quinta-feira, setembro 07, 2006

Rafael & Zé Povinho


A passagem de Rafael Bordalo Pinheiro pelas Caldas da Rainha, quase no final do século XIX, acabou por ter uma importância fulcral no desenvolvimento artístico da arte de trabalhar o barro na cidade.
Os seus múltiplos projectos artísticos deram luz à publicação de inúmeros jornais satíricos (desde o "Calcanhar de Aquiles", em 1870, à "Paródia", em 1900, publicou e colaborou em mais de uma dezena de publicações), mas também fizeram com que vivesse em permanentes embaraços financeiros.
Foi num desses momentos difíceis, em 1884, que Rafael decidiu partir para uma nova aventura estabelecendo-se na Cidade das Termas, com seu irmão Feliciano, criando uma Fábrica de Faianças.
Com o seu espírito inventivo desenvolveu um trabalho notável na fábrica, que funcionou como um dos primeiros centros de produção cerâmica modernos. Algumas das suas criações são autênticas obras de arte e estão expostas em inúmeros museus.
Claro que a sua costela satírica fez com que também desenvolvesse a famosa "loiça malandra", que ainda hoje é reconhecida e apreciada, um pouco por todo o lado...
Uma das figuras que rapidamente passou do papel para o barro foi o "Zé Povinho", talvez a sua criação artística mais feliz - popular é de certeza... -, que apareceu pela primeira vez nas páginas da "Lanterna Mágica", em 1875. Esta figura de barbas, chapéu, rosto rosado, calças remendadas e botas gastas, apareceu com o célebre manguito, nas peças em cerâmica, num claro "Ora Toma!", dirigido à monarquia decadente, não fosse Rafael um republicano convicto.
Esta figura de papel, que ainda hoje é usada para caracterizar o povo português, ao tornar-se tridimensional, tornou-se ainda mais popular e surgiu das formas mais alegres e jocosas, que se podiam criar na época.
É graças ao seu talento e à obra que nos deixou, que Rafael Bordalo Pinheiro permanece bem vivo entre nós, sendo uma figura incontornável da Arte do Oeste.

4 comentários:

jcfrancisco disse...

Essa figura do zé povinho fazia parte da decoração de muitas lojas que eram «mercearia-taberna» ao mesmo tempo lá em Santa Catarina. Quando eu era miúdo isto era mais levado para o «queres fiado, toma!» como se fosse o dono da «baiúca» a dizer isso aos fregueses. Um velhote mostrou-me um dia o seu livro de «devedores e maus pagadores» que eram aqueles a quem ele não teve tempo de dizer «queres fiado, toma!» A minha filha em Londres coloca a fruta numa «couve» da SECLA. A paixão pela loiça da nossa terra passa de pai para filho.

Luis Eme disse...

Não me tinha lembrado desse "papel" do Zé Povinho, em relação aos tipos com bolsos furados, que queriam comprar fiado...
O mais curioso é que a utilização da expressão «Queres fiado, Toma!», acompanhada do respectivo Zé com o manguito, espalhou-se de Norte a Sul.

Sininho disse...

Uma figura decididamente intemporal...

Luis Eme disse...

Pois é Sininho, o Zé Povinho continua a ser um dos nossos melhores espelhos, para o bem e para o mal...
Aparece sempre!