sábado, setembro 29, 2007

Figuras Públicas

Estava no meio de uma conversa com "os meus botões" (adoro esta expressão, e se falo com estes companheiros...), quando, apanhei no ar duas palavras que escaparam do diálogo entre duas personagens secundárias, que atravessavam o rio, no mesmo cacilheiro que eu.
Não pude deixar de pensar no conceito que esta gente tem da "figura pública", nem tão pouco de continuar a viajar no tempo...
Tenho a certeza de que quando não havia televisão, nem se vendiam as revistas "cor de rosa foleiro", as pessoas não se tornavam "figuras públicas" por fazerem coisas absurdas e insignificantes, como andar por aí de festa em festa, a comer rissóis e a tirar fotografias, com sorrisos e poses de actores de quarta categoria.
Recuei à minha infância e não foi difícil de concluir que quem deveria merecer esta designação era o barbeiro, o sapateiro, o merceeiro, a cabeleireira, o taxista, etc, esses sim, figuras eminentemente públicas, cuja existência se devia ao facto de servirem a comunidade e não de se servirem de nós...
Mas estamos numa época em que não se mudam apenas os tempos. Está tudo em transformação permanente.
Até os ventos já não são o que eram, estão cada vez mais rebeldes...

terça-feira, setembro 25, 2007

Lugares de Outono

Um dos lugares onde melhor se sente a chegada do Outono é na Mata das Caldas da Rainha.
Andar ou correr no meio de tantas folhas caídas, ao ponto de ficarmos com os pés cobertos do "ouro", com a "música" característica do pisar das folhas secas, é normal para quem passeia neste espaço...
E quando olhamos para cima, descobrimos a nudez das árvores, que nos olham quase envergonhadas...
No Parque a tristeza é disfarçada pelas árvores que não se rendem ao Outono e permanecem imponentes, o ano inteiro...

quinta-feira, setembro 20, 2007

A Salmoira

Estava a tirar alguns apontamentos históricos, quando descobri a palavra Salmoira. Esta palavra levou-me logo de viagem até Salir de Matos...
Voltei a entrar na casa da avó, a descer a escada ao lado do forno, a percorrer o corredor da adega e a parar, junto à arca de madeira, cheia de sal grosso. Sal que cobria a carne e o toucinho, guardados após a matança do porco.
Nessa altura ainda não havia frigorífico lá em casa, nem na maior parte das habitações da aldeia...
E a carne era toda conservada em salmoira...
Esta aguarela de Maria Valente representa muito bem qualquer aldeia da Estremadura, como Salir de Matos. E como me lembra a rua detrás, dos nossos pátios, que começava na casa da tia Utilde...

domingo, setembro 16, 2007

Partir à Procura de uma Vida Diferente


Um dos meus tios, foi um dos muitos portugueses que se aventuraram a salto, até França, nos anos sessenta.
Não o fez por razões políticas, muito menos para escapar da guerra colonial, que era um "terror" para quase todos os jovens do nosso país...
Foi atrás do sonho de uma vida melhor, para ele e para os seus...
Na hora de partir, deixou muita coisa para trás, inclusive a esposa, grávida do primeiro filho...
A viagem da fronteira portuguesa até à fronteira francesa, durou catorze longos dias, com fome, frio, sede e muito medo de ser apanhado e preso.
Ele e os companheiros de fuga só descansaram quando chegaram a França, onde foram muito bem recebidos pelos locais das terras fronteiriças, que lhe deram comida e até guarida.
Hoje está por cá, mas não esquece o acolhimento que teve, no país que considera a sua segunda pátria. E se há coisa que não gosta, é de ouvir dizer mal de França e dos franceses, porque é um homem grato ao país que lhe deu a oportunidade de recomeçar uma nova vida.
Aconteceu-lhe o que acontece a tantos de nós. Partimos à procura de algo diferente, na esperança de encontramos a razão da nossa existência, e acabamos por adoptar segundas terras e segundos países...

sexta-feira, setembro 14, 2007

O Relógio do Tempo

Nas minhas férias campestres do começo de Setembro, nunca usei relógio e mesmo o telemóvel, estava quase sempre desligado, por falta de "rede"...
Mas no campo raramente nos perdemos no tempo, porque o sino da igreja da aldeia continua a replicar de hora a hora, com as badaladas necessárias e de meia em meia-hora, com apenas um toque.
Em Salir de Matos também é assim... o som ecoa por toda a freguesia, embora avise cada vez menos agricultores, porque, infelizmente, são uma espécie em vias de extinção...
Outra curiosidade matinal na aldeia era a visita do peixeiro, que começava por apitar, para de seguida, nos oferecer os fados da Amália, provavelmente ainda de cassete, enquanto visitava as ruas da localidade...

sábado, setembro 08, 2007

Sons e Saberes dos Campos


O ambiente campestre desperta-me sempre a atenção para as coisas pequenas, que normalmente nem sequer mereceriam uma linha, noutro lugar qualquer...
É por isso que...
Gostava de conhecer as aves pelo seu assobio,
uma linguagem demasiado bela e simbólica,
ou ainda pelo garrido das plumas
e pelo bater das suas asas...

Da mesma maneira que gostava de conhecer todas as plantas,
que crescem aqui e ali, ao Deus-dará (gosto desta expressão)...

A aguarela é de Ernest Duez...

quinta-feira, agosto 30, 2007

A Fruta do Oeste


A entrada na União Europeia, trouxe-nos vários dissabores.
Um dos mais graves, senão mesmo o mais grave, terá sido o quase abandono "forçado", da agricultura pelos portugueses, devido à "invenção" de quotas de produção...
Claro que ainda hoje há proprietários (especialmente os donos de grandes propriedades no Alentejo) a viverem dos rendimentos do "pousio" das suas terras...
A Região do Oeste, bastante rica em fruta, como não podia deixar de ser, sofreu um forte revés com as novas políticas agrícolas comuns...
As únicas espécies que tem resistido, são a pêra rocha e algumas vinhas, aqui e ali...
Mas o mais comum é descobrirmos campos e pomares abandonados no Oeste, porque o país agrícola de Salazar deu lugar a uma "coisa", que ainda não está bem definida, apesar do passar dos anos...
Outra das consequências deste abandono tem sido o aumento dos incêndios, por razões óbvias.
Sem pretender ser saudosista, este cartaz do Estado Novo, lembra-me que sempre produzimos boa fruta, apesar de não ser tão grada como a importada...

terça-feira, agosto 28, 2007

As Noites Escuras de Salir de Matos


Quando a electricidade chegou a Salir de Matos, não entrou logo em todos os lares...
Penso que por razões económicas, pois as casas mais afastadas do centro da aldeia tinham de pagar mais pelas "puxadas", porque a requisição era paga ao metro (penso que ainda é assim...).
A única coisa que sei é que a casa dos avós foi das primeiras a ter "luz", por estar bem localizada e também por o meu tio Zé ser electricista e ter feito toda a instalação rapidamente.
Aliás, não me lembro da casa da avó sem a luminosidade das lâmpadas (esquecendo as "escuras" ocasionais, em que tínhamos de recorrer aos candeeiros a petróleo e a velas).
Mas como disse anteriormente, havia muitos lares, sem electricidade, em que ainda se combatia o escuro da noite com candeeiros e candeias. Lembro-me de visitar a casa dos pais de uma tia por afinidade, e encontrar sombras e rostos mal iluminados, a tomarem a ceia...
Mas onde se notava mais a falta de electricidade era nas ruas. Pois havia apenas meia dúzia de candeeiros, dispersos, aqui e ali. Nas noites de Lua Nova, tinhamos de andar com cuidado, utilizando por vezes mesmo uma lanterna (também a petróleo).
Recordo que estas caminhadas no escuro em grupo eram um aventura deliciosa para mim e para o meu irmão, sempre prontos a fazer traquinices, especialmente quando estavámos acompanhados de alguém com medo da escuridão. Além de atirarmos objectos e pedras para a frente, também fingíamos ver e ouvir coisas estranhas, aqui e ali...

A imagem que ilustra este texto é da autoria de Eduardo Luiz.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Camas de Feno


As vindimas serão sempre a minha actividade campestre de eleição.
Quando me recordo das muitas aventuras que partilhei com o meu irmão, nas vinhas, nos percursos acidentados e depois no lagar, com a cumplicidade do avô, do pai e dos tios, sinto sempre uma grande nostalgia...
O ambiente da vinha também era bastante alegre e festivo. Havia sempre alguém, capaz de animar toda aquela gente, com alguma coscuvilhice engraçada ou ainda com anedotas e ditos populares, que acabavam por deixar toda a gente a sorrir.
Quantas vezes não ouvíamos a avó ou alguma tia, a dizer para taparmos os ouvidos...
Também íamos conhecendo pessoas novas, algumas com histórias de vida singulares...
Nas muitas conversas que se desenrolaram nas vinhas, nunca esqueci o relato de um homem, que nos contou um episódio, que achei único na época: a primeira vez que descobriu que existiam lençóis foi quando foi para a tropa... Até aí sempre dormira em camas de palha, por sinal bem macias, no palheiro, com a companhia dos animais da casa.
Nunca tinha imaginado até então que pudesse acontecer tal coisa...
Recebi mais uma lição de vida sobre as diferentes vivências de cada um de nós, constatando que as histórias sobre os tais berços de palha e de oiro, não era apenas uma lenda...


Escolhi um Picasso especial para ilustrar este texto, "Camponeses Dormindo"...

sexta-feira, agosto 17, 2007

O Velho Conto do Vigário

As pessoas do campo sempre foram demasiado simples - embora hoje se tenha perdido muita dessa simplicidade, por se ter quase abandonado o trabalho dos campos e pelo ambiente de globalização que se vive, primeiro com a televisão e depois com as novas tecnologias..., - e até ingénuas. É por isso que ainda existem alguns indivíduos de meia idade a caírem em alguns "contos do vigário", principalmente em feiras e romarias...
Pensava que já não se usava a técnica da carteira recheada de notas, prontamente substituída por uma cheia de pedaços de jornal... mas ainda se usa, e o mais grave, é que ainda há quem caia...
Foi o que aconteceu ao Tio Alfredo, há um ano e poucos dias, durante a Feira de 15 de Agosto das Caldas. Estou a falar de um daqueles aldeões que ainda gosta de "carregar" a carteira em dias de festa...
Estava numa barraca de comes e bebes a beber uma cerveja com uns amigos - parece que até à velha guarda já perdeu o hábito de beber vinho, cheio... -, que fez questão de pagar, exibindo o mostruário de notas de vinte e de cinquenta euros a quem quisesse olhar.
Os "contistas" deviam estar à espera de alguém, com os atributos do Tio Alfredo para lançarem a carteira para o chão, para ver o que dava...
E deu. O aldeão fiou-se no marmanjo que, desta vez nem sequer falou em dividir o dinheiro, mas sim em o entregar ao dono - vejam lá que a carteira até tinha cartões, a verdadeira claro -, e foi à procura de um local para anunciar que se tinha encontrado uma carteira. Como fiel depositário da carteira, o Tio Alfredo foi na cantada do vigarista e deu-lhe 150 euros, dos quase duzentos que tinha na carteira, não fosse fugir com os mais de quinhentos que enchiam a dita cuja. É que o outro sujeito, rematou-lhe, que nestes tempos não se pode confiar em ninguém. E estava bem certo...
Passaram-se dez minutos, um quarto de hora e o homem começou a achar grande a demora. Por curiosidade resolveu abrir de novo a carteira que lhe tinha sido confiada e que o "artista" tinha colocado num pequeno saco de plástico, para não dar muito nas vistas. Tal não foi o seu espanto quando descobriu o tradicional um molho de pedaços de jornal, dentro da carteira...
O mais curioso é que o Tio Alfredo era uma daquelas pessoas que estava farta de ouvir falar do "conto do vigário" e dizia sempre que nessa não caía...

Embora possa parecer ficção, isto aconteceu mesmo, em 2006. Claro que o sujeito em causa não se chama Alfredo, nem é meu tio, mas mora na freguesia de Salir de Matos. Escolhi "Os Jogadores" de Paul Cézanne, para ilustrar este texto, porque a vida é sempre um jogo...

terça-feira, agosto 14, 2007

A Beleza da Lua e das Estrelas

Acho que só valorizamos as estrelas e o luar, quando nos encontramos sem qualquer sinal de electricidade por perto.
Há meia dúzia de anos vivi uma experiência inesquecível, quando fui convidado para conhecer a casa de campo que um casal amigo tinha adquirido há poucos meses, no Alto Alentejo.
A única coisa que nos pediram para levar foi sacos cama e uma lanterna.
O local era especial, ficava num vale bastante verde, a poucos metros de um pequeno rio, com água gelada e cristalina, completamente afastado da civilização.
O sinal mais notório da ausência do nosso mundo era a falta de luz eléctrica...
Apesar de termos de andar com atenção redobrada, pela falta de hábito, o céu estava estrelado e a lua começava a "encher". Ou seja, a noite nem era demasiado escura...
O melhor de tudo foi todo aquele o silêncio. Além das nossas vozes, apenas se ouvia a água do rio, as aves nocturnas e um ou outro pequeno animal que passava por perto, quando pisava qualquer ramo seco...
O interior da casa, quase vazia, estava iluminada por meia dúzia de velas, colocadas em lugares estratégicos, dando um ar de novidade e até alguma beleza àquela casa antiga, bastantes rústica.
Como era natural, este lugar fez-me lembrar a infância...
Prometo voltar ao tema, mas já em Salir de Matos.

Escolhi um óleo de Mário Dionísio, "Reunião Clandestina", pela cor, pela noite e não pela clandestinidade...


sábado, agosto 11, 2007

As Corridas Diárias Entre as Caldas e a Foz

Nos anos setenta e oitenta a bicicleta era o transporte principal do meu grupo de amigos, que preenchiam as férias grandes com muita praia e muito desporto.
Esta onda desportiva tinha início no percurso feito de bicicleta entre as Caldas e a Foz do Arelho, realizado quase sempre num ritmo bastante competitivo, com a motivação da Volta a Portugal e também com as marcas na estrada de alcatrão, da estafeta pedestre organizada na Primavera pelos "Os Tufufos". De dois em dois quilómetros lá estava eu em ensaiar uma fuga e a ganhar mais uma "meta-volante".
A vingança estava destinada sempre para o fim, quando na entrada da vila os meus companheiros mais velhos (Vitor, Fernando, José Luís e Eduardo) começavam a pedalar e a desaparecer. Só os voltava a encontrar junto ao mar, onde deixávamos as bicicletas presas...
Chegámos a fazer estes dez quilómetros em pouco mais que dez minutos... e nem tão pouco ligávamos ao facto da estrada ser perigosa (na adolescência somos assim)...
Já na praia, além dos festivais diários de mergulhos na aberta (com uma prancha improvisada - saca de tecido cheia de areia), ainda íamos a trote até ao cais, onde mergulhávamos e regressávamos a nado até à aberta, aproveitando a boleia da maré vazante...
Também havia o futebol de praia, as raquetadas e as brincadeiras nas ondas, quase sempre selvagens do verdadeiro Mar, que desafiávamos, também com alguma inconsciência, apesar de sermos quase todos exímios nadadores...
O mais engraçado é que este quase ritual acompanhou várias gerações, que mostravam um grande orgulho em pertencerem aos "ibéricos"...
Eram tempos felizes e descontraídos...

Esta prosa está ilustrada com o óleo "Bicycle Race", de Lyonel Feininger.

domingo, agosto 05, 2007

Olhar o Mar


Gosto de estar junto ao mar, mesmo que a sua cor e o seu som tão característico se tornem quase banais, pela habituação...

Não sei se a Rosa pensou que eu estava a brincar, quando lhe falei da existência de uma "Rosa dos Ventos" na Foz do Arelho.

Claro que é apenas mais um, dos muitos bares que enchem a quase avenida da praia, mas quando o descobri, lembrei-me de imediato do perfume da Rosa...

quinta-feira, agosto 02, 2007

As Minhas Escolhas Literárias...


A Ida lançou-me o desafio de falar sobre os livros que li e que mais me marcaram.
Pensava não serem assim tantos, mas depois comecei a pensar e apareceram títulos e autores para todos os gostos, que me obrigaram a fazer uma quase selecção. Escolhi dez, não por serem os melhores, mas sim por serem os mais marcantes, em épocas diferentes da minha vida, que passo a referir:
Engrenagem, Soeiro Pereira Gomes – A descoberta do mundo do trabalho e do falso milagre que são fábricas, no começo da adolescência;
Sinais de Fogo, Jorge de Sena – Uma história de um outro país, que em encantou no fim da adolescência;
Malhadinhas, Aquilino Ribeiro – Marcou o meu regresso à leitura e o conhecimento deste grande escritor;
O que Diz Molero, Dinis Machado – Um retrato delicioso de uma outra Lisboa, quase de banda desenhada;
Bichos, Miguel Torga – Uma fabulação encantadora com tanta bicharada;
O Delfim, José Cardoso Pires – Um outro encontro com o tal país que pensamos distante, mas que deixou para aí alguns fantasmas;
Por Quem os Sinos Dobram, Ernest Hemingway – Um retrato prodigioso da luta pela democracia durante a Guerra Civil de Espanha;
Bairro da Lata, Jonhn Steinbeck – Fascinante. É talvez, o único grande livro que li, que não inventa qualquer história de amor;
O Velho que Lia Romances de Amor, Luís Sepúlveda – Tão simples e tão bonita esta história de amor pelos livros;
Capitães da Areia, Jorge Amado – Um retrato genial de um Brasil cheio de filhos da rua;
E como “extras” deixo ainda a poesia, toda, de Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Pessoa, Zé Gomes Ferreira e Manuel Alegre.
Escolhi propositadamente esta escultura de Francisco Simões, uma musa com um livro nas mãos (bem podias ser tu Ida...), a única do concelho deste extraordinário artista, excluido das escolhas de Arte Pública do Município de Almada...

quarta-feira, agosto 01, 2007

Castelos de Areia & etcétera

Ao descobrir uma família numerosa, que ocupava uma área considerável da praia, com vários chapéus e tapa ventos, lembrei-me de algumas idas à praia em família, à qual nem faltavam os avós...
Fiquei cheio de imagens avulsas, que prometi colar aqui nas "Viagens", quando regressasse...
Era um dia de praia em cheio, de manhã até ao fim da tarde...

Além dos banhos nas águas paradas do rio e lagoa, haviam ainda os jogos de futebol e as construções na areia... lembro-me de gostar de entrar dentro dos castelos de areia, gigantescos e bonitos, construídos com a ajuda dos tios, embora representasse um perigo, porque estava numa idade mais virada para a destruição que para a construção... muitas vezes almoçávamos no pinhal, à sombra, sentados em cima de mantas... lembrei-me também do sabor e do perfume do arroz de tomate e dos panados...

domingo, julho 15, 2007

Há Muito


Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa


Estas palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen, são muito apropriadas para este espaço, pelas saudades que tenho do areal e das grandes vagas da Foz do Arelho, tal como o óleo de Manuel Amado.

sábado, julho 14, 2007

Os Oleiros das Caldas

As Caldas foram durante o século XX um dos principais centros de indústria cerâmica portugueses. As suas fábricas albergaram a produção de uma grande variedade de loiça, quase sempre com um cunho artístico, graças à influência de vários artistas locais.
Infelizmente a "crise" nacional e a "chinesice" que tem invadido a Europa, conseguiram fechar as portas a casas emblemáticas como a Secla e colocar no desemprego, centenas de operários.

Em homenagem a todos os homens que desenvolveram e desenvolvem esta arte na minha cidade natal, ofereço-vos "Os Oleiros" de José Malhoa.

terça-feira, julho 10, 2007

A Primeira Equipa de Iniciados do Caldas

Desde muito cedo que soube que o futebol não seria o meu futuro. Mesmo assim jogava, sempre que me era possível os meus amigos de infância, porque adorava (e adoro...) este jogo. Ainda cheguei a fazer parte de algumas boas equipas de bairro, embora normalmente fosse o "tapa buracos" da equipa nos torneios de futebol em que entrávamos e costumávamos ganhar.
Quando alguns dos meus amigos revolveram ir tentar a sua sorte no Caldas - o clube mais emblemático da cidade -, que ia ter pela primeira vez iniciados (época 1977/78), resolvi aproveitar a boleia.
Não fui escolhido no primeiro treino de captação, pelo Américo, antigo jogador dos seniores e treinador dos juvenis. E já nem sequer pensava voltar ao campo da Mata, para voltar a tentar a minha sorte... mas o meu amigo Xico Mendes insistiu e lá fui (curiosamente ele é que acabou por desistir da ideia - e era um belíssimo guarda-redes -, assim como o Paulo Gaspar, outro grande amigo e colega de escola, que apenas voltou no ano seguinte. Também era bastante bom, ao ponto de ter chegado a jogar nos seniores do Caldas).
Nesse dia uma das pessoas que estava a escolher a miudagem era o treinador dos seniores, Mourinho Félix (pai de José Mourinho) que gostou do facto de eu não virar a cara à luta e chamou-me para o canto dos "eleitos". Como devem calcular, fiquei extremamente satisfeito por ser escolhido.

Apesar de não ser um predestinado, acabei por fazer toda a época como titular, a defesa central, fazendo dupla com o jogador mais talentoso e valioso da equipa, o Chagas, que chegou a internacional juvenil, com as cores do Sporting, onde fez dupla com o Venâncio. O Chagas acabou por ficar pelo caminho. Mas só não foi mais longe devido à sua baixa estatura (tinha pouco mais de um metro e sessenta, muito pouco para um central...) e não por falta de qualidade futebolística...

Desse tempo sobrou uma fotografia, em que curiosamente falta, aquele que se tornaria, duas décadas depois, na figura mais mediática daquela equipa simples, o José Mourinho, que nesse fim de semana não jogou...
Normalmente o nosso onze era composto pelos seguintes jogadores: Ginja; Ilídio, Chagas, Milheiro e Orlando; Chico, Fragoso, Zé Mourinho e Rui Pedro; Ramos e Paulo Jorge. O Vitor costumava entrar quase sempre, era avançado e a nossa arma secreta.
Vamos lá então às apresentações segundo a fotografia. Em baixo da esquerda para a direita estão: Vitor, Parrila, Rui Pedro, Chagas, Chico e Eu.
Em cima, pela mesma ordem: Santana (treinador) Paulo Jorge, Ilidio, Ramos, Fragoso, Manuel, Ginja, Orlando e Castanheira (Dirigente).
Não sei o que é feito da maior parte destes companheiros de infância. Como disse anteriormente, tirando o Chagas, ninguém foi muito longe como futebolísta. O José Mourinho tornou-se famoso como treinador, ao ponto de ser considerado um dos melhores do mundo. Outro elemento que também saiu da mediania, mas noutra actividade, foi o José Fragoso, que hoje é o director da TSF.

quinta-feira, julho 05, 2007

Os Banhos de Rio

Agora que o calor começou a apertar, recordei-me de outra das nossas aventuras da meninice em Salir de Matos, os banhos no rio que passava na aldeia.
O lugar escolhido para o banho era praticamente debaixo da ponte, quase na fronteira entre Salir de Matos e Casais da Ponte, onde se formava um pequena represa, sempre com água, mesmo no pico do Verão. Os mais pequenotes como eu, até perdiam o pé, no meio daquela quase piscina natural.
Escusado será dizer que era proibido tomar banho de calções de banho. E quem não tirasse os calções era maricas...

O óleo que ilustra este texto é de Carl Larsson...

terça-feira, julho 03, 2007

Um Exemplo de Honestidade

O meu avô materno, além de excelente contador de histórias, foi uma das pessoas mais honestas que conheci.
Era incapaz de tocar em algo que não lhe pertencesse ou de enganar alguém.
Quando era feitor numa das muitas quintas que rodeavam as Caldas da Rainha, extremamente rica em árvores de fruta, era de tal forma zeloso, que não era capaz de apanhar uma peça de fruta caída no chão.
Habituei-me a escutar nas conversas de família, inúmeros exemplos desta postura, mas a que acho mais deliciosa, passou-se quando a minha mãe, ainda criança, percorria com a avó a zona das árvores de fruta e iam apanhando algumas peças caídas no chão. O avô assim que as viu, chamou-lhes gulosas e com um gesto de reprovação, perguntou-lhes se não sabiam que aquilo não lhes pertencia. Escusado será dizer que elas não lhe ligaram. Foi com esta postura que o avô nunca enriqueceu demasiado. Foi comprando algumas courelas, aqui e ali, com grandes sacrifícios e fruto do seu trabalho e da família numerosa.
Nesta altura não existiam empréstimos bancários e os contratos eram selados apenas com a palavra e com dinheiro vivo.
Gostava de o ter visto, garboso, a cavalo, percorrendo a quinta e os caminhos entre Caldas da Rainha e Salir de Matos...

Escolhi esta aguarela de Renato Guttuso, "Campieri", para homenagear o meu avô, Manuel Joaquim Saloio...