segunda-feira, dezembro 31, 2007

A Passagem de Ano

O Natal sempre foi mais importante que a Passagem de Ano, na minha familia. Ainda hoje é assim.
Como era normal na época, só na adolescência é que comecei a comemorar a passagem de ano fora de casa. Lembro-me de algumas festas de garagem com amigos próximos, em que as miúdas tinham recolher obrigatório, logo após as doze badaladas, de alguns bailes no hotel Lisbonense, nos Pimpões, na Columbófila e também no ginásio da Escola Rafael Bordalo Pinheiro. E claro, de algumas visitas a discotecas caldenses, como o histórico "Ferro Velho", o "Inferno d'Azenha" ou a "Greenhill", na Foz do Arelho.
Como praticava desporto, não usava e abusava do álcool, muito menos de outros "desinibidores" mais perigosos...
Talvez seja por isso que não me recordo de nenhuma passagem de ano com um gosto ou história especial.
Isso não quer dizer que entenda a Passagem de Ano, como mais um dia que vem aí, a seguir ao outro. Mesmo sem ter o hábito de me colocar em cima de cadeiras ou bancos a abanar notas ou bater tampas de panelas à janela, acredito que o amanhã pode ser melhor que hoje...
É por isso que há sempre desejos que ficam no ar, quando ecoam as doze badaladas...
Este ano não vai ser diferente, de certeza que vou desejar um ano melhor para mim e para os meus familiares e amigos.
Com a antecipação de algumas horas deixo-vos aqui, nas "Viagens", o desejo de que 2008 seja um excelente ano para todos vós.
Apesar das "nuvens" que nos rodeiam, é sempre bom acreditarmos que o amanhã pode ser melhor que hoje...

Ofereço-vos também "O Baile do Moulin de la Galette" de Renoir...

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Os Pavilhões do Parque

Os velhos Pavilhões do Parque já foram tanta coisa e hoje são quase nada...
Num tempo em que nem sequer se falava de bibliotecas municipais, era a Fundação Calouste Gulbenkian que patrocinava a leitura em todo o país, nas principais cidades com bibliotecas normalizadas e nos meios mais pequenos com as suas carrinhas-bibliotecas, que eram a alegria de tanta rapaziada, nas aldeias e vilas deste país...
Li muitos livros desta biblioteca, que ficava no piso inferior dos pavilhões...
Mais tarde frequentei o Liceu (mais tarde Escola Secundária Raul Proença) nos mesmos pavilhões...
Bons tempos...
Não sei qual será o seu futuro, nem tão pouco, se têm futuro.
Mas são enormes e têm um passado riquissimo, ao serviço da Cidade das Termas...

sexta-feira, dezembro 21, 2007

A Vila Natal de Óbidos

Já devia ter escrito há mais tempo sobre a Vila Natal de Óbidos, mas o tempo foi passando e...
Estive por lá no passado sábado e embora reconheça que a Vila Natal está bonita e é uma grande ideia para Óbidos e que deve deixar toda a gente feliz, especialmente os comerciantes locais... há por ali ambição a mais para um espaço tão pequeno (interior da Cerca do Castelo e da própria vila), sem capacidade para acolher tanta gente.
Como eu não pertenço ao número (pelos vistos grande...) de pessoas que gostam de estar rodeados de milhares de pessoas, quase sem se conseguirem mexer, não me senti muito confortável naquele lugar, apesar da sua inegável beleza...
Já tinha sentido aqueles "apertos" no Festival do Chocolate, pelo que sabia ao que ia...
Talvez Telmo Faria e a sua engenhosa equipa de trabalho merecessem uma cidade maior e mais espaçosa.
Pior deve ter sido no domingo, pois quando regressava à Capital, a fila de carros na A 8, era bem visível, ainda antes da saída da auto-estrada, o que não acontecera no sábado...
Claro que com tanta confusão, é impossível fruir de todas as ofertas que fazem parte do bilhete, ou seja, em bom português, pagamos e ficamos mal servidos...

quinta-feira, dezembro 13, 2007

O Natal Neste Nosso País...

Pode soar estranho, mas cada vez gosto menos deste Natal, que nos impingem de todas as maneiras e feitios.
Irrita-me que sejamos reféns desta obrigação de comprar presentes, esquecendo a canção (que infelizmente não passa mesmo de uma canção, de que o Natal é todos os dias ou que o Natal é quando um homem quiser.
Irrita-me que de repente apareça muito mais gente a sorrir e se prepare para ajudar os pobrezinhos, nas vésperas da data festiva, apenas porque é Natal e fica bem (nem que seja só para a televisão...), embora não esqueçam os desinfectantes e os cremes, porque o "povo" sem abrigo fede.

A única coisa que sobra nesta quadra são as crianças, que ainda mantêm uma capacidade, quase ilimitada de sonhar, e é para elas que o Natal continua a fazer sentido...
Imagino o quanto importante é para um menino pobre, cujos pais (e deve haver tantos por este país fora, inundado pelo desemprego...) não têm possibilidade de lhe oferecer um presente, que seja um brinquedo, e não a peça de roupa tão necessária, receber algo que lhe ofereça grandes momentos de diversão, ao contrário dos nossos filhos, cuja magia de Natal dura pouco mais que os minutos que demora o abrir as prendas e o olhar para elas (algumas das quais, nem sequer chegam a brincar uma única vez...).
É por isso que neste Natal, a maior prenda que gostava de receber, embora saiba que é um daqueles presentes impossíveis, iguais aos que enchem a imaginação dos meninos pobres, era descobrir que o nosso país estava a fazer uma inversão política e a tornar-se, de novo mais justo e mais igualitário.
Digo isto sem qualquer hipocrisia e sem fazer parte deste ou doutro espírito natalício. Este presente faz parte sim do espírito humano, em que todas as pessoas deveriam ter os mesmos direitos e as mesmas oportunidades.
O mais grave disto tudo é saber que nunca surgiu nada de bom nos países onde o fosso entre ricos e pobres, vai aumentando, dia para dia, como é o caso deste nosso Portugal, cada vez mais capitalista... e onde se ignora o reflexo das sociedades excessivamente liberais e materialistas: o aumento da revolta, da violência, do desamor, da miséria, do vício, da corrupção, etc.

É uma pena descobrir que neste país, é cada vez menos Natal, apesar das ruas estarem mais iluminadas, fazerem-se mais festas e distribuírem-se mais presentes...

terça-feira, dezembro 11, 2007

Caldas: Que Cidade Cultural? (2)

No texto anterior tinha-me ficado pelo Rafael, considerando-o mesmo a maior referência cultural da cidade, apesar de não ser natural da cidade nem ter tido uma passagem muito longa pelas Caldas.
Isso deve-se ao facto de ter tido uma passagem revolucionária pela indústria cerâmica caldense, que ainda hoje se revê, orgulhosamente, na arte deste grande cidadão do mundo.
Claro que a secundarização dos outros grandes vultos da arte caldense (Malhoa, Duarte e Fragoso), também está em parte ligada ao ditado de que santos da terra não fazem milagres.
Na actualidade não noto que exista algum acompanhamento privilegiado a artistas como Gomo, João Paulo Feliciano ou Mário Feliciano, apesar de serem reconhecidos nas suas áreas, mesmo a nível internacional.
Claro que isto não é típico das Caldas, passa-se um pouco por todo o lado e faz parte dos "catrapázios" da sabedoria popular. Pelo que, paciência...
O que é penoso é não se notar a existência de qualquer política local no aproveitamento das condições naturais e materiais que existem actualmente na cidade.
Todos sabemos que é tão importante (ou mais) educar e sensibilizar a população (especialmente a estudantil...) para o mundo das artes e letras como construir museus. E neste último campo o que existe é de uma riqueza extraordinária (quantas cidades não gostariam de ter os espaços museológicos da cidade...).
Pergunto: estes lugares cumprem os seus objectivos? As escolas do concelho, de todos os níveis de ensino, levam os alunos aos museus, mesmo que de uma forma lúdica?
Não tenho certezas, mas acredito que não se faça esse aproveitamento, porque as Caldas é tradicionalmente elitista...
O mais estranho é que, apesar de ter gasto algumas palavras sobre esta temática, continuo com dificuldade em classificar a cultura na minha cidade natal...
Pelo que o melhor é mesmo encerrar esta questão...

sábado, dezembro 08, 2007

Caldas: Que Cidade Cultural? (I)

Perguntaram-me que espécie de cidade, eram as Caldas da Rainha, em termos culturais.
A primeira frase que me ocorreu foi: «não sei.»
Era uma pergunta das difíceis, porque a cidade continua a não ser muito fácil de caracterizar, apesar de possuir excelentes casas de artes.
O pior da cidade é continuar muito fechada e conservadora e isso tem sempre o seu preço.
Desculpei-me que não era a melhor pessoa para falar da cultura caldense, porque estava fisicamente afastado há pelo menos duas décadas, e só sabia do que se passava, pela imprensa regional.
Mas lá fui falando, descobrindo aqui e ali, pontos positivos e negativos.
O aspecto mais negativo (para mim, claro) foi o fecho do histórico Casino do Parque, mais tarde Casa de Cultura, onde se faziam coisas muito importantes e onde estava sediado o Teatro da Rainha (que felizmente voltou...). Esta história nunca foi bem contada, mas havia uma grande “dor de cotovelo” dos sociais democratas instalados no poder (ainda lá estão, os malandros...), perante a sensibilidade e capacidade de trabalho cultural dos “esquerdistas”, “comunas”, “drogados”, “vagabundos”, etc. A forma de destruir aquele trabalho, demasiado visível, foi inventar umas obras, piores que as da Santa Engrácia... como todos os caldenses sabem...
O aspecto mais positivo que referi foi a instalação da ESAD (Escola Superior de Arte e Desenho), que mudou bastante as coisas, pelo menos no campo das artes plásticas. Trouxe gente nova que conseguiu baralhar as cabeças “velhas” da gente instalada no poder, que tiveram de aceitar uma série de “modernices” a abrir algumas galerias de arte, aqui e ali.
Quando se falou de pessoas lembrei-me de Bordalo Pinheiro, de José Malhoa, dos escultores António Duarte e João Fragoso, e senti que Bordalo continua a ser a presença artística mais viva, apesar de ser o único que não nasceu na cidade e que até teve uma passagem mais curta e há mais tempo na cidade termal...
E nem estava a pensar na “louça malandra”...

Este desenho de Bordalo com dedicatória a todos os caldenses, assenta que nem uma luva neste texto...
(continua...)

segunda-feira, dezembro 03, 2007

O Homem do Apito

Por hoje ser um dia especial, vou falar de um arrumador de carros, sempre munido de boné de pala e de apito, que costumava trabalhar no largo do Hospital Termal, nas Caldas da Rainha.
Estava longe de ser uma pessoa simpática e coxeava, arrastando uma das pernas.
Nunca soube o seu nome.
Sei, que nós, durante a meninice, gostávamos de lhe oferecer vários mimos e de nos escondermos atrás dos carros, a ouvir a sua habitual reacção.
Ele quando ouvia a palavra «coxo», ficava fora de si, olhava para todos os lados e oferecia impropérios a quem por ali passasse, que eram a nossa alegria...
Traquinices de infância, de um tempo que não volta...

Espero que estas palavras não soem a mau gosto, por hoje se comemorar o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. Retratam a realidade e também a maldade que existe dentro de nós, desde pequenotes...
O pior de tudo, é trinta e tantos anos depois, continuarmos sem saber lidar com as pessoas diferentes...

segunda-feira, novembro 26, 2007

David & Golias

Colocando de parte alguma baixaria política na guerra de poderes cor de laranja, não posso deixar de tirar o chapéu ao "alcaide" da vila de Óbidos, que, graças à sua clarividência e acção, tem conquistado pontos à cidade vizinha, presidida por mais um "dinossauro", igual a tantos outros, que se habituaram ao poder e não conseguem viver sem ele - mesmo que já tenham ultrapassado o prazo de validade como autarcas -, como se de uma droga se tratasse...
Estou a falar de Telmo Faria e de Fernando Costa, claro.

Mas não deixa de ser estúpido andarem com o passo trocado, há vários anos, não aproveitando a beleza de toda a região, com a realização de actividades conjuntas...

terça-feira, novembro 20, 2007

Os Campos de Cimento

Um dia destes percorri o caminho que fazia diariamente, para a escola primária, de regresso a casa, entre o Bairro da Ponte e o Bairro dos Arneiros ...
Consegui encontrar os amigos que me acompanhavam, sempre com mil e uma brincadeira, em ambas as direcções, numa estrada ainda pouco perigosa, com muito mais bicicletas e motorizadas que carros...
Tanto espaço aberto, hoje ocupado por urbanizações...
Desapareceram as áreas verdes (pinhais e hortas) que cercavam o bairro, a estrada única de entrada deu lugar a outras passagens e até a uma ponte sobre a Linha do Oeste, que quase apagou a antiga passagem de nível.
A velha casa do Zenário (penso que é assim que se escreve...) e os mil e um anexos que a rodeavam foram substituídos por apartamentos...
Já no meu bairro, parei na rua detrás, junto da escola primária, que vi construir. Olhei os desaparecidos campos de terra escura, onde corri quilómetros atrás das bolas que apareciam, sempre pela equipa da rua do meio (a rua 26, que é agora a rua do Compromisso...).
Olhei os prédios em frente da escola e puxei pela memória, à procura dos moradores da minha geração. Apareceram o Fernando, o Pedro e os irmãos, o João e o Hilário, a Luísa... quem também não perdeu a oportunidade de aparecer foi a impagável leiteira - que distribuía o leite e o "jornal" porta a porta - e o marido claro, muito pequeno e magro, uma autêntica caricatura ambulante.
Senti-me quase prisioneiro naquela selva, porque os Campos agora são de cimento...

A fotografia não tem muita qualidade mas retrata os primeiros tempos do Bairro dos Arneiros, nos anos cinquenta, com a casa do Zenário, logo à sua entrada...

quinta-feira, novembro 15, 2007

O Penedo Furado

Muitas vezes, depois de conversas de trabalho informais, sobra algum espaço para sabermos mais coisas uns dos outros.
Foi o que aconteceu ontem à tarde, quando uma senhora descobriu que eu era de Caldas da Rainha. Sem que a interrompesse, disse que costumava passar férias na Foz do Arelho durante a infância e visitava sempre a cidade da louça e das cavacas (são palavras dela...).
Ainda teve o cuidado de dizer que já não se perdia por aqueles lados há uns bons vinte anos.
O mais curioso foi perguntar-me se aquela rocha com um buraco enorme, ligeiramente afastada da praia, ainda existia. Com o desenvolvimento da conversa percebi que estava a falar do Penedo Furado. Disse-lhe que sim, ainda lá estava, embora a erosão o colocasse cada vez mais em perigo.
Fiquei a pensar nas coisas que nos lembramos, nas memórias que ficam da infância...

domingo, novembro 11, 2007

Recordações do Preto

Na casa dos meus pais sempre houve animais, mas nunca os baptizámos com nomes muito humanos, não sei porquê...
Por termos espaço e vivermos ligeiramente afastados da cidade, sempre tivemos um cão de guarda e companhia, e por vezes também um gato (é verdade, nunca tivemos mais de um gato... e era sempre gato mesmo, nada de gatas, provavelmente por causa dos gatinhos...)
De todos estes animais nunca esqueci o "Preto", o bicho mais inteligente que conheci.
Não era gato de casa, de passar o tempo a ronronar e a roçar-nos as pernas, preferia ficar a olhar-nos no seu canto. Só chamava a nossa atenção com as suas habilidades. Por exemplo, era um caçador nato. Eu adorava ficar sentado no quintal a vê-lo nas suas "caçadas", a saltar pelo ar atrás das presas, e de vez em quanto lá apanhava um pássaro mais distraído...
Tinha outra característica, a preferida da mãe. Era incapaz de roubar o que quer que fosse da cozinha, ao contrário de outros sonsos que viveram lá por casa, que não podiam ver nenhum alimento à "pata de semear".
Também era um galã de telhado, no tempo das "gatas" desaparecia, só vinha a casa para as refeições...
Como acontece com tantos gatos, foi atropelado quase mortalmente. O meu pai encontrou-o estendido na estrada, a miar, próximo da nossa casa e trouxe-o para dentro.
Tinha ficado paralisado da cintura para baixo e chorava, quase como um ser humano. Eu também chorei. Acho que foi a primeira e última vez que chorei por um animal.
No dia seguinte, de manhã, já estava a preparar-se para uma nova etapa da sua vida, arrastando-se pelo quintal, incapaz de ficar à espera da morte num canto, sossegado ou a gemer...
Claro que dias depois os meus pais tomaram a decisão de o levar ao veterinário, para ser abatido, pois aquilo não era vida para um animal como o "Preto"...
Depois deste incidente, não houve mais gatos lá em casa...

sábado, novembro 03, 2007

As Asas São Para Voar em Liberdade

Nunca gostei de ver pássaros presos em gaiolas...
Isso acontece desde a minha infância.
Além destes objectos repugnantes serem as coisas mais parecidas com prisões, sempre olhei as aves como os seres mais livres do mundo, graças às suas asas, capazes de as levarem para lugares longínquos...
O meu filho gostava de ter um animal de estimação e já falou de pássaros. Claro que não lhe vou satisfazer este pedido.
Continuo a não gostar de ver pássaros presos em gaiolas...
É tão bonito o voar dos pássaros...
É por isso, que às vezes gostava de ter asas, de voar por aí...

quarta-feira, outubro 31, 2007

Porque Hoje é Dia de Poupar...

A Arte de Rafael Bordalo Pinheiro pode ser utilizada para ilustrar qualquer texto, ainda mais se se tratar do Dia Mundial da Poupança...
Este "escarrador" de louça, da sua autoria, é uma maravilha, com tantos "reis", em jeito de saca...
É contemporâneo dos "colchões", o lugar quase mítico, para se guardar dinheiro, quando os bancos ainda não inspiravam grande confiança...
E este é mesmo um objecto de museu, e não quase...

sábado, outubro 27, 2007

Vendedores da Sorte

Sempre me fez confusão os "vendedores da sorte", serem pessoas tão desvalidas na vida, apesar de andarem de rua em rua a apregoar, «quem quer a sorte grande?», acrescentando o nem sempre convincente, «aproveite, anda hoje à roda».
Todos a queremos, mais agora que os tempos estão mais próximos das histórias de Dickens... mas e tu cauteleiro? Chegam-te os trocados que algum sortudo, te poderá dar, agradecido pela tua insistência?...

Recordo que no final da rua onde cresci também havia um casal de meia-idade que vendia jogo. Lembro-me que ele usava um boné de pala, igual aos dos arrumadores de carros oficiais, tinha uma voz rouca e no regresso a casa, vinha quase sempre aos esses pela rua abaixo.
Viviam para lá de um portão de chapa, que escondia uma série de anexos, ocupados por gente pouco considerada pela vizinhança, onde também morava uma prostituta reformada, conhecida como "varina" (sobre a qual também existe uma história, um pouco picante, que teve como protagonista o meu irmão...). Tinha uma série de filhos e alguns netos, quase todos com pouca vontade de trabalhar. E lá andavam eles "velhos", a sustentar todas aquelas bocas, ela a vender tremoços e ele cautelas...
O álcool era a sua perdição e também o seu afago...

segunda-feira, outubro 22, 2007

Os Espantalhos

Ao descobrir esta fotografia voltei à minha infância.
Voltei a inventar formas de tornar os espantalhos que o avô colocava nas fazendas mais humanos, juntamente com o meu irmão...
Sim, mais humanos, ou seja, com roupas, chapéus, rosto e até mãos, com dedos palha...
Pedíamos à avó roupas velhas, esburacadas com o uso, chapéus sebentos que já ninguém usava e construíamos as nossas primeiras (e únicas...) esculturas, com alguns laivos de arte...
Recordo que o avô preocupava-se mais com os movimentos que ele fazia, colocando vários objectos móveis, que abanavam e projectavam sons, quando o vento soprava, afastando as aves das colheitas...

quarta-feira, outubro 17, 2007

A Charanga

Embora Caldas da Rainha não seja uma cidade eminentemente cultural, de vez em quanto aparecem projectos inovadores e interessantes.
Foi o que se passou com o grupo de música popular "Charanga", nos anos oitenta, que chegaram a ter algum sucesso a nível nacional, embora se tivessem colado um pouco aos "Trovante"...
Uns anos depois desapareceram, como acontece com tantos projectos culturais, neste falso paraíso, à beira mar plantado...
A sua música ficou e continua a ser agradável, apesar da simplicidade das composições.
Deixo-vos também a capa do álbum "Aguarela", com uma paisagem do Oeste...

domingo, outubro 14, 2007

Mistérios do Olhar...

A forma de olharmos tudo o que nos rodeia está muito ligada ao nosso estado de espírito...
Muitas vezes somos completamente indiferentes às pessoas que nos cercam, a nossa atenção fixa-se em coisas tão simples como as ruas, o céu, as árvores, as casas, o rio, as flores, etc.
Outras, reparamos em tudo, com tanta nitidez, que até assusta...
Ontem "viajei" em vários transportes públicos (cacilheiro, metro, autocarro...) e descobri que quase todas as pessoas mascavam pastilhas, homens ou mulheres...
Ocorreu-me um pensamento justificativo: talvez estivessem a tentar deixar de fumar e esta fosse a forma de terem a boca ocupada...
Também descobri que quase todas as pessoas que atendiam e falavam ao telemóvel, o faziam aos berros. Perguntei para os meus botões: «será que eu também sou assim?»
Provavelmente sou. Prometi a mim mesmo que ia tentar falar mais para dentro, em público...
Em relação ao mascar pastilhas elástica, não faço parte do "clube". Não acho que os maxilares precisem de tanta ginástica...

quinta-feira, outubro 11, 2007

A Coragem de Catalina Pestana

Conheci Catalina Pestana quando deixei as Caldas e vim viver para a Cruz Quebrada. Ela vivia no mesmo prédio dos primos Zé e Elisete e era visita de casa, pelo que nos cruzámos muitas vezes.
Desses meus dezoito anos guardo a imagem de uma mulher forte, desabrida, generosa e solidária.
Voltámos a encontrar-nos mais vezes, ao longo dos anos, quase sempre com um ponto comum, o padre Felicidade Alves.
A última delas foi em Salir de Matos, na inauguração do "Largo Padre Felicidade Alves".
O "Caso Casa Pia" acabou por a transformar numa figura pública, com a sua nomeação como Provedora da Instituição, no seu período mais critico.
Continuo a pensar que foi uma boa escolha, porque era necessário alguém com coragem e personalidade forte para enfrentar todo aquele clima de suspeição e de violência que envolvia a Casa Pia.
Houve uma altura que achei que ela estava a falar demais, que devia manter uma maior descrição. Esquecido de que estava sempre rodeada de jornalistas, à procura de "assunto" para alimentar a novela...
Finda a comissão voltou a ter a sua vida de volta, embora continuasse ligada às pessoas e ao processo, por razões óbvias.
Processo que foi arrefecendo, até que ela deu uma entrevista oportuna ao semanário "Sol" - desta vez não tenho dúvidas que falou na altura certa -, causando alguns embaraços e até mau estar, no interior e no exterior da Instituição.
Não gostei do discurso facilitista da actual directora, que diz que tudo está bem, quando todos sabemos, que estamos a falar de "feridas" que demoram muito tempo a sarar e nunca deixam de doer. Nem tão pouco da indignação dos funcionários, que falaram de um clima de terror, nos seus tempos de provedora. Embora os compreenda, para eles era bem melhor o tempo em que tratavam os alunos como objectos, sem terem de dar satisfações pelos seus actos a ninguém, que os tempos de Catalina, em que tiveram de ser mais responsáveis, além de verem quase todos os seus passos vigiados, pelo menos no interior da Casa Pia.

Embora todos nós estejamos convencidos que esta "montanha" vai parir um rato, é bom que apareça alguém, com coragem, para dizer que quase nada mudou, que grande parte dos "predadores" continuam à solta, por aí, sem desistirem das "presas" da Casa Pia e de outros lugares...

segunda-feira, outubro 08, 2007

A Influência do Ambiente Onde Vivemos

Olho para o meu dia a dia em Almada e percebo o quanto os ambientes locais nos podem influenciar...
Um dos bons exemplos é a relação que tenho com as Colectividades do Concelho.
Sou sócio de sete colectividades populares. Claro que só me sinto verdadeiramente atraído, por duas delas, a SCALA - Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada e a Sociedade Filarmónica Incrível Almadense.
Enquanto vivi nas Caldas nunca fui sócio de nenhuma Associação, desportiva, recreativa ou outra coisa qualquer.
Às vezes penso que fui influenciado pelo lado anarquista do meu pai, que sempre o afastou de clubes, partidos ou outros grupos colectivos. Gostava de pensar pela sua cabeça e de caminhar com os seus próprios pés...
Mas mais importante que a sua influência, foi o ambiente da cidade, muito pequeno-burguês, pouco dado aos orgulhos colectivistas que ainda hoje se vivem em Almada.
Quando descobri a Incrível Almadense - que está quase a fazer cento e sessenta anos -, fiquei encantado com o seu passado de luta e com tudo o que tinha dado a largos milhares de pessoas. E não resisti, fiz-me sócio.
A SCALA é uma história diferente, tem muito a ver com a minha paixão pelas artes e letras, e claro, com alguns amigos que tive o prazer de conhecer...
A sabedoria popular bem nos diz: «Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.»
Mas chateia-me pensar, que se vivesse nas Caldas, provavelmente, nem sequer seria sócio dos Bombeiros Voluntários da Cidade...

A fotografia que ilustra este texto é do começo do século XX e mostra-nos o Mercado das Caldas...

quinta-feira, outubro 04, 2007

Porque Hoje Ainda é Quatro de Outubro...

Às vezes ponho-me a pensar, como seria o nosso país, num regime monárquico.
Provavelmente não seria muito diferente daquilo que é hoje. Basta olharmos para o lado, onde existe uma monarquia tranquila e um reino mais desenvolvido que a nossa segunda república...
No entanto fico sempre com receio que fossemos um país mais desigual, com demasiados "condes", aqui e ali, a tentarem viver à sombra de qualquer "bananeira", daquelas que dão euros e não bananas...
Claro que a nossa nobreza, em 1910, estava de uma forma geral, falida. O poder económico era detido por uma burguesia emergente, cujas aspirações se prendiam com a atribuição de um "título" ou a compra de um daqueles brazões que contam histórias quase milenares.
Ainda hoje é assim, com os novos ricos, só que em vez de brazões, adquirem grandes vivendas, grandes carros, barcos, etc, quase sempre, mais para exibição, que para gozo pessoal.
Claro que existe uma grande ilusão em todas estas transformações sociais, porque os "condes" e os "barões", nunca deixaram de existir, mudaram foi de nome...

A República tem ainda outra vantagem, é retratada como uma mulher linda e justa, tal como esta do bonito óleo de Margarida Cepeda...

sábado, setembro 29, 2007

Figuras Públicas

Estava no meio de uma conversa com "os meus botões" (adoro esta expressão, e se falo com estes companheiros...), quando, apanhei no ar duas palavras que escaparam do diálogo entre duas personagens secundárias, que atravessavam o rio, no mesmo cacilheiro que eu.
Não pude deixar de pensar no conceito que esta gente tem da "figura pública", nem tão pouco de continuar a viajar no tempo...
Tenho a certeza de que quando não havia televisão, nem se vendiam as revistas "cor de rosa foleiro", as pessoas não se tornavam "figuras públicas" por fazerem coisas absurdas e insignificantes, como andar por aí de festa em festa, a comer rissóis e a tirar fotografias, com sorrisos e poses de actores de quarta categoria.
Recuei à minha infância e não foi difícil de concluir que quem deveria merecer esta designação era o barbeiro, o sapateiro, o merceeiro, a cabeleireira, o taxista, etc, esses sim, figuras eminentemente públicas, cuja existência se devia ao facto de servirem a comunidade e não de se servirem de nós...
Mas estamos numa época em que não se mudam apenas os tempos. Está tudo em transformação permanente.
Até os ventos já não são o que eram, estão cada vez mais rebeldes...

terça-feira, setembro 25, 2007

Lugares de Outono

Um dos lugares onde melhor se sente a chegada do Outono é na Mata das Caldas da Rainha.
Andar ou correr no meio de tantas folhas caídas, ao ponto de ficarmos com os pés cobertos do "ouro", com a "música" característica do pisar das folhas secas, é normal para quem passeia neste espaço...
E quando olhamos para cima, descobrimos a nudez das árvores, que nos olham quase envergonhadas...
No Parque a tristeza é disfarçada pelas árvores que não se rendem ao Outono e permanecem imponentes, o ano inteiro...

quinta-feira, setembro 20, 2007

A Salmoira

Estava a tirar alguns apontamentos históricos, quando descobri a palavra Salmoira. Esta palavra levou-me logo de viagem até Salir de Matos...
Voltei a entrar na casa da avó, a descer a escada ao lado do forno, a percorrer o corredor da adega e a parar, junto à arca de madeira, cheia de sal grosso. Sal que cobria a carne e o toucinho, guardados após a matança do porco.
Nessa altura ainda não havia frigorífico lá em casa, nem na maior parte das habitações da aldeia...
E a carne era toda conservada em salmoira...
Esta aguarela de Maria Valente representa muito bem qualquer aldeia da Estremadura, como Salir de Matos. E como me lembra a rua detrás, dos nossos pátios, que começava na casa da tia Utilde...

domingo, setembro 16, 2007

Partir à Procura de uma Vida Diferente


Um dos meus tios, foi um dos muitos portugueses que se aventuraram a salto, até França, nos anos sessenta.
Não o fez por razões políticas, muito menos para escapar da guerra colonial, que era um "terror" para quase todos os jovens do nosso país...
Foi atrás do sonho de uma vida melhor, para ele e para os seus...
Na hora de partir, deixou muita coisa para trás, inclusive a esposa, grávida do primeiro filho...
A viagem da fronteira portuguesa até à fronteira francesa, durou catorze longos dias, com fome, frio, sede e muito medo de ser apanhado e preso.
Ele e os companheiros de fuga só descansaram quando chegaram a França, onde foram muito bem recebidos pelos locais das terras fronteiriças, que lhe deram comida e até guarida.
Hoje está por cá, mas não esquece o acolhimento que teve, no país que considera a sua segunda pátria. E se há coisa que não gosta, é de ouvir dizer mal de França e dos franceses, porque é um homem grato ao país que lhe deu a oportunidade de recomeçar uma nova vida.
Aconteceu-lhe o que acontece a tantos de nós. Partimos à procura de algo diferente, na esperança de encontramos a razão da nossa existência, e acabamos por adoptar segundas terras e segundos países...

sexta-feira, setembro 14, 2007

O Relógio do Tempo

Nas minhas férias campestres do começo de Setembro, nunca usei relógio e mesmo o telemóvel, estava quase sempre desligado, por falta de "rede"...
Mas no campo raramente nos perdemos no tempo, porque o sino da igreja da aldeia continua a replicar de hora a hora, com as badaladas necessárias e de meia em meia-hora, com apenas um toque.
Em Salir de Matos também é assim... o som ecoa por toda a freguesia, embora avise cada vez menos agricultores, porque, infelizmente, são uma espécie em vias de extinção...
Outra curiosidade matinal na aldeia era a visita do peixeiro, que começava por apitar, para de seguida, nos oferecer os fados da Amália, provavelmente ainda de cassete, enquanto visitava as ruas da localidade...

sábado, setembro 08, 2007

Sons e Saberes dos Campos


O ambiente campestre desperta-me sempre a atenção para as coisas pequenas, que normalmente nem sequer mereceriam uma linha, noutro lugar qualquer...
É por isso que...
Gostava de conhecer as aves pelo seu assobio,
uma linguagem demasiado bela e simbólica,
ou ainda pelo garrido das plumas
e pelo bater das suas asas...

Da mesma maneira que gostava de conhecer todas as plantas,
que crescem aqui e ali, ao Deus-dará (gosto desta expressão)...

A aguarela é de Ernest Duez...

quinta-feira, agosto 30, 2007

A Fruta do Oeste


A entrada na União Europeia, trouxe-nos vários dissabores.
Um dos mais graves, senão mesmo o mais grave, terá sido o quase abandono "forçado", da agricultura pelos portugueses, devido à "invenção" de quotas de produção...
Claro que ainda hoje há proprietários (especialmente os donos de grandes propriedades no Alentejo) a viverem dos rendimentos do "pousio" das suas terras...
A Região do Oeste, bastante rica em fruta, como não podia deixar de ser, sofreu um forte revés com as novas políticas agrícolas comuns...
As únicas espécies que tem resistido, são a pêra rocha e algumas vinhas, aqui e ali...
Mas o mais comum é descobrirmos campos e pomares abandonados no Oeste, porque o país agrícola de Salazar deu lugar a uma "coisa", que ainda não está bem definida, apesar do passar dos anos...
Outra das consequências deste abandono tem sido o aumento dos incêndios, por razões óbvias.
Sem pretender ser saudosista, este cartaz do Estado Novo, lembra-me que sempre produzimos boa fruta, apesar de não ser tão grada como a importada...

terça-feira, agosto 28, 2007

As Noites Escuras de Salir de Matos


Quando a electricidade chegou a Salir de Matos, não entrou logo em todos os lares...
Penso que por razões económicas, pois as casas mais afastadas do centro da aldeia tinham de pagar mais pelas "puxadas", porque a requisição era paga ao metro (penso que ainda é assim...).
A única coisa que sei é que a casa dos avós foi das primeiras a ter "luz", por estar bem localizada e também por o meu tio Zé ser electricista e ter feito toda a instalação rapidamente.
Aliás, não me lembro da casa da avó sem a luminosidade das lâmpadas (esquecendo as "escuras" ocasionais, em que tínhamos de recorrer aos candeeiros a petróleo e a velas).
Mas como disse anteriormente, havia muitos lares, sem electricidade, em que ainda se combatia o escuro da noite com candeeiros e candeias. Lembro-me de visitar a casa dos pais de uma tia por afinidade, e encontrar sombras e rostos mal iluminados, a tomarem a ceia...
Mas onde se notava mais a falta de electricidade era nas ruas. Pois havia apenas meia dúzia de candeeiros, dispersos, aqui e ali. Nas noites de Lua Nova, tinhamos de andar com cuidado, utilizando por vezes mesmo uma lanterna (também a petróleo).
Recordo que estas caminhadas no escuro em grupo eram um aventura deliciosa para mim e para o meu irmão, sempre prontos a fazer traquinices, especialmente quando estavámos acompanhados de alguém com medo da escuridão. Além de atirarmos objectos e pedras para a frente, também fingíamos ver e ouvir coisas estranhas, aqui e ali...

A imagem que ilustra este texto é da autoria de Eduardo Luiz.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Camas de Feno


As vindimas serão sempre a minha actividade campestre de eleição.
Quando me recordo das muitas aventuras que partilhei com o meu irmão, nas vinhas, nos percursos acidentados e depois no lagar, com a cumplicidade do avô, do pai e dos tios, sinto sempre uma grande nostalgia...
O ambiente da vinha também era bastante alegre e festivo. Havia sempre alguém, capaz de animar toda aquela gente, com alguma coscuvilhice engraçada ou ainda com anedotas e ditos populares, que acabavam por deixar toda a gente a sorrir.
Quantas vezes não ouvíamos a avó ou alguma tia, a dizer para taparmos os ouvidos...
Também íamos conhecendo pessoas novas, algumas com histórias de vida singulares...
Nas muitas conversas que se desenrolaram nas vinhas, nunca esqueci o relato de um homem, que nos contou um episódio, que achei único na época: a primeira vez que descobriu que existiam lençóis foi quando foi para a tropa... Até aí sempre dormira em camas de palha, por sinal bem macias, no palheiro, com a companhia dos animais da casa.
Nunca tinha imaginado até então que pudesse acontecer tal coisa...
Recebi mais uma lição de vida sobre as diferentes vivências de cada um de nós, constatando que as histórias sobre os tais berços de palha e de oiro, não era apenas uma lenda...


Escolhi um Picasso especial para ilustrar este texto, "Camponeses Dormindo"...

sexta-feira, agosto 17, 2007

O Velho Conto do Vigário

As pessoas do campo sempre foram demasiado simples - embora hoje se tenha perdido muita dessa simplicidade, por se ter quase abandonado o trabalho dos campos e pelo ambiente de globalização que se vive, primeiro com a televisão e depois com as novas tecnologias..., - e até ingénuas. É por isso que ainda existem alguns indivíduos de meia idade a caírem em alguns "contos do vigário", principalmente em feiras e romarias...
Pensava que já não se usava a técnica da carteira recheada de notas, prontamente substituída por uma cheia de pedaços de jornal... mas ainda se usa, e o mais grave, é que ainda há quem caia...
Foi o que aconteceu ao Tio Alfredo, há um ano e poucos dias, durante a Feira de 15 de Agosto das Caldas. Estou a falar de um daqueles aldeões que ainda gosta de "carregar" a carteira em dias de festa...
Estava numa barraca de comes e bebes a beber uma cerveja com uns amigos - parece que até à velha guarda já perdeu o hábito de beber vinho, cheio... -, que fez questão de pagar, exibindo o mostruário de notas de vinte e de cinquenta euros a quem quisesse olhar.
Os "contistas" deviam estar à espera de alguém, com os atributos do Tio Alfredo para lançarem a carteira para o chão, para ver o que dava...
E deu. O aldeão fiou-se no marmanjo que, desta vez nem sequer falou em dividir o dinheiro, mas sim em o entregar ao dono - vejam lá que a carteira até tinha cartões, a verdadeira claro -, e foi à procura de um local para anunciar que se tinha encontrado uma carteira. Como fiel depositário da carteira, o Tio Alfredo foi na cantada do vigarista e deu-lhe 150 euros, dos quase duzentos que tinha na carteira, não fosse fugir com os mais de quinhentos que enchiam a dita cuja. É que o outro sujeito, rematou-lhe, que nestes tempos não se pode confiar em ninguém. E estava bem certo...
Passaram-se dez minutos, um quarto de hora e o homem começou a achar grande a demora. Por curiosidade resolveu abrir de novo a carteira que lhe tinha sido confiada e que o "artista" tinha colocado num pequeno saco de plástico, para não dar muito nas vistas. Tal não foi o seu espanto quando descobriu o tradicional um molho de pedaços de jornal, dentro da carteira...
O mais curioso é que o Tio Alfredo era uma daquelas pessoas que estava farta de ouvir falar do "conto do vigário" e dizia sempre que nessa não caía...

Embora possa parecer ficção, isto aconteceu mesmo, em 2006. Claro que o sujeito em causa não se chama Alfredo, nem é meu tio, mas mora na freguesia de Salir de Matos. Escolhi "Os Jogadores" de Paul Cézanne, para ilustrar este texto, porque a vida é sempre um jogo...

terça-feira, agosto 14, 2007

A Beleza da Lua e das Estrelas

Acho que só valorizamos as estrelas e o luar, quando nos encontramos sem qualquer sinal de electricidade por perto.
Há meia dúzia de anos vivi uma experiência inesquecível, quando fui convidado para conhecer a casa de campo que um casal amigo tinha adquirido há poucos meses, no Alto Alentejo.
A única coisa que nos pediram para levar foi sacos cama e uma lanterna.
O local era especial, ficava num vale bastante verde, a poucos metros de um pequeno rio, com água gelada e cristalina, completamente afastado da civilização.
O sinal mais notório da ausência do nosso mundo era a falta de luz eléctrica...
Apesar de termos de andar com atenção redobrada, pela falta de hábito, o céu estava estrelado e a lua começava a "encher". Ou seja, a noite nem era demasiado escura...
O melhor de tudo foi todo aquele o silêncio. Além das nossas vozes, apenas se ouvia a água do rio, as aves nocturnas e um ou outro pequeno animal que passava por perto, quando pisava qualquer ramo seco...
O interior da casa, quase vazia, estava iluminada por meia dúzia de velas, colocadas em lugares estratégicos, dando um ar de novidade e até alguma beleza àquela casa antiga, bastantes rústica.
Como era natural, este lugar fez-me lembrar a infância...
Prometo voltar ao tema, mas já em Salir de Matos.

Escolhi um óleo de Mário Dionísio, "Reunião Clandestina", pela cor, pela noite e não pela clandestinidade...


sábado, agosto 11, 2007

As Corridas Diárias Entre as Caldas e a Foz

Nos anos setenta e oitenta a bicicleta era o transporte principal do meu grupo de amigos, que preenchiam as férias grandes com muita praia e muito desporto.
Esta onda desportiva tinha início no percurso feito de bicicleta entre as Caldas e a Foz do Arelho, realizado quase sempre num ritmo bastante competitivo, com a motivação da Volta a Portugal e também com as marcas na estrada de alcatrão, da estafeta pedestre organizada na Primavera pelos "Os Tufufos". De dois em dois quilómetros lá estava eu em ensaiar uma fuga e a ganhar mais uma "meta-volante".
A vingança estava destinada sempre para o fim, quando na entrada da vila os meus companheiros mais velhos (Vitor, Fernando, José Luís e Eduardo) começavam a pedalar e a desaparecer. Só os voltava a encontrar junto ao mar, onde deixávamos as bicicletas presas...
Chegámos a fazer estes dez quilómetros em pouco mais que dez minutos... e nem tão pouco ligávamos ao facto da estrada ser perigosa (na adolescência somos assim)...
Já na praia, além dos festivais diários de mergulhos na aberta (com uma prancha improvisada - saca de tecido cheia de areia), ainda íamos a trote até ao cais, onde mergulhávamos e regressávamos a nado até à aberta, aproveitando a boleia da maré vazante...
Também havia o futebol de praia, as raquetadas e as brincadeiras nas ondas, quase sempre selvagens do verdadeiro Mar, que desafiávamos, também com alguma inconsciência, apesar de sermos quase todos exímios nadadores...
O mais engraçado é que este quase ritual acompanhou várias gerações, que mostravam um grande orgulho em pertencerem aos "ibéricos"...
Eram tempos felizes e descontraídos...

Esta prosa está ilustrada com o óleo "Bicycle Race", de Lyonel Feininger.

domingo, agosto 05, 2007

Olhar o Mar


Gosto de estar junto ao mar, mesmo que a sua cor e o seu som tão característico se tornem quase banais, pela habituação...

Não sei se a Rosa pensou que eu estava a brincar, quando lhe falei da existência de uma "Rosa dos Ventos" na Foz do Arelho.

Claro que é apenas mais um, dos muitos bares que enchem a quase avenida da praia, mas quando o descobri, lembrei-me de imediato do perfume da Rosa...

quinta-feira, agosto 02, 2007

As Minhas Escolhas Literárias...


A Ida lançou-me o desafio de falar sobre os livros que li e que mais me marcaram.
Pensava não serem assim tantos, mas depois comecei a pensar e apareceram títulos e autores para todos os gostos, que me obrigaram a fazer uma quase selecção. Escolhi dez, não por serem os melhores, mas sim por serem os mais marcantes, em épocas diferentes da minha vida, que passo a referir:
Engrenagem, Soeiro Pereira Gomes – A descoberta do mundo do trabalho e do falso milagre que são fábricas, no começo da adolescência;
Sinais de Fogo, Jorge de Sena – Uma história de um outro país, que em encantou no fim da adolescência;
Malhadinhas, Aquilino Ribeiro – Marcou o meu regresso à leitura e o conhecimento deste grande escritor;
O que Diz Molero, Dinis Machado – Um retrato delicioso de uma outra Lisboa, quase de banda desenhada;
Bichos, Miguel Torga – Uma fabulação encantadora com tanta bicharada;
O Delfim, José Cardoso Pires – Um outro encontro com o tal país que pensamos distante, mas que deixou para aí alguns fantasmas;
Por Quem os Sinos Dobram, Ernest Hemingway – Um retrato prodigioso da luta pela democracia durante a Guerra Civil de Espanha;
Bairro da Lata, Jonhn Steinbeck – Fascinante. É talvez, o único grande livro que li, que não inventa qualquer história de amor;
O Velho que Lia Romances de Amor, Luís Sepúlveda – Tão simples e tão bonita esta história de amor pelos livros;
Capitães da Areia, Jorge Amado – Um retrato genial de um Brasil cheio de filhos da rua;
E como “extras” deixo ainda a poesia, toda, de Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Pessoa, Zé Gomes Ferreira e Manuel Alegre.
Escolhi propositadamente esta escultura de Francisco Simões, uma musa com um livro nas mãos (bem podias ser tu Ida...), a única do concelho deste extraordinário artista, excluido das escolhas de Arte Pública do Município de Almada...

quarta-feira, agosto 01, 2007

Castelos de Areia & etcétera

Ao descobrir uma família numerosa, que ocupava uma área considerável da praia, com vários chapéus e tapa ventos, lembrei-me de algumas idas à praia em família, à qual nem faltavam os avós...
Fiquei cheio de imagens avulsas, que prometi colar aqui nas "Viagens", quando regressasse...
Era um dia de praia em cheio, de manhã até ao fim da tarde...

Além dos banhos nas águas paradas do rio e lagoa, haviam ainda os jogos de futebol e as construções na areia... lembro-me de gostar de entrar dentro dos castelos de areia, gigantescos e bonitos, construídos com a ajuda dos tios, embora representasse um perigo, porque estava numa idade mais virada para a destruição que para a construção... muitas vezes almoçávamos no pinhal, à sombra, sentados em cima de mantas... lembrei-me também do sabor e do perfume do arroz de tomate e dos panados...

domingo, julho 15, 2007

Há Muito


Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa


Estas palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen, são muito apropriadas para este espaço, pelas saudades que tenho do areal e das grandes vagas da Foz do Arelho, tal como o óleo de Manuel Amado.

sábado, julho 14, 2007

Os Oleiros das Caldas

As Caldas foram durante o século XX um dos principais centros de indústria cerâmica portugueses. As suas fábricas albergaram a produção de uma grande variedade de loiça, quase sempre com um cunho artístico, graças à influência de vários artistas locais.
Infelizmente a "crise" nacional e a "chinesice" que tem invadido a Europa, conseguiram fechar as portas a casas emblemáticas como a Secla e colocar no desemprego, centenas de operários.

Em homenagem a todos os homens que desenvolveram e desenvolvem esta arte na minha cidade natal, ofereço-vos "Os Oleiros" de José Malhoa.

terça-feira, julho 10, 2007

A Primeira Equipa de Iniciados do Caldas

Desde muito cedo que soube que o futebol não seria o meu futuro. Mesmo assim jogava, sempre que me era possível os meus amigos de infância, porque adorava (e adoro...) este jogo. Ainda cheguei a fazer parte de algumas boas equipas de bairro, embora normalmente fosse o "tapa buracos" da equipa nos torneios de futebol em que entrávamos e costumávamos ganhar.
Quando alguns dos meus amigos revolveram ir tentar a sua sorte no Caldas - o clube mais emblemático da cidade -, que ia ter pela primeira vez iniciados (época 1977/78), resolvi aproveitar a boleia.
Não fui escolhido no primeiro treino de captação, pelo Américo, antigo jogador dos seniores e treinador dos juvenis. E já nem sequer pensava voltar ao campo da Mata, para voltar a tentar a minha sorte... mas o meu amigo Xico Mendes insistiu e lá fui (curiosamente ele é que acabou por desistir da ideia - e era um belíssimo guarda-redes -, assim como o Paulo Gaspar, outro grande amigo e colega de escola, que apenas voltou no ano seguinte. Também era bastante bom, ao ponto de ter chegado a jogar nos seniores do Caldas).
Nesse dia uma das pessoas que estava a escolher a miudagem era o treinador dos seniores, Mourinho Félix (pai de José Mourinho) que gostou do facto de eu não virar a cara à luta e chamou-me para o canto dos "eleitos". Como devem calcular, fiquei extremamente satisfeito por ser escolhido.

Apesar de não ser um predestinado, acabei por fazer toda a época como titular, a defesa central, fazendo dupla com o jogador mais talentoso e valioso da equipa, o Chagas, que chegou a internacional juvenil, com as cores do Sporting, onde fez dupla com o Venâncio. O Chagas acabou por ficar pelo caminho. Mas só não foi mais longe devido à sua baixa estatura (tinha pouco mais de um metro e sessenta, muito pouco para um central...) e não por falta de qualidade futebolística...

Desse tempo sobrou uma fotografia, em que curiosamente falta, aquele que se tornaria, duas décadas depois, na figura mais mediática daquela equipa simples, o José Mourinho, que nesse fim de semana não jogou...
Normalmente o nosso onze era composto pelos seguintes jogadores: Ginja; Ilídio, Chagas, Milheiro e Orlando; Chico, Fragoso, Zé Mourinho e Rui Pedro; Ramos e Paulo Jorge. O Vitor costumava entrar quase sempre, era avançado e a nossa arma secreta.
Vamos lá então às apresentações segundo a fotografia. Em baixo da esquerda para a direita estão: Vitor, Parrila, Rui Pedro, Chagas, Chico e Eu.
Em cima, pela mesma ordem: Santana (treinador) Paulo Jorge, Ilidio, Ramos, Fragoso, Manuel, Ginja, Orlando e Castanheira (Dirigente).
Não sei o que é feito da maior parte destes companheiros de infância. Como disse anteriormente, tirando o Chagas, ninguém foi muito longe como futebolísta. O José Mourinho tornou-se famoso como treinador, ao ponto de ser considerado um dos melhores do mundo. Outro elemento que também saiu da mediania, mas noutra actividade, foi o José Fragoso, que hoje é o director da TSF.

quinta-feira, julho 05, 2007

Os Banhos de Rio

Agora que o calor começou a apertar, recordei-me de outra das nossas aventuras da meninice em Salir de Matos, os banhos no rio que passava na aldeia.
O lugar escolhido para o banho era praticamente debaixo da ponte, quase na fronteira entre Salir de Matos e Casais da Ponte, onde se formava um pequena represa, sempre com água, mesmo no pico do Verão. Os mais pequenotes como eu, até perdiam o pé, no meio daquela quase piscina natural.
Escusado será dizer que era proibido tomar banho de calções de banho. E quem não tirasse os calções era maricas...

O óleo que ilustra este texto é de Carl Larsson...

terça-feira, julho 03, 2007

Um Exemplo de Honestidade

O meu avô materno, além de excelente contador de histórias, foi uma das pessoas mais honestas que conheci.
Era incapaz de tocar em algo que não lhe pertencesse ou de enganar alguém.
Quando era feitor numa das muitas quintas que rodeavam as Caldas da Rainha, extremamente rica em árvores de fruta, era de tal forma zeloso, que não era capaz de apanhar uma peça de fruta caída no chão.
Habituei-me a escutar nas conversas de família, inúmeros exemplos desta postura, mas a que acho mais deliciosa, passou-se quando a minha mãe, ainda criança, percorria com a avó a zona das árvores de fruta e iam apanhando algumas peças caídas no chão. O avô assim que as viu, chamou-lhes gulosas e com um gesto de reprovação, perguntou-lhes se não sabiam que aquilo não lhes pertencia. Escusado será dizer que elas não lhe ligaram. Foi com esta postura que o avô nunca enriqueceu demasiado. Foi comprando algumas courelas, aqui e ali, com grandes sacrifícios e fruto do seu trabalho e da família numerosa.
Nesta altura não existiam empréstimos bancários e os contratos eram selados apenas com a palavra e com dinheiro vivo.
Gostava de o ter visto, garboso, a cavalo, percorrendo a quinta e os caminhos entre Caldas da Rainha e Salir de Matos...

Escolhi esta aguarela de Renato Guttuso, "Campieri", para homenagear o meu avô, Manuel Joaquim Saloio...

sexta-feira, junho 29, 2007

A Poesia do Mar da Foz


O Verão está aí e a Isabel (Caderno de Campo) fez-me folhear de novo a "Senhora das Tempestades", um excelente livro de poesia e de amor de Manuel Alegre, ao Mar e à Foz do Arelho...

Foz do Arelho
ou
Primeiro Poema do Pescador

Este é apenas um pequeno lugar do mundo
um pequeno lugar onde à noite cintilam luzes
são os barcos que deitam as redes junto à costa
ou talvez os pescadores de robalos com suas lanternas
suas pontas de cigarro e suas amostras fluorescentes
talvez o Farol de Peniche com seu código de sinais
ou a estrela cadente que deixa um rasto
e nada mais.

Um pequeno lugar onde Camilo Pessanha voltava sempre
talvez pelo sol e as espadas frias
talvez pela orquestra e os vendavais
ou apenas os restos sobre a praia
«pedrinhas conchas pedacinhos d'osso»
e nada mais

Um pequeno lugar onde se pode ouvir a música
o vento o mar as conjugações astrais
um pequeno lugar do mundo onde à noite se sabe
que tudo é como as luzes que cintilam
um breve instante
e nada mais.



Manuel Alegre, Foz do Arelho, 8.8.96

terça-feira, junho 26, 2007

Os Santos Populares do Meu Bairro


Nas Caldas da Rainha os Santos Populares eram festejados em quase todos os bairros, com a realização de bailes, organizados por colectividades e comissões de festas.
Eram a grande distracção da época e também a possibilidade de aproximação de alguns rapazolas das gerações anteriores à minha, de algumas donzelas bonitas e difíceis, que não conseguiam escapar ao aperto das músicas lentas, apesar dos olhares cortantes das mães...
Na meninice assistia aos bailes do meu bairro e já pré-adolescente, também dava um salto com o meu irmão e amigos ao Bairro da Ponte.
Lembro que nem todos os anos se realizavam estes festejos no meu bairro, talvez por não existir nenhum clube recreativo com a dimensão dos "Pimpões", colectividade do Bairro da Ponte, nosso rival das futeboladas e de tudo o que pudesse gerar competição.
O que nunca se deixou de realizar na minha rua foi a fogueira do São João, onde se saltava, desafiando as labaredas altas perfumadas com o rosmaninho que apanhávamos nos pinhais que circundavam todo o Bairro dos Arneiros e que com o passar dos anos, acabaram quase todos engolidos pela especulação imobiliária.
A fogueira era mantida acesa até ao raiar do dia...
Nas Caldas também se realizava a Feira de São João. Embora fosse mais pequena e durasse menos dias, tinha quase tudo da Feira de 15 de Agosto, desde o circo, às diversões habituais do carrocel aos carrinhos de choque. E claro, as barracas de comércio, de comes e bebes e das famosas farturas, que ainda resistem ao tempo e marcam presença em todas as festas...

"As Padeiras" de José Malhoa dão cor a este texto...

sexta-feira, junho 22, 2007

O Rato e o Leão...


Nós somos tão diferentes uns dos outros...

Nos nossos dias é tão fácil encontrar pessoas que pensam que não precisam dos outros. Quanto mais poderosas se sentem, mais desprezam os outros...
Claro que isso deve-se ao próprio rumo da nossa sociedade, que vagueia ao sabor de um capitalismo quase sem regras, que nos vai empurrando para as ruelas estreitas do individualismo e egoísmo.

Podia falar de uma frase-mensagem que Álvaro Cunhal sugeriu para o final de um dos romances de Manuel da Fonseca, em que nos é transmitido que: «Um homem sozinho não vale nada!»
E não vale mesmo, por muito que se iluda.

Prefiro antes recordar uma das fábulas que o meu avô nos contou na infância, a de "O Rato e o Leão", que vai ainda mais longe e nos mostra que o ser mais importante e forte, quando menos espera, precisa de ajuda, até do ser mais insignificante que gira à sua volta...
Ainda nos consigo ver, sentados nas escadas da cozinha, em silêncio, deliciados com a arte de contador de histórias do nosso avô...
Já não me lembro de todo o enredo, sei apenas que o Leão, apesar de ser o rei dos animais, ficou preso numa armadilha feita de rede. Por lá ficaria se não aparecesse um pobre e pequeno rato, que vendo o Leão prisioneiro, foi em seu auxilio. Tanto roeu as malhas da rede que conseguiu destruir uma das malhas da rede e libertar o Leão...

Esta história pode parecer pouco actual, mas não é. Continuam a existir muitos "leões" nesta selva, que só conseguem ser libertados com a ajuda de simples "ratos" ...

A Aguarela que dá cor a este texto é da autoria de Georges Rotig.