domingo, novembro 05, 2017

Salir de Matos em Parágrafos (7)


Hoje vou falar do meu avô, Manuel Joaquim, um excelente contador de histórias e homem de grande sabedoria em relação a todas as coisas da natureza.

O que não ele aprendeu nos livros que não leu (por nunca lhe terem ensinado praticamente nada do mundo das letras e das palavras escritas), numa altura em o normal nas aldeias era as crianças não colocarem os pés na escola (ajudar a família nos campos era muito mais "importante"...), aprendeu com as muitas vozes da sabedoria, que escutou aqui e ali, guardando histórias e saberes milenares dos campos, sobre a magia da natureza.

Histórias que nos contava com mestria, deixando-nos presos às suas palavras, sentados nas escadas de cimento que davam acesso à casa de fora.

(fotografia de Artur Pastor)

segunda-feira, outubro 30, 2017

«Então quer dizer que vives mesmo em Almada?»

De vez enquanto cruzo-me com um rapaz que conheci nas viagens que fazíamos de comboio entre Caldas e Lisboa, há mais de trinta anos (quando este era o transporte por excelência de uma boa parte das pessoas do Oeste, porque o "expresso" saia à tarde e não havia um carro ou dois por lar... Foi antes de sermos "europeus" e do "cavaquismo"...).

Ele vinha de S. Martinho (onde tinha casa de férias...) mas era de Almada.

Quando vim morar para Almada (lá vem os trinta anos, como o tempo passa...), passei a encontrá-lo mais vezes pelas ruas da Cidade. Trocávamos palavras de circunstancia (como ainda trocamos...), mas nunca nos tornámos próximos.

Foi por isso que estranhei que hoje, quando nos cruzámos, ele me tenha perguntado, se ainda tinha ligações às Caldas. Disse que sim, de vez enquanto ia almoçar com a minha mãe e o meu irmão. Ele estranhou e fez a pergunta parva da ordem: «Então quer dizer que vives mesmo em Almada?»

Disse que sim e lá continuámos o nosso caminho...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, outubro 22, 2017

O Número Um...

Ontem encontrei na FIL um busto do grande Rafael Bordalo Pinheiro, que estava em boa companhia.

Mas ele é que era o verdadeiro número naquele cenário. Mas não vale a pena ligarem para aquele número, ele não atende...

(Fotografia Luís Eme)

quarta-feira, setembro 13, 2017

O Centro de Artes das Caldas

Embora possa ser uma sensação agradável sermos a única pessoa que está no interior do museu (como se o museu estivesse aberto só para nós), não deixa de nos questionar, e até inquietar...

Nem sequer vou na conversa das "pérolas e dos porcos". As coisas são o que são.

Se as Caldas possuem um Parque, que é um autêntico Museu Aberto, povoado de esculturas de inegável beleza e qualidade artística, não é muito inteligente falar de "défice de cultura" dos caldenses.

Mas o Centro de Artes está ali... e é um bálsamo passear por lá, ao lado de tanta gente diferente, de pedra, de ferro, de gesso, de barro...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, setembro 03, 2017

Salir de Matos em Parágrafos (6)

«Não foi um acidente. Foi uma escolha, uma opção familiar.
E foi assim que nasci no terceiro dia de Setembro às 17.30 horas no quarto-maternidade da família, na casa dos avós maternos em Salir de Matos. 
Lembro-me de não achar muita piada de início, por viver na cidade e ter ido nascer à aldeia. O argumento da família era que no velho Hospital de Santo Isidoro das Caldas "se trocavam os bebés". 
Parece que nessa altura os boatos já tinham muita força...
Curiosamente, com o tempo, fui gostando da ideia de ter nascido em Salir de Matos, no mesmo quarto onde nasceram a mãe os tios e o meu irmão...
Quarto que tinha uma particularidade, ficava ligeiramente acima do forno, pelo que era um pouco mais quente que os outros. Mas como ainda nasci no Verão, a temperatura devia ser agradável nesse já longínquo início de Setembro dos primeiros anos da década de sessenta.»

(Na foto sou o mais pequeno e mais redondinho, com a Mãe e o Mano, em Salir de Matos... - escrito originalmente para as "Viagens")

quinta-feira, agosto 17, 2017

Salir de Matos em Parágrafos (5)

«As reuniões familiares, em que se juntam três, quatro, e até cinco gerações diferentes, são quase sempre espaços de boas memórias.
Depois do café e da sobremesa, é normal que os mais antigos escolham as histórias com mais humor da sua juventude, para retratarem um tempo tão diferente dos dias de hoje, em que por exemplo a exploração da mão de obra infantil era comum a todas as famílias. E também era a única possibilidade de se sobreviver, num tempo em que quase todas as pessoas eram pobres... principalmente quem vivia no campo, em aldeias profundamente rurais como era Salir de Matos.
Mesmo assim, há sempre um ou outro drama que se mistura, um sentimento de injustiça que se aviva, porque, ao contrário do que se pensa, não era mais fácil ser-se pai e mãe, nesse tempo em que quase eram proibidos os afectos.»

(escrito originalmente para as "Viagens")

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, agosto 15, 2017

Romeu e a Feira de 15 de Agosto


A Feira do 15 de Agosto das Caldas da Rainha continua a fazer-se, mas há muito que não é o acontecimento de outros tempos (a magia que acompanhou a nossa infância, fugiu...). Com as devidas distâncias era aquilo que conhecemos mais próximo do imaginário teatral e ficcional do Romeu, presente a espaços em livros como a "Roberta", "Bonecos de Luz" ou "O Vagabundo das Mãos de Oiro".

Claro que o Portugal da nossa infância (anos setenta...) é muito diferente do de Romeu dos anos vinte e trinta. Nessa altura, por sermos menino de cidade nem faziamos ideia que havia "cinema ambulante", que foi uma das primeiras coisas a maravilharem o grande dramaturgo e escritor almadense...

Mas havia o circo (sempre gostámos de palhaços...), os carroceis, o "poço da morte", que na época era uma das maiores aventuras que se podiam ver e que a mãe nos ia proibindo de ver. Mas houve um ano que assistimos mesmo aqueles malabaristas que com motas especiais, conseguiam andar de pernas para o ar e conduzir de olhos vendados...

Claro que falar desta "magia" aos nossos filhos, faz com que nos olhem de lado e pensem em coisas parecidas com a "pobreza franciscana"...

(texto publicado no blogue de homenagem a Romeu Correia e fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, julho 12, 2017

Salir de Matos em Parágrafos (4)

«Todas as aldeias eram fartas em tabernas (muitas com a mercearia mesmo ali ao lado), até pelo menos aos anos oitenta. Salir de Matos não era excepção. Os cafés demoraram um pouco mais a entrar nestas pequenas localidades que nas cidades...
A taberna que eu gostava mais era a do Ti Zé David, pela proximidade da casa da avó e também pelo jeito peculiar do dono em levar à certa toda a gente, dos 8 aos 88 anos.
Era um finório que tinha os bolsos sempre cheios de histórias que encantavam a pequenada... É por isso que o Ti Zé David continua a ser uma das boas memórias de Salir...»

(escrito originalmente para as "Viagens")

(Fotografia de Xavier  Miserachs)

sábado, julho 08, 2017

Salir de Matos em Parágrafos (3)


«Esta podia ser a esquina da rua das traseiras da casa da avó, e estes muros os dos nossos pátios, que eu e o meu irmão chegámos a caiar, para oferecer aquele branco tão característico das aldeias portuguesas, especialmente as do litoral e do Sul.
Também as vestes da senhora podiam ser as das mulheres de idade destes lugares. Normalmente sobreviviam aos maridos e faziam o luto no resto das suas vidas...
Eram aldeias a preto e branco.»

(Escrito originalmente para as "Viagens")

(Fotografia de Ramon Masats)

segunda-feira, julho 03, 2017

Salir de Matos em Parágrafos (2)


«A presença masculina no avô esteve ausente no "primeiro parágrafo", porque a casa dos meus avós maternos foi sempre a "casa da avó", com a sua complacência. Ele seria quanto muito dono das fazendas e dos pátios, onde viviam os animais do "jardim zoológico familiar".
Talvez esteja aqui presente muito da tradicional sabedoria popular, que nos diz que a rua é dos homens e a casa das mulheres...»

(escrito originalmente para as "Viagens")

(Fotografia de Eládio Begega - a minha avó era muito mais bonita...)

sábado, julho 01, 2017

Salir de Matos em Parágrafos (1)


«Embora sempre me lembrasse da casa da avó com luz eléctrica (foi das primeiras pessoas da aldeia a ter esta modernidade, graças ao tio Zé, electricista...), adorava visitar de noite a casa dos Antunes, ainda iluminada pelos candeeiros de petróleo, por todo aquele jogo de sombras digno de qualquer palco, desde os corpos que se agigantavam nas paredes aos rostos que quase se tornavam fantasmagóricos, por serem iluminados por pontas.»

(publicado inicialmente dentro de uma posta no meu  "Largo da Memória" - 30 de Junho de 2017)

(Fotografia de Helen Levitt)

domingo, junho 25, 2017

José Mourinho Félix (1938 - 2017)


Faleceu José Mourinho Félix, que foi um excelente guarda-redes (V. Setúbal e do Belenenses) e um bom treinador (na 1.ª divisão treinou o Belenenses, o Rio Ave e o V. Setúbal).

O Caldas SC foi um dos muitos clubes que treinou, no final dos anos 1970, numa época extremamente gratificante para a equipa caldense que ganhou a sua série do então terceiro escalão do futebol, regressando à II Divisão.

Há um facto curioso, e especial para mim, foi ele que me escolheu nos treinos de captação para a primeira equipa de iniciados do Caldas (não tinha sido escolhido no primeiro treino que realizei, dirigido pelo Américo, antigo atleta do clube...). 



No começo dos anos 1990 entrevistei o Quinito, que era o treinador do V. Setúbal para o "Record" e acabei por falar também com o Mourinho (penso que era o secretário técnico do clube). Num clima de grande companheirismo, acabámos por falar de outras coisas, fora da entrevista - graças ao Quinito, um treinador e um homem especial... - e eu acabei por lhe contar que tinha sido ele que me escolhera para a equipa de iniciados do Caldas, onde jogara com o filho (que nessa altura era  um "desconhecido" no mundo do futebol. Penso que na época era adjunto de Manuel Fernandes no E. Amadora e foi na temporada seguinte que foram os dois para o Sporting, para a equipa técnica de Bobby Robson...) a quem deixo um abraço de condolências.

Claro que Mourinho Félix não fazia a mais pequena ideia do episódio. Sorriu ao sentir-se lisonjeado e disse qualquer coisa do género: "como o mundo é pequeno"...