Nas cidades a vida é mais pequena que aqui na minha casa no cimo deste outeiro. (Alberto Caeiro)
quarta-feira, agosto 20, 2008
terça-feira, agosto 19, 2008
viagem pelo oeste - dois
Apesar das ameaças de mau tempo durante o fim de semana, na quinta e na sexta-feira o tempo esteve excelente.
A fotografia tirada de um dos miradouros da Foz do Arelho, é a melhor prova do que digo.
O céu estava limpo, além de se avistarem as Berlengas e os Farilhões, era possivel ver o Baleal e Peniche e todo aquele areal delicioso...
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segunda-feira, agosto 18, 2008
viagem pelo oeste - um
Desta vez passei o 15 de Agosto no Oeste...
Andei por muito lugar, até percorri a Feira Anual das Caldas, coisa que não devia fazer há mais de quinze anos...
Cheguei na tarde de quinta, já com um passeio de "caiaque" na Lagoa de Óbidos, previamente combinado. Foi a estreia do Miguel, que até passeou por debaixo do Cais com o padrinho...
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quinta-feira, agosto 14, 2008
Acordei e Afinal...
quinta-feira, agosto 07, 2008
As Eiras Sonoras de Agosto
Lembro-me de assistir à debulha de cereais e legumes numa das eiras (já de cimento, quase comunitária...) de Salir de Matos, fascinado pelo som daquelas varas compridas, usadas para malhar o trigo, a cevada e até o feijão seco...
Era um espectáculo impressionante para qualquer criança.
Sei que também tentei "malhar" as plantas secas, mas era pequeno demais e sem grande força e jeito para manejar a vara. Também ajudei a apanhar os "frutos" que se soltavam e depois eram peneirados pelas mulheres da família...
Agosto era um mês cheio de atractivos no campo durante a minha meninice. Isto claro, antes da adolescência, antes da praia ocupar quase todo o mês de Agosto, de deixarmos de passar semanas inteiras de férias na casa dos avós, em Salir de Matos...
Este óleo, "Milho ao Sol", de José Malhoa, mostra-nos um pouco como eram as eiras, terrenos direitos, onde se espalhavam os cereais e legumes ao sol, para depois serem debulhados...
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sábado, agosto 02, 2008
Manifestação

Li hoje nas páginas do "Sol" que Manuel Alegre e João Queirós e Melo, estão à frente de um movimento, apoiado por veraneantes, moradores e comerciantes da Foz do Arelho, que se prepara para se manifestar contra a "balbúrdia", com que o Município das Caldas - que não devia ser apenas do Costa -, faz questão de oferecer a todos aqueles que procuram aquele lugar especial em busca de paz e descanso...
Embora esteja um pouco afastado da "minha praia", principalmente no Verão, estou completamente solidário com os manifestantes.
Se há um lugar que não precisa de altifalantes e de música, é a Foz do Arelho, o som do Mar único, basta para animar a praia e os seus frequentadores dilectos...
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segunda-feira, julho 14, 2008
As Ceifas
A ceifa dos campos está associada ao Verão...
Lembro-me no começo da adolescência de a minha avó me ter ensinado a ceifar. Embora, na verdade, nunca me ajeitasse muito com a foice.
Pouco tempo depois, tive oportunidade de colocar em prática os ensinamentos da avó. Não sei bem porquê, sei apenas que eu, o meu irmão e o meu pai, tivemos de ceifar o pasto que o avô tinha semeado para o gado, na parte superior da Ambrósia.
Claro que aquilo era mais brincadeira que ceifa, ao ponto de o pai, ceifar mais de metade do pasto...
Para não ficarmos muito desanimados, explicou-nos o porquê de ceifar tão bem, contando-nos as suas aventuras no Alentejo, nos tempos de escassez de comida e de trabalho...
O pai e o seu avô, assim que se aproximava a época das ceifas, faziam a trouxa e partiam para da Beira Baixa para o Alentejo, onde passavam dias e dias a ceifar, de sol a sol, atrás do "pão", amassado por algum parente do diabo...
Claro que nem tudo era mau, havia sempre o convívio, a alegria do povo que vinha de várias regiões, para o Sul, e as histórias, que ia ouvindo aqui e ali, sobre outros mundos, além da sua Beira, tão inóspita...
O belo óleo, "A Salmeja", é da autoria de Silva Porto.
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terça-feira, julho 08, 2008
Descobrir Esta Foz do Arelho
Este óleo de Constâncio Silva, datado de 1943, deixa-me com algumas dificuldades, em identificar esta Foz do Arelho.
Penso que a paisagem que se vê ao longe, será da Margem Sul, ou seja do lado dos "belgas". Penso que esta parte da lagoa, ainda está distante da aberta... talvez entre o cais (inexistente na época - pelo menos o actual de cimento armado, que sempre conheci...) e o palacete do conde D'Almeida Araújo.
Aceitam-se pistas e deduções...
quarta-feira, julho 02, 2008
O Primeiro Pinheiro Chagas
Depois de visitar o blogue caldense, Águas Mornas, apeteceu-me ir à procura da história de um edifício curioso, que ocupava o mesmo espaço do Cine-Teatro Pinheiro Chagas, que visitei tantas vezes na infância, uns bons anos antes.
Acabei por descobrir que era mesmo uma outra sala de espectáculos, também com o nome de Pinheiro Chagas, inaugurada em Setembro de 1902...
A hoje, Praça 5 de Outubro (obrigado Rolando...), popularmente conhecida por Praça do Peixe, apesar de já não se vender pescado há uns anitos, era bem mais bonita, neste postal do começo do século vinte, que na actualidade...
Este postal foi editado em 1906 pela tipografia Dias & Paramos.
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quinta-feira, junho 26, 2008
As Férias Grandes
Por esta altura já estava de férias, as famosas férias grandes, que se prolongavam até ao fim de Setembro...
Na infância, as férias eram repartidas pelo campo (a casa dos avós maternos em Salir de Matos), pela praia (muito Salir do Porto, alguma Foz do Arelho, pouco Baleal) e pelas ruas do bairro (com jogatanas de futebol intermináveis na rua detrás, da terra que nos pintava as pernas e a roupa de negro).
No começo da adolescência, a praia ganhava ao campo, e a Foz do Arelho, arrumava definitivamente as outras praias... lembro-me de quase abrirmos a época balnear e de a fecharmos em Setembro... muitas vezes com nevoeiro e frio, éramos os únicos "malucos" que não arredavam pé, e não passavam sem os banhos e as diversões dentro de água...
Os únicos seres que rivalizavam connosco, como "proprietários da praia", eram as gaivotas...
E foi assim, até crescermos um palmo e perdermos esta "boa vida"...
O óleo, "Gaivotas", é do setubalense, João Vaz.
sexta-feira, junho 20, 2008
O São João nas Caldas
Aliás, penso que ainda se realiza a Feira de S. João, com as atracções do costume, embora com bastante menos povo...
Há quarenta anos esta feira era um mimo, ainda se achava graça ao circo, ao carrocel, aos carrinhos de choque, ao poço da morte, às farturas e até aos vendedores de "banha da cobra"...
Nesses tempos longínquos a feira realizava-se na Mata da Rainha, assim como a de 15 de Agosto. Era um nunca acabar de barracas de quinquilharias, de brinquedos, de roupas, de comes e bebes, e claro, a parte mágica, de diversões.
Provavelmente não era bem assim, mas estou a escrever por cima da memória da criança que olhava para tudo, quase rente ao chão, e por isso, tudo lhe parecia grandioso...
Mais um Malhoa excelentissimo, "As Padeiras"...
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sexta-feira, junho 13, 2008
Quando Alberto é Nome de Poeta e de Pessoa...

Sou um guardador de rebanhos,
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
in "Poemas de Alberto Caeiro", obra poética de Fernando Pessoa. O óleo, "Gritando ao Rebanho" é de José Malhoa
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domingo, junho 08, 2008
Tudo Começou no Oeste...
Tudo começou no Oeste, no velho Campo da Mata...
Na início acho que gostava muito mais de ir com o meu pai ao futebol, de mão dada, pelas ruas da Cidade até à velha Mata, pelo orgulho que sentia da sua companhia, que pelo espectáculo do futebol.
Acho não, tenho a certeza.
O meu pai era um mestre dos silêncios, nunca foi de muitas palavras. Nem mesmo durante o jogo. À nossa volta gritava-se, chamavam nomes (alguns dos quais desconhecia na inocência dos meus seis anos...) ao árbitro e aos jogadores adversários. O meu pai via o jogo pelo jogo, irritava-se com os falhanços dos jogadores do Caldas, mas raramente arranjava bodes expiatórios ou gritava.
Embora não o interiorizasse na época, foi a partir desse momento que percebi que o futebol era composto por dois espectáculos, um dentro do campo e outro nas bancadas.
Felizmente, sempre me interessou mais o que se passava no terreno de jogo, os golos e a arte dos futebolistas.
Mais uma vez o dedo do meu pai estava presente. Nunca usámos cachecóis ou bandeiras, éramos uma espécie de espectadores anónimos no meio dos adeptos...
Foi sempre assim pela vida fora. Já em Lisboa. nunca subi para o histórico terceiro anel, que tanto abanava como tremia, com cachecol, nem mesmo nas noites europeias frias do Inverno...
Esta prosápia deve-se ao corropio aqui de casa, com bandeiras, cachecóis, lenços, cornetas, durante o jogo de Portugal, que ganhámos á Turquia. Percebo que sou o único que aprecia o futebol, o resto da "turma" gosta mais do outro espectáculo, até querem ir festejar a vitória para a rua...
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domingo, junho 01, 2008
O Cinema é Sempre Um Espectáculo
Hoje fui ao cinema, porque o meu filho achou que era um bom dia para vermos o "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal".
Antes do filme assistimos a um desfile agradável de anúncios. Ele disse-me que eram mais completos que na televisão, como se fossem quase um pequeno filme... e tem toda a razão, a própria produção desta publicidade é muito cinéfila, como sempre foi a da Martini.
Lembrei-me de como a história do tempo mudou as primeiras partes dos filmes. Do tempo dos meus pais, havia sempre um documentário, no meu eram os desenhos animados, hoje é a publicidade...
Assim como as salas. Desta vez vi o filme numa sala mais ampla que o habitual. Recordei-me dos primeiros filmes que vi no Cine-Teatro Pinheiro Chagas e no Salão Ibéria, salas que pertencem quase à "pré-história" para os caldenses que têm menos de trinta anos...
segunda-feira, maio 26, 2008
Notícias da Cultura na Minha Cidade...
Finalmente, a Cultura voltou a ter um espaço digno nas Caldas da Rainha, com a inauguração do Centro de Cultura e Congressos da Cidade (CCC).
Agora, o mais importante é que os responsáveis pela Cultura das Caldas saibam tirar o melhor proveito de umas instalações com esta dimensão, bastante multifacetadas, que também devem ter as portas abertas aos artistas do concelho...
É bom mudar hábitos, esquecer o ditado que diz: «santos da terra não fazem milagres», e que tanto jeito tem dado a muito boa gente...
Que esta bonita ilustração de Jacek Yerka, seja inspiradora e haja lugar para tudo e para todos no novo CCC das Caldas da Rainha...
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quarta-feira, maio 21, 2008
A Nossa Guerra
Deve haver muito pouca gente, que não tenha tido um familiar em África, a defender as nossas antigas colónias.
Eu tenho dois tios e dois primos, que estiveram em Angola, Moçambique e Guiné. Felizmente regressaram sem marcas visíveis desta passagem, próxima do "inferno"...
O mesmo não aconteceu a Mário Henriques, o primeiro mártir desta guerra estúpida, que conheci, amigo de infância dos meus tios de Salir de Matos.
Tinha apenas onze anos (pensava que tinha menos, mas o meu tio Zé disse-me que ele já faleceu depois da Revolução de Abril...), quando nos chegou a notícia da sua morte...
Toda a aldeia de Salir de Matos sentiu aquela morte, de uma forma profunda, por ser um meio pequeno e por toda a gente se conhecer. Os seus pais e a sua namorada, que passou por uma espécie de viuvez, foram quem sentiu mais esta perda...
Passados todos estes anos, ainda me lembro do seu sorriso, da sua alegria de viver, das suas brincadeiras, de andar às suas cavalitas...
O Mário é apenas um exemplo, entre muitos, dos milhares de jovens portugueses, que perderam a vida no Ultramar, nos anos sessenta e setenta, em defesa da pátria.
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sábado, maio 17, 2008
A Importância da Água
Há um século, a água era um bem, muito menos desperdiçado, que nos nossos dias, cada vez menos fartos, apesar da ilusão consumista...
Esta fotografia de Jorge Almeida Lima, era comum a tantas terras, ainda sem água canalizada em casa, que se socorriam dos chafarizes públicos, para abastecer os lares deste liquido precioso.
As pessoas acorriam, muitas vezes com sofreguidão, com medo que a água acabasse, enchendo baldes e cântaros, para as lavagens e usos domésticos.
Das bicas saía a água para beber, guardada nas tradicionais bilhas de barro, onde se mantinha fresca...
Apesar de não ter um século, ainda sou "deste tempo" dos chafarizes públicos, pelo menos quando passava férias em Salir de Matos. Devo acrescentar que era uma festa ir buscar água ao chafariz da aldeia, com as brincadeiras do costume, em que acabava no mínimo salpicado, nas muitas "batalhas navais", travadas com o meu irmão nos tanques...
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terça-feira, maio 13, 2008
As Cavacas das Caldas
O primeiro símbolo gastronómico que conheci na minha cidade, foram as célebres e doces Cavacas das Caldas.
E, imaginem só, em Salir de Matos...
Uns tios e primos tinham uma fábrica artesanal destes doces, na aldeia, penso que gerida pela tia Glória com o auxílio dos filhos e de uma empregada, da qual não recordo o nome.
O que sei, é que tanto eu como o meu irmão, adorávamos aparecer e deliciarmos-nos com os restos de açúcar que ficavam dentro dos alguidares de alumínio...
Estes nossos familiares acabaram com o negócio das Cavacas, por razões que desconheço. Sei apenas que ainda éramos pequenotes e durante algum tempo, sentimos saudades daquela fábrica de doces...
Este postal antigo mostra-nos as vendedeiras de Cavacas, na famosa Praça da Fruta...
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terça-feira, maio 06, 2008
O Fim das "Quintas Pedagógicas" Domésticas...
O meu filho sempre gostou do campo. Desde pequenote que gosta de brincar na terra (pobre quintal da avó, tão esburacado...), de ver crescer as plantas e de descobrir o mundo dos animais...
Uma das nossas visitas imperdíveis em Salir de Matos é ao casal do tio Arcelino, onde o meu filho tem a oportunidade de ver de perto um verdadeiro "zoo" da bicharada doméstica.
Claro que as coisas já não são o que eram, devido ao aparecimento da ASAE e de uma série de restrições legais (que até se intrometem nas tradições locais, como a matança do porco em família...), que não permitem a qualquer pessoa ter animais em casa...
Nos seus melhores momentos, encontrávamos um bezerro, uma porca e leitões, coelhos, galinhas, galos, patos, ovelhas e cabras, espalhados ao longo dos vários currais e capoeiras do casal.
Hoje existem menos espécies de animais domésticos, mas nem mesmo assim o Miguel dispensa uma visita à "quinta pedagógica" do tio Arcelino...
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domingo, abril 27, 2008
Os Jardins da Família de Salir de Matos
Um dos motivos de orgulho da nossa família era o jardim da casa da avó, sempre muito bem cuidado pelo avô e tão elogiado pelas pessoas que passavam pela nossa rua, a caminho da igreja de Salir de Matos, com vontade de colher uma ou outra flor.
Os dotes do avô, felizmente tiveram continuidade.
O jardim da casa dos tios Zé e Lurdes, é um mimo de se ver, cheirar e sentir, tal é a variedade de flores e plantas, ao qual nem falta um pequeno lago, com peixes e rãs, que são o encanto dos mais pequenos...
Este jardim não é tão apreciado como o do avô, apenas por estar mais resguardado dos olhares públicos, que o da velha casa da avó...
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sexta-feira, abril 25, 2008
A Minha Pequena Revolução
«Apesar de ter apenas onze anos, recordo-me bem do dia 25 de Abril de 1974, «inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio», como tão bem retratou, a nossa Sophia de Melo Breyner Andresen.
Como vivia nas Caldas da Rainha, uma cidade de província notoriamente conservadora, não se sentiram grandes ecos revolucionários, pelo menos até ao fim da tarde.
Penso mesmo que a cidade viveu este dia de uma forma apreensiva, até porque um mês e alguns dias antes, os militares do RI 5 tinham saído do Quartel em direcção a Lisboa, para participar numa outra Revolução, que tinha entretanto sido adiada...
A censura tentou, e conseguiu, que o 16 de Março fosse tratado de uma forma ligeira, sem merecer grande destaque nos jornais, na rádio e televisão. O saldo desta tentativa de revolta, saldou-se pela prisão e destacamento dos militares envolvidos, para evitar males maiores.
Como é óbvio, a Cidade teve conhecimento do caso, embora a maior parte das pessoas não soubessem ao certo o que tinha acontecido. Não me lembro de ter sido tema de conversa em casa. Como eu e o meu irmão ainda éramos menores, os meus pais não falavam destas coisas à nossa frente. Mas na Escola Preparatória Rafael Bordalo Pinheiro, onde estudava, esta rebelião foi bastante falada, e até ficcionada, pela imaginação fértil das crianças de onze e doze anos, que nutrem um fascínio especial por histórias de “guerra”, entre os bons e os maus.
Um dos meus melhores amigos, filho de um militante do PCP, facto que desconhecia na época, contou-me, quase como se fosse um segredo de estado, que o pai tinha estado nesse dia com alguns amigos, a observar à distância as movimentações dentro e fora do Quartel. Munido de binóculos assistiu à saída e entrada de viaturas militares, assim como das forças da autoridade.
Felizmente, quarenta dias depois, a Revolução saiu mesmo à rua.
Militares vindos de várias regiões do país invadiram a Capital e ocuparam os lugares estratégicos da cidade. As dúvidas iniciais dos “Capitães de Abril” transformaram-se em certezas, graças ao apoio popular de milhares de pessoas, que surgiram de todos os lados, de uma forma completamente expontânea, para dar vivas à Revolução e à Liberdade.
Enquanto a multidão invadia a baixa e deixava o Largo do Chiado em estado de sitio, eu brincava no quintal da minha casa, satisfeito pelo “feriado” escolar inesperado. Assistia serenamente à troca de informações entre a mãe e uma vizinha, que não tiravam os ouvidos do rádio, que dava conta dos últimos desenvolvimentos (nessa altura já tínhamos televisão, mas as emissões deviam ter sido interrompidas, pois só me recordo da transmissão das notícias radiofónicas...) da Revolução.
O ponto alto desse dia acabou por ser a rendição de Marcelo Caetano e de todo o governo. Era o sinal mais da vitória dos Militares de Abril.
A minha mãe ficou bastante dividida nesse final de tarde, porque era uma das muitas espectadoras atentas às “Conversas em Família” do Marcelo Caetano, por quem tinha uma grande admiração, considerando-o um bom governante e um homem sério.
O meu pai, de espírito mais libertário, ficou bastante satisfeito com este desfecho. Acreditou firmemente na possibilidade de Portugal se tornar um país mais justo, tal como milhões de portugueses...
Uma das coisas que mais o chocava eram os constantes abusos de autoridade, praticados por quem detinha qualquer poder. Qualquer soldadeco da GNR ou agente de terceira da PSP, procedia como se fosse dono deste, ou de qualquer outro mundo. O pai tratava-os por “pançudos” e realmente, nessa época, eles eram todos bem anafados...
Como devem calcular, mais chocado ficava, quando sabia que alguém tinha sido preso ou interrogado, pelo simples facto de defender um Portugal mais livre e democrático.
Acabo como comecei, com as palavras de Sophia. Tenho algumas dúvidas que «esta é a madrugada que eu esperava», porque trinta e três anos não foram suficientes para nos termos tornado um país mais justo e igualitário. Claro que «livres habitamos a substância do tempo»... e a Liberdade continua a ser a herança mais preciosa da Revolução de Abril.»
Esta é a minha crónica, que consta no livro "25 Olhares de Abril", coordenado por Carlos Garrido (apresentado no próximo dia 29 de Abril, na livraria "CIrculo de Letras", em Lisboa), que me pediu para lhe contar como tinha sido o meu 25 de Abril, em 1974. Claro que é um olhar sem profundidade e sem mágoa, de alguém com onze anos, que pouco ou nada sentiu, os reflexos do salazarismo ou marcelismo. Limitou-se a ouvir falar. Mas o dia, foi assim...
quarta-feira, abril 23, 2008
Não Um, Mas Dez Livros Especiais...

(Continuação do "Largo da Memória"...)
Mais tarde ainda, antes de me cruzar com José Cardoso Pires no “Ribadouro” (e com o Fernando Lopes que adaptou o romance ao cinema, só podia ser ele...), li o “Delfim” e percebi um pouco melhor como se vivia antes de 1974, onde havia gente ligada ao regime, que era quase dona do mundo português...
Pelo meio fui transportado para a Margem Sul, onde conheço os “Bonecos de Luz” (novamente o cinema...) de Romeu Correia, que também se torna um amigo especial, e me apresenta Almada, de uma forma fascinante.
Desço um pouco mais para Sul e aparece-me, de mão beijada, “O Fogo e as Cinzas”, de Manuel da Fonseca, que me oferece um olhar especial sobre o Alentejo...
Já homem grande, ainda me consegui enternecer com a beleza das palavras de Luís Sepúlveda, em “O Velho que Lia Romances de Amor”...
O curioso em todas estas leituras, é a compulsão que sinto em ler, quase de seguida, toda a obra dos escritores que descubro e amo as palavras.
Bem... provavelmente, o melhor é ficar por aqui, tentar “desligar” a memória, antes que me apareçam mais livros e autores, a pedirem umas palavras, a recordarem-me o prazer com que li as suas “vidas de papel”...
Este texto tem dedicatória... é dedicado a uma senhora que talvez goste mais de livros que de gatos, a Isabel Castanheira, que me pediu um texto sobre um Livro da minha vida e recebeu mais nove...
terça-feira, abril 22, 2008
Dia da Terra
O meu avô dizia-nos, a mim e ao meu irmão, que era da Terra que nasciam todas as coisas...
Gostava de encher as mãos daquela terra castanha dos campos e deixá-la cair, por entre os dedos.
Nós olhávamos um para o outro e depois imitávamos o avô, com um sorriso nos lábios, a ver a como a Terra nos escapava das mãos...
Fico muito feliz por saber e sentir, que os meus filhos amam a Terra, em toda a sua plenitude. Gostam de brincar, de se sujarem na Terra, de tentarem perceber a origem das pequenas coisas...
Esta bonita paisagem, "Pombeiro", é da autoria de Alfredo Keil.
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sábado, abril 19, 2008
Andar Perdido Dentro de Campo...
A nossa memória é tão selectiva... e recorda-nos coisas tão estranhas.
Foi o que aconteceu esta manhã, quando me recordei da coisa mais estranha que aconteceu, na minha curta carreira de futebolista...
Jogávamos em casa, no velho Campo da Mata contra um adversário que não recordo. Estava sentado calmamente no banco de suplentes, naquela que era a minha primeira época de juvenil, quando o treinador (qualquer coisa Reis...), olhou para mim e mandou-me aquecer para entrar no jogo...
Aqueci e depois a única indicação que recebi, foi: «vais marcar aquele gajo, vais andar sempre em cima dele e não o deixas tocar na bola.»
Entrei em campo e senti-me completamente perdido. A única referência que tinha no campo, era um jogador habilidoso e rápido, que tinha de perseguir e tirar-lhe a bola, se conseguisse... não tinha uma posição, um espaço.
Joguei pessimamente, completamente desenquadrado do jogo, andava ali, à procura de quase nada...
O treinador não falou comigo depois do jogo, mas percebi que não tinha gostado da sua opção...
A esta distância, sei que nenhum treinador devia pregar uma partida destas a um rapaz de quinze, dezasseis anos, sem lhe ter explicado antes, o que era isso da marcação "homem a homem"...
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terça-feira, abril 15, 2008
O Mercado de Santa Suzana
Esta bonita foto de Jorge Almeida Lima - que nos deixou excelentos registos fotográficos sobre a região das Caldas da Rainha - é de 1913 e retrata o Mercado de Santa Suzana, uma das aldeias do Concelho.
Este mercado merece um realce especial, por ter conseguido ultrapassar o milénio, sem interrupções, continuando a realizar-se mensalmente, acho que ao primeiro domingo de cada mês, e a ser um dos maiores, senão o maior, mercado do Concelho, mesmo com a atenção e vigilância apertada da ASAE nos dias de hoje...
Adenda: Não quis alterar o texto, mas ele tem um grande equivoco (esclarecido pela minha mãe...). Ou seja, fiz confusão entre o Mercado de Santa Suzana e o de Santana. Este último é que continua a realizar-se todos os domingos e é um acontecimento local. Não sei se ainda se realiza algum mercado em Santa Susana, sei sim que tinha uma grande romaria (e raparigas giras), que cheguei a visitar com amigos...
O seu a seu dono...
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terça-feira, abril 08, 2008
Abril-Abril
Abril, quando é mesmo Abril, trás sempre a chuva numa das "mãos".
É por isso que este mês tem tanto de bonito como de chato, pois nunca sabemos muito bem com que roupa vamos sair de casa, no dia seguinte...
E na actualidade as coisas conseguem ser ainda mais estranhas, já que conseguirmos ter as quatro estações, num só dia...
Não deixa de ser giro, todos gostarmos da chuva, ou seja, do espectáculo da chuva. É por isso que preferimos, quase sempre, a protecção dos alpendres ou as janelas... não gostamos muito de quando ela cai, mesmo por cima de nós. E da combinação Chuva-Vento, óptima para guerrear e destruir os chapéus de chuva menos resistentes, nem se fala...
Mas não é por isso que deixo de gostar de Abril...
O "Efeito das Nuvens" é de Alfredo Keil.
sexta-feira, abril 04, 2008
Passeios à Procura do Verão...
Quando o calor aparecia antes do tempo, como tem acontecido nesta semana, era certinho o meu grupo de amigos, do Bairro dos Arneiros, fazer uma "excursão" à Foz do Arelho...
Com as nossas bicicletas, lá íamos nós, a cortar o vento, tão delicioso, que se fazia sentir na velha estrada, cheia de árvores e de sombras, em correrias tontas até à nossa praia...
Felizmente ainda não existiam tantos carros, sentíamos que a estrada era quase só nossa...
Levávamos quase sempre uma bola de futebol, para aquecermos para o banho nas águas frias no Mar, selvagem e resmungador, como tanto gostávamos...
Claro que também dávamos as primeiras braçadas, na Lagoa, mas mágico, era o mergulho nas ondas do Mar...
Era óptima a sensação de que éramos os "donos" da praia...
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sábado, março 29, 2008
Ainda a Primavera...
Não sei explicar muito bem porquê, mas sempre me lembro de gostar de me deitar na vegetação dos campos largos, quase abandonados, quase a "milhares" de quilómetros da civilização.
O ritual é sempre o mesmo, tento ficar quase invisível, quieto e em silêncio, com o olhar preso ao céu e às nuvens que passam lentamente. Depois começo a absorver os sons e os cheiros naturais, sentindo toda aquela vida, povoada de pequenos animais que voam e circulam por ali e de inúmeras plantas, cada vez com mais nitidez...
Os grilos, as abelhas, as cigarras, os pardais e as andorinhas, são quem mais se faz ouvir, numa sinfonia única...
Os perfumes campestres misturam-se e enchem-me as narinas, com a mistura do rosmaninho, dos malmequeres e tantas outras plantes silvestres...
É tão bom sentir que o "tempo" nos campos é diferente do "primo" chato das cidades, que nos faz correr, de um lado para o outro, presos aos minutos e segundos, atrás do "nada".
Até parece que ele pára, por breves minutos...
A Paisagem é de António Ramalho...
quinta-feira, março 20, 2008
A Primavera
A Primavera sempre foi a estação do ano mais bonita e prometedora.
Os campos ficam mais verdes, floridos e musicados, com o chilrear dos pássaros de múltiplas cores e voos, que regressam sempre, de viagem.
O mar também fica mais azul, assim como o céu (muito mais estrelado à noite, longe da claridade das cidades)...
Os dias começam a crescer, como se o tempo nos oferecesse "tempo"...
O quadro, "Dar de Beber a Quem Tem Sede", é do caldense, José Malhoa...
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quarta-feira, março 19, 2008
Uma Manhã de Domingo Diferente...
Às vezes ponho-me a pensar, nas coisas que herdei do meu pai. Nem tudo são "rosas", mas sei que a força de carácter, assim como a teimosia e alguma rebeldia em relação à sociedade, quase sempre demasiado castradora, vieram dele.
No entanto penso, que a coisa mais marcante que recebi dele foi o seu sentido de justiça e igualdade social. Foi bom sentir desde muito cedo, que somos todos iguais. Podemos ser ricos, pobres, brancos, pretos, grandes, pequenos, etc, mas temos (ou devíamos ter...) os mesmos direitos e deveres cívicos. Ele nunca quis ser mais que ninguém, mas também nunca quis ser menos...
Eu também sou assim.
Lembro-me muitas vezes de uma manhã de domingo, em que ele me levou à caça, rente ao nosso bairro, com a "flober" (uma arma de caça de cartuchos mais pequenos...). Graças a um pequeno incidente, percebi (sem perceber muito bem na época, devia ter seis, sete anos...) até onde chegava a "pseudo-importância" e a tentativa de intromissão na vida dos outros, de alguns sabujos...
Um sujeito resolveu implicar com o meu pai, armado em "polícia", ao ponto de chegar a ameaçá-lo, por o meu pai se recusar a identificar e a mostrar-lhe a licença de caça, já que este também não se identificou. O meu pai nunca baixou a cara, enfrentou-o sempre, olhos nos olhos. A partir de certa altura fiquei com medo, porque o outro tipo já falava em prisão...
As coisas acabaram por ficar por ali, porque o pai, disse-lhe que tinha mais que fazer que aturar "gente de merda" e virou-lhe as costas. O outro, furioso, continuou com as ameaças, que aquilo não ia ficar assim, etc.
Como o pai percebeu que eu estava assustado, animou-me, dizendo que aquilo não era nada, que quando crescesse ia descobrir que o mundo estava cheio de gajos que tinham a mania que eram "polícias". E para me fazer sentir importante, colocou a sua cartucheira cheio de pássaros à minha cintura, para que entrasse em "glória" no nosso bairro...
Quando se deu o 25 de Abril, soube de fonte segura, que o fulano que nos tinha importunado era informador da PIDE...
O meu pai já sabia disso naquele domingo de manhã, mas nem por isso, se mostrou assustado. Antes pelo contrário, deixou bem patente o asco que tinha a gente da sua laia...
Escolhi este desenho de José Malhoa ("O Emigrante"), porque reconheço nele, muito do que o meu pai foi, e eu também sou, sem qualquer tipo de complexos, um homem dos campos da liberdade. A cidade "asfixiante" é um acidente de percurso...
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sábado, março 15, 2008
A Pocinha de Salir
A última vez que fui às Caldas, apeteceu-me visitar Salir do Porto.
O dia estava bonito e sem saber explicar muito bem porquê, resolvi ir ver se a "Pocinha de Salir" ainda existia...
Estou a falar de uma nascente de água doce (e "milagrosa" para muitos males, como manda a tradição...), que nasce colada com o Oceano, que nunca é muito violento na "concha" de São Martinho.
Andei umas centenas de metros entre a areia que ladeia o rio salir e as pedras já atlânticas e lá descobri o pequeno tanque, depois das ruínas de uma fortificação, que foi de muita gente (inclusive de piratas - estas lendas...). Já não visitava aquele lugar há uns bons trinta anos, pelo que, tudo me pareceu demasiado pequeno...
Bebi um pouco de água, para sentir se ainda conservava o gosto, que chamamos, doce.
Conservava. Felizmente continua sem sal, e porque não, milagrosa?...
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quarta-feira, março 12, 2008
O Caldas Deixou de Ser Um Doce...
Se há coisa que me faz impressão, é a forma como as Caldas e os caldenses, estão a tratar o seu clube mais emblemático, o quase centenário Caldas Sport Clube.
Eu sei que o futebol já deixou, há bastante tempo, de ser a "missa" dos domingos à tarde. Foi desviado para quase todos os dias, em nome dos interesses da televisão privada de cabo e dos famosos manos "oliveirinhas"...
Também sei que o "saco azul" de Felgueiras, fez com que os autarcas, que faziam questão de ser os presidentes das mesas de assembleia geral (não é Costa?), batessem em demandada e cortassem com os "subsídios a fundo perdido", que lhes dava a ilusão da auto-suficiência...
Por causa disso andam nos distritais e desapareceram, ou mudaram de nome vários históricos do futebol português (Farense, Montijo, Salgueiros ou Académico de Viseu).
Não queria que o Caldas desaparecesse, mas parece que já ninguém quer ser presidente do clube. Ainda menos agora que é o lanterna vermelha da série C da II divisão B...
Nunca a velha expressão (ainda dos tempos da última época da primeira divisão...), «estás arrumado como o Caldas», fez tanto sentido.
Claro que os jogos deprimentes que nos são oferecidos (estou a pensar no Benfica...) e o facto de mais de metade dos profissionais da primeira divisão serem estrangeiros, não são bons sinais para o futuro do ainda famoso "desporto-rei"...
Gostava de acreditar, que é possível dar a volta a esta crise, mas parece que não existem vontades nas Caldas...
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terça-feira, março 04, 2008
As Lojas de Aldeia
As lojas das aldeias eram bastante parecidas com as "grandes superfícies comerciais" de hoje, se esquecermos os espaços exiguos...
Vendiam um pouco de tudo, eram um misto de tabernas, mercearias, drogarias, retrosarias, papelarias, grémios agricolas, etc.
Muitas vezes até tinham objectos pendurados cá fora, para chamar a clientela, sedenta de novidades, transportadas da cidade, Até uma simples vassoura, diferente das artesanais, ou um chapéu de palha, para usar nas fazendas, cheiravam a novidade...
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sábado, março 01, 2008
quinta-feira, fevereiro 28, 2008
Uma Fotografia, Várias Histórias
Estava à procura de uma fotografia, quando encontrei várias imagens das Caldas da Rainha, já com uns anitos.
A que me chamou mais a atenção foi a que tirei ao interior do Salão do antigo Casino do Parque, mais tarde Casa da Cultura da Cidade.
Nota-se que é uma fotografia de Outono, com o chão forrado a folhas douradas, das árvores seculares do Parque D. Carlos I.
Ao olhar para a fotografia, além do ar desolador, que se nota em cada milimetro da imagem, fixei as banheiras enormes que por ali cirandavam, meio perdidas.
Só podiam ser as banheiras do Hospital Termal, onde na minha meninice, tomei bastantes banhos de imersão, porque faziam bem à saúde. Aqueles banhos eram (e se calhar ainda são...) quase como as pomadas de "banha da cobra", vendidas nos mercados, faziam bem a quase tudo. A sua terapêutica recomendava-se para as doenças de pele, doenças respiratórias, entre outras maleitas, com nomes mais técnicos.
Eu só tinha direito a estas "borlas" de imersão, porque a minha mãe foi durante largos anos funcionária do Centro Hospital de Caldas da Rainha...
Não sei se as coisas estão iguais por aqueles lados, se as "ruínas" apresentam o mesmo ar desolador. Calculo que sim.
Nem sei como consegui tirar a fotografia, pois hoje existe um "muro", que esconde esta vergonha (os muros escondem quase sempre vergonhas...) e o desaproveitamento de um edifício histórico, que guarda tantas histórias, dentro da própria história da então vila termal, entre os finais do século XIX e a primeira metade do século XX...
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quinta-feira, fevereiro 21, 2008
Rugas...
Gosto de rugas.
Daquelas rugas que significam vida, que são o mapa de uma caminhada desigual pela estrada, que nos trás e nos leva daqui...
Claro que não tenho nada contra as pessoas que disfarçam ou tentam esconder as rugas. Nem tão pouco percebo porque continua a existir uma dualidade tão grande nos critérios estéticos definidos pela sociedade, entre homens e mulheres. Embora as coisas comecem a mudar (a barriga dos homens por exemplo está a começar a deixar de ser sexy...), a mulher perde com mais facilidade a batalha da beleza, porque lhe exigem que esteja sempre apresentável. É por isso que é uma maior cliente dos cremes de beleza, das operações estéticas e de outros truques usados. E claro, não podemos esquecer a questão económica, pois há cada vez mais gente a viver deste negócio da "beleza"...
Mas não gosto dos exageros. Tal como não gosto de mulheres de bigode, também não gosto dos quadros de pintura ambulantes, que circulam aqui e ali...
Gostava das rugas da minha avó, tal como gosto das rugas da minha mãe...
Mas não escondo que há aqui, neste ponto de vista, ares sexistas ou até machistas. Não me lembro de olhar para as rugas do meu avô ou do meu pai, da mesma forma que olhava para as da avó e olho as da mãe. Embora existissem, não dava por elas...
A única coisa que sei, é que gosto de rugas...
A fotografia é de Augusto Rocha Soares.
sábado, fevereiro 16, 2008
Claro, a Maria Callas...
Esqueci-me da Maria Callas, Alice...
Chamam-lhe a voz do século (XX). E têm razão...
É a voz mais perturbante que já ouvi. Consegue entrar dentro de nós, tal é a intensidade vocal das suas interpretações.
Nunca superou a separação do grego Aristotle Onassis, que a trocou por Jackie Kennedy.
Um dia disse: «A felicidade não é o meu mundo. Há pessoas que nasceram para ser felizes e outras que nasceram para ser infelizes. Eu, simplesmente, não tive sorte.»
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quarta-feira, fevereiro 13, 2008
Bailes Longe da Paróquia...
Nunca fui grande frequentador de bailes, até porque na minha adolescência, as discotecas já começavam a ganhar aos pontos aos espaços dançantes aos pares. A "Green Hill", o "Ferro Velho", o "O Inferno da Azenha" (tinha escrito Azenha do Inferno, mas não me soou tão bem...) e outra discoteca na Foz do Arelho, um pouco antes do "Facho", que teve tantos nomes, que não me lembro de nenhum em especial...
Antes desta fase apareceram as primeiras festas particulares, de aniversário ou apenas festas dançantes, especializadas em músicas lentas, onde tive os primeiros contactos com as curvas das miúdas e aprendi a dançar as "valsas lentas" com namoradas ou simples amigas, que também aproveitavam estes jogos para a longa e complexa aprendizagem do amor...
As músicas? Pois... nestas valsas lentas, raramente faltava o clandestino "Je T'Aime Moi Nou Plus", de Serge Gainsbourg e Jane Birkin.
Mas a grande descoberta da minha adolescência foram, sem qualquer dúvida, os "Pink Floyd", com todas aquelas viagens quase cósmicas, sem a ajuda de qualquer tipo de droga, leve ou pesada, que ainda hoje gosto de ouvir...
Depois havia uma longa lista, de músicas e músicos...
Mas agora prefiro referir apenas os de cá, os especiais que sempre gostei, desde a adolescência. O Sérgio Godinho, o Zeca Afonso, o Fausto e o Vitorino. Não me lembro de uma voz feminina portuguesa que me tocasse...
Na minha adolescência ainda não havia Rui Veloso, mas já havia rock português. Lembro-me de ter assistido a concertos dos "Tantra", "Arte & Ofício", "Ferro e Fogo" e até dos UHF, a primeira banda rock, que ouvi cantar em português, acho que em 1978, numa passagem de ano, realizada no ginásio da Escola Rafael Bordalo Pinheiro.
Não, não gostava de fado. Na época era proibido aos adolescentes da minha geração gostarem de fado...
Obrigado Maria e Sininho, por me fazerem recordar estas e outras músicas...
A imagem que ilustra este texto é do álbum histórico dos "Pink Floyd", The Dark Side Of The Moon, de 1973...
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quinta-feira, fevereiro 07, 2008
Os Bibes Brancos da Primária
Todo este "rebuscamento" ao passado de Sócrates, fez com que me recordasse (num comentário que fiz sobre o tema na blogosfera) do tempo dos bibes brancos que usávamos na escola primária.
Não me lembro bem como funcionava toda esta história dos bibes, mas tenho impressão que os deixávamos na escola e que só eram utilizados na sala de aulas.
Não sei se os levávamos para o recreio. Mas se isso acontecia, deviam ficar bonitos...
E claro, na escola primária do Bairro da Ponte (em frente da estação da CP) ainda apanhei as separações por sexo. Havia um pequeno muro que fazia de fronteira, entre a escola das meninas (não sei porquê, mas elas sempre foram mais meninas que raparigas...) e a escola dos rapazes.
Só quando entrei para o ciclo preparatório, com o advento da Revolução, é que as turmas passaram a ser mistas...
A fotografia é de Eduardo Gageiro, do livro "Estas Crianças Aqui", de que é co-autor com Maria Rosa Colaço.
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sexta-feira, fevereiro 01, 2008
O Meu Amigo Buiça
Durante o ciclo preparatório e o ensino secundário, nas Caldas, tive como companheiro de turma e amigo de mil e uma brincadeiras, João Buiça.
Recordo-me, que numa das vezes que visitei a sua casa, ele mostrou-me um jornal antigo, com algum orgulho. Tratava-se de um exemplar de "O Século" ou o "Diário de Notícias" (penso que era "O Século", mas não tenho a certeza...), de 2 de Fevereiro de 1908, em que era noticiado o regicídio de D. Carlos, Rei de Portugal.
Ele era nada mais nada menos que bisneto de Manuel Buiça, o autor do tiro fatal, de carabina, que atingiu sua alteza real.
Como devem calcular, com os meus onze, doze anos, adorei ouvir aquela história...
Em conversas posteriores vim a saber da perseguição que foram vitimas, durante bastante tempo, inclusive no Estado Novo. Os Buiça só se sentiram verdadeiramente livres, depois da Revolução de Abril.
Esta ilustração, onde se vê Manuel Buiça a disparar a carabina, foi publicada no jornal francês, "Le Petit Journal", após o Regicídio.
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quinta-feira, janeiro 31, 2008
António Duarte e a Arte Caldense

António Duarte é uma das principais referências artísticas das Caldas da Rainha.
Em boa altura o Município Caldense decidiu criar o Centro de Artes das Caldas, que engloba o Atelier-Museu António Duarte, onde podemos encontrar alguns dos seus trabalhos escultóricos mais significativos, em bronze, pedra e gesso.
Se estivesse entre nós, António fazia hoje a bonita idade de 96 anos...
Se gostam de Arte, quando visitarem as Caldas, não percam a oportunidade de visitar o Centro de Artes, onde também estão instalados o Museu-Atelier João Fragoso e o Museu Barata-Feyo.
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segunda-feira, janeiro 28, 2008
Segredo dos Famosos

Não fazia ideia que havia uma rúbrica com este nome na revista de domingo do "24 Horas". Muito menos que um comentário da jornalista Vânia Custódio, na caixa das "Viagens" iria proporcionar a minha colaboração neste trabalho sobre o José Fragoso, actual director de programas da RTP.
Tudo começou com o "post" que escrevi aqui sobre a minha passagem pelas camadas jovens do Caldas Sport Clube, acompanhado de muito boa gente, como o José Mourinho e o José Fragoso...
A reportagem aí está (cliquem para ler...).
Gostei do trabalho da Vânia...
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sábado, janeiro 26, 2008
O Jardim Interior
Um dos espaços onde costumávamos brincar na casa da avó, especialmente quando estava mau tempo, era uma espécie de jardim interior, que nos permitia estar em contacto com o sol, com a chuva e com as nuvens, protegidos por um telheiro...
Era um ponto de passagem quase obrigatório, pois convergia com um dos páteos, com a casa do tio João, com o palheiro do sotão e também com a chamada "casa velha", onde se guardavam velharias...
Debaixo do telheiro, encostada à parede, estava um arca enorme de madeira, onde se guardava o trigo, que se trocava por farinha, na moagem da aldeia. O seu tampo (na altura, enorme...) era quase sempre ocupado pelos nossos carros, onde inventávamos mil e uma brincadeiras...
A pintura surrealista que acompanha este texto (também ele, para o surrealista...) é do italiano Giorgio De Chirico...
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segunda-feira, janeiro 21, 2008
Os Colchões de Palha da Casa da Avó...
Sem saber explicar muito bem porquê, lembrei-me dos colchões de palha da casa da avó, presentes em todas as camas onde dormíamos...
Para os nossos filhos, é mais uma daquelas histórias, quase inverosímil. Colchões para eles, só os de molas...
Na minha infância a a sua existência era tão natural, que nem sequer os comparava com os da nossa casa, na cidade.
Quando chegávamos, no começo das férias grandes, a avó tinha acabado de mudar as folhas secas (penso que de milho...) e os colchões ficavam mais altos. Era uma delícia mergulhar naquela palha e fazer buracos, aqui e ali, com as marcas do nosso corpo...
Não faço ideia se ainda existem destes colchões, mas acredito que sim. Ainda se devem encontrar alguns exemplares nas aldeias mais afastadas do progresso e deste mundo que gira em volta das televisões...
Escolhi o óleo, "À Sombra", de José Malhoa, para ilustrar o texto.
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quarta-feira, janeiro 16, 2008
«Dá-lhe! Dá-lhe!...»
O meu filho quis ir ver um jogo de juvenis do Beira Mar, o clube mais próximo da nossa casa, para ver jogar o Miguel Arcanjo (que já foi nome de craque, nas Antas...), nosso vizinho, que quer ser craque a sério, com o apoio e o orgulho do pai, talvez com a esperança de ter uma velhice mais calma...
O campo sintético ainda não tem bancadas, pelo que assistimos ao jogo no "peão".
Quase ao nosso lado, o progenitor de um dos jovens, não parava de "incendiar" o jogo, com a frase: «Dá-lhe! Dá-lhe!...». Percebi quem era o rapazola, porque olhava de lado para o pai, envergonhado pela sua tentativa de se meter dentro da partida.
Esta expressão irritante, que me fez mudar de lugar, levou-me à infância, aos jogos de rua, em que raramente havia assistentes. Aliás o único assistente que me lembro de ver, era o protagonista da história que vou contar, pai do Sérgio, um rapaz fraquito e sem grande talento. O homem já devia sonhar, com a existência de craque lá em casa...
Quando este perdia a bola (era quase sempre...) lá estava o senhor, de bigode eriçado, empoleirado na varanda, a gritar: «Dá-lhe! Dá-lhe!...» E o Sérgio, sem saber o que fazer, já que era a bola que lhe fugia dos pés, a maior parte das vezes...
Nós olhávamos uns para os outros, com um sorriso malandreco, gozando o prato...
Claro que o senhor, nunca mais deixou de ser o «Dá-lhe! Dá-lhe!...», para a malta da rua...
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sexta-feira, janeiro 11, 2008
Os Carros de Madeira
Os carros de madeira, que os os tios, Zé e Arcelino, faziam para nos transportarem, a mim e ao meu irmão, ainda bem pequenotes, pelas ruas de Salir de Matos, são uma das primeiras boas recordações que tenho da minha Aldeia...
Recordei-os com um sorriso, quando olhei o óleo de Júlio Pomar, "O Carro na Calçada".
Às vezes acontece.
Uma simples fotografia ou um quadro, são o suficiente para nos levarem de viagem até ao passado...
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quarta-feira, janeiro 09, 2008
As Guerras de Balneário...
A recente zanga entre Luisão e Katsouranis, fez-me recordar a diferença de ambientes que existe entre o futebol e as outras modalidades desportivas.Quando joguei futebol nos iniciados e juvenis do Caldas, notei logo que existiam pequenos grupos, graças a algumas vedetinhas que já manifestavam o desejo de dividir para reinar. Além disso, nem todos éramos amigos, alguns de nós só nos encontravamos nos treinos e jogos, devido à projecção do clube, que ultrapassava a própria cidade...
Depois de ter andado uns tempos dividido, acabei por me decidir pelo atletismo, no Arneirense. Foi o melhor que fiz, porque no clube do meu bairro, éramos todos bons amigos. Havia uma relação muito forte entre treinador, dirigentes e atletas, funcionávamos quase como uma família.
Anos mais tarde, já como jornalista, contactei desportistas de todas as modalidades. Percebi que grande parte deles (alguns dos quais campeões do mundo e da europa) eram muito mais humildes que qualquer jogador de futebol da terceira divisão.
E eram terrivelmente injustiçados pela comunicação social, que só se lembrava deles quando eram campeões da europa, do mundo ou ganhavam uma medalha olímpica...
Hoje as coisas continuam iguais. No futebol, passa-se tudo ao contrário, qualquer miúdo que suba aos seniores do Benfica ou do Sporting, é logo colocado no Olimpo, mesmo sem ter provado nada. É sempre catalogado como o novo qualquer coisa. Muitos acabam por não aguentar a pressão, e adeus sonho bom, de craque da bola...
Voltando aos balneários, é raro o clube que consegue funcionar sem grupos e sem "guerras" entre as várias "tribos" do futebol que fazem parte do plantel. Muitos não se falam nem se cumprimentam e só passam a bola dentro de campo, se não existir outra alternativa. Chamam nomes uns aos outros no balneário, nos treinos, nos jogos, e por vezes, chegam mesmo a vias de facto, como todos nós sabemos.
Se neste Benfica actual, além da "tribo" portuguesa, existe ainda a brasileira (sempre numerosa e influente...), a argentina, a africana, a grega, a alemã e a paraguaia, torna-se extremamente difícil gerir estas culturas talentos e línguas, tão diversificadas, mesmo com um grande lider no comando da equipa...
Claro que o mal maior, está na própria cultura futebolística, que tanto idolatra como destroi, jogadores e treinadores, esquecendo que eles não são de barro nem de plástico, são pessoas, como nós...
Esta fotografia é dos anos cinquenta e mostra-nos Matateu a driblar um jogador do Caldas, no Campo da Mata, durante a passagem do clube pela primeira divisão.
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domingo, janeiro 06, 2008
Luiz Pacheco no Oeste...
Luiz Pacheco escolheu a véspera do dia de Reis para partir, ele que sempre foi um desalinhado, preferindo sempre a "corte" dos marginalizados, à "cúria" dos hipócritas, que sempre vegetaram (e vegetam...) nos meios culturais deste curto país... Luiz Pacheco passou pelas Caldas da Rainha nos anos sessenta. Não foi uma passagem invísivel, como muito bem nos conta João B. Serra, no seu livro de crónicas dos anos 50/60, "Continuação":
«[...] Chegou às Caldas, vindo de Setúbal, no final do ano de 1964. Hospedou-se no Hotel Lisbonense, enquanto procurava condições para instalar a família. Em Dezembro, quando editou o panfleto O Cachecol do Artista, indica já como morada a R. Rafael Bordado Pinheiro, 2 , r/c. [...] Dispunha de um curriculum apreciável quando aportou às Caldas, como editor, como tradutor e como observador crítico da vida literária e artística portuguesa. Os traços da sua personalidade intelectual estavam definidos: discernimento e ousadia raros como editor, irreverência contundente como comentador, independência e lucidez incómodas como crítico. [...]»
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sexta-feira, janeiro 04, 2008
Ano Novo, País Velho
Ontem cruzei-me com uma senhora açoreana, que já deve andar próximo das oitenta primaveras e que já não via há meses.
Pela dificuldade em andar, mesmo com o auxilio da bengala, percebi o motivo...
Pela dificuldade em andar, mesmo com o auxilio da bengala, percebi o motivo...
Recordei-me da existência de uma espécie de antecâmara da morte, que nos vai toldando os movimentos e manietando, a pouco e pouco, o dia a dia. Obriga-nos a reduzir as saídas de casa, até deixarmos de sair, quase definitivamente. Começamos a querer ficar até meio da manhã na cama até ficarmos por lá, quase o tempo todo, mais que preparados para que a "coisa negra" passe e nos leve...
Costumávamos frequentar o mesmo café. Lembro-me dela desde sempre, tinha uns gostos um pouco exóticos, na maneira de vestir, de se maquilhar e até de tomar o pequeno almoço, embora fosse sabiamente compreendida pelos senhores, Manuel e Inácio, empregados de mesa.
Só trocávamos bom dia e boa tarde, embora uma vez me surpreendesse, dizendo que tinha gostado de ler um dos meus livros...
Tal como ela, todos os anos desaparecem rostos familiares das mesas do "Repuxo". Este ano o número deve aumentar, com a demasiado saudável, proibição de fumar, nos cafés e restaurantes...
O desenho é de Jorge Barradas...
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