava a surpresa
Hoje se sou jornalista
Devo ao querer imitar
Em jornal ou em revista
Seu percurso singular
Que começou na aldeia
No Jornal Catarinense
Onde a força duma ideia
É razão que tudo vence
Foi nesta automotora
Que o Mundo cresceu
Do menino de outrora
Ao adulto que sou eu
Entre horário da carreira
E o comboio a atrasar
Já não havia maneira
De chegar ao nosso lar
Nem o Vítor da carrinha
Nem o senhor Guimarães
Resolviam à noitinha
Problema de pais e mães
Garagem dos Capristanos
Primeiro café de surpresa
E passados tantos anos
Continuamos na mesa
Noventa anos de idade
Cabeçalho dum Jornal 
Começou numa cidade
Vai ao Mundo em geral
Coração em pé de guerra
Ele chega a todo o lado
É o tempo da minha terra
Numas folhas condensado
Tenho meu nome e retrato
Treze anos de presença  
Há um secreto contrato
Que liga nossa diferença
Numa idade mais madura
Abre-se ao Mundo o jornal
A memória é uma mistura
E esta balada é plural
Nela cabem os projectos
Os sonhos e as alegrias
Os jornalistas concretos
A escrever todos os dias

José do Carmo Francisco               
     

quarta-feira, julho 02, 2014

As Palavras e o Mar de Sophia


Sophia,

O mar azul e branco
torna-se mais expansivo,
e tocante,
depois de sentir
a luminosidade,
o perfume
e o encanto
das tuas palavras...


Porque hoje é dia da nossa Sophia, poeta maior da nossa Aldeia, publico aqui um poema que lhe dediquei, em 2003. A fotografia mostra o mar da Foz do Arelho.


sexta-feira, maio 16, 2014

As Minhas Músicas


Noto que há medida que o tempo passa, o jazz e o fado são as músicas que mais "andam à volta" do leitor de "cedês".

Encontro nestas sonoridades uma largueza que antes não encontrava. 

O mais curioso é que a maior parte dos álbuns que ouço são dos anos cinquenta, sessenta e setenta.

Há fadistas que só conhecia de nome ou de ouvir cantar na televisão. Ou seja, desconhecia completamente a sua obra.

E as suas palavras já têm muita poesia, mesmo que muitos dos letristas não tenham obra publicada...

O meu completo desinteresse pelas músicas destes tempos, pelas sonoridades que entusiasmam os meus filhos, deve ser coisa da idade.

domingo, abril 13, 2014

"O Teu Mar" (meu...)


Há algumas pessoas especiais que visitam os meus blogues e que quando me encontram falam do que escrevo, quase sempre de uma forma positiva.

Acho que também é por isso que vale a pena escrever, que vale a pena ter blogues...

Uma dessas visitantes, a Clara, até me brindou com um poema, em que quase "glosa" o meu Mar, da Foz do Arelho. Poema que vou partilhar convosco, muito agradecido à  amiga e poetisa almadense:

O Teu Mar

Olhas o teu mar
dentro de ti
nunca o encontras
parado
Achas que quase
imita a lassidão
dum rio...
gostas mais da tua 
Foz
Povoada de sons
e ondas fortes
Estás certo!
O mar é como nós
precisamos de espaço
muito espaço
e muita sorte...

Clara Mestre

quarta-feira, janeiro 15, 2014

«Só as pessoas da cidade é que encontram poesia nos campos»


Sei que ela lê o que escrevo por aqui, provavelmente por ser espaçado. Quase que basta passar por aqui uma ou duas vezes por mês para ler as minhas "viagens pelo Oeste" (cada vez mais curtas)...

Mesmo assim estranhei a sua observação: «só as pessoas da cidade é que encontram poesia nos campos.»

Limitei-me a sorrir, até por saber que havia alguma verdade nas suas palavras.

Mas apenas alguma. Acredito cada vez mais que a "poesia" não é de ninguém, mas sim de toda a gente.

Lembrei-me do meu avô materno, homem praticamente sem instrução e que foi maior parte da sua vida agricultor a tempo inteiro. Apesar dos tempos difíceis que viveu (como boa parte dos portugueses nos anos trinta e quarenta do século passado, bem piores que os de hoje...), senti que não só encontrava "poesia" nos campos, como gostava de de todo aquele ciclo de vidas, ditado pela natureza.

Foi pena não ter estado mais atento aos seus ensinamentos, à maneira simples como nos tentava fazer gostar dos campos...

terça-feira, dezembro 24, 2013

Falavam-me de Amor


Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.


                                   Natália Correia

O óleo é de Patricia Rorie.

domingo, maio 05, 2013

Tenho Saudades do Calor ó Mãe


Tenho Saudades do Calor ó MãeTenho saudades do calor ó mãe que me penteias 
Ó mãe que me cortas o cabelo — o meu cabelo 
Adorna-te muito mais do que os anéis 

Dá-me um pouco do teu corpo como herança 
Uma porção do teu corpo glorioso — não o que já tenho — 
O que em ti já contempla o que os santos vêem nos céus 
Dá-me o pão do céu porque morro 
Faminto, morro à míngua do alto 

Tenho saudades dos caminhos quando me deixas 
Em casa. Padeço tanto 
Penso tanto 
Canto tão alto quando calculo os corpos celestes 

Ó infinita ó infinita mãe 

Daniel Faria, in "Dos Líquidos"
O óleo é de Kuzma Petrov.

segunda-feira, dezembro 24, 2012

Natal Feliz, Feliz Natal



Natal

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

Manuel Alegre

sábado, junho 09, 2012

Lá Dizia o Camões...


Mais um desenho urbano das Caldas, a homenagear Luís de Camões e o Amor, o tal fogo que arde sem se ver...

terça-feira, março 13, 2012

«O Mundo mudou. Ponto final.»


«Não. O mundo mudou mas ainda não acabou. Tira lá esse ponto final.»

Foi assim que eu respondi, a uma pessoa cansada de viver neste mundo, em que se fecham mais do dobro das portas que se abrem, quando disse: «O mundo mudou. Ponto final.»

Somos quase todos conformistas, por isso é que conseguimos eleger políticos tão ordinários, corruptos e incompetentes. Temos um presidente da República que corre o risco de ficar na história como o pior dos piores (nem na ditadura havia gente assim, nem mesmo o Américo Tomás...). Temos presidentes de Câmara que se perpetuam no poder, sem fazer nada de significativo pelas suas gentes, além de se endividarem com obras faraónicas, onde no fim cortam uma fita e colocam uma placa com o seu nome. Mas o mundo avança...

O quase patrono das "Viagens", Alberto Caeiro, era capaz de dizer isto:

Fecham mercearias, 
fecham livrarias, 
mas o mundo avança... 
sem pontos finais, 
apenas com uma ou outra mudança.

O óleo é de Chris Miles (porque continuamos a ser uns anjinhos).

segunda-feira, março 05, 2012

A Tia, a Mãe e o Poema


De vez em quando escrevo poemas.
Não é uma coisa fácil como a prosa.
O Gui diz que cada qual é para o que nasce. Tem toda a razão, mas muitos de nós somos teimosos e insistimos, insistimos, sabe-se lá porquê...

O giro da coisa é que a maioria dos poemas que escrevo são "encomendas". Uma boa parte deles andam por aí, dispersos em pequenos cadernos colectivos, outros em antologias.

Falo em poemas aqui nas "Viagens", porque um dos meus poemas foi escolhido pela minha tia Ilda para homenagear de alguma forma a minha Mãe (e a mim, claro...), dizendo-o em público, ainda que num ambiente familiar, na Nazaré.

O óleo é de Liz Ridgway.

quarta-feira, novembro 30, 2011

Saudade...


Apetecia-me passear de sobretudo dentro do frio que encolhe as árvores, mesmo as gigantes, quase despidas do Parque.

Também me apetecia sentir a humidade do oceano, que tenta entrar dentro de nós, rente ao mar da Foz.

Fecho os olhos e quase que ouço o mar, juntamente com algumas vozes familiares, com quem é sempre um prazer trocar mais de dois dedos de conversa...

O óleo é de José Malhoa, "Outono"...

domingo, setembro 25, 2011

E Esta Esplanada?


Também gostei de passar por esta esplanada, praticamente no centro da cidade (traseiras da Igreja de Nossa Senhora da Conceição).

segunda-feira, junho 13, 2011

Barco que Partes



Navio que partes para longe,
Por que é que, ao contrário dos outros,
Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?
Porque quando te não vejo, deixaste de existir.
E se se tem saudades do que não existe,
Sinto-a em relação a cousa nenhuma;
Não é do navio, é de nós, que sentimos saudade.

Alberto Caeiro


O óleo é de Luiza Caetano

sábado, março 19, 2011

A Dança das Feridas

Se para dançar o tango convenientemente são precisos dois, felizmente para escrever poesia da boa, basta uma só pessoa.
"Dança das Feridas", da autoria de Henrique Manuel Bento Fialho, um poeta grande do Oeste (até no nome), é um livro especial, cheio de encontros, dedicatórias, pedidos, e claro, muita criatividade e inspiração.

No "baile" poético de Henrique é feita uma escolha criteriosa nos pares que vão surgindo, página a página, gente grande das várias culturas do mundo.

O baile começa com um convite:

«Se eu soubesse dançar/ convidava-te para um tango,/ guiava-te nos labirintos do coração./ Voarias sobre os campos/ como num deslumbramento/ seríamos uma ameaça/ à estabilidade nacional [...]»

Mas há sempre excelentes motivos de leitura ao longo das cem páginas, com quase sete dezenas de poemas, como quando "Ian Curtis (dança com) a Annik Honoré":

[...] «Andamos sempre à procura/ de uma noite que não tem dias/ de uma noite sem sinais/ candeeiros que reflictam/ a agitação dos mosquitos à queima-roupa [..]»

Até as dimensões deste livro são giras e diferentes, tal como a capa de Maria João Lopes Fernandes.