segunda-feira, novembro 13, 2006

A Matança do Porco


Uma das aventuras memoráveis de Salir de Matos, a minha aldeia, era a «matança do porco», normalmente, um bicho enorme que metia respeito.
Antes de termos idade para descer para o palco onde se desenrolava o espectáculo, eu e o meu irmão, assistíamos àquele ritual emotivo, debruçados no muro do pátio.
Consigo vislumbrar, passo a passo, toda a acção. Primeiro enlaçavam-lhe uma das patas, depois desequilibravam-no, para de seguida agarrarem-no em peso e colocarem-no em cima de uma bancada de madeira, previamente preparada para a «festa» da matança. Meia dúzia de homens seguravam-no numa roda viva, perante a sua chiadeira interminável. Atavam-lhe a boca, para o porco não ter o capricho final de morder em alguém, e depois, o avô dava o golpe final, espetando-lhe uma espécie de espada, próximo do cachaço, certeira, para lhe evitar mais sofrimento e para que sangrasse.
O próximo acto era a «queima do pelo». Completamente embrulhado em caruma e molhos de vides, lançavam-lhe fogo deixando-o todo chamuscado. De seguida, lavavam-no e raspavam-lhe o pelo com navalhas e bocados de telha, até ficar, branquinho.
Após esta operação quase de cosmética, o bicho era levantado em peso e pendurado na adega, onde era aberto ao meio, tendo como «rede» um alguidar enorme, usado para aproveitar o sangue para os enchidos.
Hoje compreendo o porquê da criação do porco em quase todas as famílias, por mais modestas que fossem. Há um aproveitamento quase total de tudo o que compõe o seu corpo, desde o toucinho aos enchidos, passando pelos vários tipos de carne.


Escolhi para ilustrar este texto uma iluminura do Livro de Horas de D. Manuel I, do século XVI.



23 comentários:

Sininho disse...

É engraçado constatar como somos, todos nós, o resultado da forma como nos "educaram" para gostar, ou não, de certos espectáculos!
Estava a ler o seu post e a pensar se o Luís gostaria de touradas...
É que eu, que fico arrepiada só de me lembrar dos guinchos do porco que vai para a matança... gosto de ver uma boa tourada...
E esta, hein?

AnaG. disse...

Que engraçado ...depois de ler o teu post fiquei com um sorriso nos lábios. Lembro-me de andar de volta do "bicho" a dizer...ai coitadinho do porco...ai coitadinho do porco...e os crescidos furiosos porque diziam que assim ele nunca mais morria...

Rosa dos Ventos disse...

Nunca assisti à matança do porco.
O pátio era fechado, quase um sacrário da casa dos meus avós paternos e os adultos impediam-nos de lá entrar.
Contudo ouvíamos os guinchos de aflição do animal e isso incomodava muito as meninas.
Já os rapazes riam talvez para disfarçar.
Estávamos autorizados a assistir à chamuscadela com carqueja, comíamos da cachola preparada numa enorme caçarola que se mantinha brilhante o ano inteiro para ser usada em ocasiões especiais. Era um ritual engraçado porque não havia pratos, apenas garfos que espetávamos à uma na caçarola, tentando tirar o pedaço já apanhado pelo primo ou prima do lado.
Os rapazes,que eram menos que nós, no fim do festim, iam jogar à bola com a bexiga do porco cheia de ar e atada com um cordel por um dos "matadores", normalmente homens não pertencentes à família que também comiam connosco.
Nós, as meninas, cirandávamos à volta das mulheres que entretanto já tinham começado a lavar as tripas.
Era assim...

Luis Eme disse...

Sininho, gosto de touradas "à espanhola", ou seja com o toureio apeado. Gosto do equilibrio aparente que existe na luta entre o matador e o touro, o que não acontece nas corridas com cavalos.

Luis Eme disse...

Pois é Ana, essas coisas não se fazem...

Luis Eme disse...

"Rosa dos Ventos", já não me lembrava do pormenor da bexiga do porco transformada em bola...
Também participei nesses jogos de futebol à volta da "bexiga".

MC disse...

Luís,

eu era em Alvorninha. Achava horrível os guinchos do porco. Sou uma mariquinhas. Não gosto de matar nem uma formiga.

Cris Caetano disse...

Sinto a mesma "agonia" que a Sininho, mas confesso um certo sorriso nos lábios pela lembrança da infância. A grande diferença é que depois que vários homens chegavam ao sítio, meu avô me impedia de assistir ao ritual (ainda bem!) e, pela distância adiantava de alguma coisa tampar meus ouvidos com as mãos, nunca vi e sempre vinha alguém me contar como havia sido, me lembro bem... :)
Além disso, me impressionava a quantidade de banha que se aproveitava do bichicho que tinha ficado tempos e tempos na engorda.

abraço

Luis Eme disse...

Os guinchos afligem qualquer criança, MC, se bem que nós, rapazes, tinhamos de nos fingir fortes e mostrar que estávamos preparados para descer a terreiro...

Luis Eme disse...

Cris, é realmente impressionante o aproveitamento que se faz (ou fazia...) de tudo, após a matança, inclusive a banha de porco, utilizada para os alimentos e também como "cebo" para amaciar o calçado de pele.

mfc disse...

Lembro-me,quando miúdo,de ter acordado com os gritos do porco!
... felizmente só o vi depois de morto!

Luis Eme disse...

MFC. excluindo os guinchos dos animais(realmente arrepiantes), nunca me fez muita impressão toda aquela operação. Lembro-me inclusive de ter recebido as primeiras aulas de anatomia quando o porco estava aberto e a ser desmanchado.

Ida disse...

Delícia de blog, Luís. Ou, pelo menos, para quem tem memórias (e origem) portuguesas. Acho que, a curto prazo, terei mais eu (que saí da maternidade no Rio) a ver com isso do que muita garotada de Lisboa e Porto.

Pra dizer a verdade, os gritos sempre me impressionavam, mas lembrava logo das alheiras, que iria saborear em pouco tempo, (sem falar nas chouriças) e a má impressão se desfazia.

Luis Eme disse...

Bem-vinda Ida ao meu canto de memórias...

Maria disse...

E que bom que era "aquilo" que se punha numa forma e depois um enorme peso em cima durante uns dias, não me lembro quantos.
Hoje sei que "aquilo" se chama cabeça de xara, e é um pitéu...
Mais uma vez obrigada, Luís

Luis Eme disse...

Das coisas que nos lembramos, Maria...

Ida disse...

Obrigada, Luis! Tuas memórias são um deleite.

Cris Caetano disse...

Acho que não houve "traumas" por todas as delícias no final rs*******

abraços

Nia disse...

E..e...empalideço só de viajar para o tempo da matança do porco na minha aldeia.Um dia, sei lá bem porquê, (devia ter uns 12 anos)no dia da matança do porco na casa dos meus pais, fui eu que segurei um alguidar enorme para aparar o sangue do porco para mais tarde fazer as morcelas e outras coisas.Só que naquele dia ,era eu a segurar o alguidar e a ir mexendo com uma colher de pau para não coalhar...Só que eu pensava ser mais corajosa do que na realidade era...
Com o porco a guinchar...e o sangue a escorrer para dentro do meu alguidar...deixei de ver...ficou tudo escuro, antes de andar tudo à roda...e desmaiei.Soube depois que a maior parte do sangue desapareceu para sempre...e ainda restou um bocadinho , porque "El matador"(o meu pai) teve bons reflexos, ao conseguir agarrar o alguidar enquanto eu caía para o lado..TONC! :)

Luis Eme disse...

Ida e Cris, não tinha dito nada porque vocês deixam-se sem palavras...

Luis Eme disse...

E esta Nia, só de ouvires falar da "matança" empalideces?...
Gostei do teu TONC!

Anónimo disse...

Quem tem terra é feliz
Tem histórias para contar
Coisas simples e engraçadas
Que nós escrevemos a brincar

Anónimo disse...

Na matança do porco,tudo é festa, tudo é alegria, tudo se aproveita...até a bexiga...sim,sim, era aproveitada para encher de ar...era a bola dos rapazes...ia-se para a rua, largo...tudo servia para fazer um campo de futebol.