sábado, fevereiro 17, 2007

O Solteirão da Família



Há sessenta anos atrás era uma raridade um homem optar por ficar solteiro a vida inteira. Isto acabava por ser quase sempre um estigma para a família, especialmente na província.

Digo isto porque a interpretação dada a um homem que ficasse solteiro, era muito diferente de uma mulher na mesma situação...

Ela era alguém que tinha decidido ficar para tia ou como apoio dos pais. Ele era sempre alvo de desconfianças. Podia ser tudo, até um "fazedor de panelas", no pior sentido da frase.

A única pessoa que conheço que nunca casou nem viveu com uma mulher, se ignoramos a sua dedicada mãe, a tia Gertrudes, foi o Tio Freitas, primo direito da minha avó materna.

Não olho esta situação como um acto de coragem, mas sim como uma consequência da vida, de um homem aparentemente frágil. O Tio Freitas era pequeno, magro e nunca foi um homem de trabalho do campo, sempre andou de costas direitas. Trabalhou em várias quintas no concelho das Caldas, onde tratava dos animais, sem precisar de andar agarrado a uma enxada, de sol a sol. Estes desígnios profissionais acabaram por o diminuir como homem, pelo menos no olhar das moçoilas das aldeias, que sonhavam com um homem forte, de mãos calejadas.

Recordo-o como uma pessoa alegre, que adorava conversar, especialmente com as mulheres da família. Então quando bebia um copito tornava-se imparável, as anedotas e os ditos brejeiros sucediam-se, pelo que havia sempre alguém disponível para lhe encher o copo. E se fosse altura de festa (era quase sempre, porque ele escolhia estas datas para "dar à costa" e visitar a família...), dançava de forma imparável, com todos os pares que lhe aparecessem à frente. Enquanto dançava não parava de dizer brejeirices, de fazer corar qualquer mulher casada...

A sua sorte era não ser visto como uma ameaça pelo sexo masculino. Havia mesmo quem duvidasse da sua masculinidade, embora não existisse no seu passado qualquer indício de tendências homossexuais.

Depois passava largos meses sem descer à aldeia, sem se meter em festas e romarias, a sua grande perdição...
A foto que acompanha este texto é de Jean Dieuzaide.

13 comentários:

Alice C. disse...

Este teu texto fez-me pensar que não conheço nenhum solteirão na família, Luís. Solteironas sim, umas tias do meu pai, feinhas e beatas.

Concordo contigo, era diferente o tratamento, e acho que ainda é.

Kalinka disse...

A vida é só uma…breve ou longa, é uma incógnita!
Numa das imagens mostro uma espécie de relógio que significa o «tempo», e ele é muito importante em todas as vidas. Perseguir e alcançar a felicidade é o sonho humano mais desejado, pois todos temos direito a um quinhão de felicidade.
Partilha comigo esta busca, perseguindo também a Felicidade.

Lamento não poder visitar este lindo espaço (blog) durante a semana, mas, a promessa de cá vir ao fim de semana mantenho-a.

Beijokas.

BOM CARNAVAL.

Bela história esta...a de sua família!!!

as velas ardem ate ao fim disse...

O teu texto é excelente!

Prova de que os solteiroes não tem que ser tristes!

bjinhos

AnaG. disse...

Acho que as mulheres eram mais penalizadas. Se não casavam era porque ninguém as queriam. Ficar "para tia", tinha uma carga muito negativa. Pelo menos, era o que acontecia na minha aldeia.
Aos homens, isso não se aplicava.

Beijinho

jcfrancisco disse...

Eu que nasci em 1951 ainda me lembro de ouvir dizer «Se o livraram algum defeito lhe acharam» por isso os solteiros na minha terra (Santa Catarina) eram quase todos «livres» da tropa. Os pais das raparigas não permitiam a mais peqeuna aproximação. Ficar livre era ser fraco e um fraco não servia para genro. Igual fascínio tinham os vagabundos como o «até logo se DEus quiser!» que era refractário e andava sempre por caminhos e serventias; nunca pela estrada onde poderai encontrar a GNR de bicicleta...

Luis Eme disse...

Quando digo que o tratamento era diferente, sei que é difícil qualificá-lo, Alice (estou a pensar no comentário da Ana...), mas continuo a pensar que o homem era mais mal visto na sociedade, porque a mulher era quase um objecto, não era olhada da mesma forma que o homem, era nitidamente inferior (até aos olhos da lei...).

Pobres tias essas, feias, que se dedicaram a "Deus"...

Luis Eme disse...

Quem não tenta perseguir a felicidade, Kalinka?...

Luis Eme disse...

Sim, os solteirões não têm de ser tristes...

O Tio Freitas era a alegria em pessoa.

Luis Eme disse...

Ana, percebo a tua perspectiva... embora pense que para as mulheres seria sim mais triste, não mais negativo, porque como eram olhadas como seres inferiores e menos livres na sociedade.

Mas o solteirão, se não fosse reconhecidamente um mulherengo, era olhado com alguma estranheza e mistério pelos outros...

Luis Eme disse...

Belo retrato da época, Zé do Carmo Francisco.

Tenho quase a certeza que o Tio Freitas ficou livre nas "sortes"...

Ida disse...

E a história não muda muito, Luís, ainda hoje. Há sempre um padrão a ser assumido, por homens ou mulheres, e quem não assume é visto como um alien, ainda que tolerado, mas sempre um outro, um extra. Pode-se tomar pela negativa, como é comum no caso das mulheres solteiras e ou pela positiva, como no caso do teu tio Freitas que, provavelmente, aproveitou para ser só o que lhe apetecia, sem ter de assumir papéis pré-estabelecidos, como uma roupa que não lhe cabia bem, ou que era de outro. Uma vida talhada para todos, mas que ele preferiu viver de outro modo. Teria adorado conhecer teu tio, dançar com ele e ouvir-lhe as histórias em bailes de aldeia, nos serões de verão.

PS: Tou a tremer nesta tua terra e não a transpirar na minha, por isso a ausência do blog. Beijo.

Luis Eme disse...

Oh Ida, olha que o tio Freitas era levado da breca...

O que vale é que aquilo eram só promessas, como dizia a tia Deolinda...

O mais estranho era ele viver quase afastado do mundo... mas quando aparecia, nunca esgotava as conversas nem a graça...

jcfrancisco disse...

O «até logo se Desu quiser» dizia uma coisa muito engraçada para anunciar que se ia embora: «Padre para a esquerda, sacristão para a direita! Tem rodas é para andar! Até logo se Deus quiser!»