segunda-feira, março 30, 2009

Encontros...

No meu próximo livro, de cariz desportivo e biográfico, sobre os campeões almadenses e de Portugal dos anos quarenta, também me encontro com os meus amigos do Arneirense e do atletismo dos anos setenta e oitenta...

Esta foto é de alguns elementos do Atlético Clube Arneirense, nas bancadas do Estádio de Leiria (entretanto remodelado), no final da década de setenta.

quarta-feira, março 25, 2009

Desencontros...

Não sei quanto tempo passou, desde a última vez que nos encontrámos.
Sem sequer tentar fazer contas com os dedos, pensei que devia ser um número grande, perto dos mil anos...
Pensar que me lembrei de ti, hoje, porque descobri alguém na rua com o mesmo cabelo, a mesma fisionomia, o mesmo andar...
Ainda acelerarei o passo, com a esperança de que fosses tu.
Mas porque serias tu? Vinte anos não são dois dias, e já não deves ter o mesmo cabelo claro e sedoso, a mesma fisionomia...
Talvez ainda mantenhas o mesmo andar...
Quando olhei a tua "sósia", ela percebeu pelo meu olhar, que algo de estranho se passava naquelas escadas, que não eram as nossas, mas sim de quem as quisesse pisar...
Continuei a andar, entre o iludido e o desiludido.

Como foi que me esqueci, que o tempo dos milagres já era?

sexta-feira, março 13, 2009

Peniche

Peniche é uma terra de pescadores e de resistentes.

Tenho por lá alguns amigos... que são de Peniche, orgulhosamente.
Raramente nos encontramos porque a vida é mesmo assim.
Depois, Peniche não fica a caminho de nada, se esquecermos o Cabo Carvoeiro e as Berlengas. Para irmos lá, temos de ir de propósito, não é ponto de passagem, como tantas outras terras.
Recordo algumas manhãs sebastianas, bem acompanhado, com a maresia atlântica a pedir agasalhos no areal do Baleal que se perde de vista até à minha Foz do Arelho...

João Vaz, também pintou Peniche, "A Papoa" ...

domingo, março 08, 2009

A Vossa Pele...


A Minha Pele

A minha pele sou eu.
Quase sempre.
Às vezes despe-me e passeia-se por aí.
A minha pela cheira a maresia. Sempre.
Porque o mar é meu leito meu amor.
E a espuma das ondas lençol que nos cobre.
A minha pele é campo de trigo e papoilas.
Terra semeada fecundada que germinará.
De onde nascerá a flor. E o fruto.
Da vertigem. Da fome. Do amor. Da minha pele.

Este bonito poema é da autoria da Maria, de O
Cheiro da Ilha, uma poetisa do Oeste (um aplauso especial para ela...). Trancrevo-o em homenagem a todas as mulheres da Rosa dos Ventos, do Sul, do Norte, do Este e do Oeste...
A fotografia é de Jean Dieuzaide.

quinta-feira, março 05, 2009

Os Ratos de Sacrístia e as Cuspidoras da Pia de Água Benta

Desde pequeno que me lembro de uma senhora, que morava à frente da velha casa da minha avó, em Salir de Matos, que embora passasse o tempo em volta da igreja da aldeia, era "má como as cobras".

Minha avó nesses tempos já questionava o que é que essa gente andava a fazer nos templos sagrados. E como tinha uma qualidade/defeito (depende sempre do ponto de vista...) terrível, não mandava recados por ninguém, ía directamente à fonte. Claro que isto provocou-lhe muitos dissabores pela vida fora...
Fui crescendo e conhecendo outros frequentadores de templos católicos, que além de parcos em virtude, tinham uma outra marca comum, eram tão pouco tolerantes para com os outros, ao contrário do Jesus, que me tinham apresentado...
Infelizmente, ainda hoje é assim, mesmo ao mais alto nível da hierarquia religiosa. Não esqueço a "guerra santa" contra o uso do preservativo, quando se morria em África e afins de HIV. Muito menos, a última farsa à volta da homossexualidade, quando existem vários padres, por aí, que não enganam ninguém...
E o pior, é que se estas "excelentíssimas bestas" tivessem poder para isso, voltava-se a um tempo próximo da inquisição.
Como nunca tive idade para falsos moralismos, gostaria muito de ver o Deus, poderoso e salvador, a fazer "milagres" no comportamento desta gente que além de gostar de degustar hóstias, exala laivos de superioridade e de paternalismo bacoco, por todos os poros.
A avó tinha razão, Deus existe mas não está em todo o lado, e de certeza que nunca foi a fonte de inspiração da vizinha da frente, da velha casa familiar de Salir de Matos, da qual não recordo o nome...
Casa que está prestes a desaparecer e que agora pertence à Paróquia da Aldeia (grande ironia da vida)...
O texto está ilustrado por dos "cartonns" mais famosos de António, "O Preservativo Papal"...

sábado, fevereiro 28, 2009

As Bicicletas Eram o Transporte Habitual nos Anos Sessenta

Escrevi algo sobre o Terramoto de 1969, no meu "Largo", sem focar que nessa noite, que só foi de dormir, para nós crianças, os meus pais tiveram uns visitantes inesperados, na nossa casa no Bairro dos Arneiros. O meu tio e um amigo, sem sono e curiosos com os efeitos do tremor de terra na cidade, pegaram nas bicicletas e deram um giro pelo centro das Caldas, com paragem no nosso bairro, provavelmente para retemperarem forças, para a viagem de regresso, até ao Casal de Santo António, na estrada de Tornada...

Há quarenta anos eram raras as pessoas que possuíam automóvel. Proliferavam as motorizadas (que faziam um barulho terrível...) e as bicicletas pelas ruas das cidades deste país.

Claro que eles não eram nada parecidos com "ladrões de bicicletas", mas achei este cartaz tão bonito...

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Em Ano de Eleições...

Em ano de eleições, acho que sim, que devemos aproveitar a onda de boa vontade deste governo, e pode ser que as palavras do "Piño" sobre as Faianças Bordalo Pinheiro, façam eco no Conselho de Ministros...

A petição que circula na "net" é uma boa ideia.
Para assinarem a petição basta clicar:

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

A Oeste Nada de Novo...

Quando se não tem nada para dizer, pode utilizar-se o título de um filme (de outros oestes), escolher-se uma fotografia ou uma pintura, e já está...

Embora o quadro de Thomas Hart Benton, me tenha feito recuar até à infância, às viagens divertidas que fazíamos de carroça, com o avô, pelas suas várias fazendas...
Hoje já não existem carroças, nem tão pouco fazendas cultivadas...
Não sei se foi a "europa" (esta ainda mete mais gente, que quando falamos no "estado"...), o PS ou o PSD, provavelmente foram todos. São todos cúmplices de não termos sequer os serviços minimos de agricultura ou pesca...

domingo, fevereiro 08, 2009

O Poder da Natureza

Nós pensamos que somos os "senhores do mundo", mas a natureza lá nos vai pregando partidas, para ver se mudamos hábitos e percebemos que ela é demasiado rebelde para se deixar dominar.
Por termos muito mar, de Norte a Sul, é junto à costa que se sentem mais os efeitos desta rebeldia...
Particularizando a questão, tenho pena do que fizeram à Foz do Arelho (Lagoa e Mar...), especialmente nas duas últimas décadas, onde sempre se monesprezou a sua validade como praia de grande qualidade ambiental.
Claro que sou suspeito a falar da Foz, porque sempre foi a minha praia e dos meus amigos de infância e adolescência.
Lastimo a forma, quase sempre desastrosa, com que o Município caldense tem encarado os problemas que têm surgido, ano após ano, resolvendo-os quase sempre, demasiado tarde. Foi assim com a dragagem da Lagoa, com o tratamento de esgotos, e claro, com a manutenção do areal da própria praia.
A natureza até tem dado bastantes hipóteses aos responsáveis, para resolverem estes problemas, mas eles continuam a pensar que eles se resolvem sozinhos...
Pensam que para destruir, estamos cá nós, humanos, depois, a própria natureza tratará de repor as coisas no lugar...
Só que os interesses entre ambos já há bastante tempo que não coincidem. É perfeitamente natural que a "natureza" prefira que a praia se transfira para o lado sul, porque os veraneantes daquela margem, são muito menos chatos e barulhentos...


quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Sonhos que se Tornam Pesadelos...

Embora fosse demasiado pequeno na década de sessenta (a que me trouxe ao mundo...) e setenta, como tenho lido e conversado bastante sobre estes tempos, noto que em três, quatro anos, recuámos quase quatro décadas. Voltámos a ser um país sem rumo, perdido nas "europas"...

Não vou falar de causas (seria preciso o dia todo...), mas apenas de alguns efeitos.
Com o quase desaparecimento da classe média, a tal que é sempre difícil de configurar por acolher estratos sociais muito diferenciados (os que são quase ricos e os que deixaram de ser pobres...), desaparece quase tudo num país.
Voltámos ao país do final dos anos sessenta, princípio de setenta, em que havia apenas ricos (20%) e pobres (80%).
E isto é tão negativo... normalmente é a classe média que funciona como motor da economia e da sociedade.
Sim, não tenham dúvidas disto. Normalmente os ricos estão demasiado ocupados com os seus dinheiros e os pobres com a falta dele. Sobra a classe média, empreendedora e ambiciosa, para actuar como o principal veiculo do desenvolvimento e inovação de qualquer país.

Não sei porquê, mas acordei a pensar nisto...

Podemos recuar no tempo, ir ao "cavaquistão", ao "guterrismo", à "tanga-durão", ao"calimero-lopes", mas quem "matou" de vez a classe média foi o senhor, que de filósofo só tem o nome.
Em trinta e muitos anos de democracia nunca vi um governo proteger tanto o alto capitalismo, ao mesmo tempo que ia destruindo a classe média, enchendo-a de impostos e cortando-lhe a possibilidade de criar, de empreender, transformando os nossos sonhos em autênticos pesadelos...
Para terminar a sua epopeia, completamente oposta à do "robin dos bosques", ainda teve o descaramento de financiar um banco privado, que funcionava com direito reservado, aberto apenas a quem tinha dinheiro e poder.
Sei que ainda é cedo para se fazer história. Resta a esperança de que o tempo faça justiça a esta gente mal formada, que continua a confundir interesses pessoais com nacionais.
Este óleo é de Salvador Dali, a "Invenção dos Monstros"...

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Grande Eva!

Eva Vital é uma jovem atleta que mora nas Caldas e representa o Arneirense (o clube do meu bairro...).

Não a conheço pessoalmente mas tenho lido na "Gazeta", com entusiasmo, as suas grandes proezas atléticas desde o começo da sua carreira, ainda menina, nas competições de barreiras, velocidade e saltos.
Foi por isso como muita satisfação que li hoje no diário "A Bola", que Eva foi a grande figura da segunda jornada dos Nacionais de Juniores de Pista (ontem), ao bater o recorde nacional dos 60 metros barreiras, com a marca de 8,63'.
Grande Eva! Parabéns!
Desejo-te os maiores sucessos, que nunca te falte a vontade de ganhar e de honrar as Caldas e o Arneirense.

Nota: A Eva merecia uma foto melhor, mas esta foi a possível...

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Ainda a Viabilidade das Faianças

Embora a dupla "pino e lino" não seja de grande confiança e credibilidade (a dupla revela talento é em tiradas humorísticas, podiam mesmo pensar em fazer carreira artística e deixar a governação, o país agradecia...), o ministro da Economia, prometeu ajudar as Faianças Bordalo Pinheiro.

Falta saber qual e como será a ajuda...
Embora não seja pessimista, sei que não vale a pena criar grandes expectativas com este governo. É o mesmo que criou uma nova lei do património, apenas por razões economicistas. Perdoem-me o simplismo, mas é quase assim: como não disponibiliza dinheiro nos respectivos orçamentos para a recuperação dos nossos monumentos, prefere vendê-los, sempre fica com algum. O problema é a quem os vende e para quê...

Enquanto não se vê luz ao fundo do túnel, o Zé Povinho espera sentado, nos jardins do Museu da Cerâmica, nas Caldas...

segunda-feira, janeiro 19, 2009

A Cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro

A Fábrica de Cerâmica Bordalo Pinheiro tem aparecido nos jornais e televisões pelas piores razões, tão habituais neste tempo de crise, em que se criou o hábito de se despejarem as pessoas para a rua, como se fossem objectos.

Para mim só existe uma salvação para a fábrica centenária e histórica, transformá-la numa fábrica-museu de corpo inteiro. Ou seja, além de continuar a produzir as suas peças únicas, com loja própria, que deveria ser o único lugar do país onde se pudessem adquirir as peças com o traço de Rafael (contando com o apoio do Município e até do Ministério da Cultura, já que poderia ser um importante pólo de desenvolvimento turístico e comercial da cidade...), passava também a dar uma maior importância ao turismo cultural, organizando visitas guiadas ao seu interior, criando ainda dois ou três "circuitos do barro artístico", que poderiam ter como passagens obrigatórias os Museus da Cerâmica e José Malhoa, e ainda algumas artérias da cidade que conservam vestígios bordalinos (as que ainda não foram vandalizadas...).
Provavelmente posso estar a repetir o que alguém já tenha dito, mas para mim, este é o melhor aproveitamento que se pode fazer de um espaço que é uma mais valia cultural das Caldas.
Aconselho-vos também a passarem pelos "Cavacos" da Isabel, para terem uma maior noção do que se esconde por detrás desta fábrica...

Esta foto da Fábrica Bordalo Pinheiro é de 1897...

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Como era Bom Ter um Bairro...

Os bairros foram engolidos pela modernidade... as ruas e as avenidas, cortaram com este elemento de identificação tão forte, o tempo arrancou-nos mais esta raiz.
A palavra bairro para os meus filhos deve soar a uma coisa estranha, é uma palavra que têm dificuldade em colar a qualquer mapa...

Sei que o tempo não pára. Por exemplo, eu também já não sou do tempo das "vilas", esses aglomerados interiores, cheios de casas e anexos.

Se contasse aos meus filhos as "guerras" que travei com outros bairros, principalmente o da Ponte, que não se ficavam pelos jogos de futebol. Nem sei como é que não havia muitas cabeças partidas, quando a coisa dava para o torto e o jogo transformava-se numa área de lançamento de pedras. Não devíamos ter muita pontaria e ainda bem...
Ainda hoje sinto alegria, quando me dão notícias do meu bairro, onde tinha os meus amigos e a certeza de que era feliz...
A fotografia é de João Martins, do seu álbum, "Os Putos".

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Quando as Cidades eram Aldeias...

Hoje estive a entrevistar um almadense, que viveu a sua juventude nos anos trinta e quarenta.

Contou-me coisas bastante importantes para um trabalho que estou a realizar.
Uma das coisas que achei mais interessante e partilhável neste espaço, foi a sua noção de que o mundo só mudou de uma forma mais radical, após a Segunda Guerra Mundial.
Disse-me mesmo que até aí, a vida dos seus bisavós, avós e pais, era muito idêntica. A verdadeira revolução social e económica, só começou com a sua geração e seguintes.
Até então Almada era uma cidade pequena, onde as pessoas se conheciam todas umas as outras, completamente limitada no tempo...

Outra coisa extraordinária que ele me disse, foi que apesar de Lisboa ficar no lado de lá do rio, a ida à Capital era um acontecimento extraordinário, especialmente para a criançada. Muitos almadenses só pisaram o solo lisboeta, quando abandonaram os estudos e começaram a trabalhar na "cidade grande"...
Nós hoje não temos qualquer ideia de que as coisas fossem assim...

Este apontamento poderia muito bem ser publicado no "Casario", mas as "Viagens" são o meu espaço mais nostálgico, além disso estou convencido de que esta história também poderia ser contada por caldenses (com a excepção da proximidade da Capital, claro...)

A foto é de Robert Doisneau, "os porteiros"...

domingo, janeiro 04, 2009

Novidades da Minha Cidade...

A principal novidade das Caldas dos últimos tempos, para mim claro, foi a abertura do "novo" Museu José Malhoa.

Gostava de passar por lá, num destes domingos de manhã, percorrer calmamente, sala a sala, ver se todos aqueles quadros e esculturas, que me são familiares, estão, ou não, fora dos sítios habituais...

E também me apetece muito mais passar pela centenária, "Mercearia Pena" (que a Teresa destacou tão bem nas suas "Coisas"), sentir os seus perfumes e paladares, que pelo moderno e movimentado, novo centro comercial da cidade.
Cada vez que me vejo dentro de um destes lugares, fico farto e cansado daquela confusão. Sinto sempre que pertenço mais às "mercearia de bairro" que às "catedrais do consumismo"...

terça-feira, dezembro 30, 2008

Mais um Ano que Voou...

Um dos primeiros sintomas de que já não vamos para novos, é a sensação de que à medida que os anos vão passando, os dias, as semanas e os meses vão-se encurtando, tornando tudo o que nos cerca mais curto...
Até a passagem de ano se vai esvaziando de sentido, como se quiséssemos parar no tempo. Mas as máquinas que param, voltam para trás e para a frente, só existem nos filmes...

E agora ainda é mais complicado fazer previsões... parece que estes economistas, burlistas, fantasistas, socialistas, etc, além do dinheiro, do emprego, também nos querem roubar os sonhos...
2009? Será no mínimo, mais um daqueles anos curtos...
Valha-nos a "terapia" de Magritte...

sábado, dezembro 20, 2008

O Natal do Nosso Contentamento

Ainda no serão de quinta-feira ouvi várias pessoas a culparem o Natal por não terem tido presentes, uma árvore ou um presépio, na infância...

Falavam com tristeza e mágoa.
Felizmente para mim o Natal sempre foi uma época de paz e alegria, desde que me lembro, mesmo sem a existência de farturas.
Na minha meninice não havia o pai natal, mas sim, o Menino Jesus. Era ele que descia pela chaminé e colocava os presentes no sapatinho...
Claro que nem eu nem o meu irmão, pequenotes, ficámos muito convencidos com esta história, até porque a chaminé era muito estreita...
Nessa altura também não fazíamos árvore de natal. Fazíamos sim o presépio, com muitas figuras e musgo, retirado dos pinhais que rodeavam o Bairro dos Arneiros...
Provavelmente sou capaz de me estar a repetir, porque as "Viagens" já vão no terceiro natal, e as histórias dos meus natais no Oeste, foram assim...
O que sinto na actualidade, é que se não tivesse os meus dois filhotes, passava um pouco ao lado de toda esta atmosfera consumista, que mesmo de bolsos vazios não consegue dar tréguas à "crise".
E para terminar, desejo-vos a todos Festas Felizes.
A pintura escolhida é de Rafael, "La Belle Jardiniére", do século XVI, pelo simbolismo, uma mãe atenciosa e protectora com as suas duas crianças, como foi e é a minha mãe (e todas as mães, claro).

terça-feira, dezembro 16, 2008

Padre Felicidade Alves Recordado

O Centro de Reflexão Cristã e o Centro Nacional de Cultura organizaram ao fim da tarde de hoje, na sede da instituição cultural, uma reunião de convívio e de reflexão, evocativa da vida e obra do padre Felicidade Alves.
Usaram da palavra, Guilherme de Oliveira Martins, que abriu e encerrou a sessão, na qualidade de presidente do Centro Nacional de Cultura, Manuel Vilas Boas, jornalista, Frei Bento Domingues, Diana Andringa, jornalista, José Luís de Matos, editor e João Salvado Ribeiro, um dos organizadores desta homenagem.
Antes das intervenções foi visionada uma fotobiografia e alguns acervos documentais, da Fundação Mário Soares. Mas o melhor viria depois, com o som de uma entrevista que deu à TSF, a Manuel Vilas Boas - foi bom ouvir a voz do Padre Zé, com bastante clareza e ironia, por vezes com algum sarcasmo - no dia do seu casamento católico, em que foi feita a reconciliação possível com a igreja e ainda as imagens de um pequeno filme da celebração convival realizada em Vila Franca de Xira, num monte, depois da realização do seu casamento civil, nas Caldas da Rainha, no primeiro dia de Agosto de 1970...

O tempo passa mesmo rápido. Esta bonita homenagem coincidiu com o décimo aniversário (e mais dois dias...) do seu desaparecimento...

domingo, dezembro 14, 2008

Afinal a Porta Estava Aberta...

[...] Victor não consegue, nem quer, esconder o fascínio sentido pelas recordações que surgem, quase em catadupa, como se alguém as soltasse de qualquer arca enorme, quase do tamanho da do velho Noé.
Foi o que aconteceu quando passou a uma velha porta fechada, familiar. Aproximou-se e espreitou para lá das vidraças, à procura de um sinal de vida daquele lugar especial.
Ainda haviam nas paredes restos de fotografias de jornais, descoloridas pelo tempo, entre pilhas de pele e formas de sapatos cheias de pó e teias de aranha que enchiam as prateleiras e a mesa de trabalho do bate-sola.
Era mesmo a antiga oficina de sapateiro do senhor Silvino Bastos, conhecido na vizinhança como «Bigode de Arame», por possuir um bigode espantoso, que esticado, devia ter mais de quarenta centímetros.
Aquela casa, apesar do seu tamanho diminuto, fora o palco principal de um homem de pequena estatura, cujo andar à Charlot quase que bastava para o transformar numa figura inesquecível das “fitas sonoras do bairro”. Victor recordou-o com ternura.
Mas o filho do sapateiro era muito mais que uma imitação cinéfila. Joaquim Bastos tinha o dom de contar estórias, ao ponto de deixar qualquer pessoa, mesmo distraída, pasmada a ouvir todos os passos das suas aventuras, aumentadas pela sua imaginação digna de qualquer escritor de novelas.
No bairro todos o conheciam pelo Quim “Meias Solas”, e ficavam suspensos pelas estórias das suas viagens pelo mar fora, com que enchia a oficina do pai e eram o encanto de pequenos e graúdos que se acotovelavam para não perderem qualquer “fio da meada”. [...]
[...] Victor sorriu ao recordar a parede que se situava atrás da porta, semi-escondida dos olhares mais pudicos, onde havia também uma secção das mulheres, em pose provocadoras e sem muita roupa. A maior parte delas vinham da América, recortadas de revistas, que não chegavam a este lado do mar, pelo Quim, quase «como despojos de guerra» das suas viagens emocionantes.
Foi naquela parede «proibida» que Victor descobriu, pela primeira vez, o sorriso único de Marilin Monroe, a rainha de todas as louras.
As jornadas mundanas do Quim, fossem invenções ou não, eram bonitas e extraordinariamente bem contadas.
Todos sabiam que ele era um simples empregado da copa do navio, mas, em troca das suas estórias, deixavam-no ficar com o papel invejado de “homem do leme”.
Depois de abandonar a porta de madeira, cheia de caruncho e fendas, Victor interrogou-se, «o que seria dos senhores Silvino e Joaquim Bastos?...»
Continuou a andar pelas ruas do bairro, entusiasmado em descobrir outros lugares e outras estórias, mas com a certeza de que nenhuma era tão bem contada como as do Quim “Meias Solas” que se passeava com o seu andar inconfundível à Charlot, e que lhe proporcionara excelentes viagens na sua barca de sonhos.


Encurtei esta minha estória publicada no livro de contos, "Um Café com Sabor Diferente", para não se tornar demasiado longa e chata... tudo porque afinal a porta estava aberta, um velho sapateiro ainda resistia ao tempo, na rua "Sales Henriques" (?), próximo da velha ponte da linha do comboio...