terça-feira, abril 17, 2007

O Regresso ao Meu Bairro


Quando somos pequenos as coisas são todas enormes...

Provavelmente, foi por isso que senti as ruas, as casas, mais estreitas e pequenas, quando regressei ao Bairro onde cresci e vivi até ao fim da infância.

Senti tudo tão diferente...

Os baldios das ruas detrás, onde jogávamos à bola, estavam agora ocupados por prédios, com os espaços vazios preenchidos por veiculos de quatro rodas, cada vez mais donos e senhores de todas as artérias urbanas. Estava tudo tão desumanizado. Não se viam pessoas nas ruas, tinham sido substituidas pelos carros que ocupavam os passeios.

Este vazio levou-me a reconstruir, passo a passo, as coisas e as pessoas que tinham desaparecido, desde o sapateiro, o Lugar onde se vendiam legumes e frutas, até às tabernas que já começavam a ficar a meio caminho entre a tasca e o café, com duas divisões, uma com a oferta do visionamento da televisão.
Lembrei-me dos amigos de infância, das suas casas... apeteceu-me espreitar as escadas interiores do prédio onde vivi, espaço de milhentas correrias e trambulhões, com as quais, eu e o meu irmão, punhamos a vizinhança em reboliço...

Procurei em vão, nos rostos com quem me cruzei na rua, gente conhecida. Não descobri traços familiares, foi como se tivesse chegado a outro bairro. Claro que isto acabava por ser compreensível, tinham-se passado mais de trinta anos...

Antes de tirar uma fotografia ao rés de chão onde vivi, e que ainda resistia ao tempo, perguntei aos meus botões: «estamos a transformar-nos em quê?»

22 comentários:

Sininho disse...

Cantava o Rui Veloso qualquer coisa como:
"Nunca voltes aos lugares
em que já foste feliz"...
E com muita razão. Porque também fui revisitar (exteriormente)a casa em que cresci, também a fotografei e está de outra cor, apresenta uma certa degradação, não é a mesma.
A original só existe, mesmo, cá dentro do coração.
E mais vale que as recordações se mantenham intactas, livres das "poluições" da "modernidade".
O mundo está em constante transformação, quer nos agrade, quer não (olha, versejei).
Por isso, Luís, mais vale seguir o conselho do Rui...

Francieli Rebelatto disse...

Aqui lhe ecnontrei entre imagens, poesias e então a reflexão sobre o que fomos, o que somos. Saudades, nostalgia e então no que nos transformamos???

Sim, isso também me pergunto quando regresso aos meus antigos dias, mas enfim as coisas vão mudando e um dia os pequenos de hj regressarão e verão que mais uma vez tudo mudou, para que??? Não sei, e isso me da medo descobrir!!!

Luis Eme disse...

O Rui tem de facto razão, Sininho...

Quando voltamos aos lugares onde fomos realmente felizes, sentimos sempre alguma desilusão, porque o tempo não pára...

Não são só as coisas que estão diferentes, também nos faltam as pessoas, com que partilhámos bons momentos.

Luis Eme disse...

Francieli, que nome bonito e original (muito italiano...).

Gostei de te ver por cá. Aparece mais vezes.

Maria disse...

Eu ontem deixei aqui qualquer coisa escrito...mas por qualquer razão, não ficou publicado. Às vezes tenho problemas com o word verification, que tenho de repetir 3 e 4 vezes. Às tantas saí sem ter conferido se tinha ou não sido publicado.

De qualquer forma, só para dizer que conheço uma casa em Caldas, quase quase igual a esta, no Bairo da Ponte, a caminho do Cencal...

Teresa David disse...

Para quem como eu nasceu e viveu até á maioridade em Lisboa, sempre tive a orfandade de ter uma "terra" para recordar! Daí ter sido tão agradável ler estas recordações de infância.
Bjs e obrigada por mais uma visita
TD

Cris Caetano disse...

Tenho de subscrever cada palavra da Sininho, aconteceu-me o mesmo qdo fui visitar a quinta dos meus avós depois de a terem vendido - senti uma dor imensa no coração -, e estava degradada. De qualquer forma as minhas recordações costumam ter cheiro, sim, isso mesmo. É normal, não é?
bjos e bom fim de semana

Luis Eme disse...

Esta casa fica no Bairro dos Arneiros, Maria... numa rua que era a nº 26 (espero que já tenham dado nomes de gente às ruas... não lembra a ninguém morar numa rua que é um número).

Luis Eme disse...

Mas em Lisboa também existem bairros, mudanças... lugares para partir e voltar , Teresa...

Luis Eme disse...

Pois é Cris, mas nós somos teimosos, queremos voltar a ser felizes...

Lâmina d'Água, Silêncio & Escriba disse...

Te encontrei pelo registro de visitas deixado no rastreador do Lâmina, Escriba & SILÊNCIO e vim ver o que havia por detrás do nome do blog visitante...

E lendo o teu texto, lembrei-me do sítio - que no Brasil significa um terreno rural de grandes proporções - que meus pais tinham e para onde íamos sempre nos finais de semana, na minha infância. Ficava cerca de 40 a 50 de São Paulo e localizado no caminho para o Rio de Janeiro. Cortando as nossas terras, havia um lindo rio de águas cristalinas e fundo de seixos rolado e eu era proibida de me aproximar dele, mas sempre que podia quebrava a promessa e entrava de mansinho somente na margem, com seu fundo forrado de pedras, para sentir a água gelada deslizar pela minha pele. Havia também muitas árvores nas margens, o que fazia do lugar, um recanto mágico pela luz filtrada...
Mudei de cidade, de estado de vida e de tudo e passados muitos e muitos anos, voltei ao sítio para rever a casa dos finais de semana da minha infância. A casa estava lá, linda como sempre fora, embora jogada no tempo. As grandes árvores haviam encolhido... Estavam atarracadas; quase que retorcidas e a grande maioria delas, desaparecera.
E com certa apreensão, fui até onde deveria existir o rio caudaloso de águas transparentes e esse havia se transformado em uma vala tubular onde um líquido lodoso escorria lentamente...

Rodei por mais algum tempo pelo grande espaço já cercado por muitas construções desordenadas e com uma estética desconexa e derrepente percebi algumas orquídeas sobreviventes, em teimosas e insistentes árvores. Cuidadosamente eu retirei algumas delas e as trouxe para viverem comigo e hoje estão aqui, felizes e cheias de cores, em um outro sítio...
Não recuperei minha infância e nem os lugares por onde eu a vivi, mas recriei a memória, comparando as duas realidades.

Um bom final de semana!!!
Beijo,
Cris

Luis Eme disse...

Tens toda a razão, Cris, não recuperamos mas recriamos...

Volta mais vezes.

Vladimir disse...

Refere François Chateaubriand que “não somos nada, sem felicidade”.

Qual é a sua opinião sobre este tema?

Luis Eme disse...

O François era um lirico...

Ida disse...

Pensei exatamente na mesma canção que a Sininho... é impossível não pensar... Esqueceste (sempre esquecemos!) as regras da sensatez... só encontrarás erva rala por entre as lajes do chão......

E dá um aperto no coração que só quem já passou pela experiência é capaz de avaliar. Mas como é que o Carlos Tê foi capaz de avaliar tão bem e passar para palavras dessas, sem contar a melodia que me arrepia cada vez que a ouço... e ouço, muitas vezes, a ver se aprendo...

Bonito texto, rapaz, ainda que deixe alguns arranhões na memória afetiva, sobretudo pelo sentimento que te imaginamos.

Alexandra disse...

Passei por acaso e revi-me neste post.

Pessoas diferentes, vivências diferentes, lugares diferentes MAS, sentimentos idênticos!!

Gostei muito, sinceramente!

Maria P. disse...

É fria a rua da nossa infância.

Excelente texto!

Luis Eme disse...

Nunca aprendemos Ida, por muito avisos que o Rui (ou o Carlos) nos dê...

Gostamos sempre de voltar onde pessamos que cheira a felicidade.

Não me deixa "arranhões" porque sei que a vida é isto...

Luis Eme disse...

Concordo contigo, Alexandra, os lugares de "partidas e chegadas", são iguais em todo o lado, pelo menos interiormente..

Aparece mais vezes...

Luis Eme disse...

Eu diria que se torna fria, quando caminhamos por lá, sem encontrarmos o que ficou registado na memória, Maria.

A COR DO MAR disse...

Ja passei muitas vezes a este teu sitio ...
Beijoca e boa semana ***

Luis Eme disse...

A este nosso sitio... "Cor do Mar".

Boa semana também e um beijinho.