segunda-feira, dezembro 06, 2010

Uma Crónica de Santa Catarina...


Por José do Carmo Francisco


"Continua à espera da carrinha dos Capristanos"
A vida é um mistério, não é um negócio. O sacristão de Santa Catarina morreu mas continua à espera da carrinha dos Capristanos. A encomenda de 400 partículas para a missa campal não veio na carreira das sete e vinte; foi preciso o Vítor trazê-la de propósito. Vem na curva da Forca. Nas Caldas o Guimarães marca os desdobramentos para Peniche e Atouguia da Baleia. Se a vida fosse um negócio e não um mistério, o Álvaro teria trocado a sua pela do filho Zé Carlos em 1989 naquela manhã de domingo. Fui eu o padrinho que na pia baptismal lhe segurei a caixa dos santos óleos, tal como já antes tinha segurado ao Luís e ao Fernando. O Zé Carlos teria hoje 41 anos, poderia ter emigrado para a Suíça como o Luís ou vendido arcas congeladoras como o Fernando, poderia ter casado e continuado a ser aquilo que todos nós somos mesma quando não parece – navalheiros numa terra de oficinas de cutelaria. A Milu que agora cantou na missa de corpo presente foi a mesma que lhe fez as últimas contas do empregado Zé Carlos em 1989. Presidiu o padre Joaquim Nazaré e concelebrou o padre Maximino mas não vi os padres da nossa terra que ele tanto ajudou a preparar as missas novas nos anos 60. Mas vi o Henrique do Carvalhal. A vida é um mistério, não é um negócio Sei que o Álvaro tem andado às quartas de milho de casa em casa, saco cheio, na tulha vai subindo devagar mas há quem dê sete e quinhentos em vez do milho. Quando os fregueses dão dinheiro o sacristão fica a perder porque cada quarta de milho são oito escudos. Na sexta-feira doirada pelo sol, o pão de milho que comi na Taberna do Manelvina sabia ao milho das quartas da côngrua do sacristão de Santa Catarina.

4 comentários:

judite disse...

Conheci muito bem o Álvaro.
Desde que fui para a catequese que me lembro daquela figura na igreja. Um homem alto,magro e simpático( Um bom homem).
Foi ele que ajudou o padre Fernando na missa do meu casamento e em tantas outras celebraçoes que assisti.
Muitos anos depois quando voltei à igreja de Santa Catarina e não o vi junto do altar achei estranho.
Que descanse em Paz.
À sua família os meus pêsames

Ginjal e Lisboa disse...

Ontem já aqui tinha deixado um comentário (e no outro blogue também, sobre as louras e o mar) mas não sei que manobra fiz que os comentários não apareceram. O das louras já não vem a propósito mas aqui quero deixar escrito que gostei de ler este texto.

Está muito bem escrito e, sobretudo, muito sentido. Um sentido tributo. Aqui - pelas suas palavras que podem ser lidas em todo o mundo - ficará a memória dessa boa pessoa.

Zé Ventura disse...

O texto está bonito. Gostava só de acrescentar que o Manelvina continua a ser um local onde vale a pena saborear os grelhados do Alfredo.
Um abraço

Luis Eme disse...

Judite, G. e Zé Ventura, gratos pela visita e pelas palavras a esta bonita crónica do JCF.