Todas estas peripécias à volta do referendo sobre a despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez (um nome realmente pomposo, pelo menos para a giria popular...), fizeram com que recuasse no tempo, à procura da primeira vez que escutei esta palavra...
Não é segredo nenhum, que nós, na infância e adolescência, somos muito mauzinhos uns para os outros. Aproveitamo-nos quase sempre das fraquezas e desgraças dos outros para montarmos um circo e rirmos, quase sempre de uma forma exagerada, dando força ao sentido colectivo do espectáculo.
Foi nestes festivais de "gozação" que ouvi pela primeira vez a palavra ABORTO.
Curiosamente ou não, o seu significado nos recreios ou nas ruas era bem diferente do verdadeiro sentido da palavra. Não passava de mais um mimo, usado para adjectivar alguém que não tinha jeito para nada, desde o jogar à bola até outra brincadeira qualquer de rua.
Na adolescência este mimo também era usado para caracterizar as miúdas mais foleiras na escola e das nossas ruas (não faço ideia se elas também usavam esta palavra para caracterizar os rapazes menos jeitosos...).
Esta palavra estava distante das maternidades e dos "vãos de escada" (esta campanha transformou esta pequena frase num lugar, cada vez mais comum...), apesar de também reflectir ausência. Só que não era de vida, mas sim de talento ou de beleza...
Esta palavra estava distante das maternidades e dos "vãos de escada" (esta campanha transformou esta pequena frase num lugar, cada vez mais comum...), apesar de também reflectir ausência. Só que não era de vida, mas sim de talento ou de beleza...
Este texto está ilustrado com mais uma excelente fotografia de João Martins.






































