sexta-feira, abril 25, 2008

A Minha Pequena Revolução

«Apesar de ter apenas onze anos, recordo-me bem do dia 25 de Abril de 1974, «inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio», como tão bem retratou, a nossa Sophia de Melo Breyner Andresen.
Como vivia nas Caldas da Rainha, uma cidade de província notoriamente conservadora, não se sentiram grandes ecos revolucionários, pelo menos até ao fim da tarde.
Penso mesmo que a cidade viveu este dia de uma forma apreensiva, até porque um mês e alguns dias antes, os militares do RI 5 tinham saído do Quartel em direcção a Lisboa, para participar numa outra Revolução, que tinha entretanto sido adiada...
A censura tentou, e conseguiu, que o 16 de Março fosse tratado de uma forma ligeira, sem merecer grande destaque nos jornais, na rádio e televisão. O saldo desta tentativa de revolta, saldou-se pela prisão e destacamento dos militares envolvidos, para evitar males maiores.
Como é óbvio, a Cidade teve conhecimento do caso, embora a maior parte das pessoas não soubessem ao certo o que tinha acontecido. Não me lembro de ter sido tema de conversa em casa. Como eu e o meu irmão ainda éramos menores, os meus pais não falavam destas coisas à nossa frente. Mas na Escola Preparatória Rafael Bordalo Pinheiro, onde estudava, esta rebelião foi bastante falada, e até ficcionada, pela imaginação fértil das crianças de onze e doze anos, que nutrem um fascínio especial por histórias de “guerra”, entre os bons e os maus.
Um dos meus melhores amigos, filho de um militante do PCP, facto que desconhecia na época, contou-me, quase como se fosse um segredo de estado, que o pai tinha estado nesse dia com alguns amigos, a observar à distância as movimentações dentro e fora do Quartel. Munido de binóculos assistiu à saída e entrada de viaturas militares, assim como das forças da autoridade.
Felizmente, quarenta dias depois, a Revolução saiu mesmo à rua.
Militares vindos de várias regiões do país invadiram a Capital e ocuparam os lugares estratégicos da cidade. As dúvidas iniciais dos “Capitães de Abril” transformaram-se em certezas, graças ao apoio popular de milhares de pessoas, que surgiram de todos os lados, de uma forma completamente expontânea, para dar vivas à Revolução e à Liberdade.
Enquanto a multidão invadia a baixa e deixava o Largo do Chiado em estado de sitio, eu brincava no quintal da minha casa, satisfeito pelo “feriado” escolar inesperado. Assistia serenamente à troca de informações entre a mãe e uma vizinha, que não tiravam os ouvidos do rádio, que dava conta dos últimos desenvolvimentos (nessa altura já tínhamos televisão, mas as emissões deviam ter sido interrompidas, pois só me recordo da transmissão das notícias radiofónicas...) da Revolução.
O ponto alto desse dia acabou por ser a rendição de Marcelo Caetano e de todo o governo. Era o sinal mais da vitória dos Militares de Abril.
A minha mãe ficou bastante dividida nesse final de tarde, porque era uma das muitas espectadoras atentas às “Conversas em Família” do Marcelo Caetano, por quem tinha uma grande admiração, considerando-o um bom governante e um homem sério.
O meu pai, de espírito mais libertário, ficou bastante satisfeito com este desfecho. Acreditou firmemente na possibilidade de Portugal se tornar um país mais justo, tal como milhões de portugueses...
Uma das coisas que mais o chocava eram os constantes abusos de autoridade, praticados por quem detinha qualquer poder. Qualquer soldadeco da GNR ou agente de terceira da PSP, procedia como se fosse dono deste, ou de qualquer outro mundo. O pai tratava-os por “pançudos” e realmente, nessa época, eles eram todos bem anafados...
Como devem calcular, mais chocado ficava, quando sabia que alguém tinha sido preso ou interrogado, pelo simples facto de defender um Portugal mais livre e democrático.
Acabo como comecei, com as palavras de Sophia. Tenho algumas dúvidas que «esta é a madrugada que eu esperava», porque trinta e três anos não foram suficientes para nos termos tornado um país mais justo e igualitário. Claro que «livres habitamos a substância do tempo»... e a Liberdade continua a ser a herança mais preciosa da Revolução de Abril.»


Esta é a minha crónica, que consta no livro "25 Olhares de Abril", coordenado por Carlos Garrido (apresentado no próximo dia 29 de Abril, na livraria "CIrculo de Letras", em Lisboa), que me pediu para lhe contar como tinha sido o meu 25 de Abril, em 1974. Claro que é um olhar sem profundidade e sem mágoa, de alguém com onze anos, que pouco ou nada sentiu, os reflexos do salazarismo ou marcelismo. Limitou-se a ouvir falar. Mas o dia, foi assim...

quarta-feira, abril 23, 2008

Não Um, Mas Dez Livros Especiais...


(Continuação do "Largo da Memória"...)

Mais tarde ainda, antes de me cruzar com José Cardoso Pires no “Ribadouro” (e com o Fernando Lopes que adaptou o romance ao cinema, só podia ser ele...), li o “Delfim” e percebi um pouco melhor como se vivia antes de 1974, onde havia gente ligada ao regime, que era quase dona do mundo português...
Pelo meio fui transportado para a Margem Sul, onde conheço os “Bonecos de Luz” (novamente o cinema...) de Romeu Correia, que também se torna um amigo especial, e me apresenta Almada, de uma forma fascinante.
Desço um pouco mais para Sul e aparece-me, de mão beijada, “O Fogo e as Cinzas”, de Manuel da Fonseca, que me oferece um olhar especial sobre o Alentejo...
Já homem grande, ainda me consegui enternecer com a beleza das palavras de Luís Sepúlveda, em “O Velho que Lia Romances de Amor”...
O curioso em todas estas leituras, é a compulsão que sinto em ler, quase de seguida, toda a obra dos escritores que descubro e amo as palavras.
Bem... provavelmente, o melhor é ficar por aqui, tentar “desligar” a memória, antes que me apareçam mais livros e autores, a pedirem umas palavras, a recordarem-me o prazer com que li as suas “vidas de papel”...



Este texto tem dedicatória... é dedicado a uma senhora que talvez goste mais de livros que de gatos, a Isabel Castanheira, que me pediu um texto sobre um Livro da minha vida e recebeu mais nove...

terça-feira, abril 22, 2008

Dia da Terra

O meu avô dizia-nos, a mim e ao meu irmão, que era da Terra que nasciam todas as coisas...
Gostava de encher as mãos daquela terra castanha dos campos e deixá-la cair, por entre os dedos.
Nós olhávamos um para o outro e depois imitávamos o avô, com um sorriso nos lábios, a ver a como a Terra nos escapava das mãos...
Fico muito feliz por saber e sentir, que os meus filhos amam a Terra, em toda a sua plenitude. Gostam de brincar, de se sujarem na Terra, de tentarem perceber a origem das pequenas coisas...
Esta bonita paisagem, "Pombeiro", é da autoria de Alfredo Keil.

sábado, abril 19, 2008

Andar Perdido Dentro de Campo...

A nossa memória é tão selectiva... e recorda-nos coisas tão estranhas.
Foi o que aconteceu esta manhã, quando me recordei da coisa mais estranha que aconteceu, na minha curta carreira de futebolista...
Jogávamos em casa, no velho Campo da Mata contra um adversário que não recordo. Estava sentado calmamente no banco de suplentes, naquela que era a minha primeira época de juvenil, quando o treinador (qualquer coisa Reis...), olhou para mim e mandou-me aquecer para entrar no jogo...
Aqueci e depois a única indicação que recebi, foi: «vais marcar aquele gajo, vais andar sempre em cima dele e não o deixas tocar na bola.»
Entrei em campo e senti-me completamente perdido. A única referência que tinha no campo, era um jogador habilidoso e rápido, que tinha de perseguir e tirar-lhe a bola, se conseguisse... não tinha uma posição, um espaço.
Joguei pessimamente, completamente desenquadrado do jogo, andava ali, à procura de quase nada...
O treinador não falou comigo depois do jogo, mas percebi que não tinha gostado da sua opção...
A esta distância, sei que nenhum treinador devia pregar uma partida destas a um rapaz de quinze, dezasseis anos, sem lhe ter explicado antes, o que era isso da marcação "homem a homem"...

terça-feira, abril 15, 2008

O Mercado de Santa Suzana

Esta bonita foto de Jorge Almeida Lima - que nos deixou excelentos registos fotográficos sobre a região das Caldas da Rainha - é de 1913 e retrata o Mercado de Santa Suzana, uma das aldeias do Concelho.

Este mercado merece um realce especial, por ter conseguido ultrapassar o milénio, sem interrupções, continuando a realizar-se mensalmente, acho que ao primeiro domingo de cada mês, e a ser um dos maiores, senão o maior, mercado do Concelho, mesmo com a atenção e vigilância apertada da ASAE nos dias de hoje...
Adenda:
Não quis alterar o texto, mas ele tem um grande equivoco (esclarecido pela minha mãe...). Ou seja, fiz confusão entre o Mercado de Santa Suzana e o de Santana. Este último é que continua a realizar-se todos os domingos e é um acontecimento local. Não sei se ainda se realiza algum mercado em Santa Susana, sei sim que tinha uma grande romaria (e raparigas giras), que cheguei a visitar com amigos...
O seu a seu dono...

terça-feira, abril 08, 2008

Abril-Abril

Abril, quando é mesmo Abril, trás sempre a chuva numa das "mãos".
É por isso que este mês tem tanto de bonito como de chato, pois nunca sabemos muito bem com que roupa vamos sair de casa, no dia seguinte...
E na actualidade as coisas conseguem ser ainda mais estranhas, já que conseguirmos ter as quatro estações, num só dia...
Não deixa de ser giro, todos gostarmos da chuva, ou seja, do espectáculo da chuva. É por isso que preferimos, quase sempre, a protecção dos alpendres ou as janelas... não gostamos muito de quando ela cai, mesmo por cima de nós. E da combinação Chuva-Vento, óptima para guerrear e destruir os chapéus de chuva menos resistentes, nem se fala...
Mas não é por isso que deixo de gostar de Abril...

O "Efeito das Nuvens" é de Alfredo Keil.

sexta-feira, abril 04, 2008

Passeios à Procura do Verão...

Quando o calor aparecia antes do tempo, como tem acontecido nesta semana, era certinho o meu grupo de amigos, do Bairro dos Arneiros, fazer uma "excursão" à Foz do Arelho...
Com as nossas bicicletas, lá íamos nós, a cortar o vento, tão delicioso, que se fazia sentir na velha estrada, cheia de árvores e de sombras, em correrias tontas até à nossa praia...
Felizmente ainda não existiam tantos carros, sentíamos que a estrada era quase só nossa...
Levávamos quase sempre uma bola de futebol, para aquecermos para o banho nas águas frias no Mar, selvagem e resmungador, como tanto gostávamos...
Claro que também dávamos as primeiras braçadas, na Lagoa, mas mágico, era o mergulho nas ondas do Mar...
Era óptima a sensação de que éramos os "donos" da praia...

sábado, março 29, 2008

Ainda a Primavera...

Não sei explicar muito bem porquê, mas sempre me lembro de gostar de me deitar na vegetação dos campos largos, quase abandonados, quase a "milhares" de quilómetros da civilização.
O ritual é sempre o mesmo, tento ficar quase invisível, quieto e em silêncio, com o olhar preso ao céu e às nuvens que passam lentamente. Depois começo a absorver os sons e os cheiros naturais, sentindo toda aquela vida, povoada de pequenos animais que voam e circulam por ali e de inúmeras plantas, cada vez com mais nitidez...
Os grilos, as abelhas, as cigarras, os pardais e as andorinhas, são quem mais se faz ouvir, numa sinfonia única...
Os perfumes campestres misturam-se e enchem-me as narinas, com a mistura do rosmaninho, dos malmequeres e tantas outras plantes silvestres...
É tão bom sentir que o "tempo" nos campos é diferente do "primo" chato das cidades, que nos faz correr, de um lado para o outro, presos aos minutos e segundos, atrás do "nada".
Até parece que ele pára, por breves minutos...
A Paisagem é de António Ramalho...

quinta-feira, março 20, 2008

A Primavera

A Primavera sempre foi a estação do ano mais bonita e prometedora.
Os campos ficam mais verdes, floridos e musicados, com o chilrear dos pássaros de múltiplas cores e voos, que regressam sempre, de viagem.
O mar também fica mais azul, assim como o céu (muito mais estrelado à noite, longe da claridade das cidades)...
Os dias começam a crescer, como se o tempo nos oferecesse "tempo"...

O quadro, "Dar de Beber a Quem Tem Sede", é do caldense, José Malhoa...

quarta-feira, março 19, 2008

Uma Manhã de Domingo Diferente...

Às vezes ponho-me a pensar, nas coisas que herdei do meu pai. Nem tudo são "rosas", mas sei que a força de carácter, assim como a teimosia e alguma rebeldia em relação à sociedade, quase sempre demasiado castradora, vieram dele.
No entanto penso, que a coisa mais marcante que recebi dele foi o seu sentido de justiça e igualdade social. Foi bom sentir desde muito cedo, que somos todos iguais. Podemos ser ricos, pobres, brancos, pretos, grandes, pequenos, etc, mas temos (ou devíamos ter...) os mesmos direitos e deveres cívicos. Ele nunca quis ser mais que ninguém, mas também nunca quis ser menos...
Eu também sou assim.
Lembro-me muitas vezes de uma manhã de domingo, em que ele me levou à caça, rente ao nosso bairro, com a "flober" (uma arma de caça de cartuchos mais pequenos...). Graças a um pequeno incidente, percebi (sem perceber muito bem na época, devia ter seis, sete anos...) até onde chegava a "pseudo-importância" e a tentativa de intromissão na vida dos outros, de alguns sabujos...
Um sujeito resolveu implicar com o meu pai, armado em "polícia", ao ponto de chegar a ameaçá-lo, por o meu pai se recusar a identificar e a mostrar-lhe a licença de caça, já que este também não se identificou. O meu pai nunca baixou a cara, enfrentou-o sempre, olhos nos olhos. A partir de certa altura fiquei com medo, porque o outro tipo já falava em prisão...
As coisas acabaram por ficar por ali, porque o pai, disse-lhe que tinha mais que fazer que aturar "gente de merda" e virou-lhe as costas. O outro, furioso, continuou com as ameaças, que aquilo não ia ficar assim, etc.
Como o pai percebeu que eu estava assustado, animou-me, dizendo que aquilo não era nada, que quando crescesse ia descobrir que o mundo estava cheio de gajos que tinham a mania que eram "polícias". E para me fazer sentir importante, colocou a sua cartucheira cheio de pássaros à minha cintura, para que entrasse em "glória" no nosso bairro...
Quando se deu o 25 de Abril, soube de fonte segura, que o fulano que nos tinha importunado era informador da PIDE...
O meu pai já sabia disso naquele domingo de manhã, mas nem por isso, se mostrou assustado. Antes pelo contrário, deixou bem patente o asco que tinha a gente da sua laia...

Escolhi este desenho de José Malhoa ("O Emigrante"), porque reconheço nele, muito do que o meu pai foi, e eu também sou, sem qualquer tipo de complexos, um homem dos campos da liberdade. A cidade "asfixiante" é um acidente de percurso...

sábado, março 15, 2008

A Pocinha de Salir

A última vez que fui às Caldas, apeteceu-me visitar Salir do Porto.

O dia estava bonito e sem saber explicar muito bem porquê, resolvi ir ver se a "Pocinha de Salir" ainda existia...
Estou a falar de uma nascente de água doce (e "milagrosa" para muitos males, como manda a tradição...), que nasce colada com o Oceano, que nunca é muito violento na "concha" de São Martinho.
Andei umas centenas de metros entre a areia que ladeia o rio salir e as pedras já atlânticas e lá descobri o pequeno tanque, depois das ruínas de uma fortificação, que foi de muita gente (inclusive de piratas - estas lendas...). Já não visitava aquele lugar há uns bons trinta anos, pelo que, tudo me pareceu demasiado pequeno...
Bebi um pouco de água, para sentir se ainda conservava o gosto, que chamamos, doce.
Conservava. Felizmente continua sem sal, e porque não, milagrosa?...

quarta-feira, março 12, 2008

O Caldas Deixou de Ser Um Doce...

Se há coisa que me faz impressão, é a forma como as Caldas e os caldenses, estão a tratar o seu clube mais emblemático, o quase centenário Caldas Sport Clube.
Eu sei que o futebol já deixou, há bastante tempo, de ser a "missa" dos domingos à tarde. Foi desviado para quase todos os dias, em nome dos interesses da televisão privada de cabo e dos famosos manos "oliveirinhas"...
Também sei que o "saco azul" de Felgueiras, fez com que os autarcas, que faziam questão de ser os presidentes das mesas de assembleia geral (não é Costa?), batessem em demandada e cortassem com os "subsídios a fundo perdido", que lhes dava a ilusão da auto-suficiência...
Por causa disso andam nos distritais e desapareceram, ou mudaram de nome vários históricos do futebol português (Farense, Montijo, Salgueiros ou Académico de Viseu).
Não queria que o Caldas desaparecesse, mas parece que já ninguém quer ser presidente do clube. Ainda menos agora que é o lanterna vermelha da série C da II divisão B...
Nunca a velha expressão (ainda dos tempos da última época da primeira divisão...), «estás arrumado como o Caldas», fez tanto sentido.
Claro que os jogos deprimentes que nos são oferecidos (estou a pensar no Benfica...) e o facto de mais de metade dos profissionais da primeira divisão serem estrangeiros, não são bons sinais para o futuro do ainda famoso "desporto-rei"...
Gostava de acreditar, que é possível dar a volta a esta crise, mas parece que não existem vontades nas Caldas...

terça-feira, março 04, 2008

As Lojas de Aldeia

As lojas das aldeias eram bastante parecidas com as "grandes superfícies comerciais" de hoje, se esquecermos os espaços exiguos...

Vendiam um pouco de tudo, eram um misto de tabernas, mercearias, drogarias, retrosarias, papelarias, grémios agricolas, etc.
Muitas vezes até tinham objectos pendurados cá fora, para chamar a clientela, sedenta de novidades, transportadas da cidade, Até uma simples vassoura, diferente das artesanais, ou um chapéu de palha, para usar nas fazendas, cheiravam a novidade...

sábado, março 01, 2008

Março


Nunca percebi muito bem porquê, mas a avó, sempre chamou a Março o mês dos burros...

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Uma Fotografia, Várias Histórias

Estava à procura de uma fotografia, quando encontrei várias imagens das Caldas da Rainha, já com uns anitos.
A que me chamou mais a atenção foi a que tirei ao interior do Salão do antigo Casino do Parque, mais tarde Casa da Cultura da Cidade.
Nota-se que é uma fotografia de Outono, com o chão forrado a folhas douradas, das árvores seculares do Parque D. Carlos I.
Ao olhar para a fotografia, além do ar desolador, que se nota em cada milimetro da imagem, fixei as banheiras enormes que por ali cirandavam, meio perdidas.
Só podiam ser as banheiras do Hospital Termal, onde na minha meninice, tomei bastantes banhos de imersão, porque faziam bem à saúde. Aqueles banhos eram (e se calhar ainda são...) quase como as pomadas de "banha da cobra", vendidas nos mercados, faziam bem a quase tudo. A sua terapêutica recomendava-se para as doenças de pele, doenças respiratórias, entre outras maleitas, com nomes mais técnicos.
Eu só tinha direito a estas "borlas" de imersão, porque a minha mãe foi durante largos anos funcionária do Centro Hospital de Caldas da Rainha...
Não sei se as coisas estão iguais por aqueles lados, se as "ruínas" apresentam o mesmo ar desolador. Calculo que sim.
Nem sei como consegui tirar a fotografia, pois hoje existe um "muro", que esconde esta vergonha (os muros escondem quase sempre vergonhas...) e o desaproveitamento de um edifício histórico, que guarda tantas histórias, dentro da própria história da então vila termal, entre os finais do século XIX e a primeira metade do século XX...

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Rugas...

Gosto de rugas.
Daquelas rugas que significam vida, que são o mapa de uma caminhada desigual pela estrada, que nos trás e nos leva daqui...
Claro que não tenho nada contra as pessoas que disfarçam ou tentam esconder as rugas. Nem tão pouco percebo porque continua a existir uma dualidade tão grande nos critérios estéticos definidos pela sociedade, entre homens e mulheres. Embora as coisas comecem a mudar (a barriga dos homens por exemplo está a começar a deixar de ser sexy...), a mulher perde com mais facilidade a batalha da beleza, porque lhe exigem que esteja sempre apresentável. É por isso que é uma maior cliente dos cremes de beleza, das operações estéticas e de outros truques usados. E claro, não podemos esquecer a questão económica, pois há cada vez mais gente a viver deste negócio da "beleza"...
Mas não gosto dos exageros. Tal como não gosto de mulheres de bigode, também não gosto dos quadros de pintura ambulantes, que circulam aqui e ali...
Gostava das rugas da minha avó, tal como gosto das rugas da minha mãe...
Mas não escondo que há aqui, neste ponto de vista, ares sexistas ou até machistas. Não me lembro de olhar para as rugas do meu avô ou do meu pai, da mesma forma que olhava para as da avó e olho as da mãe. Embora existissem, não dava por elas...
A única coisa que sei, é que gosto de rugas...
A fotografia é de Augusto Rocha Soares.

sábado, fevereiro 16, 2008

Claro, a Maria Callas...

Esqueci-me da Maria Callas, Alice...
Chamam-lhe a voz do século (XX). E têm razão...
É a voz mais perturbante que já ouvi. Consegue entrar dentro de nós, tal é a intensidade vocal das suas interpretações.
Nunca superou a separação do grego Aristotle Onassis, que a trocou por Jackie Kennedy.
Um dia disse: «A felicidade não é o meu mundo. Há pessoas que nasceram para ser felizes e outras que nasceram para ser infelizes. Eu, simplesmente, não tive sorte.»

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Bailes Longe da Paróquia...

Nunca fui grande frequentador de bailes, até porque na minha adolescência, as discotecas já começavam a ganhar aos pontos aos espaços dançantes aos pares. A "Green Hill", o "Ferro Velho", o "O Inferno da Azenha" (tinha escrito Azenha do Inferno, mas não me soou tão bem...) e outra discoteca na Foz do Arelho, um pouco antes do "Facho", que teve tantos nomes, que não me lembro de nenhum em especial...

Antes desta fase apareceram as primeiras festas particulares, de aniversário ou apenas festas dançantes, especializadas em músicas lentas, onde tive os primeiros contactos com as curvas das miúdas e aprendi a dançar as "valsas lentas" com namoradas ou simples amigas, que também aproveitavam estes jogos para a longa e complexa aprendizagem do amor...
As músicas? Pois... nestas valsas lentas, raramente faltava o clandestino "Je T'Aime Moi Nou Plus", de Serge Gainsbourg e Jane Birkin.
Mas a grande descoberta da minha adolescência foram, sem qualquer dúvida, os "Pink Floyd", com todas aquelas viagens quase cósmicas, sem a ajuda de qualquer tipo de droga, leve ou pesada, que ainda hoje gosto de ouvir...
Depois havia uma longa lista, de músicas e músicos...
Mas agora prefiro referir apenas os de cá, os especiais que sempre gostei, desde a adolescência. O Sérgio Godinho, o Zeca Afonso, o Fausto e o Vitorino. Não me lembro de uma voz feminina portuguesa que me tocasse...
Na minha adolescência ainda não havia Rui Veloso, mas já havia rock português. Lembro-me de ter assistido a concertos dos "Tantra", "Arte & Ofício", "Ferro e Fogo" e até dos UHF, a primeira banda rock, que ouvi cantar em português, acho que em 1978, numa passagem de ano, realizada no ginásio da Escola Rafael Bordalo Pinheiro.
Não, não gostava de fado. Na época era proibido aos adolescentes da minha geração gostarem de fado...
Obrigado Maria e Sininho, por me fazerem recordar estas e outras músicas...
A imagem que ilustra este texto é do álbum histórico dos "Pink Floyd",
The Dark Side Of The Moon, de 1973...

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Os Bibes Brancos da Primária

Todo este "rebuscamento" ao passado de Sócrates, fez com que me recordasse (num comentário que fiz sobre o tema na blogosfera) do tempo dos bibes brancos que usávamos na escola primária.

Não me lembro bem como funcionava toda esta história dos bibes, mas tenho impressão que os deixávamos na escola e que só eram utilizados na sala de aulas.

Não sei se os levávamos para o recreio. Mas se isso acontecia, deviam ficar bonitos...

E claro, na escola primária do Bairro da Ponte (em frente da estação da CP) ainda apanhei as separações por sexo. Havia um pequeno muro que fazia de fronteira, entre a escola das meninas (não sei porquê, mas elas sempre foram mais meninas que raparigas...) e a escola dos rapazes.

Só quando entrei para o ciclo preparatório, com o advento da Revolução, é que as turmas passaram a ser mistas...

A fotografia é de Eduardo Gageiro, do livro "Estas Crianças Aqui", de que é co-autor com Maria Rosa Colaço.


sexta-feira, fevereiro 01, 2008

O Meu Amigo Buiça

Durante o ciclo preparatório e o ensino secundário, nas Caldas, tive como companheiro de turma e amigo de mil e uma brincadeiras, João Buiça.

Recordo-me, que numa das vezes que visitei a sua casa, ele mostrou-me um jornal antigo, com algum orgulho. Tratava-se de um exemplar de "O Século" ou o "Diário de Notícias" (penso que era "O Século", mas não tenho a certeza...), de 2 de Fevereiro de 1908, em que era noticiado o regicídio de D. Carlos, Rei de Portugal.
Ele era nada mais nada menos que bisneto de Manuel Buiça, o autor do tiro fatal, de carabina, que atingiu sua alteza real.

Como devem calcular, com os meus onze, doze anos, adorei ouvir aquela história...

Em conversas posteriores vim a saber da perseguição que foram vitimas, durante bastante tempo, inclusive no Estado Novo. Os Buiça só se sentiram verdadeiramente livres, depois da Revolução de Abril.

Esta ilustração, onde se vê Manuel Buiça a disparar a carabina, foi publicada no jornal francês, "Le Petit Journal", após o Regicídio.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

António Duarte e a Arte Caldense


António Duarte é uma das principais referências artísticas das Caldas da Rainha.

Em boa altura o Município Caldense decidiu criar o Centro de Artes das Caldas, que engloba o Atelier-Museu António Duarte, onde podemos encontrar alguns dos seus trabalhos escultóricos mais significativos, em bronze, pedra e gesso.

Se estivesse entre nós, António fazia hoje a bonita idade de 96 anos...

Se gostam de Arte, quando visitarem as Caldas, não percam a oportunidade de visitar o Centro de Artes, onde também estão instalados o Museu-Atelier João Fragoso e o Museu Barata-Feyo.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Segredo dos Famosos


Não fazia ideia que havia uma rúbrica com este nome na revista de domingo do "24 Horas".
Muito menos que um comentário da jornalista Vânia Custódio, na caixa das "Viagens" iria proporcionar a minha colaboração neste trabalho sobre o José Fragoso, actual director de programas da RTP.
Tudo começou com o "post" que escrevi aqui sobre a minha passagem pelas camadas jovens do Caldas Sport Clube, acompanhado de muito boa gente, como o José Mourinho e o José Fragoso...
A reportagem aí está (cliquem para ler...).
Gostei do trabalho da Vânia...

sábado, janeiro 26, 2008

O Jardim Interior

Um dos espaços onde costumávamos brincar na casa da avó, especialmente quando estava mau tempo, era uma espécie de jardim interior, que nos permitia estar em contacto com o sol, com a chuva e com as nuvens, protegidos por um telheiro...

Era um ponto de passagem quase obrigatório, pois convergia com um dos páteos, com a casa do tio João, com o palheiro do sotão e também com a chamada "casa velha", onde se guardavam velharias...
Debaixo do telheiro, encostada à parede, estava um arca enorme de madeira, onde se guardava o trigo, que se trocava por farinha, na moagem da aldeia. O seu tampo (na altura, enorme...) era quase sempre ocupado pelos nossos carros, onde inventávamos mil e uma brincadeiras...

A pintura surrealista que acompanha este texto (também ele, para o surrealista...) é do italiano Giorgio De Chirico...

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Os Colchões de Palha da Casa da Avó...


Sem saber explicar muito bem porquê, lembrei-me dos colchões de palha da casa da avó, presentes em todas as camas onde dormíamos...
Para os nossos filhos, é mais uma daquelas histórias, quase inverosímil. Colchões para eles, só os de molas...
Na minha infância a a sua existência era tão natural, que nem sequer os comparava com os da nossa casa, na cidade.
Quando chegávamos, no começo das férias grandes, a avó tinha acabado de mudar as folhas secas (penso que de milho...) e os colchões ficavam mais altos. Era uma delícia mergulhar naquela palha e fazer buracos, aqui e ali, com as marcas do nosso corpo...

Não faço ideia se ainda existem destes colchões, mas acredito que sim. Ainda se devem encontrar alguns exemplares nas aldeias mais afastadas do progresso e deste mundo que gira em volta das televisões...

Escolhi o óleo, "À Sombra", de José Malhoa, para ilustrar o texto.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

«Dá-lhe! Dá-lhe!...»

O meu filho quis ir ver um jogo de juvenis do Beira Mar, o clube mais próximo da nossa casa, para ver jogar o Miguel Arcanjo (que já foi nome de craque, nas Antas...), nosso vizinho, que quer ser craque a sério, com o apoio e o orgulho do pai, talvez com a esperança de ter uma velhice mais calma...

O campo sintético ainda não tem bancadas, pelo que assistimos ao jogo no "peão".
Quase ao nosso lado, o progenitor de um dos jovens, não parava de "incendiar" o jogo, com a frase: «Dá-lhe! Dá-lhe!...». Percebi quem era o rapazola, porque olhava de lado para o pai, envergonhado pela sua tentativa de se meter dentro da partida.
Esta expressão irritante, que me fez mudar de lugar, levou-me à infância, aos jogos de rua, em que raramente havia assistentes. Aliás o único assistente que me lembro de ver, era o protagonista da história que vou contar, pai do Sérgio, um rapaz fraquito e sem grande talento. O homem já devia sonhar, com a existência de craque lá em casa...
Quando este perdia a bola (era quase sempre...) lá estava o senhor, de bigode eriçado, empoleirado na varanda, a gritar: «Dá-lhe! Dá-lhe!...» E o Sérgio, sem saber o que fazer, já que era a bola que lhe fugia dos pés, a maior parte das vezes...
Nós olhávamos uns para os outros, com um sorriso malandreco, gozando o prato...
Claro que o senhor, nunca mais deixou de ser o «Dá-lhe! Dá-lhe!...», para a malta da rua...

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Os Carros de Madeira

Os carros de madeira, que os os tios, Zé e Arcelino, faziam para nos transportarem, a mim e ao meu irmão, ainda bem pequenotes, pelas ruas de Salir de Matos, são uma das primeiras boas recordações que tenho da minha Aldeia...
Recordei-os com um sorriso, quando olhei o óleo de Júlio Pomar, "O Carro na Calçada".
Às vezes acontece.
Uma simples fotografia ou um quadro, são o suficiente para nos levarem de viagem até ao passado...

quarta-feira, janeiro 09, 2008

As Guerras de Balneário...

A recente zanga entre Luisão e Katsouranis, fez-me recordar a diferença de ambientes que existe entre o futebol e as outras modalidades desportivas.
Quando joguei futebol nos iniciados e juvenis do Caldas, notei logo que existiam pequenos grupos, graças a algumas vedetinhas que já manifestavam o desejo de dividir para reinar. Além disso, nem todos éramos amigos, alguns de nós só nos encontravamos nos treinos e jogos, devido à projecção do clube, que ultrapassava a própria cidade...
Depois de ter andado uns tempos dividido, acabei por me decidir pelo atletismo, no Arneirense. Foi o melhor que fiz, porque no clube do meu bairro, éramos todos bons amigos. Havia uma relação muito forte entre treinador, dirigentes e atletas, funcionávamos quase como uma família.
Anos mais tarde, já como jornalista, contactei desportistas de todas as modalidades. Percebi que grande parte deles (alguns dos quais campeões do mundo e da europa) eram muito mais humildes que qualquer jogador de futebol da terceira divisão.
E eram terrivelmente injustiçados pela comunicação social, que só se lembrava deles quando eram campeões da europa, do mundo ou ganhavam uma medalha olímpica...
Hoje as coisas continuam iguais. No futebol, passa-se tudo ao contrário, qualquer miúdo que suba aos seniores do Benfica ou do Sporting, é logo colocado no Olimpo, mesmo sem ter provado nada. É sempre catalogado como o novo qualquer coisa. Muitos acabam por não aguentar a pressão, e adeus sonho bom, de craque da bola...
Voltando aos balneários, é raro o clube que consegue funcionar sem grupos e sem "guerras" entre as várias "tribos" do futebol que fazem parte do plantel. Muitos não se falam nem se cumprimentam e só passam a bola dentro de campo, se não existir outra alternativa. Chamam nomes uns aos outros no balneário, nos treinos, nos jogos, e por vezes, chegam mesmo a vias de facto, como todos nós sabemos.
Se neste Benfica actual, além da "tribo" portuguesa, existe ainda a brasileira (sempre numerosa e influente...), a argentina, a africana, a grega, a alemã e a paraguaia, torna-se extremamente difícil gerir estas culturas talentos e línguas, tão diversificadas, mesmo com um grande lider no comando da equipa...
Claro que o mal maior, está na própria cultura futebolística, que tanto idolatra como destroi, jogadores e treinadores, esquecendo que eles não são de barro nem de plástico, são pessoas, como nós...
Esta fotografia é dos anos cinquenta e mostra-nos Matateu a driblar um jogador do Caldas, no Campo da Mata, durante a passagem do clube pela primeira divisão.

domingo, janeiro 06, 2008

Luiz Pacheco no Oeste...

Luiz Pacheco escolheu a véspera do dia de Reis para partir, ele que sempre foi um desalinhado, preferindo sempre a "corte" dos marginalizados, à "cúria" dos hipócritas, que sempre vegetaram (e vegetam...) nos meios culturais deste curto país...
Luiz Pacheco passou pelas Caldas da Rainha nos anos sessenta. Não foi uma passagem invísivel, como muito bem nos conta João B. Serra, no seu livro de crónicas dos anos 50/60, "Continuação":
«[...] Chegou às Caldas, vindo de Setúbal, no final do ano de 1964. Hospedou-se no Hotel Lisbonense, enquanto procurava condições para instalar a família. Em Dezembro, quando editou o panfleto O Cachecol do Artista, indica já como morada a R. Rafael Bordado Pinheiro, 2 , r/c. [...] Dispunha de um curriculum apreciável quando aportou às Caldas, como editor, como tradutor e como observador crítico da vida literária e artística portuguesa. Os traços da sua personalidade intelectual estavam definidos: discernimento e ousadia raros como editor, irreverência contundente como comentador, independência e lucidez incómodas como crítico. [...]»

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Ano Novo, País Velho

Ontem cruzei-me com uma senhora açoreana, que já deve andar próximo das oitenta primaveras e que já não via há meses.
Pela dificuldade em andar, mesmo com o auxilio da bengala, percebi o motivo...
Recordei-me da existência de uma espécie de antecâmara da morte, que nos vai toldando os movimentos e manietando, a pouco e pouco, o dia a dia. Obriga-nos a reduzir as saídas de casa, até deixarmos de sair, quase definitivamente. Começamos a querer ficar até meio da manhã na cama até ficarmos por lá, quase o tempo todo, mais que preparados para que a "coisa negra" passe e nos leve...
Costumávamos frequentar o mesmo café. Lembro-me dela desde sempre, tinha uns gostos um pouco exóticos, na maneira de vestir, de se maquilhar e até de tomar o pequeno almoço, embora fosse sabiamente compreendida pelos senhores, Manuel e Inácio, empregados de mesa.
Só trocávamos bom dia e boa tarde, embora uma vez me surpreendesse, dizendo que tinha gostado de ler um dos meus livros...
Tal como ela, todos os anos desaparecem rostos familiares das mesas do "Repuxo". Este ano o número deve aumentar, com a demasiado saudável, proibição de fumar, nos cafés e restaurantes...

O desenho é de Jorge Barradas...

segunda-feira, dezembro 31, 2007

A Passagem de Ano

O Natal sempre foi mais importante que a Passagem de Ano, na minha familia. Ainda hoje é assim.
Como era normal na época, só na adolescência é que comecei a comemorar a passagem de ano fora de casa. Lembro-me de algumas festas de garagem com amigos próximos, em que as miúdas tinham recolher obrigatório, logo após as doze badaladas, de alguns bailes no hotel Lisbonense, nos Pimpões, na Columbófila e também no ginásio da Escola Rafael Bordalo Pinheiro. E claro, de algumas visitas a discotecas caldenses, como o histórico "Ferro Velho", o "Inferno d'Azenha" ou a "Greenhill", na Foz do Arelho.
Como praticava desporto, não usava e abusava do álcool, muito menos de outros "desinibidores" mais perigosos...
Talvez seja por isso que não me recordo de nenhuma passagem de ano com um gosto ou história especial.
Isso não quer dizer que entenda a Passagem de Ano, como mais um dia que vem aí, a seguir ao outro. Mesmo sem ter o hábito de me colocar em cima de cadeiras ou bancos a abanar notas ou bater tampas de panelas à janela, acredito que o amanhã pode ser melhor que hoje...
É por isso que há sempre desejos que ficam no ar, quando ecoam as doze badaladas...
Este ano não vai ser diferente, de certeza que vou desejar um ano melhor para mim e para os meus familiares e amigos.
Com a antecipação de algumas horas deixo-vos aqui, nas "Viagens", o desejo de que 2008 seja um excelente ano para todos vós.
Apesar das "nuvens" que nos rodeiam, é sempre bom acreditarmos que o amanhã pode ser melhor que hoje...

Ofereço-vos também "O Baile do Moulin de la Galette" de Renoir...

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Os Pavilhões do Parque

Os velhos Pavilhões do Parque já foram tanta coisa e hoje são quase nada...
Num tempo em que nem sequer se falava de bibliotecas municipais, era a Fundação Calouste Gulbenkian que patrocinava a leitura em todo o país, nas principais cidades com bibliotecas normalizadas e nos meios mais pequenos com as suas carrinhas-bibliotecas, que eram a alegria de tanta rapaziada, nas aldeias e vilas deste país...
Li muitos livros desta biblioteca, que ficava no piso inferior dos pavilhões...
Mais tarde frequentei o Liceu (mais tarde Escola Secundária Raul Proença) nos mesmos pavilhões...
Bons tempos...
Não sei qual será o seu futuro, nem tão pouco, se têm futuro.
Mas são enormes e têm um passado riquissimo, ao serviço da Cidade das Termas...

sexta-feira, dezembro 21, 2007

A Vila Natal de Óbidos

Já devia ter escrito há mais tempo sobre a Vila Natal de Óbidos, mas o tempo foi passando e...
Estive por lá no passado sábado e embora reconheça que a Vila Natal está bonita e é uma grande ideia para Óbidos e que deve deixar toda a gente feliz, especialmente os comerciantes locais... há por ali ambição a mais para um espaço tão pequeno (interior da Cerca do Castelo e da própria vila), sem capacidade para acolher tanta gente.
Como eu não pertenço ao número (pelos vistos grande...) de pessoas que gostam de estar rodeados de milhares de pessoas, quase sem se conseguirem mexer, não me senti muito confortável naquele lugar, apesar da sua inegável beleza...
Já tinha sentido aqueles "apertos" no Festival do Chocolate, pelo que sabia ao que ia...
Talvez Telmo Faria e a sua engenhosa equipa de trabalho merecessem uma cidade maior e mais espaçosa.
Pior deve ter sido no domingo, pois quando regressava à Capital, a fila de carros na A 8, era bem visível, ainda antes da saída da auto-estrada, o que não acontecera no sábado...
Claro que com tanta confusão, é impossível fruir de todas as ofertas que fazem parte do bilhete, ou seja, em bom português, pagamos e ficamos mal servidos...

quinta-feira, dezembro 13, 2007

O Natal Neste Nosso País...

Pode soar estranho, mas cada vez gosto menos deste Natal, que nos impingem de todas as maneiras e feitios.
Irrita-me que sejamos reféns desta obrigação de comprar presentes, esquecendo a canção (que infelizmente não passa mesmo de uma canção, de que o Natal é todos os dias ou que o Natal é quando um homem quiser.
Irrita-me que de repente apareça muito mais gente a sorrir e se prepare para ajudar os pobrezinhos, nas vésperas da data festiva, apenas porque é Natal e fica bem (nem que seja só para a televisão...), embora não esqueçam os desinfectantes e os cremes, porque o "povo" sem abrigo fede.

A única coisa que sobra nesta quadra são as crianças, que ainda mantêm uma capacidade, quase ilimitada de sonhar, e é para elas que o Natal continua a fazer sentido...
Imagino o quanto importante é para um menino pobre, cujos pais (e deve haver tantos por este país fora, inundado pelo desemprego...) não têm possibilidade de lhe oferecer um presente, que seja um brinquedo, e não a peça de roupa tão necessária, receber algo que lhe ofereça grandes momentos de diversão, ao contrário dos nossos filhos, cuja magia de Natal dura pouco mais que os minutos que demora o abrir as prendas e o olhar para elas (algumas das quais, nem sequer chegam a brincar uma única vez...).
É por isso que neste Natal, a maior prenda que gostava de receber, embora saiba que é um daqueles presentes impossíveis, iguais aos que enchem a imaginação dos meninos pobres, era descobrir que o nosso país estava a fazer uma inversão política e a tornar-se, de novo mais justo e mais igualitário.
Digo isto sem qualquer hipocrisia e sem fazer parte deste ou doutro espírito natalício. Este presente faz parte sim do espírito humano, em que todas as pessoas deveriam ter os mesmos direitos e as mesmas oportunidades.
O mais grave disto tudo é saber que nunca surgiu nada de bom nos países onde o fosso entre ricos e pobres, vai aumentando, dia para dia, como é o caso deste nosso Portugal, cada vez mais capitalista... e onde se ignora o reflexo das sociedades excessivamente liberais e materialistas: o aumento da revolta, da violência, do desamor, da miséria, do vício, da corrupção, etc.

É uma pena descobrir que neste país, é cada vez menos Natal, apesar das ruas estarem mais iluminadas, fazerem-se mais festas e distribuírem-se mais presentes...

terça-feira, dezembro 11, 2007

Caldas: Que Cidade Cultural? (2)

No texto anterior tinha-me ficado pelo Rafael, considerando-o mesmo a maior referência cultural da cidade, apesar de não ser natural da cidade nem ter tido uma passagem muito longa pelas Caldas.
Isso deve-se ao facto de ter tido uma passagem revolucionária pela indústria cerâmica caldense, que ainda hoje se revê, orgulhosamente, na arte deste grande cidadão do mundo.
Claro que a secundarização dos outros grandes vultos da arte caldense (Malhoa, Duarte e Fragoso), também está em parte ligada ao ditado de que santos da terra não fazem milagres.
Na actualidade não noto que exista algum acompanhamento privilegiado a artistas como Gomo, João Paulo Feliciano ou Mário Feliciano, apesar de serem reconhecidos nas suas áreas, mesmo a nível internacional.
Claro que isto não é típico das Caldas, passa-se um pouco por todo o lado e faz parte dos "catrapázios" da sabedoria popular. Pelo que, paciência...
O que é penoso é não se notar a existência de qualquer política local no aproveitamento das condições naturais e materiais que existem actualmente na cidade.
Todos sabemos que é tão importante (ou mais) educar e sensibilizar a população (especialmente a estudantil...) para o mundo das artes e letras como construir museus. E neste último campo o que existe é de uma riqueza extraordinária (quantas cidades não gostariam de ter os espaços museológicos da cidade...).
Pergunto: estes lugares cumprem os seus objectivos? As escolas do concelho, de todos os níveis de ensino, levam os alunos aos museus, mesmo que de uma forma lúdica?
Não tenho certezas, mas acredito que não se faça esse aproveitamento, porque as Caldas é tradicionalmente elitista...
O mais estranho é que, apesar de ter gasto algumas palavras sobre esta temática, continuo com dificuldade em classificar a cultura na minha cidade natal...
Pelo que o melhor é mesmo encerrar esta questão...

sábado, dezembro 08, 2007

Caldas: Que Cidade Cultural? (I)

Perguntaram-me que espécie de cidade, eram as Caldas da Rainha, em termos culturais.
A primeira frase que me ocorreu foi: «não sei.»
Era uma pergunta das difíceis, porque a cidade continua a não ser muito fácil de caracterizar, apesar de possuir excelentes casas de artes.
O pior da cidade é continuar muito fechada e conservadora e isso tem sempre o seu preço.
Desculpei-me que não era a melhor pessoa para falar da cultura caldense, porque estava fisicamente afastado há pelo menos duas décadas, e só sabia do que se passava, pela imprensa regional.
Mas lá fui falando, descobrindo aqui e ali, pontos positivos e negativos.
O aspecto mais negativo (para mim, claro) foi o fecho do histórico Casino do Parque, mais tarde Casa de Cultura, onde se faziam coisas muito importantes e onde estava sediado o Teatro da Rainha (que felizmente voltou...). Esta história nunca foi bem contada, mas havia uma grande “dor de cotovelo” dos sociais democratas instalados no poder (ainda lá estão, os malandros...), perante a sensibilidade e capacidade de trabalho cultural dos “esquerdistas”, “comunas”, “drogados”, “vagabundos”, etc. A forma de destruir aquele trabalho, demasiado visível, foi inventar umas obras, piores que as da Santa Engrácia... como todos os caldenses sabem...
O aspecto mais positivo que referi foi a instalação da ESAD (Escola Superior de Arte e Desenho), que mudou bastante as coisas, pelo menos no campo das artes plásticas. Trouxe gente nova que conseguiu baralhar as cabeças “velhas” da gente instalada no poder, que tiveram de aceitar uma série de “modernices” a abrir algumas galerias de arte, aqui e ali.
Quando se falou de pessoas lembrei-me de Bordalo Pinheiro, de José Malhoa, dos escultores António Duarte e João Fragoso, e senti que Bordalo continua a ser a presença artística mais viva, apesar de ser o único que não nasceu na cidade e que até teve uma passagem mais curta e há mais tempo na cidade termal...
E nem estava a pensar na “louça malandra”...

Este desenho de Bordalo com dedicatória a todos os caldenses, assenta que nem uma luva neste texto...
(continua...)

segunda-feira, dezembro 03, 2007

O Homem do Apito

Por hoje ser um dia especial, vou falar de um arrumador de carros, sempre munido de boné de pala e de apito, que costumava trabalhar no largo do Hospital Termal, nas Caldas da Rainha.
Estava longe de ser uma pessoa simpática e coxeava, arrastando uma das pernas.
Nunca soube o seu nome.
Sei, que nós, durante a meninice, gostávamos de lhe oferecer vários mimos e de nos escondermos atrás dos carros, a ouvir a sua habitual reacção.
Ele quando ouvia a palavra «coxo», ficava fora de si, olhava para todos os lados e oferecia impropérios a quem por ali passasse, que eram a nossa alegria...
Traquinices de infância, de um tempo que não volta...

Espero que estas palavras não soem a mau gosto, por hoje se comemorar o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. Retratam a realidade e também a maldade que existe dentro de nós, desde pequenotes...
O pior de tudo, é trinta e tantos anos depois, continuarmos sem saber lidar com as pessoas diferentes...

segunda-feira, novembro 26, 2007

David & Golias

Colocando de parte alguma baixaria política na guerra de poderes cor de laranja, não posso deixar de tirar o chapéu ao "alcaide" da vila de Óbidos, que, graças à sua clarividência e acção, tem conquistado pontos à cidade vizinha, presidida por mais um "dinossauro", igual a tantos outros, que se habituaram ao poder e não conseguem viver sem ele - mesmo que já tenham ultrapassado o prazo de validade como autarcas -, como se de uma droga se tratasse...
Estou a falar de Telmo Faria e de Fernando Costa, claro.

Mas não deixa de ser estúpido andarem com o passo trocado, há vários anos, não aproveitando a beleza de toda a região, com a realização de actividades conjuntas...

terça-feira, novembro 20, 2007

Os Campos de Cimento

Um dia destes percorri o caminho que fazia diariamente, para a escola primária, de regresso a casa, entre o Bairro da Ponte e o Bairro dos Arneiros ...
Consegui encontrar os amigos que me acompanhavam, sempre com mil e uma brincadeira, em ambas as direcções, numa estrada ainda pouco perigosa, com muito mais bicicletas e motorizadas que carros...
Tanto espaço aberto, hoje ocupado por urbanizações...
Desapareceram as áreas verdes (pinhais e hortas) que cercavam o bairro, a estrada única de entrada deu lugar a outras passagens e até a uma ponte sobre a Linha do Oeste, que quase apagou a antiga passagem de nível.
A velha casa do Zenário (penso que é assim que se escreve...) e os mil e um anexos que a rodeavam foram substituídos por apartamentos...
Já no meu bairro, parei na rua detrás, junto da escola primária, que vi construir. Olhei os desaparecidos campos de terra escura, onde corri quilómetros atrás das bolas que apareciam, sempre pela equipa da rua do meio (a rua 26, que é agora a rua do Compromisso...).
Olhei os prédios em frente da escola e puxei pela memória, à procura dos moradores da minha geração. Apareceram o Fernando, o Pedro e os irmãos, o João e o Hilário, a Luísa... quem também não perdeu a oportunidade de aparecer foi a impagável leiteira - que distribuía o leite e o "jornal" porta a porta - e o marido claro, muito pequeno e magro, uma autêntica caricatura ambulante.
Senti-me quase prisioneiro naquela selva, porque os Campos agora são de cimento...

A fotografia não tem muita qualidade mas retrata os primeiros tempos do Bairro dos Arneiros, nos anos cinquenta, com a casa do Zenário, logo à sua entrada...

quinta-feira, novembro 15, 2007

O Penedo Furado

Muitas vezes, depois de conversas de trabalho informais, sobra algum espaço para sabermos mais coisas uns dos outros.
Foi o que aconteceu ontem à tarde, quando uma senhora descobriu que eu era de Caldas da Rainha. Sem que a interrompesse, disse que costumava passar férias na Foz do Arelho durante a infância e visitava sempre a cidade da louça e das cavacas (são palavras dela...).
Ainda teve o cuidado de dizer que já não se perdia por aqueles lados há uns bons vinte anos.
O mais curioso foi perguntar-me se aquela rocha com um buraco enorme, ligeiramente afastada da praia, ainda existia. Com o desenvolvimento da conversa percebi que estava a falar do Penedo Furado. Disse-lhe que sim, ainda lá estava, embora a erosão o colocasse cada vez mais em perigo.
Fiquei a pensar nas coisas que nos lembramos, nas memórias que ficam da infância...

domingo, novembro 11, 2007

Recordações do Preto

Na casa dos meus pais sempre houve animais, mas nunca os baptizámos com nomes muito humanos, não sei porquê...
Por termos espaço e vivermos ligeiramente afastados da cidade, sempre tivemos um cão de guarda e companhia, e por vezes também um gato (é verdade, nunca tivemos mais de um gato... e era sempre gato mesmo, nada de gatas, provavelmente por causa dos gatinhos...)
De todos estes animais nunca esqueci o "Preto", o bicho mais inteligente que conheci.
Não era gato de casa, de passar o tempo a ronronar e a roçar-nos as pernas, preferia ficar a olhar-nos no seu canto. Só chamava a nossa atenção com as suas habilidades. Por exemplo, era um caçador nato. Eu adorava ficar sentado no quintal a vê-lo nas suas "caçadas", a saltar pelo ar atrás das presas, e de vez em quanto lá apanhava um pássaro mais distraído...
Tinha outra característica, a preferida da mãe. Era incapaz de roubar o que quer que fosse da cozinha, ao contrário de outros sonsos que viveram lá por casa, que não podiam ver nenhum alimento à "pata de semear".
Também era um galã de telhado, no tempo das "gatas" desaparecia, só vinha a casa para as refeições...
Como acontece com tantos gatos, foi atropelado quase mortalmente. O meu pai encontrou-o estendido na estrada, a miar, próximo da nossa casa e trouxe-o para dentro.
Tinha ficado paralisado da cintura para baixo e chorava, quase como um ser humano. Eu também chorei. Acho que foi a primeira e última vez que chorei por um animal.
No dia seguinte, de manhã, já estava a preparar-se para uma nova etapa da sua vida, arrastando-se pelo quintal, incapaz de ficar à espera da morte num canto, sossegado ou a gemer...
Claro que dias depois os meus pais tomaram a decisão de o levar ao veterinário, para ser abatido, pois aquilo não era vida para um animal como o "Preto"...
Depois deste incidente, não houve mais gatos lá em casa...

sábado, novembro 03, 2007

As Asas São Para Voar em Liberdade

Nunca gostei de ver pássaros presos em gaiolas...
Isso acontece desde a minha infância.
Além destes objectos repugnantes serem as coisas mais parecidas com prisões, sempre olhei as aves como os seres mais livres do mundo, graças às suas asas, capazes de as levarem para lugares longínquos...
O meu filho gostava de ter um animal de estimação e já falou de pássaros. Claro que não lhe vou satisfazer este pedido.
Continuo a não gostar de ver pássaros presos em gaiolas...
É tão bonito o voar dos pássaros...
É por isso, que às vezes gostava de ter asas, de voar por aí...

quarta-feira, outubro 31, 2007

Porque Hoje é Dia de Poupar...

A Arte de Rafael Bordalo Pinheiro pode ser utilizada para ilustrar qualquer texto, ainda mais se se tratar do Dia Mundial da Poupança...
Este "escarrador" de louça, da sua autoria, é uma maravilha, com tantos "reis", em jeito de saca...
É contemporâneo dos "colchões", o lugar quase mítico, para se guardar dinheiro, quando os bancos ainda não inspiravam grande confiança...
E este é mesmo um objecto de museu, e não quase...

sábado, outubro 27, 2007

Vendedores da Sorte

Sempre me fez confusão os "vendedores da sorte", serem pessoas tão desvalidas na vida, apesar de andarem de rua em rua a apregoar, «quem quer a sorte grande?», acrescentando o nem sempre convincente, «aproveite, anda hoje à roda».
Todos a queremos, mais agora que os tempos estão mais próximos das histórias de Dickens... mas e tu cauteleiro? Chegam-te os trocados que algum sortudo, te poderá dar, agradecido pela tua insistência?...

Recordo que no final da rua onde cresci também havia um casal de meia-idade que vendia jogo. Lembro-me que ele usava um boné de pala, igual aos dos arrumadores de carros oficiais, tinha uma voz rouca e no regresso a casa, vinha quase sempre aos esses pela rua abaixo.
Viviam para lá de um portão de chapa, que escondia uma série de anexos, ocupados por gente pouco considerada pela vizinhança, onde também morava uma prostituta reformada, conhecida como "varina" (sobre a qual também existe uma história, um pouco picante, que teve como protagonista o meu irmão...). Tinha uma série de filhos e alguns netos, quase todos com pouca vontade de trabalhar. E lá andavam eles "velhos", a sustentar todas aquelas bocas, ela a vender tremoços e ele cautelas...
O álcool era a sua perdição e também o seu afago...

segunda-feira, outubro 22, 2007

Os Espantalhos

Ao descobrir esta fotografia voltei à minha infância.
Voltei a inventar formas de tornar os espantalhos que o avô colocava nas fazendas mais humanos, juntamente com o meu irmão...
Sim, mais humanos, ou seja, com roupas, chapéus, rosto e até mãos, com dedos palha...
Pedíamos à avó roupas velhas, esburacadas com o uso, chapéus sebentos que já ninguém usava e construíamos as nossas primeiras (e únicas...) esculturas, com alguns laivos de arte...
Recordo que o avô preocupava-se mais com os movimentos que ele fazia, colocando vários objectos móveis, que abanavam e projectavam sons, quando o vento soprava, afastando as aves das colheitas...

quarta-feira, outubro 17, 2007

A Charanga

Embora Caldas da Rainha não seja uma cidade eminentemente cultural, de vez em quanto aparecem projectos inovadores e interessantes.
Foi o que se passou com o grupo de música popular "Charanga", nos anos oitenta, que chegaram a ter algum sucesso a nível nacional, embora se tivessem colado um pouco aos "Trovante"...
Uns anos depois desapareceram, como acontece com tantos projectos culturais, neste falso paraíso, à beira mar plantado...
A sua música ficou e continua a ser agradável, apesar da simplicidade das composições.
Deixo-vos também a capa do álbum "Aguarela", com uma paisagem do Oeste...

domingo, outubro 14, 2007

Mistérios do Olhar...

A forma de olharmos tudo o que nos rodeia está muito ligada ao nosso estado de espírito...
Muitas vezes somos completamente indiferentes às pessoas que nos cercam, a nossa atenção fixa-se em coisas tão simples como as ruas, o céu, as árvores, as casas, o rio, as flores, etc.
Outras, reparamos em tudo, com tanta nitidez, que até assusta...
Ontem "viajei" em vários transportes públicos (cacilheiro, metro, autocarro...) e descobri que quase todas as pessoas mascavam pastilhas, homens ou mulheres...
Ocorreu-me um pensamento justificativo: talvez estivessem a tentar deixar de fumar e esta fosse a forma de terem a boca ocupada...
Também descobri que quase todas as pessoas que atendiam e falavam ao telemóvel, o faziam aos berros. Perguntei para os meus botões: «será que eu também sou assim?»
Provavelmente sou. Prometi a mim mesmo que ia tentar falar mais para dentro, em público...
Em relação ao mascar pastilhas elástica, não faço parte do "clube". Não acho que os maxilares precisem de tanta ginástica...