sábado, setembro 16, 2006

As Vindimas



As vindimas foram a única actividade campestre que me manteve ligado à agricultura desde sempre.
Ainda hoje sinto que existe algo de mágico em toda este percurso artesanal, desde a apanha das uvas até à produção do vinho no lagar.
Nos primeiros anos a minha participação na “festa do vinho” não passava de uma brincadeira deliciosa, partilhada com o meu irmão e (pisar as uvas no lagar era, e é, uma brincadeira para qualquer criança...) permitida pelo avô, enquanto ainda se estavam a recolher as uvas...
As vinhas que pertenciam ao avô eram o Arneiro e o Vale da Moira. Nós só as percorríamos na época das vindimas, porque ficavam afastadas de casa dos avós, no meio de pinhais, por caminhos tortuosos.
Recordo que as viagens entre as vinhas e o lagar da família, com a queda das primeiras chuvas, tornavam-se numa grande aventura, principalmente para nós, crianças. O percurso pouco cuidado quase que colocava em risco as tinas carregadas de uvas e a integridade fisica das vacas, que ficavam com as patas completamente escondidas no meio do lamaçal, sem nunca desistirem de puxar o carro de bois, perante a ameaça do avô, que as picava com uma vara igual às que usavam os campinos nas lezírias.
O pai e os tios acompanhavam sempre o percurso mais acidentado, preparados para aliviar a carga e ajudar no que fosse necessário.
Depois de termos crescido um palmo, não falhávamos a apanha das uvas (primeiro com o balde depois com o caneco) e a produção do vinho (quer a pisar as uvas quer a fazer o “aperto”, no célebre “trec-larec” da máquina artesanal do lagar).
Lembro-me da cumplicidade, presente nos sorrisos do pai, dos tios e de nós dois, quando descobríamos a cara de satisfação do avô, depois de fazer a medição da graduação, por o vinho ter “alma forte", ou seja, mais de doze graus...

5 comentários:

jcfrancisco disse...

A minha satisfação é que ainda hoje em 2006 é o meu filho Filipe que faz o pé sob as directivas do meu pai. E os meus sobrinhos lá estão atentos ao «treclarec» da prensa. E o meu neto há-de vir (se Deus quiser) aprender a gostar de ver fazer o vinho pois a vida não se resume ao whisky da terra do outro avô.

Luis Eme disse...

Tenho pena que a "industrialização" da agricultura vá acabando com todos estes processos artesanais, utilizados pelos pequenos agricultores - uma espécie em vias de extinsão no nosso país -, tão apelativos e fraternais.

Nia disse...

Beeeem...ultimamente andas-me a catapultar para a nostalgia da infância, quer eu queira quer não. :)
Lembro-me de ficar "séculos" com as pernas cor-de-vinho-tinto, numa ou duas vezes que me foi permitido entrar no lagar para pisar as uvas.Aquilo era "coisa" de homens e, o facto de eu estar lá no meio deles ( com o meu pai), significava serem comedidos e não contarem anedotas picantes ou outras coisas de "homens".Era divertido mas cansativo.Aquilo que conseguia aguentar, era o suficiente para me pôr a dormir como se me tivessem dado com um martelo na cabeça!
Mas "martelo, martelo" foi um dia(dois ou três anos antes de poder pisar as uvas) que sozinha e plenamente distraída , empoleirada na beira do lagar,observava as uvas a fermentarem , já depois de uma pisadela da noite anterior feita pelos homens. Aquele cheiro a mosto entrava-me de tal maneira pelo nariz que eu, distraída só a observar, saí do lagar aos ziguezagues, perfeitamente zonza com algo muito parecido a uma grande bebedeira só com o cheiro!Foi uma sorte não ter caído de cabeça naquele paraíso de Baco! :)

Luis Eme disse...

Fico muito satisfeito por as minhas palavras conseguirem levar-te de "viagen" até à tua infância, Nia.

Anónimo disse...

Ainda hoje, nas aldeias, se faz assim a vindima assim como o vinho no lagar , apesar de restarem poucos e pequenos agricultores, outrora toda a gente ia ganhar uns dias a fazer vindima, eu também fui... era uma delícia.