sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Tão Longe da Realidade...



Quando me cruzei na Baixa Lisboeta com o Manel, um antigo companheiro do bairro da minha infância, fiquei completamente arrepiado, sem saber o que fazer. Ele sorriu-me, enquanto se afastava, embrulhado numa manta muito encardida, que usava para fintar o frio de Inverno.

Ele estava com pressa, quando olhei para trás, só vi um pedaço da manta a virar a esquina.

Acelerei o passo e consegui vê-lo ao longe. Fui-me aproximando, quando estava a meia dúzia de metros, chamei-o: «Manel!»

Não obtive qualquer resposta. Tive de acelarar ainda mais o passo, para me colocar lado a lado e falar com ele. Saiu-me uma frase estúpida: «Então Manel, já não falas aos amigos?», que recebeu como resposta, uma frase inteligente: «Que amigos?». Enquanto olhava à sua volta, com um sorriso nos lábios.

Tresandava a mijo , mas não fui capaz de lhe virar as costas.

Perguntei-lhe se queria comer e beber qualquer coisa. Acenou a cabeça, que sim, enquanto me olhava de alto a baixo.

Sentámo-nos numa esplanada da Rua Augusta. Um dos empregados olhou-nos com cara de caso, mas não teve coragem para dizer nada. Foi melhor assim, até porque não tinham qualquer letreiro a proibir gente mal vestida e com pavor à água de se sentar ali.

Como o sujeito de laço não se aproximava, chamei-o. Pedi um café e o Manel pediu uma torrada e um galão.

Quase sem querer, comecei a minha inquirição.

Estava curioso, queria saber como é que se acaba nas ruas assim...

Comecei por falar da nossa cidade, do nosso bairro, de alguns amigos comuns...

Ele no inicio não me deu respostas concretas. Ria-se muito, enquanto mastigava as fatias da torrada cheias de manteiga. Provavelmente devia ter também alguns problemas psíquicos, embora eu percebesse que estava a gozar o prato.

Só depois de ter comido a torrada e beber o galão, é que começou a construir frases com mais de duas, três palavras.

De uma forma inesperada chamou-me pelo nome... falou no meu irmão e da nossa rua...

Depois foi uma charada completa, com muito riso e pouco siso.

A loucura esteve sempre na nossa mesa, claro, com alguma racionalidade, mas pouca...

Daquilo que me disse consegui reter algumas frases feitas: que gostava da rua, que nunca tinha sido tão livre e tão feliz, desde que adormecia a olhar a lua. Mas foi ainda mais longe, disse que não tinha qualquer cartão. Não tinha identidade, não pagava impostos e não precisava de trabalhar para cabrão nenhum.

Quando lhe falei de comida, não se atrapalhou. Aliás, ele era tudo menos atrapalhado. Disse-me que há sempre um bocado de pão duro ou outra coisa qualquer, num caixote, à espera de uma boca esfomeada.

Perguntei-lhe se queria levar alguma coisa para comer. Pediu um "croissant" misto.

Depois de guardar o pequeno embrulho, levantou-se.

Antes de desaparecer no meio da multidão, olhou-me, agradecido, com o seu sorriso de rapaz grande. Percebi que estava indeciso, se havia ou não de esticar a mão suja, para se despedir. Eu antecipei-me e depois de lhe apertar a mão e tocar o braço, perguntei se havia uma zona especial, onde ele parasse, para bebermos um café, um dia destes.

Disse-me que Lisboa era demasiado grande e que não gostava de parar em sitios certos...

Tinha razão. Lisboa é mesmo demasiado grande.
Já se passaram dois anos e não o voltei a encontrar na rua...
O texto está ilustrado com o guache, "Paisagem com Figura", de Nikias Skapinakis.

18 comentários:

jcfrancisco disse...

eSte texto muito sentido fez-me lembrar o poema «De casa de seus pais desapareceu» de Carlos Queirós. Há muita gente que desaparece porque quer. Há mais do que nós pensamos. É outra maneira de ver. O Agostinho da Silva nunca teve número de contribuinte. Morava aqui ao pé e passeava com os gatos no PRíncipe Real.

A COR DO MAR disse...

Como assinala o teu marcador : "gente especial" ... um especial que me doi, seja de vontade ou nao dos proprios :((
Bom domingo -beijoca*

Maria disse...

Desta vez fiquei completamente sem palavras.
É um texto para meditar, e provavelmente não fazer mais nada...
... como eu gostaria que não fosse assim...

AnaG. disse...

Um texto cheio de coisas que nos fazem pensar.
Gostei muito...
Afinal há outras pessoas "especiais" de quem muitas vezes desviamos o olhar. Isso não devia acontecer.

Beijinho

P.S:Também gostei muito da ilustração.

Ida disse...

Especial és tu, também, Luís. Não é nada banal ser protagonista de uma história assim e ter a sensibilidade para vivê-la e ainda contá-la num texto suave e nada piegas. A vida pode ser mesmo muito interessante, mas só para quem tem o sentido do momento exato de se entregar a ela. Que bom que partilhaste esse momento: com o Manel e conosco.

Luis Eme disse...

É verdade Zé do Carmo, há muita gente que desaparece porque quer...

O pior são todas aquelas pessoas que desaparecem sem querer...

Luis Eme disse...

Doi e deixa-nos impotentes, Cor do Mar.

Infelizmente, o mundo está cheio de "gente especial", que acaba por virar as costas a esta sociedade, cada vez mais injusta e desumana...

Luis Eme disse...

É tudo muito complicado Maria...

Não sei porque razão tornamos o acto de vivermos, tão difícil.

Luis Eme disse...

Pois é Ana,

Todas estas pessoas que chamamos "Sem Abrigo", tiveram em tempos, uma vida aparentemente normal.

Muitos ainda têm família, amigos... algures por aí...

Luis Eme disse...

Também és especial Ida...

Quando me lembro deste encontro ainda fico arrepiado.

Sei que não fiz tudo o que devia pelo Manel.

Embora saiba ele pode não querer mudar de vida... por razões que a própria vida desconhece...

Sininho disse...

Nem todos sentem a vida da mesma maneira. Por muito incompreensível que possa parecer-nos, há pessoas que preferem não ter nada, a troco de também não terem regras a que obedecer.
Consideram que, assim, vivem livres.
Eu penso que poderemos respeitar essa opção, desde que não interfira com a vida de outrem.
No caso de ser alguém conhecido, como é aqui descrito, imaginei-me no teu lugar. Lamentàvelmente, calculo que me iria sentir muitíssimo mal, tendo de lutar contra a minha maneira de ser, que é um tanto radical, no que à higiene diz respeito.
Situação, em suma, muito constrangedora e triste.
E... mais uma bela página das tuas "Viagens".

Luis Eme disse...

É verdade Sininho, nem todos sentem a vida da mesma maneira.

É caso para exclamar: «O que algumas pessoas fazem, para não terem de obedecer a regras impostas por alguém, invisível!»

Também aqui, nota-se o quanto somos animais de hábitos.

As pessoas da rua habituam-se à degradação do seu dia a dia, como se fosse uma coisa normal, habituam-se aos seus cheiros imundos e deixam de querer alguma coisa com a água...

Vida disse...

Luís, excelente texto, um encontro, uma viagem e uma vida. Uma forma de viver diferente da nossa, se calhar com uma aprendizagem superior.

Beijos.

Luis Eme disse...

Não sei se é uma aprendizagem superior... é pelo menos diferente, Vida...

Quem é que, de vez em quando, não sente uma vontade de mandar tudo dar uma volta?

greentea disse...

gostava da rua, que nunca tinha sido tão livre e tão feliz, desde que adormecia a olhar a lua. Mas foi ainda mais longe, disse que não tinha qualquer cartão. Não tinha identidade, não pagava impostos e não precisava de trabalhar para cabrão nenhum.

e vivia livre que nem um pasarinho, procurando um naco de pão no meio da rua ou de um qualquer caixote do lixo, sem cartões, sem r´tulos, sem impostos !dá qie pensar, logo hoje q estou atafolhada de papéis e burocracias ...

um beijo para ti

Luis Eme disse...

Dá mesmo que pensar "Chá Verde", se pensarmos nesta vida, em que cada vez temos menos tempo, até para sermos nós próprios...

Rosa dos Ventos disse...

Já não vinha ao Oeste há uns tempos e o teu texto deixou-me à beira-mágoa!
Abraço

Luis Eme disse...

São episódios da vida, Rosa.

Na maior parte das vezes tocam-nos de longe. Só quando se aproximam de nós, é que olhamos para a sua verdadeira dimensão...