sábado, setembro 30, 2006

Nomes de Guerra



Um das aspectos mais curiosos no futebol é a forma como alguns “nomes de guerra” ficam para a história, sendo usados de formas diferentes, e tantas vezes, sem explicação aparente.
Por exemplo, um dos casos que nunca percebi, foi porque razão deram a alcunha de “Garrincha” a um jogador do Caldas, dos anos setenta, sem grande talento futebolístico e sem qualquer parecença física com o grande fantasista brasileiro. Ao contrário do verdadeiro Garrincha, que adorava andar com a redondinha rente à relva, colada aos pés e sentar os adversários que lhe apareciam pela frente, este era um jogador defensivo e adepto do chuto para o ar.
Um dos jogadores mais “famosos” do meu bairro, além de ser meu homónimo, também era conhecido na gíria futebolística como “Pélé”. Este “nome de guerra” assentava-lhe bem, porque, apesar de ter a pele clara, era o melhor jogador do Bairro dos Arneiros. Fez parte de uma grande equipa de juvenis do Caldas, onde também pontificava o Vital, um grande avançado centro, que foi pescado para as camadas jovens do Benfica e marcou centenas de golos ao longo da sua carreira. Carreira essa que teve como ponto alto os títulos de Campeão Nacional conquistados no Futebol Clube do Porto do Senhor José Maria Pedroto e a chamada à selecção A.
Curiosamente, uma das únicas alcunhas que tive no futebol, foi colocada pelo “Pélé”, o tal craque do meu bairro, num dos primeiros jogos que fiz num pelado a sério (O campo de futebol de onze do F.C. das Caldas). Devia ter uns doze anos e fui convidado para jogar, misturado com rapazotes entre os quinze e os dezassete anos. Em vez de me assustar com a sua envergadura física, jogava de igual para igual com eles, embrulhando-me nas suas canelas e conseguindo tirar-lhes a bola... deixando-os furibundos. O “Pélé”, além de me proteger dos “maus fígados” dos adversários, apelidou-me de “Esgravulha Batata”. Claro que foi uma alcunha de um só dia...
Mas os “nomes de guerra” valem o que valem... não me esqueço de um vizinho baixinho e quase quadrado, que continua a ser conhecido nas redondezas por “Maradona”... e este cognome, deve-se apenas às parecenças físicas (altura e peso...) e não ao talento futebolístico...

terça-feira, setembro 26, 2006

A Linha do Oeste



O comboio é o melhor transporte do mundo.
Sei que esta frase pode parecer excessiva, mas não é, pelo menos para mim.
Há pelo menos três razões, que me fazem escolher os caminhos de ferro como o meio de transporte ideal: é o único meio de transporte que permite andar de um lado para o outro, livremente, desde a primeira até à última carruagem; é o único lugar que oferece uma visão da paisagem em ângulos mais próximos, mais variados e contemplativos (como devem calcular não estou a pensar nos TGV...); e fundamentalmente, porque são o melhor transporte para ler um livro, uma revista ou um jornal, pela sua estabilidade.
Durante quase duas décadas anos viajei regularmente na Linha do Oeste. Só deixei de o fazer no final da década de noventa, por entender que os horários eram cada vez mais absurdos (fiquei sempre com a sensação que a CP me estava a lançar um convite para utilizar outro transporte qualquer...), e também porque o nascimento dos meus filhos "obrigou-me" a render à comodidade do automóvel...

Outra coisa boa das viagens de comboio era contacto com as pessoas. Havia sempre a possibilidade de encontrarmos alguém conhecido e colocarmos a conversa em dia, partilhando as mudanças normais das nossas vidas, encurtando a viagem...

Tenho acompanhado com algum distanciamento a quase "morte anunciada" da Linha do Oeste, pela ausência de investimentos do Estado e também pelo desinteresse dos autarcas da Região, mais motivados com os negócios do alcatrão e do cimento, que na transformação da linha num espaço mais funcional e acessível para os utentes habituais, e sobretudo mais atractivo para os visitantes.
Sei que promessas e projectos não têm faltado ao longo dos anos, o difícil é sairem do papel...
A fotografia que ilustra este texto mostra a estação das Caldas da Rainha na actualidade, onde, felizmente, ainda imperam os bonitos azulejos azuis que retratam, muito bem, os lugares mais atractivos do Concelho.

quinta-feira, setembro 21, 2006

A Importância das Palavras



Esta fotografia de José Águas a erguer a Taça dos Campeões Europeus tem um significado especial para mim. Vou mesmo mais longe, embora não esteja completamente certo disso, penso que é ela a grande responsável por ser benfiquista.
Sem saber explicar muito bem o porquê, sei que na minha meninice, ficava parado, deslumbrado, a olhar para esta imagem vitoriosa, pendurada na sala da casa de um dos meus vizinhos.
Claro que não estou aqui para falar do meu “benfiquismo”, que nunca foi muito doentio, nem mesmo na adolescência. Estou aqui sim, para salientar a importância das palavras que trocamos com os outros, mesmo sabendo que se vive num tempo, quase sem espaço para conversas, para lá do bom dia e boa tarde. A convivência nos lugares onde vivemos é o melhor exemplo do que acabo de dizer.
O que é facto, é que conversar continua a ser uma prática deliciosa. E quando o interlocutor é uma pessoa por quem sentimos empatia, somos capazes de estar horas e horas à conversa, sem dar qualquer espaço ao silêncio. Foi exactamente isso, que aconteceu na tarde de ontem, na esplanada de um pequeno café de Cacilhas.
O meu encontro com António Cagica Rapaz - um nome que é facilmente identificável por todos aqueles que acompanhavam o futebol na década de sessenta e princípio de setenta, pois pisou os nossos principais relvados com as camisolas da Académica, CUF e Belenenses. -, foi pretexto para uma conversa extremamente rica, sobre pessoas, lugares, livros, jornais, futebol, política, etc. Mas o melhor da conversa, foi falarmos de algumas pessoas que nos diziam muito, pelas mais variadas razões.
Um pequeno exemplo da nossa conversa, foi o “encontro” com dois extraordinários futebolistas, que se existir futebol no paraíso, continuam a marcar grandes golos. Estou a falar de Matateu e José Águas. Cagica complementou a ideia que eu tinha destes magos da bola, exímios na arte de meter golos, que por não serem do meu tempo, não me deram a felicidade de os puder ver jogar, ao vivo.
Matateu era um espectáculo dentro e fora dos relvados. A facilidade com que marcava golos e a sua alegria natural, faziam que tudo á sua volta se transformasse numa festa. Amava a boa vida e gostava de estar sempre com uma “fresquinha” nas mãos. Não tenho dúvidas que a sua vida poderia dar um grande filme, embora não existam actores com capacidade para fazerem de “Matateu”, dentro dos relvados...
José Águas foi um dos melhores jogadores portugueses a movimentar-se dentro de área e um dos avançados mais elegantes do nosso futebol. Ainda tive a felicidade de o conhecer, na minha actividade jornalística, e fiquei com a melhor das impressões.
Obrigado Cagica, pelas palavras, pelos livros e pela amizade...

sábado, setembro 16, 2006

As Vindimas



As vindimas foram a única actividade campestre que me manteve ligado à agricultura desde sempre.
Ainda hoje sinto que existe algo de mágico em toda este percurso artesanal, desde a apanha das uvas até à produção do vinho no lagar.
Nos primeiros anos a minha participação na “festa do vinho” não passava de uma brincadeira deliciosa, partilhada com o meu irmão e (pisar as uvas no lagar era, e é, uma brincadeira para qualquer criança...) permitida pelo avô, enquanto ainda se estavam a recolher as uvas...
As vinhas que pertenciam ao avô eram o Arneiro e o Vale da Moira. Nós só as percorríamos na época das vindimas, porque ficavam afastadas de casa dos avós, no meio de pinhais, por caminhos tortuosos.
Recordo que as viagens entre as vinhas e o lagar da família, com a queda das primeiras chuvas, tornavam-se numa grande aventura, principalmente para nós, crianças. O percurso pouco cuidado quase que colocava em risco as tinas carregadas de uvas e a integridade fisica das vacas, que ficavam com as patas completamente escondidas no meio do lamaçal, sem nunca desistirem de puxar o carro de bois, perante a ameaça do avô, que as picava com uma vara igual às que usavam os campinos nas lezírias.
O pai e os tios acompanhavam sempre o percurso mais acidentado, preparados para aliviar a carga e ajudar no que fosse necessário.
Depois de termos crescido um palmo, não falhávamos a apanha das uvas (primeiro com o balde depois com o caneco) e a produção do vinho (quer a pisar as uvas quer a fazer o “aperto”, no célebre “trec-larec” da máquina artesanal do lagar).
Lembro-me da cumplicidade, presente nos sorrisos do pai, dos tios e de nós dois, quando descobríamos a cara de satisfação do avô, depois de fazer a medição da graduação, por o vinho ter “alma forte", ou seja, mais de doze graus...

quarta-feira, setembro 13, 2006

As Ruas da Liberdade



Na minha infância as ruas eram um lugar sagrado para todas as crianças, porque era nestes espaços abertos, que nos encontrávamos, diariamente, para brincar.
As coisas eram muito mais simples... os carros eram uma raridade e a insegurança nas ruas nem sequer era tema de conversa nas casas, nos cafés e nas ruas. Isto acontecia porque nos bairros todos se conheciam e nada passava em claro à vizinhança.
Como os relógios andavam mais "devagar", as pessoas tinham mais tempo para conversar umas com as outras e para estarem à janela, a olhar para tudo aquilo que as rodeava.
Podiamos brincar a jogos simples como à apanhada, às escondidas ou a outros mais técnicos como o berlinde, as corridas com caricas ou ao futebol, o jogo mais popular entre a rapaziada. Sim, porque neste tempo o futebol não era coisa de mulheres...
Nestes jogos improvisados, qualquer coisa servia de baliza. Não existiam árbitros nem cronómetros, as partidas mudavam aos cinco e acabavam aos dez... e se houvesse tempo para mais, prolongavam-se, até chegarmos a resultados mais próximos de um jogo de andebol que de futebol...
Quase todos escolhiamos nomes de guerra. Não havia jogo que não tivesse um Eusébio, um Damas, um Simões, um Humberto, um Nené, um Artur, um Peres ou um Pavão (havia um miúdo do Norte, que era sempre o Pavão...). Eram estas as nossas "escolas" de futebol.
Depois de termos crescido um palmo e já nos acharmos suficientemente bons, formávamos equipas das nossas ruas e desafiávamos os "putos" da vizinhança para desafios empolgantes, quase num campeonato de bairro.
Recordo que a minha equipa, da Rua do Meio, era a mais macia e também a melhor tecnicamente. Era por isso que levávamos muita "porradinha", dentro e fora do campo. Por vezes éramos mesmo "corridos à pedrada", por adversários com mau perder.
Estes jogos já se jogavam em campos improvisados nos muitos espaços baldios (muitas vezes com balizas de madeira, quase a sério...) em redor dos bairros, ocupados posteriormente, de uma forma quase selvagem, pela construção desenfreada de um progresso, que roubou as ruas às crianças...
Hoje os nossos filhos crescem sem conhecer as "Ruas da Liberdade". Talvez esta seja uma das facturas mais "caras" e perniciosas do tal progresso...
(foto Eduardo Gageiro, in "Estas Crianças Aqui")

domingo, setembro 10, 2006

As Berlengas



O Arquipélago das Berlengas já é Reserva Natural Marinha há 25 anos...
Este conjunto de pequenas ilhas rochosas (Berlenga, Estelas e Farilhões) situado ao largo de Peniche, continua a despertar a curiosidade de muitos turistas. A Berlenga, por ser a única ilha cuja área permite que exista alguma ocupação humana, é naturalmente o centro de atenções.
A primeira vez que visitei a Berlenga (um ou dois anos antes de se criar a reserva...), ainda era possível passear no seu interior sem qualquer tipo de restrição. Embora tivesse sido uma visita de médico, ou seja, de um só dia, deu para saborear com entusiasmo as suas águas cristalinas e profundas, com várias sessões de mergulhos e banhos, nos seus pontos mais atractivos.
Na segunda visita (três, quatro anos depois...) as coisas tinham mudado...
Já não era possível passear livremente naquele espaço quase lunar. Havia várias áreas interditas, o passeio pelo interior da ilha fazia-se apenas pelos caminhos existentes, para não afectarmos o ecosistema local. Desta vez fiquei mais que um dia...
A estadia no parque de campismo fez com que pudesse assistir ao "canto nocturno" das gaivotas, idêntico ao choro de bebés, que como devem calcular, não é um grande embalo para o sono. Foi por isso que passámos parte da noite no pequeno areal da ilha, com a diversão nocturna possível, sem importunar os outros visitantes.
A fotografia que ilustra este texto mostra o Forte de S. João Baptista, erigido no final do século XVI, como fortificação militar. No começo da segunda metade do século XX o Ministério das Obras Públicas resolveu restaurar a fortaleza, depois de anos e anos de abandono, transformando-a numa luxuosa Pousada, que ainda hoje acolhe turistas de todos os cantos do mundo.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Rafael & Zé Povinho


A passagem de Rafael Bordalo Pinheiro pelas Caldas da Rainha, quase no final do século XIX, acabou por ter uma importância fulcral no desenvolvimento artístico da arte de trabalhar o barro na cidade.
Os seus múltiplos projectos artísticos deram luz à publicação de inúmeros jornais satíricos (desde o "Calcanhar de Aquiles", em 1870, à "Paródia", em 1900, publicou e colaborou em mais de uma dezena de publicações), mas também fizeram com que vivesse em permanentes embaraços financeiros.
Foi num desses momentos difíceis, em 1884, que Rafael decidiu partir para uma nova aventura estabelecendo-se na Cidade das Termas, com seu irmão Feliciano, criando uma Fábrica de Faianças.
Com o seu espírito inventivo desenvolveu um trabalho notável na fábrica, que funcionou como um dos primeiros centros de produção cerâmica modernos. Algumas das suas criações são autênticas obras de arte e estão expostas em inúmeros museus.
Claro que a sua costela satírica fez com que também desenvolvesse a famosa "loiça malandra", que ainda hoje é reconhecida e apreciada, um pouco por todo o lado...
Uma das figuras que rapidamente passou do papel para o barro foi o "Zé Povinho", talvez a sua criação artística mais feliz - popular é de certeza... -, que apareceu pela primeira vez nas páginas da "Lanterna Mágica", em 1875. Esta figura de barbas, chapéu, rosto rosado, calças remendadas e botas gastas, apareceu com o célebre manguito, nas peças em cerâmica, num claro "Ora Toma!", dirigido à monarquia decadente, não fosse Rafael um republicano convicto.
Esta figura de papel, que ainda hoje é usada para caracterizar o povo português, ao tornar-se tridimensional, tornou-se ainda mais popular e surgiu das formas mais alegres e jocosas, que se podiam criar na época.
É graças ao seu talento e à obra que nos deixou, que Rafael Bordalo Pinheiro permanece bem vivo entre nós, sendo uma figura incontornável da Arte do Oeste.

terça-feira, agosto 29, 2006

O Meu Primeiro Clube


O primeiro clube pela qual senti uma simpatia especial foi o Caldas Sport Clube, um histórico da minha cidade e de toda a Região Oeste.
Esta paixão natural foi alimentada pelo meu pai, que me levou pela primeira vez, pela mão, de visita ao Campo da Mata, quando devia ter uns cinco, seis anos.
Desde essa altura, nunca mais deixei de visitar a Mata da Rainha D. Leonor, para ver o clube alvinegro, esgrimir argumentos com os adversários. Só aos dezassete, dezoito anos é que me começei a afastar do Caldas e posteriormente também da cidade.
Os seus momentos de ouro tiveram lugar na década de cinquenta, quando esteve na primeira divisão (entre as épocas de 1955 e 1959) e eu ainda não tinha nascido. Pelo que tenho lido, foi uma equipa que deixou boas recordações na montra principal do futebol português, porque gostava de dar espectáculo. Jogava sempre para ganhar, em qualquer campo, apesar das suas limitações óbvias.
Uma das suas principais figuras era o António Pedro, um centro campista de grande classe, que só não foi internacional nos anos cinquenta, por jogar num pequeno clube.
Este sonho durou quatro épocas, depois, como tudo o que é bom, acabou... e o Caldas não conseguiu voltar à divisão maior, andou quase sempre pela segunda divisão (quando descia à III, onde se encontra agora, subia quase sempre na época seguinte).
Há uma expressão que se popularizou por todo o país, que deve ser desta época: «Estás arrumado como o Caldas.» Provavelmente da temporada em que o clube desceu de divisão.
Embora nunca fosse uma "águia", ainda joguei nas suas equipas de iniciados e juvenis.
Na equipa de iniciados tive como companheiro, entre outros amigos, o José Mourinho, esse mesmo o "Number One" do Mundo (Prometo voltar ao assunto, neste espaço).
Claro que nunca perdi o "meu clube" de vista. Mesmo hoje, continuo à procura dos seus resultados e da sua classificação nos jornais desportivos, e como é natural nestes casos, fico de "orelha murcha" com as suas derrotas e de "cara alegre" com as suas vitórias...

(Fotografia da autoria de José Neto Pereira, da época 1956/57)

sexta-feira, agosto 25, 2006

A Descoberta do Castelo de Óbidos


Uma das descobertas mais gratificantes da minha infância, em termos paisagisticos e históricos, foi o Castelo de Óbidos.
Devia ter seis, sete anos na época.
A televisão sempre transmitiu séries que despertavam o entusiasmo e o interesse pela aventura na miudagem. Era comum partirmos em grupo, à procura de coisas que escapavam à banalidade dos nossos dias. Nessa época ainda pensávamos que existiam "tesouros" à nossa espera, em lugares especiais e misteriosos.
Houve então alguém que sugeriu que deviamos visitar o Castelo de Óbidos.
Como devem calcular, a viagem foi marcada com pompa e circunstância.
Munidos de mochilas, com os apetrechos que víamos nos filmes - cordas, navalhas, lanternas, etc - ai fomos nós, pelos pinhais fora. Recordo que houve alguém que disse que o caminho mais rápido, na direcção do Castelo, era seguir a linha do comboio. Concordámos em utilizar o caminho de ferro como referência, mas à distância. Estavámos fartos de ouvir falar de histórias de pessoas que ficavam debaixo das máquinas dos comboios, porque estas eram de tal maneira poderosas, que conseguiam sugar as pessoas que estavam por perto.
Algumas destas histórias que os adultos nos ofereciam, para termos cuidado com o mundo que nos rodeava, acabavam por surtir efeito.
Uns quilómetros mais à frente, descobrimos, finalmente, o Castelo.
Apesar de ainda estar distante, olhar aquele monumento imponente, daquele sitio alto, foi uma coisa fantástica para todos nós.
Acabámos por voltar para trás, felizes, por termos descoberto, que o Castelo de Óbidos existia mesmo, e era uma coisa enorme, construida em cima de um monte, para evitar a visita dos inimigos.
A viagem até às suas muralhas, acabou por ficar adiada para outro dia...

terça-feira, agosto 22, 2006

Férias no Campo


Nos meus primeiros anos de vida a parte maior das férias grandes eram passadas em Salir de Matos, na casa dos meus avós maternos.
Recordo-me que na época não morria de amores pela vida do campo. Quando o avô dava algumas explicações sobre as leis da natureza, era costume fazer ouvidos de mercador.
O avô era um pequeno agricultor a tempo inteiro. Conseguia sobreviver sem dividas, graças a uma gestão muito cuidadosa e a uma vida cheia de trabalho, do nascer ao pôr do sol. Comercializava o vinho, a fruta e a maior parte dos produtos hortícolas que eram cultivados na meia dúzia de fazendas que possuía, ao longo do ano inteiro.
Nos dias longos e quentes de Verão, eu e o meu irmão passávamos parte dos dias na sua companhia, a inventar brincadeiras, de fazenda em fazenda. O fim da tarde era a parte do dia mais agradável, por ser a altura da rega.
Todas as crianças gostam de brincar com água. Nós não éramos excepção...
A Ambrósia e a Várzea eram visitadas diariamente, porque era aí que o avô plantava as novidades, ou seja: tomates, pepinos, pimentos, feijão verde, melancias e melões.
A vista da Ambrósia era extraordinária. No alto das encostas sobranceiras, que se perdiam de vista entre os montes e vales que traçavam uma espécie de linha do horizonte, encontravam-se meia dúzia de moinhos que ainda tinham velas. Rodavam com a força do vento e ainda deviam produzir farinha, depois de esmagarem o trigo, o milho e o centeio.
Na sua baixa existiam dois poços de areia, que depois de serem despejados na rega, não precisavam de muitas horas para voltarem a ficar repletos de água.
O avô regava a horta, ora com o motor ora com o cabaço, criando carreiros, de forma quase labiríntica, que se enchiam de água, sempre em movimento, como se fossem rios. O grande atractivo deste “festim” eram os regos do feijão verde, que encantavam qualquer criança, com as suas canas a quererem furar o céu, atadas na forma triangular das tendas dos índios do “outro oeste”. Quando o feijão já trepava até ao alto das canas e ficava cheio de folhas, eu e o meu irmão aproveitávamos para brincar às escondidas. De quando em vez lá ouvíamos uma reprimenda do avô. Traídos pelo entusiasmo da brincadeira, pisávamos, invariavelmente, as plantas e alguns frutos...

sábado, agosto 19, 2006

A Minha Canção do Mar



Quase todos nós temos uma Canção do Mar, povoada de imagens memoráveis que conseguem dar cor e som aos nossos melhores dias passados, rente ao Oceano.
Embora a minha canção esteja sempre presente em qualquer pedaço do Atlântico, ganha uma sonoridade mais límpida e esfuziante rente às águas mexidas, que beijam com ardor o areal da Foz do Arelho, a praia da minha vida.
E pensar que, com apenas cinco anos, fui atirado para as águas geladas da praia da Foz do Arelho por um vizinho anormal, juntamente com o seu filho, meu amigo de infância, numa manhã longínqua, completamente cerrada pelo nevoeiro matinal que tomava conta das praias situadas a norte do Cabo Carvoeiro, com demasiada frequência.
Estes episódios estúpidos acabam, muitas vezes, por marcar para sempre a nossa relação com o mar. Felizmente consegui dar um passo em frente e ultrapassar esse primeiro contratempo, graças a uma meninice cheia de traquinices à beira mar.
Deve ser por isso que as imagens projectadas na minha Canção do Mar têm como personagens uma mão cheia de amigos de infância, e não há vestígios de gente «tamanho grande».
O facto de ter um irmão dois anos mais velho, fez-me crescer um palmo e partilhar, precocemente, as mil e uma aventuras vividas no começo de adolescência pelo seu grupo de amigos.
Formávamos, diariamente, um cordão de bicicletas nas margens da estrada perigosa da Foz, sem medir os perigos de quatro rodas que passavam por nós, a várias velocidades.
As nossas férias prolongavam-se de Junho a Setembro. Chegávamos antes das barracas de pano branco, alugadas à quinzena, e despediam-nos depois de as recolherem, com a sensação feliz de que a praia era nossa.
Atrás daquele mar delicioso ficava a bela Lagoa de Óbidos, onde, quase todos aprendemos a nadar, sem mestre. Contávamos apenas com o auxilio precioso dos mais velhos, atentos às picardias que nos faziam emergir até à superfície sinónimos de «maricas», à espera que ganhássemos a coragem necessária para desafiarmos as zonas onde se perdia o «pé»...
Nos dias que o nevoeiro cobria a praia de cinzento, oferecendo-nos uma aragem húmida e salgada, sentava-me na areia, com o olhar preso às ondas indomáveis que deitavam sons de liberdade e rebeldia para quem as quisesse escutar, aprendendo a soletrar a bonita canção do mar.
Era quase sempre «acordado» pelos meus companheiros que já tinham desencantado uma bola e estavam preparados para fazer valer os seus atributos de futebolistas de praia.
Pelo caminho ficaram alguns amores que o vento quente e as águas calmas de Verão, não deram grandes margens no prazo de validade. Sobra a saudade dos banhos de mão dada, dos beijos salgados, num tempo de inocência em que o sexo era quase uma miragem na adolescência...
Por vezes penso que já não sei toda a bonita letra e música da “Canção do Mar”, por me sentar cada vez menos à beira mar a ouvir, encantado, o melhor hino que conheço à liberdade...
Mesmo que esteja na Costa de Caparica, consigo voltar ao meu mar alto da Foz do Arelho... e reencontrar a criança feliz que fintava as ondas e atirava seixos grandes e alguns pedaços de madeira, deitados borda fora, às águas agitadas da praia da minha vida...

quinta-feira, agosto 17, 2006

O Lavadouro


A "Clara", pintada segundo o olhar especial do meu querido conterrâneo, José Malhoa, foi o ponto de partida para uma pequena viagem pelo lavadouro público de Salir de Matos.
Visitei este espaço povoado de mulheres, várias vezes, na companhia da avó Henriqueta e do meu irmão, provavelmente para a ajudarmos no transporte da roupa, pois este ainda ficava distante de casa.
O lavadouro estava erguido junto a uma mina de água e possuia dois tanques de água corrente, um para a lavagem de roupa e outro para a sua passagem. Ficava envolvido por pinhais, para onde eu e o meu irmão éramos enviados, sempre que a conversa entre as mulheres aquecia e aquele espaço era invadido por palavras proibidas, pelo menos para os ouvidos de duas crianças.
Claro que muitas vezes ficávamos à escuta. Sorríamos um para o outro, enquanto escutávamos algumas estórias picantes que enriqueciam o nosso vocabulário...
Há quem diga, que as mulheres quando estão juntas são piores que os homens, no vernáculo que utilizam. Não partilho dessa opinião. São sim, melhores lavadouras de "roupa suja". Falam de tudo com mais pormenores e até intimidade. E se pensarmos que aquele lugar até se prestava para esse fim...
Num tempo em que as máquinas de lavar eram um luxo, mesmo nas cidades, sobra a memória de ver a avó a caminhar com as mãos na cintura e um alguidar cheio de roupa à cabeça, num equilíbrio digno de qualquer circo.
De certeza que aquele peso era aliviado pelo seu pensamento, ainda preso, às histórias de escárnio e mal dizer, soltas no lavadouro, pela língua comprida de algumas mulheres.

terça-feira, agosto 15, 2006

A Feira de 15 de Agosto


A Feira Anual de 15 de Agosto decorria durante pelo menos uma semana e era o acontecimento mais importante das Caldas da Rainha, nos já longínquos anos sessenta. As suas tendas de comércio e diversão eram um autêntico centro comercial ambulante, cheio de atractivos para miúdos e graúdos.
Normalmente nesta época recebíamos a visita dos meus tios de Lisboa. Eu e o meu irmão ficávamos sempre satisfeitos, porque a sua chegada era sinónimo de prendas, compradas na feira. Apesar da aparente proximidade, a Capital estava mais distante que os normais 100 quilómetros das placas de informação, porque a viagem era feita pela estrada nacional, em quase três horas. Nesta época as auto-estradas não passavam de uma miragem, de Norte a Sul.
A Feira era um acontecimento de tal maneira importante, que trazia muita gente de fora de visita à cidade. Além dos habitantes das aldeias próximas e das cidades limítrofes, vinham autocarros de excursões, oriundas de todo o país, que enchiam os poucos lugares de estacionamento existentes e alguns campos baldios.
Nesta altura a Feira realizava-se na parte superior da Mata D. Rainha Leonor, ocupando as suas principais artérias com barracas de pano que vendiam quase todo o tipo de bugigangas – as autorizadas na época pelo "salazarismo"... – desde roupa a outros objectos domésticos, passando por electrodomésticos e máquinas agrícolas. Havia também as tendas de comes e bebes, onde a mãe comprava sempre uma dúzia de farturas, que se comiam quando chegávamos a casa com café (de cafeteira claro... ainda não haviam as “modernizes” do café expresso, pelo menos para nós). Também havia um espaço para venda de gado, afastado, que era o lugar de eleição dos agricultores.
Eu e o meu irmão ficávamos sempre em pulgas, por chegar à parte que mais gostávamos, a área das diversões. Costumavam ocupar o campo de futebol do Caldas e as imediações com o habitual carrossel mágico, a pista de carrinhos dos choques, as motas da morte (que nos despertavam tanta curiosidade e que a mãe nem nos deixava aproximar, porque era perigoso...), outras pistas de carros para a pequenada, e claro, o circo, o divertimento mais apelativo para todas as crianças pela sua variedade artística.
O “Maior Espectáculo do Mundo” era sempre anunciado com pompa e circunstância nas ruas da cidade. Ainda me lembro de alguns dos seus nomes: o Circo Mariano era talvez o mais famoso, mas também nos visitavam o Circo Mundial, o Americano, entre outros mais vulgares. Foi no interior das suas tendas, sentado nos bancos corridos de madeira da geral, que vi pela primeira vez palhaços, trapezistas e até alguns animais roubados à selva, com os leões, os tigres e os elefantes em destaque. Por vezes íamos espreitar às jaulas, de mão dada com o pai, grande apaixonado pelo mundo dos animais.
Neste Portugal do final dos anos sessenta, era tudo tão diferente, graças à pobreza “franciscana” decretada pelos poderes político e eclesiástico, sempre de mão dada durante a longa viagem salazarista e marcelista...
O óleo que acompanha o texto é da autoria de José Malhoa, e retrata os excessos populares proprios das feiras e romarias. O seu título é "Basta Pai!" e está datado de 1910.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Salir de Matos a Minha Aldeia


Esta fotografia tem a particularidade de ser a mais antiga que conheço sobre Salir de Matos, a aldeia onde nasci. Está datada de 1914.

É da autoria de Jorge Almeida Lima (1853-1934), um grande amador da fotografia, que teve expostas no Museu do Chiado, em 1997, algumas das suas melhores fotografias .

Quando visitei esta mostra de arte fiquei espantado por ver várias fotografias do concelho de Caldas da Rainha, inclusive esta, da aldeia onde viveram os meus avós maternos e em cuja casa nasci. Como devem imaginar, comprei logo o catálogo.

Não deixa de ser curioso que, durante a infância e adolescência, eu não tivesse qualquer orgulho em ter nascido em Salir de Matos. Como se o facto de ter nascido numa aldeia fosse algo de menor. Felizmente essas coisas infantis desapareceram com o tempo e hoje sinta uma grande satisfação por ter nascido no mesmo quarto onde nasceu minha mãe, meus tios e meu irmão.

Nesta altura os meus pais já viviam num dos bairros da cidade, mas como corria o boato que no velho Hospital de Santo Isidoro, era comum trocarem as criancinhas, fui de propósito nascer à "maternidade da família" em Salir de Matos.

Tive como parteira a dona Gertrudes, tia da avó Henriqueta, a "aparadeira" de todos os partos que ocorreram no velho quarto, o mais aconchegante da casa, por ficar por cima do forno.

Devo ter sido o último elemento da família a ser assistido pela parteira mais famosa das redondezas, naquele quarto, onde dormi tantas vezes...

domingo, agosto 13, 2006

O Inicio da Viagem


Nesta primeira "Viagem pelo Oeste" escolhi este quadro de José Malhoa, que retrata a Rainha D. Leonor, padroeira das Caldas da Rainha, com o objectivo de homenagear estas duas grandes figuras da cidade onde cresci e vivi até aos dezoito anos.
Este primeiro "post" é o começo de uma aventura, onde quero recordar pessoas e lugares que foram, e continuam a ser, importantes para mim, e também para a minha primeira "Terra".