terça-feira, dezembro 30, 2008

Mais um Ano que Voou...

Um dos primeiros sintomas de que já não vamos para novos, é a sensação de que à medida que os anos vão passando, os dias, as semanas e os meses vão-se encurtando, tornando tudo o que nos cerca mais curto...
Até a passagem de ano se vai esvaziando de sentido, como se quiséssemos parar no tempo. Mas as máquinas que param, voltam para trás e para a frente, só existem nos filmes...

E agora ainda é mais complicado fazer previsões... parece que estes economistas, burlistas, fantasistas, socialistas, etc, além do dinheiro, do emprego, também nos querem roubar os sonhos...
2009? Será no mínimo, mais um daqueles anos curtos...
Valha-nos a "terapia" de Magritte...

sábado, dezembro 20, 2008

O Natal do Nosso Contentamento

Ainda no serão de quinta-feira ouvi várias pessoas a culparem o Natal por não terem tido presentes, uma árvore ou um presépio, na infância...

Falavam com tristeza e mágoa.
Felizmente para mim o Natal sempre foi uma época de paz e alegria, desde que me lembro, mesmo sem a existência de farturas.
Na minha meninice não havia o pai natal, mas sim, o Menino Jesus. Era ele que descia pela chaminé e colocava os presentes no sapatinho...
Claro que nem eu nem o meu irmão, pequenotes, ficámos muito convencidos com esta história, até porque a chaminé era muito estreita...
Nessa altura também não fazíamos árvore de natal. Fazíamos sim o presépio, com muitas figuras e musgo, retirado dos pinhais que rodeavam o Bairro dos Arneiros...
Provavelmente sou capaz de me estar a repetir, porque as "Viagens" já vão no terceiro natal, e as histórias dos meus natais no Oeste, foram assim...
O que sinto na actualidade, é que se não tivesse os meus dois filhotes, passava um pouco ao lado de toda esta atmosfera consumista, que mesmo de bolsos vazios não consegue dar tréguas à "crise".
E para terminar, desejo-vos a todos Festas Felizes.
A pintura escolhida é de Rafael, "La Belle Jardiniére", do século XVI, pelo simbolismo, uma mãe atenciosa e protectora com as suas duas crianças, como foi e é a minha mãe (e todas as mães, claro).

terça-feira, dezembro 16, 2008

Padre Felicidade Alves Recordado

O Centro de Reflexão Cristã e o Centro Nacional de Cultura organizaram ao fim da tarde de hoje, na sede da instituição cultural, uma reunião de convívio e de reflexão, evocativa da vida e obra do padre Felicidade Alves.
Usaram da palavra, Guilherme de Oliveira Martins, que abriu e encerrou a sessão, na qualidade de presidente do Centro Nacional de Cultura, Manuel Vilas Boas, jornalista, Frei Bento Domingues, Diana Andringa, jornalista, José Luís de Matos, editor e João Salvado Ribeiro, um dos organizadores desta homenagem.
Antes das intervenções foi visionada uma fotobiografia e alguns acervos documentais, da Fundação Mário Soares. Mas o melhor viria depois, com o som de uma entrevista que deu à TSF, a Manuel Vilas Boas - foi bom ouvir a voz do Padre Zé, com bastante clareza e ironia, por vezes com algum sarcasmo - no dia do seu casamento católico, em que foi feita a reconciliação possível com a igreja e ainda as imagens de um pequeno filme da celebração convival realizada em Vila Franca de Xira, num monte, depois da realização do seu casamento civil, nas Caldas da Rainha, no primeiro dia de Agosto de 1970...

O tempo passa mesmo rápido. Esta bonita homenagem coincidiu com o décimo aniversário (e mais dois dias...) do seu desaparecimento...

domingo, dezembro 14, 2008

Afinal a Porta Estava Aberta...

[...] Victor não consegue, nem quer, esconder o fascínio sentido pelas recordações que surgem, quase em catadupa, como se alguém as soltasse de qualquer arca enorme, quase do tamanho da do velho Noé.
Foi o que aconteceu quando passou a uma velha porta fechada, familiar. Aproximou-se e espreitou para lá das vidraças, à procura de um sinal de vida daquele lugar especial.
Ainda haviam nas paredes restos de fotografias de jornais, descoloridas pelo tempo, entre pilhas de pele e formas de sapatos cheias de pó e teias de aranha que enchiam as prateleiras e a mesa de trabalho do bate-sola.
Era mesmo a antiga oficina de sapateiro do senhor Silvino Bastos, conhecido na vizinhança como «Bigode de Arame», por possuir um bigode espantoso, que esticado, devia ter mais de quarenta centímetros.
Aquela casa, apesar do seu tamanho diminuto, fora o palco principal de um homem de pequena estatura, cujo andar à Charlot quase que bastava para o transformar numa figura inesquecível das “fitas sonoras do bairro”. Victor recordou-o com ternura.
Mas o filho do sapateiro era muito mais que uma imitação cinéfila. Joaquim Bastos tinha o dom de contar estórias, ao ponto de deixar qualquer pessoa, mesmo distraída, pasmada a ouvir todos os passos das suas aventuras, aumentadas pela sua imaginação digna de qualquer escritor de novelas.
No bairro todos o conheciam pelo Quim “Meias Solas”, e ficavam suspensos pelas estórias das suas viagens pelo mar fora, com que enchia a oficina do pai e eram o encanto de pequenos e graúdos que se acotovelavam para não perderem qualquer “fio da meada”. [...]
[...] Victor sorriu ao recordar a parede que se situava atrás da porta, semi-escondida dos olhares mais pudicos, onde havia também uma secção das mulheres, em pose provocadoras e sem muita roupa. A maior parte delas vinham da América, recortadas de revistas, que não chegavam a este lado do mar, pelo Quim, quase «como despojos de guerra» das suas viagens emocionantes.
Foi naquela parede «proibida» que Victor descobriu, pela primeira vez, o sorriso único de Marilin Monroe, a rainha de todas as louras.
As jornadas mundanas do Quim, fossem invenções ou não, eram bonitas e extraordinariamente bem contadas.
Todos sabiam que ele era um simples empregado da copa do navio, mas, em troca das suas estórias, deixavam-no ficar com o papel invejado de “homem do leme”.
Depois de abandonar a porta de madeira, cheia de caruncho e fendas, Victor interrogou-se, «o que seria dos senhores Silvino e Joaquim Bastos?...»
Continuou a andar pelas ruas do bairro, entusiasmado em descobrir outros lugares e outras estórias, mas com a certeza de que nenhuma era tão bem contada como as do Quim “Meias Solas” que se passeava com o seu andar inconfundível à Charlot, e que lhe proporcionara excelentes viagens na sua barca de sonhos.


Encurtei esta minha estória publicada no livro de contos, "Um Café com Sabor Diferente", para não se tornar demasiado longa e chata... tudo porque afinal a porta estava aberta, um velho sapateiro ainda resistia ao tempo, na rua "Sales Henriques" (?), próximo da velha ponte da linha do comboio...

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Caldas & Cacilhas

As Caldas e Cacilhas, além de serem as duas localidades onde vivi mais tempo, são também aquelas que conheço melhor. Mas não é por isso que surgem aqui de mão dada.

Surgem de mão dada porque as Caldas também estão presentes no último livro do meu amigo Diamantino Lourenço, que ao referir as várias partidas e passagens por Cacilhas, refere entusiasticamente a Primeira Volta a Portugal a Cavalo, realizada em 1925 e vencida por José Tanganho, um caldense ilustre, que além de corredor de fundo também foi cavaleiro tauromático.
A história deste grande senhor foi registada em livro com mais profundidade pelo também caldense, Mário Lino. A obra chama-se, "José Tanganho na Volta a Portugal" e foi editada pelo "Jornal das Caldas" (de onde retirei a imagem de José Tanganho e do seu cavalo, "Favorito").

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Conseguir Sorrir à Dor

Se há algo raro num ser humano, é a capacidade de resistir à dor e à adversidade, com um sorriso nos lábios, acreditando sempre que amanhã é melhor.

Acho que só conheço mesmo o Alexandre, pai de um dos poucos amigos com o qual mantenho contacto assíduo nas Caldas.

Lembrei-me dele sem uma razão aparente. Recordei-me do nosso encontro no Verão, do seu abraço, do seu sorriso e das suas palavras, sempre condimentadas com um dito espirituoso.
Também troquei algumas palavras com a esposa dedicada, sempre apreensiva com o seu estado de saúde, devido aos muitos problemas que o cercam há mais de três décadas (com dezenas de internamentos e intervenções cirúrgicas) e aos quais responde, presente, com um sorriso e uma vontade indomável de viver, que deve fazer desistir os "anjos negros" de o levarem para o outro lado do mundo...

Gosto muito dele, pelo exemplo que é, e sempre foi. Nunca lhe disse, mas ele é um vencedor nato. No jogo mais ingrato que temos de enfrentar, ele já leva muitas "vidas" de avanço. Quando for "derrotado", vai conseguir sorrir, porque é um vencedor...
O "Flautista" é do Portinare.

quarta-feira, novembro 26, 2008

Não é Apenas a Paixão pelo Bordalo...

Não é apenas a paixão por Rafael Bordalo Pinheiro, que torna a Isabel uma pessoa especial. Muito menos o facto de ser livreira, pelo menos no sentido comum da profissão.

O que a torna especial é o amor que tem às coisas da cultura, que tanto pode ser uma taça de louça artística, um desenho ou um livro.

A paixão pelos livros faz com que a sua livraria, cujo nome é tão vulgar ("107", imaginem só...), seja já um quase "ex-libris" das Caldas, por ser tão conhecida, pelo menos nos meios literários de Norte a Sul.
Sem a Isabel não existiam os "Cafés Literários", não havia a possibilidade de se escutarem as palavras sábias de tanto escritor, nem a possibilidade de se coleccionar os seus autógrafos (sim, que os livros são um objecto especial, com múltiplas funções, além da leitura...).

Por tudo isto (e por tantas outras coisas), obrigado Isabel, por teres escolhido as Caldas, para lhe dares "banhos" de cultura!

sexta-feira, novembro 21, 2008

Comboios e Pessoas Especiais

Gostei de ler e de ver nas notícias televisivas o ar de satisfação de Manoel de Oliveira, homenageado pela CP, com direito a passadeira vermelha na gare de São Bento, na atribuição do seu nome a um Alfa pendular.

Ele está quase nos cem e continua um bem agradecido a todos, sem se sentir assim tão especial, como devia, pois é um grande cineasta e um grande portuense.
Gosto de o transcrever: «sinto-me profundamente comovido por saber que este comboio (com o seu nome) vai fazer a ligação do Porto para a Régua e o Douro, essa terra prodigiosa e extraordinária da vinha e do vinho.»

Sinto-me feliz por ele nunca ter "emigrado", por se sentir um mal amado, por ter sido sempre mais ovacionado no estrangeiro que entre nós.
Manoel de Oliveira sempre soube que o povo português é o menos culpado do seu défice cultural...

Ele não aparece aqui por acaso, eu adoro viajar de comboio e gosto muito da tão desprezada e esquecida Linha do Oeste...

sábado, novembro 15, 2008

Gatos do Mundo

Continuo com dificuldade em perceber a "humanização" que se tem feito dos animais, especialmente cães e gatos.

Percebo que muitas destas mudanças têm que ver com o papel que os animais adquirem em alguns lares. São quase os filhos que não apareceram, por uma razão ou outra, tendo um tratamento que os faz viverem num limbo, entre o mundo dos animais e dos humanos.
Sempre cresci na companhia de animais. Claro que na casa dos meus pais sempre houve espaço, um bom quintal para os nossos cães andarem à vontade. A avó também sempre teve gatos.
Os cães sempre tiveram o seu espaço no quintal, nunca entravam em casa. A única excepção era a cozinha, onde o cheiro a comida, fazia com que ultrapassassem a fronteira...

Toda esta conversa surge porque a minha sogra sempre teve gatos. Também tem um grande quintal, onde eles andam à vontade e marcam o seu espaço, em vários lugares como a nespereira, polida pelas suas garras. Claro que a porta de casa não lhes está completamente vedada, entram e saem sem crises, quando apanham a porta aberta. Os únicos lugares de acesso reservado são os quartos e a sala de fora.
Foi por isso que me espantei pelo tom de censura aplicado por uma senhora, que falava com ela, por os gatos andarem no quintal e na rua. Teve mesmo o descaramento de lhe dizer que: «Assim não vale a pena ter animais», como se o lugar deles fosse em casa...
Ouvi e calei, porque a conversa era entre mulheres...

Respeito quem pensa que o lugar dos animais é em casa. Não penso assim, mas seria incapaz de dizer que eu é que estou certo e os outros errados.
Mas continuo a pensar que o lugar dos animais é em contacto com a natureza, em espaços onde se sintam em liberdade, onde possam correr e saltar...

segunda-feira, novembro 10, 2008

Bordalo Pinheiro e as Caldas

Rafael Bordalo Pinheiro podia muito bem ser comparado a um "vendaval artístico", que passou pelas Caldas, no final do século XIX, tantas foram as marcas que ficaram. E que felizmente permanecem, mais de um século depois, numa cidade que nunca mais deixou de se afirmar pela arte da cerâmica.
As Caldas continuaram presentes na sua arte gráfica, como é o caso deste número de "pontos nos ii", onde faz eco à inauguração do Caminho de Ferro na então Vila.

terça-feira, novembro 04, 2008

Há Tanto Oeste!

As "Viagens Pelo Oeste", de vez em quando, são motivo de conversa, com algum escárnio à mistura, para variar.

Curiosamente, estava longe de pensar que o Oeste, apesar da proximidade da Capital, fosse quase desconhecido para tantas pessoas, pelo menos como ponto turistico.
Quase todas as pessoas já passaram por lá, mas não se lembram de visitar um museu ou um monumento, com a excepção dos Castelo de Óbidos e Mosteiro de Alcobaça. Algumas até mesmo em relação ao Parque das Caldas, têm apenas uma vaga ideia, um lago, uns peixes e uns patos...
É graças a esta "ignorância", que fico a sensação que muitos portugueses preferem andar centenas de quilómetros para passearem, ou quando o dinheiro abunda, apanharem um avião e partir para parte incerta, onde existam filas de coqueiros e água salgada com vinte e vários graus...
E é tão fácil sugerir uma "viagem pelo Oeste", mesmo num único dia...
Lugares obrigatórios? Alcobaça (Mosteiro); Nazaré (Praia e Sítio); S. Martinho do Porto (Baía); Caldas da Rainha (Praça da Fruta, Parque D. Carlos, Museu José Malhoa, Museu da Cerâmica), Óbidos (Castelo e Vila no seu interior), Foz do Arelho (Mar), Peniche (Cabo Carvoeiro), e fico-me por aqui...

Mas se existem tantos lisboetas que não conhecem os jardins da Gulbenkian, porque haveriam de conhecer o Oeste?

terça-feira, outubro 28, 2008

Recordações da Escola...

Quando vinha com o meu filho e uma amiga, da escola, não pude deixar de sorrir, enquanto ouvia os reparos que faziam em relação aos "marrões" da turma, que segundo eles, tinham mesmo a mania que eram os "maiores", ao ponto de "meterem nojo" (a expressão é deles)...

Lá voltei às recordações de infância, aos meus tempos de escola e também a uma das últimas viagens de comboio que fiz na Linha do Oeste, na companhia de um antigo companheiro de escola do meu irmão.
Ele passou parte da viagem a contar histórias, algumas que sabia e outras que desconhecia, sem nunca esconder a admiração que sentia pelo Vitor...
Percebi mais uma vez a razão de ser tão protegido pelos amigos do meu irmão nos recreios da escola, que me levavam dois anos de avanço. Eles podiam ser muita coisa, mas não eram ingratos...
O meu irmão além de ser um dos melhores alunos da turma, era de uma generosidade pouco usual nos chamados "marrões" (nunca lhe devem ter chamado isso, até porque não era...), além de fazer o seu teste, ajudava sempre os companheiros que estavam dificuldade e que lhe lançavam "SOS's", de mil e uma maneira...
Felizmente ele não mudou muito, com o decorrer dos anos, continua a ser um caso sério de generosidade...
A fotografia é de Robert Doisneau, "E as Horas Nunca Mais Passam"...

terça-feira, outubro 21, 2008

Tenho Saudades do Museu...

Tenho saudades do interior do Museu José Malhoa...

Sei que as obras são sempre assim, vão se aproximando sempre das da Santa Engrácia, na Capital, porque as verbas não abundam na rua dos museus...
Podem argumentar que ele nunca "fechou". Mas isso é quase abusar da minha inteligência, pois o polo provisório que existe no Museu do Ciclismo, está quase a "anos luz" das salas daquele que começou por ser um museu provincial...
Por isso vejam lá se se despacham.

quarta-feira, outubro 15, 2008

As Quintas Misteriosas...

Na minha infância e começo de adolescência ainda existiam alguns lugares cheios de mistério, nos arredores das Caldas.

Um desses lugares era a Quinta da Boneca, rente à Mata da Rainha.
Lembro-me de uma das vezes que a visitámos, termos sido surpreendidos por um "guarda" (seria?) no interior da casa. Fugimos cada um para seu lado, perante a ameaça de uma forquilha, que o tal homem mal encarado, transportava nas mãos...
Recordo que a Quinta nesse época ainda mantinha a sua arquitectura palaciana e os seus jardins, apesar de se terem tornado num matagal, notava-se que deveriam ter sido extremamente belos, nos seus bons tempos. Jardins que também tinham um grande tanque de água, quase uma piscina, também ele todo ornamentado, por um estilo arquitectónico que já não recordo, talvez com ares do neo-romantismo...

quarta-feira, outubro 08, 2008

Os Filmes, os Livros e a Vida...

Todos nós sabemos que há muitas maneiras de se começar ou acabar uma conversa.
Nunca pensei que a nossa se iniciasse com os filmes que já não vemos, naquele reencontro próximo do Chiado.
Quando me perguntaste se ainda ia muito ao cinema, devias saber a resposta... não, claro que não.
Nem sequer me desculpei com os DVD's, com as pipocas ou com as salas minúsculas dos tempos modernos.
Pensar que o cinema foi um bom tema de conversa, para te recordar uma frase que me disseste no começo dos anos oitenta. Foi a primeira vez que me disseram, com convicção, que: «Os filmes são sempre tão diferentes da vida...». Respondi apenas, «alguns...», como tinha sido o caso do filme novelesco que tínhamos acabado de ver, no desaparecido "Estúdio Um", nas Caldas da Rainha, com um daqueles finais felizes que não há...
Ainda insisti, que sempre existiram filmes feitos de pedaços de vidas. Tu abanaste a cabeça, acrescentando: «os filmes são feitos apenas de sonhos ou pesadelos.»
Perguntei-te se ainda era teimosa. Sorriste e disseste que sim, que há coisas que não mudam...
Lembro-me bem da moça que agora é uma mulher madura, e estava ali, a meu lado, desviar a conversa para o mundo dos livros, que podiam demorar meses a serem lidos e nunca apenas a hora e meia a duas horas em que a fita era exibida na sala escura e silenciosa. Eles sim, tinham uma intensidade dramática mais próxima do nosso dia a dia, da vida...
Tu não te lembravas de nada, daquele filme e da nossa conversa.
Eu continuava a pensar que, talvez os filmes não sejam assim tão diferentes da vida. Depende apenas do realizador...
Pois, é que a vida também é feita de sonhos e pesadelos.
Tu sorriste e disseste que sim...

domingo, outubro 05, 2008

Eu Tenho Sangue Vermelho

Hoje é um dia especial, especialmente para quem não tem "sangue azul", como eu.
Compreendo que alguns parentes da "nobreza", mesmo distantes, tenham saudades de alguns titulozinhos, mesmo que estes apenas se ficassem pelo baronato. Até porque há quem não consiga sobreviver sem "criados"...
Acredito que na verdadeira essência humana somos todos iguais. Não é por acaso que nascemos e morremos da mesmo forma, com mais ou menos dor.
Gosto de pensar e de sentir que não sou mais, nem menos, que ninguém.
E como também gosto de pensar pela minha cabeça, agradeço de alma e coração a todos os homens e mulheres que tornaram possível o 5 de Outubro de 1910.

A gravura é de Rafael Bordalo Pinheiro, publicada em 1890, no "Pontos nos ii". Rafael era um Republicano convicto, que não teve a felicidade de assistir à sua proclamação, já que faleceu em 1905...

sábado, setembro 27, 2008

O Outro Lado do Museu


Sei que a maior parte dos visitantes do Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha, não passam pelas traseiras do edifício. Acabam por ficar a perder, já que não vêm os bonitos paineis de António Duarte...

Até poderia haver um letreiro em forma de convite, na recepção do Museu, com a informação...

quinta-feira, setembro 25, 2008

Encontros e Desencontros...

Encontrei-me por acaso, com um companheiro de escola, que não via há mais de vinte anos, numa carruagem de comboio. Se ele não se metesse comigo, não o reconhecia.

É engraçado, há pessoas que envelhecem sem mudar muito os seus traços e outras, pelo contrário, transformam-se completamente, como se passassem a ser outras pessoas, tão diferentes daquelas que conhecemos...
Quando as olhamos, notamos algo de familiar. Mas isso é tão vulgar, com a passagem dos anos. Há sempre alguém que nos lembra alguém...
Falámos apenas do trivial, de lugares, pessoas, filhos, porque a estação era logo ali...
Nem sequer trocámos números de telemóvel...

quarta-feira, setembro 17, 2008

Estão Aí as Vindimas...

Desde pequenote que me habituei a percorrer as vinhas do avô. Primeiro a brincar às escondidas com o meu irmão e amigos, depois já com um balde e uma tesoura na mão, a cortar os primeiros cachos de uvas, e claro, desejoso de entrar, lá mais para a tardinha, no lagar, para transformar todos aqueles bagos em vinho, com os pés, numa quase dança milenar...

Não tenho dúvidas de que as vindimas são uma das actividades menos entediantes do campo, até por estarem ligadas ao convívio entre familiares e amigos, quase sempre alegre e brejeiro.
A habitual lavagem de roupa suja, protagonizada pelas mulheres, é quase sempre reforçada por deixas masculinas, próximas da anedota, que deixam toda a gente a sorrir, amenizando o ambiente.
Também é espaço de novidades, quase transformado num jornal de aldeia "cor de rosa", com uma lista enorme de casamentos, ajuntamentos e separações, claro. Também aparece sempre a filha de alguém, que é ou vai ser mãe solteira. O espanto das mulheres é suplantado mais uma vez pela bonomia dos homens, que deitam fora os falsos moralismos de ocasião: «para quê tanta admiração, se até os bichinhos gostam?» E lá voltam as gargalhadas, as anedotas e as histórias de outros tempos.
É por esta razão que um dos meus tios de Salir de Matos, não recusa qualquer convite para participar nesta "festa do vinho"...

quinta-feira, setembro 11, 2008

Recuando Até Agosto

Nos últimos anos tenho assistido a uma das muitas festas de Verão que dão cor a alegria ao mês de Agosto, numa aldeia do interior.

Sou sempre mais observador que actor nestes lugares, por ter dificuldade em perceber a separação que ainda existe de género. Custa-me mais a entender estas divisões por saber que a maior parte dos visitantes da aldeia vivem na cidade.
Uma das coisas que mais me aborrece é que ao homem, esteja destinado o balcão dos bares. Quem como eu, não gosta de beber por beber e que para conversar não tem necessidade de estar com um copo de cerveja ou de caipirinha na mão (parece que é a bebida da moda nestes lugares), sente-se como "peixe", completamente fora de água...
Este fenómeno dá lugar ao outro, não menos curioso. Como a maior parte dos homens estão no bar, o espaço de dança é ocupado maioritariamente por pares de mulheres, de todas as idades, que gostam de dançar.
Numa das noites reparei que estavam a dançar em frente ao palco onze pares e dez eram compostos por mulheres. Quando comentei o facto com um amigo, a observação dele, cingiu-se à alegria do felizardo, por estava a dançar rodeado de tantas mulheres...

A fotografia é de Robert Doisneau, "As Curvas de 14 de Julho" (desculpem este abuso do Robert, mas ele é excelente...).