domingo, novembro 19, 2006

A Minha Primeira Viagem à Margem Sul



Não me canso de dizer, que a nossa memória é uma coisa surpreendente!
Consigo recordar-me da primeira vez que visitei a Margem Sul, embora não tivesse mais de cinco, seis anos.
Lembro-me de atravessar o Tejo de Cacilheiro, de ter feito a viagem à janela, ao colo do meu pai. E mais, recordo que os bancos eram de madeira, envernizados...
Não me lembro da maneira que fomos até ao Cristo-Rei (provavelmente fomos de táxi, não estou a ver o meu pai à procura de uma carreira que fosse até ao Santuário...).
Lembro-me sim, de estar naquele sitio alto e olhar cá em baixo para o rio Tejo e descobrir os barcos muito pequeninos, como se fossem de brincar... da estátua do Cristo de cimento, lembro-me mais de o olhar cá de baixo. Lá em cima, a sua grandeza deve-me ter confundido.
A Ponte tinha acabado de ser inaugurada, mas não retive qualquer imagem desta passagem de tão grande utilidade para a Outra Margem...
Quem diria, que desta vez as minhas "viagens" escaparam do Oeste e vieram até à Minha Margem...

quinta-feira, novembro 16, 2006

A Força da Água



No Outono e no Inverno, com a queda das primeiras chuvas, os rios e ribeiros enchem-se de água e transmitem-nos a sua verdadeira força e plenitude. Os seus leitos adquirem uma correnteza pouco habitual, que promete levar tudo aquilo que lhe surge à frente, inclusive nós.
A água sempre exerceu, e exerce, um fascínio especial para as crianças. Lembro-me de brincar, com o meu irmão e outros amigos de infância, junto a pequenos ribeiros transformados em rios com a queda das chuvas. Uma das brincadeiras era atirar objectos (normalmente paus e pedaços de canas que flutuavam, mas também barcos construídos de cascalho e até de papel - muito pouco resistentes...) para o seu leito, com os quais fazíamos corridas, a ver quem é que chegava primeiro a determinado local...
Não medíamos o perigo, como convém nestas coisas, mas também não me lembro de ver ninguém ser levado pela correnteza das águas.
Esta brincadeira também chegou a ser transposta para a ponte do Rio Salir que passa na minha aldeia. Atirávamos objectos para a água de um dos lados da ponte e depois corríamos para o outro lado para ver qual chegava primeiro...
Era uma aventura ainda mais perigosa, porque atravessávamos a estrada sem olharmos atentamente, se vinha algum carro, embora nesse tempo existissem poucos automóveis nas redondezas...
Estas brincadeiras de criança, não se podem, de maneira nenhuma, aproximar da irresponsabilidade dos adultos, que constroem as suas casas demasiado próximas dos leitos dos rios, acabando vitimas da força das águas, especialmente em anos de muita chuva...
Este texto está ilustrado com a "Ponte de Guifões", um óleo de António Ramalho, pintor contemporâneo de Malhoa.

segunda-feira, novembro 13, 2006

A Matança do Porco


Uma das aventuras memoráveis de Salir de Matos, a minha aldeia, era a «matança do porco», normalmente, um bicho enorme que metia respeito.
Antes de termos idade para descer para o palco onde se desenrolava o espectáculo, eu e o meu irmão, assistíamos àquele ritual emotivo, debruçados no muro do pátio.
Consigo vislumbrar, passo a passo, toda a acção. Primeiro enlaçavam-lhe uma das patas, depois desequilibravam-no, para de seguida agarrarem-no em peso e colocarem-no em cima de uma bancada de madeira, previamente preparada para a «festa» da matança. Meia dúzia de homens seguravam-no numa roda viva, perante a sua chiadeira interminável. Atavam-lhe a boca, para o porco não ter o capricho final de morder em alguém, e depois, o avô dava o golpe final, espetando-lhe uma espécie de espada, próximo do cachaço, certeira, para lhe evitar mais sofrimento e para que sangrasse.
O próximo acto era a «queima do pelo». Completamente embrulhado em caruma e molhos de vides, lançavam-lhe fogo deixando-o todo chamuscado. De seguida, lavavam-no e raspavam-lhe o pelo com navalhas e bocados de telha, até ficar, branquinho.
Após esta operação quase de cosmética, o bicho era levantado em peso e pendurado na adega, onde era aberto ao meio, tendo como «rede» um alguidar enorme, usado para aproveitar o sangue para os enchidos.
Hoje compreendo o porquê da criação do porco em quase todas as famílias, por mais modestas que fossem. Há um aproveitamento quase total de tudo o que compõe o seu corpo, desde o toucinho aos enchidos, passando pelos vários tipos de carne.


Escolhi para ilustrar este texto uma iluminura do Livro de Horas de D. Manuel I, do século XVI.



sábado, novembro 11, 2006

São Martinho



O dia de São Martinho é tradicionalmente uma data festiva, com a realização de magustos um pouco por todo o país. As castanhas assadas costumam ser regadas com água pé caseira, num ambiente de alegria, ao qual não falta música, conversas e até anedotas, pela noite fora.
Ainda hoje é assim...

Escolhi para ilustrar este pequeno texto o famoso quadro de José Malhoa “Os
Bêbados”, também conhecido por “Festejando o São Martinho”.

quinta-feira, novembro 09, 2006

As Estórias do Avô



Uma das coisas inesquecíveis da minha infância foram as estórias com cheiro a lenda que o avô nos contava, deixando-nos deliciados a ouvi-lo, sentados na escada de cimento que dava para a casa de fora, ao lado do forno.
Havia um pouco de tudo, desde cobras voadoras que sobrevoavam as fazendas, ao homem que aparecia dentro da lua, quando ela estava completamente cheia, com um molho de vides às costas. Segundo o avô, tratava-se de um sujeito que tinha sido apanhado a trabalhar ao domingo e acabou por ser transportado para a Lua pelo Deus dos cristãos, para que servisse de exemplo aos homens da terra de que era proibido trabalhar ao domingo, dia santo.
Geralmente, estas conversas eram interrompidas pela avó, que tinha um jeito especial para quebrar todo aquele ambiente de magia, criado à volta do avô.
Ela nunca percebeu a importância das estórias e lendas na vida das crianças, sempre foi, exageradamente, real.
E claro que também havia ali um pouco de ciúme, compreensível...



A foto que ilustra este texto é dos meus avós maternos, Manuel e Henriqueta, com os netos (falta o João, que ainda não tinha chegado de "França", no bico de uma Cegonha...).

terça-feira, novembro 07, 2006

Quando se Vivia sem Dinheiro...



Claro que há algum exagero neste título.
Mas se recuarmos no tempo (penso que cinquenta anos bastam), descobrimos um país rural, em que na maior parte das aldeias, muitas das transações eram feitas troca por troca. Ou seja trocava-se um quilo de batatas por meio quilo de maças.
Eu já tinha falado anteriormente neste sistema de trocas em relação à farinha moida nos moinhos, que era trocada pela matéria prima (grãos de trigo e milho).
Foi por isso que escolhi a fotografia do francês Jean Dieuzaide, "Estrada de Mafra", para ilustrar este texto. Como podem ver é uma imagem tipicamente saloia, onde se vê o Moinho a trabalhar com a ajuda do vento, uma senhora carregada com uma canastra e um aldeão montado no seu burrito, provavelmente a caminho de casa...

domingo, novembro 05, 2006

A Cor dos Dias



Nas últimas semanas o estado do tempo tem estado completamente irregular.
O azul dos dias solarentos tem alternado com o cinzento dos dias chuvosos. Mas tem sido tudo muito excessivo. As temperaturas demasiado altas para esta época têm feito o contraponto com a queda de grandes chuvadas, que têm provocado inundações de Norte a Sul, algumas das quais em lugares pouco habituados a tanta água...
Percebe-se que as nossas divisões climáticas em quatro estações distintas, começam a ficar confusas e a pedir alguns ajustamentos, pelo menos no seu início e fim...
Claro que estas alterações não são de hoje, embora sejam mais notórias nos últimos anos, porque as agressões à natureza têm sido de uma barbaridade extrema, em algumas partes do nosso Planeta (a destruição da floresta da Amazónia é um dos melhores exemplos), em nome do nosso conforto, do progresso dos países e do lucro do grande capital.
Lembro-me de ouvir o meu avô dizer que, desde que o homem foi à Lua, as coisas nunca mais foram iguais nos campos. Ele já notava algumas variações na época das sementeiras e das colheitas, com os prejuizos inevitáveis...
Claro que eu não vou tão longe.
Este texto está ilustrado com o óleo, "Inundação da Ribeira de Santarém", de José Malhoa.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Que Saudades do Pão da Avó...



Hoje, sem saber explicar muito bem porquê, lembrei-me de uma coisa maravilhosa: da minha avó a cozer pão no forno. Pão que tinha aquele gosto especial, que não conseguimos encontrar nas várias imitações do pão caseiro, que se vão vendendo por aí.
A própria farinha ainda vinha dos moinhos de vento, através de um processo de troca por troca, que já não existe. O avô trocava alguns alqueires de trigo por sacos de farinha já moída.
A avó fazia sempre umas brandeiras (pãozinhos pequenos) que partia a meio e polvilhava com açúcar amarelo quando ainda estavam quentes e que ficava imediatamente derretido no pão e era uma delícia...
Mas havia mais. Comer o pão ainda quente com manteiga, que também ficava completamente derretida, era outra delícia...
Tenho saudades do cheiro da lenha, de ver a minha avó de volta do forno com um pano branco a cobrir-lhe a cabeça, com aquela espécie de pá com que tirava o pão (à Padeira de Aljubarrota), quando já estava bem cozido, nas mãos... e de ficar alí, à volta do forno, à espera do meu "bolo", juntamente com o meu irmão e os primos...
Às vezes a avó até deixava que fossemos nós a fazer o nosso pequeno pão, com aquela massa de farinha, que se colava aos dedos...
Infelizmente nessa altura não se tiravam muitos retratos, pelo que não tenho qualquer fotografia deste episódio tão memorável. Para ilustrar estas palavras socorri-me de uma imagem de Jean Dieuzaide, um fotógrafo francês que nos visitou nos anos cinquenta e deixou excelentes fotografias do Portugal de então.

segunda-feira, outubro 30, 2006

"Católicos e Política" é Mais que um Livro...



"Católicos e Política" representa muito mais que um livro, para mim.
Ele marca o meu primeiro contacto com um país onde existiam demasiadas coisas proíbidas, como um simples livro...
Os meus pais guardavam-no num armário alto, misturado com roupas e trapos (num tempo em que se guardavam os trapos velhos...). Só saía de lá, quando era emprestado a alguém de muita confiança.
Havia bastante secretismo e muito cuidado a volta deste livro, e até medo. Este medo estava mais relacionado com os outros (as autoridades e afins, onde se incluiam os bufos da PIDE), que com o seu conteúdo. Estou a falar apenas de uma colectânea de textos escritos por católicos progressistas (merecem realce algumas cartas enviadas a Salazar), editado e apresentado pelo padre José Felicidade Alves.
Transcrevo apenas o primeiro parágrafo da sua apresentação: «Mais dia menos dia terá de se fazer a história crítica destes últimos anos da vida política portuguesa; e não deixará de ter lugar de relevo a presença ou ausência dos católicos na vida política, assim como a posição negativa ou positiva dos hierarcas e das estruturas clericais no funcionamento do sistema.»
Não sei porquê, mas a vida e obra do Padre Felicidade Alves tem passado completamente despercebida no Concelho das Caldas da Rainha. Penso que não existe qualquer artéria com o seu nome, nem mesmo em Salir de Matos, de onde é natural (ao contrário do que acontece nos concelhos de Oeiras e Lisboa), embora seja, sem margem de dúvida, a pessoa mais importante nascida nesta Freguesia, ao longo do século vinte.
O autor, infelizmente já desaparecido, foi a primeira pessoa da minha família a estar ligada ao mundo dos livros. Eu sou o segundo...
Quando saí das Caldas para a grande Capital, fui viver com ele e com a Elisete, sua esposa. Ainda hoje recordo esses momentos, com grande ternura e companheirismo.
Prometo voltar a falar do padre Zé, um dia destes...

sexta-feira, outubro 27, 2006

Romeu Correia Recordado nas Caldas



O cinquentenário da fundação do Conjunto Cénico Caldense foi motivo para uma série de actividades culturais, com o objectivo de recordar alguns dos melhores momentos desta colectividade artística. Uma destas actividades foi uma exposição bio-bibliográfica, no histórico e renovado Café Central das Caldas da Rainha.
Nesta exposição encontrei uma pequena pérola: uma das vitrines prestava homenagem a Romeu Correia, o grande escritor e dramaturgo de Almada - cidade onde vivo -, com recortes da peça, o programa e também o livro “O Vagabundo das Mãos de Ouro”.
A peça foi representada nas Caldas da Rainha pelo CCC em 1968 (tinha apenas quatro anos...) e disseram-me que foi um sucesso na época...
Os anos sessenta foram os anos de ouro de Romeu como dramaturgo. As suas peças estiveram em cena de Norte a Sul, com dezenas de encenações, quer de companhias profissionais quer de grupos amadores (como foi o caso do CCC). Houve inclusive várias peças suas transmitidas na televisão.
Nas muitas conversas que travámos, Romeu confidenciou-me, mais que uma vez, que uma das suas mágoas foi ter sido muito mais vezes representado no tempo da ditadura (sempre com os olhos bem atentos dos censores...), que em plena democracia.


Agradeço desde já a amabilidade de Natacha Narciso e da "Gazeta das Caldas", que me cederam a imagem que ilustra esta crónica.

terça-feira, outubro 24, 2006

A Praça da Fruta



Tenho lido algumas opiniões sobre o futuro (quase sempre pouco risonho...) da Praça da Fruta, que foi durante largos anos um dos retratos mais pitorescos das Caldas da Rainha do século vinte, pelo menos para muitos turistas.
Parece-me claro, que o divórcio entre os vendedores e os compradores locais continua a crescer. Há várias razões, a principal, deverá ser o preço demasiado elevado dos legumes e frutas, quando comparados com o das várias superfícies comerciais existentes na cidade. Sei que a simpatia dos agricultores também já não é a mesma de há alguns anos a este parte. A maior parte destas pessoas "aburguesaram-se". Não o digo por terem substituido as suas carroças por carrinhas e jipes, para se fazerem transportar das aldeias vizinhas para a cidade, mas sim pela forma como atendem as pessoas. Perderam a simplicidade, a simpatia e até o jeito brejeiro de negociar os preços. Lembro-me muito bem de ir de mão dada com a minha mãe às praças da fruta e do peixe, e de assistir a autênticos espectáculos entre as vendedoras - principalmente as peixeiras - e as freguesas, em que todos os preços eram bem regateados, à boa maneira marroquina...
A própria qualidade dos produtos nem sempre é a melhor. Por vezes os agricultores tentam vender gato por lebre, ou seja, venderem produtos espanhóis, de segunda, como se fossem produzidos no Oeste. Espertezas muito pouco saloias...
Lembro-me que o meu avô também vinha vender alguns dos produtos que semeava à praça. A minha avó ficava sempre espantada pela rapidez com que ele vendia as coisas, chegando a casa, quase sempre a tempo de almoçar. Como não tinha alma de vendedor, acabava por vender as coisas ao preço pedido pelos clientes, despachando a mercadoria rapidamente, embora a margem de lucro não fosse muito elevada. Claro que o meu avô era um "amador" nestas coisas do comércio, por isso é que nunca enriqueceu.
Voltando à Praça da Fruta, tenho pena que se perca este mercado cheia de cor e vida, mas o tempo é mesmo assim: anda sem parar e muda sem avisar...
Sei que quando atravessar a Praça da República a meio da manhã e não sentir o bulício mercantil habitual, só me resta parar no tempo e ficar a olhar para dentro de uma das minhas janelas da memória, à procura de um sinal. Talvez encontre algumas pessoas a circularem, de um lado para o outro, com os olhos fixos na fruta e nos legumes das bancas e dos cestos, enebriadas pelo cheiro a campo...

sexta-feira, outubro 20, 2006

A Leitura de Jornais



Desde bastante cedo que me habituei a ler jornais.
Iniciei este hábito (ou vicio...) no começo da adolescência com a leitura de "A Bola", a chamada Biblia dos jornais, título que irritava e fazia "comichão" aos diários generalistas.
Os jornais dessa altura (anos setenta) eram bastante diferentes, quer no tamanho quer no conteúdo.
"A Bola" tinha a particularidade de ter na sua redacção um dos quintetos memoráveis do jornalismo português, Carlos Pinhão, Vitor Santos, Carlos Miranda, Alfredo Farinha e Homero Serpa. Habituei-me a ler as suas excelentes crónicas que ultrapassavam o universo futebolístico e eram grandes lições de prosa, em qualquer parte do mundo.
Mais tarde comecei a ler outros jornais, mas nunca fui tão fiel a nenhum deles, como fui ao trissemanário desportivo.
Uma das coisas da qual me orgulho, a nível profissional, em vários serviços por onde passei, foi arranjar maneira de comprarmos jornais diferentes, diariamente, de segunda a sexta. Além de ter fomentado a leitura também fomentava a diversidade. Recordo-me que o jornal que os meus companheiros menos gostavam de ler da lista, era o "Público" de sexta feira. Eu, antes pelo contrário, achava que era uma das nossas melhores escolhas...
Hoje continuo a ler jornais, embora deva confessar que já não os compro diariamente, graças às suas edições on-line. Claro que é dificil deixar o "papel", não é por acaso, que sempre que há um artigo que me interessa, vai de imprimir...
Uma das leituras que não dispenso é a "Gazeta das Caldas". Embora possa discordar de algumas opções editoriais, não tenho dúvidas que é um dos melhores jornais regionais que conheço e também a maneira mais acessível de saber como vão as coisas na minha cidade natal.
Nada melhor para ilustrar estas palavras, que o óleo, "Lendo o Jornal", de José Malhoa.

terça-feira, outubro 17, 2006

A Bela Lagoa de Óbidos


Sei que esta fotografia não é a mais apelativa, nem tão pouco retrata toda a grandeza da Lagoa de Óbidos...
Descobri esta paisagem deslumbrante ainda na infância, numa daquelas aventuras dignas de "os cinco", vividas com os amigos da meninice, o meu irmão, o Fernando, o Zé Luís, o Orlando e o Celestino.
Quando chegámos ao alto da Quinta do Negrelho, fiquei completamente deslumbrado com o que descobri, um mar de águas calmas e brilhantes, que ocupavam toda a paisagem, envolvida pelo verde dos pinhais e campos circundantes.
Nunca mais esqueci aquele miradouro natural, onde assisti, alguns anos mais tarde, ao pôr do sol, único.

sábado, outubro 14, 2006

O Cine-Teatro Pinheiro Chagas


O Cine-Teatro Pinheiro Chagas faz parte do meu imaginário infanto-juvenil. Foi a sala onde vi as primeiras sessões de cinema, através de clássicos inesquecíveis de Walt Disney, como a “Gata Borralheira” ou a “Branca de Neve e os Sete Anões”.
Depois da Revolução de Abril lembro-me de ter assistido a inúmeras matinés (penso que as entradas eram gratuitas...), onde foram projectados inúmeros filmes de animação e de aventuras.
Pouco tempo depois fechou para obras...
Acredito que nessa altura a maior parte dos caldenses pensavam que se tratava de um fecho temporário...
Mas a verdade é que nunca mais abriu as suas portas.
Começaram por destruir o seu interior, até que em 1992, o cinema histórico da antiga Praça do Peixe veio mesmo abaixo.
O processo de destruição do Pinheiro Chagas é muito parecido com o da Casa da Cultura - substituta do Casino do Parque, depois de Abril de 1974. Fecharam para obras, mas não voltaram a abrir as portas.
Foram dois dos maiores atentados à cultura da Cidade das Termas. O mais curioso, foi nunca ter visto ninguém explicar o que se passou de facto com estes dois encerramentos.
Continuo a pensar que estes encerramentos foram motivados por razões políticas. Especialmente a Casa da Cultura, cuja orientação cultural tinha uma matriz de esquerda, que contrariava a política conservadora do Município local.

terça-feira, outubro 10, 2006

Salir do Porto Desperta do Pesadelo


No domingo estive em Salir do Porto e fiquei bastante feliz por ver aquele lugar, onde cheguei a passar férias na infância, despertar de um pesadelo com vários anos. A falta de respeito pelas normas ambientais e a nossa fiscalização deficiente, conseguiram transformar um lugar aprazível numa espécie de esgoto a céu aberto.
Já é visível que as águas estão menos poluidas - embora ainda estejam distantes do ideal -, dando a sensação que as pecuárias e algumas localidades próximas, deixaram de utilizar as águas do Rio Salir para descarregar os seus dejectos imundos. Dejectos que tornaram um lugar agradável num espaço extremamente perigoso, para quem se banhasse nas suas águas.
O resultado desta irresponsabilidade, que se prolongou tempo demais (e contou, infelizmente, com a passividade dos responsáveis locais), traduziu-se na perda de largos milhares de turistas nos últimos anos na região.
Gostei de passear na ponte de madeira - muito bem concebida -, que é mais que uma passagem, pois também acaba por ser uma ligação à bonita Baía de São Martinho do Porto.

sexta-feira, outubro 06, 2006

O Conjunto Cénico Caldense



Sempre me lembro de ouvir falar do Conjunto Cénico Caldense como uma Associação completamente inovadora na Cidade das Termas.
Quando era mais pequenote, cheguei a pensar que se tratava simplesmente de um conjunto musical (iludido pelo nome...), daqueles que animavam os bailes das colectividades.
Alguns anos mais tarde descobri que o CCC tinha sido uma verdadeira colectividade cultural das Caldas da Rainha, que além do seu excelente grupo teatral, possuía uma mão cheia de animadores que promoviam tertúlias literárias, saraus musicais, exposições artísticas e evocativas, sessões de cinema, entre outras actividades de âmbito cultural e associativo.
Gostei bastante de ler o Caderno Especial que a “Gazeta das Caldas” lhe dedica esta semana, com vários testemunhos, todos elucidativos do que foi a vida do CCC. Os recortes que ilustram as páginas são a melhor prova da sua diversidade artística.
Depois de folhear e ler este suplemento, fiquei com a sensação de que as Caldas da Rainha tinham muito mais dinamismo cultural nos anos cinquenta, sessenta e setenta, que na actualidade.
Lamento que o CCC tenha sido engolido pelo calor da Revolução de Abril... e que não tenha tido um único substituto à altura, nos últimos trinta anos.
Assim como lamento o que fizeram à Casa da Cultura e ao Cine-Teatro Pinheiro Chagas.
Quando misturam política com cultura, a Cultura fica sempre a perder... porque será?
Prometo voltar a estas duas instituições, um dia destes, sobre as quais continua a existir um silêncio, quase absurdo.

quinta-feira, outubro 05, 2006

A Possibilidade Para Tudo



"The Possibility of Everything" ou "A Possibilidade Para Tudo" é o nome da Exposição Antológica (1989 - 1994) de João Paulo Feliciano, patente na Culturgest, em Lisboa.
O título desta mostra de arte diz quase tudo e retrata o percurso pluralista deste caldense no mundo artístico, com passagens pela pintura, escultura, música, design, multimédia e arquitectura. Ninguém diria que a sua formação é de Línguas e Literaturas Modernas.
João Paulo Feliciano não é um nome estranho para mim. Embora não troquemos qualquer palavra há mais de vinte anos, fomos colegas nos bancos de escola (não me recordo se desde o ciclo preparatório, ou apenas na secundária...) do antigo Liceu, mais tarde baptizado Escola Secundária Raul Proença.
Lembro-me que o João Paulo era bastante expansivo, inventivo e até um pouco excêntrico (as ideias já fervilhavam na sua cabeça...), além de ser bom aluno e companheiro...
Enquanto escrevo estou a recordar-me de algumas peripécias e também de alguns amigos com o Paulo Gaspar, o Zé da Silva, o Vitor "Cenoura", a Orlanda, a Paula Barreto, o Paulo Lemos, o Jorge Bandeira Duarte, o Luís Borga, o João Buiça, a Cristina Aleixo (os últimos cinco mais próximos do João Paulo). É curioso, normalmente somos conhecidos apenas por um nome, o apelido, mas ele já era conhecido entre nós como João Paulo Feliciano.
Acompanhei pela comunicação social as suas incursões musicais em grupos como os "Tina & The Top Ten", os "No Noise Reduction" e também os "Pop Dell'Arte". Nunca tive a curiosidade de assistir a qualquer espectáculo destas bandas porque o seu estilo musical dizia-me e diz-me pouco.
Posteriormente li algumas entrevistas suas, como artista plástico, pouco entusiasmado com a contemporaneidade da sua arte e com as suas ideias (ainda hoje o manuseamento dos seus objectos, como arte, diz-me muito pouco). Ninguém é perfeito...
Soube pelos jornais que era um dos responsáveis pelo excelente espectáculo nocturno "Acqua Matrix" da Expo 98, que tive a felicidade de ver no Tejo.
Ah, é verdade, estive na Culturgest...
Pois, senti-me estúpido. O defeito deve ser meu, devo ter pouca sensibilidade para a sua originalidade artistica.
Apesar de tudo, achei importante falar deste artista caldense de renome internacional, com passagens afirmativas pelos EUA, Brasil e Europa, que teve a particularidade de ser da minha turma, há uns anos que já lá vão...

segunda-feira, outubro 02, 2006

A Outra Janela



Escolhi esta janela pintada por Pierre Bonnard (1867 - 1947) para ilustrar este meu pequeno apontamento, sobre outra janela, porque a achei irresistível...
Devo começar por dizer, que sempre gostei de janelas debruçadas para o Mundo.
Quando vim viver para Cacilhas, houve um pormenor decisivo na escolha da minha casa: a janela da sala, com vista para o Tejo.
Hoje, quando começou a chover, recordei-me da minha primeira janela especial, a da sala da casa onde vivi a minha infância, no Bairro dos Arneiros. Foi lá que aprendi a olhar para as coisas, com olhos de ver.
Passava horas entretido a brincar com os meus carrinhos, no parapeito da janela, enquanto olhava para a chuva que caia na rua...
Ficava deliciado a ver a Rua 26 transformar-se num grande lamaçal, quase intransitável. Sorria ao ver os transeuntes circularem aos ziguezagues, tentando escapar das poças de água. De vez em quanto lá surgia um carro, preparado para dar um banho de água castanha a quem não se precavia. O meu sorriso transformava-se numa gargalhada sempre que isto acontecia, porque nós crianças, adoramos estas cenas "maléficas", dignas de qualquer um filme tragico-cómico.
Nesta altura o alcatrão ainda era um miragem, pelo menos nos bairros limitrofes da Cidade das Termas...

sábado, setembro 30, 2006

Nomes de Guerra



Um das aspectos mais curiosos no futebol é a forma como alguns “nomes de guerra” ficam para a história, sendo usados de formas diferentes, e tantas vezes, sem explicação aparente.
Por exemplo, um dos casos que nunca percebi, foi porque razão deram a alcunha de “Garrincha” a um jogador do Caldas, dos anos setenta, sem grande talento futebolístico e sem qualquer parecença física com o grande fantasista brasileiro. Ao contrário do verdadeiro Garrincha, que adorava andar com a redondinha rente à relva, colada aos pés e sentar os adversários que lhe apareciam pela frente, este era um jogador defensivo e adepto do chuto para o ar.
Um dos jogadores mais “famosos” do meu bairro, além de ser meu homónimo, também era conhecido na gíria futebolística como “Pélé”. Este “nome de guerra” assentava-lhe bem, porque, apesar de ter a pele clara, era o melhor jogador do Bairro dos Arneiros. Fez parte de uma grande equipa de juvenis do Caldas, onde também pontificava o Vital, um grande avançado centro, que foi pescado para as camadas jovens do Benfica e marcou centenas de golos ao longo da sua carreira. Carreira essa que teve como ponto alto os títulos de Campeão Nacional conquistados no Futebol Clube do Porto do Senhor José Maria Pedroto e a chamada à selecção A.
Curiosamente, uma das únicas alcunhas que tive no futebol, foi colocada pelo “Pélé”, o tal craque do meu bairro, num dos primeiros jogos que fiz num pelado a sério (O campo de futebol de onze do F.C. das Caldas). Devia ter uns doze anos e fui convidado para jogar, misturado com rapazotes entre os quinze e os dezassete anos. Em vez de me assustar com a sua envergadura física, jogava de igual para igual com eles, embrulhando-me nas suas canelas e conseguindo tirar-lhes a bola... deixando-os furibundos. O “Pélé”, além de me proteger dos “maus fígados” dos adversários, apelidou-me de “Esgravulha Batata”. Claro que foi uma alcunha de um só dia...
Mas os “nomes de guerra” valem o que valem... não me esqueço de um vizinho baixinho e quase quadrado, que continua a ser conhecido nas redondezas por “Maradona”... e este cognome, deve-se apenas às parecenças físicas (altura e peso...) e não ao talento futebolístico...

terça-feira, setembro 26, 2006

A Linha do Oeste



O comboio é o melhor transporte do mundo.
Sei que esta frase pode parecer excessiva, mas não é, pelo menos para mim.
Há pelo menos três razões, que me fazem escolher os caminhos de ferro como o meio de transporte ideal: é o único meio de transporte que permite andar de um lado para o outro, livremente, desde a primeira até à última carruagem; é o único lugar que oferece uma visão da paisagem em ângulos mais próximos, mais variados e contemplativos (como devem calcular não estou a pensar nos TGV...); e fundamentalmente, porque são o melhor transporte para ler um livro, uma revista ou um jornal, pela sua estabilidade.
Durante quase duas décadas anos viajei regularmente na Linha do Oeste. Só deixei de o fazer no final da década de noventa, por entender que os horários eram cada vez mais absurdos (fiquei sempre com a sensação que a CP me estava a lançar um convite para utilizar outro transporte qualquer...), e também porque o nascimento dos meus filhos "obrigou-me" a render à comodidade do automóvel...

Outra coisa boa das viagens de comboio era contacto com as pessoas. Havia sempre a possibilidade de encontrarmos alguém conhecido e colocarmos a conversa em dia, partilhando as mudanças normais das nossas vidas, encurtando a viagem...

Tenho acompanhado com algum distanciamento a quase "morte anunciada" da Linha do Oeste, pela ausência de investimentos do Estado e também pelo desinteresse dos autarcas da Região, mais motivados com os negócios do alcatrão e do cimento, que na transformação da linha num espaço mais funcional e acessível para os utentes habituais, e sobretudo mais atractivo para os visitantes.
Sei que promessas e projectos não têm faltado ao longo dos anos, o difícil é sairem do papel...
A fotografia que ilustra este texto mostra a estação das Caldas da Rainha na actualidade, onde, felizmente, ainda imperam os bonitos azulejos azuis que retratam, muito bem, os lugares mais atractivos do Concelho.