domingo, dezembro 14, 2008

Afinal a Porta Estava Aberta...

[...] Victor não consegue, nem quer, esconder o fascínio sentido pelas recordações que surgem, quase em catadupa, como se alguém as soltasse de qualquer arca enorme, quase do tamanho da do velho Noé.
Foi o que aconteceu quando passou a uma velha porta fechada, familiar. Aproximou-se e espreitou para lá das vidraças, à procura de um sinal de vida daquele lugar especial.
Ainda haviam nas paredes restos de fotografias de jornais, descoloridas pelo tempo, entre pilhas de pele e formas de sapatos cheias de pó e teias de aranha que enchiam as prateleiras e a mesa de trabalho do bate-sola.
Era mesmo a antiga oficina de sapateiro do senhor Silvino Bastos, conhecido na vizinhança como «Bigode de Arame», por possuir um bigode espantoso, que esticado, devia ter mais de quarenta centímetros.
Aquela casa, apesar do seu tamanho diminuto, fora o palco principal de um homem de pequena estatura, cujo andar à Charlot quase que bastava para o transformar numa figura inesquecível das “fitas sonoras do bairro”. Victor recordou-o com ternura.
Mas o filho do sapateiro era muito mais que uma imitação cinéfila. Joaquim Bastos tinha o dom de contar estórias, ao ponto de deixar qualquer pessoa, mesmo distraída, pasmada a ouvir todos os passos das suas aventuras, aumentadas pela sua imaginação digna de qualquer escritor de novelas.
No bairro todos o conheciam pelo Quim “Meias Solas”, e ficavam suspensos pelas estórias das suas viagens pelo mar fora, com que enchia a oficina do pai e eram o encanto de pequenos e graúdos que se acotovelavam para não perderem qualquer “fio da meada”. [...]
[...] Victor sorriu ao recordar a parede que se situava atrás da porta, semi-escondida dos olhares mais pudicos, onde havia também uma secção das mulheres, em pose provocadoras e sem muita roupa. A maior parte delas vinham da América, recortadas de revistas, que não chegavam a este lado do mar, pelo Quim, quase «como despojos de guerra» das suas viagens emocionantes.
Foi naquela parede «proibida» que Victor descobriu, pela primeira vez, o sorriso único de Marilin Monroe, a rainha de todas as louras.
As jornadas mundanas do Quim, fossem invenções ou não, eram bonitas e extraordinariamente bem contadas.
Todos sabiam que ele era um simples empregado da copa do navio, mas, em troca das suas estórias, deixavam-no ficar com o papel invejado de “homem do leme”.
Depois de abandonar a porta de madeira, cheia de caruncho e fendas, Victor interrogou-se, «o que seria dos senhores Silvino e Joaquim Bastos?...»
Continuou a andar pelas ruas do bairro, entusiasmado em descobrir outros lugares e outras estórias, mas com a certeza de que nenhuma era tão bem contada como as do Quim “Meias Solas” que se passeava com o seu andar inconfundível à Charlot, e que lhe proporcionara excelentes viagens na sua barca de sonhos.


Encurtei esta minha estória publicada no livro de contos, "Um Café com Sabor Diferente", para não se tornar demasiado longa e chata... tudo porque afinal a porta estava aberta, um velho sapateiro ainda resistia ao tempo, na rua "Sales Henriques" (?), próximo da velha ponte da linha do comboio...

12 comentários:

Maria disse...

Bem me parecia que este texto não me era completamente desconhecido...
Rua Henrique Sales, Luís! Passeei-me por lá na semana passada. E a casa da Rua do Compromisso está pintada...

Beijinho, Luís

gaivota disse...

estes passeios por caldas...
(nesta altura até tem graça!)
é tal como dizes, muito interessante, às vezes andamos por lá e nem damos por isso!
beijinhos

Maria P. disse...

O que é bom não se perde, não se deixa de fazer, nem é chato...
Foi bom reler aqui estas palavras, e é sempre bom comentar as tuas palavras, acredita.

Beijos, Luís M.

Anónimo disse...

Caro Luís

Existem certas profissões esquecidas que teimam porque quem as pratica ainda vive....depois..depois ficam as memórias colectivas, uma saudade e sentimento que algo se perde e não haverá mais...o ritmo do consumismo desenfreado afoga as pequenas profissões e com a crise acabamos por colar sapatos em casa para remendar aquilo que o dinheiro já não pode comprar...há que colocar as solas de molho!
Com esta história,lembrei-me do ferreiro que existia junto à Secla..passei horas olhando o martelar nao ferro vermelho de fogo..tanta coisa que se perde.
Vitor Pires

as velas ardem ate ao fim disse...

Que fantastica porta aberta!

um bjo Luis

Luis Eme disse...

eu não tinha a certeza se era Henrique Sales ou Sales Henriques, Maria.

pintada? quem diria...

Luis Eme disse...

pois não, Gaivota.

há sempre coisas novas à nossa espera, mesmo em ruas que passamos anos a fio...

Luis Eme disse...

pois não, M. Maria Maio.

acredito.

Luis Eme disse...

sim, Vitor, estão a acabar os últimos artesãos populares...

também me lembro do ferreiro. em criança ficava ali, pasmado a ver eles trabalharemn com o fogo...

Luis Eme disse...

fantástica? e esta Velas?

Antónia disse...

É uma boa história!

bom ano de 2009, com mais viagens pelo nosso Oeste.

Luis Eme disse...

com certeza, as viagens irão continuar, Antónia...

bom ano.