segunda-feira, outubro 02, 2006

A Outra Janela



Escolhi esta janela pintada por Pierre Bonnard (1867 - 1947) para ilustrar este meu pequeno apontamento, sobre outra janela, porque a achei irresistível...
Devo começar por dizer, que sempre gostei de janelas debruçadas para o Mundo.
Quando vim viver para Cacilhas, houve um pormenor decisivo na escolha da minha casa: a janela da sala, com vista para o Tejo.
Hoje, quando começou a chover, recordei-me da minha primeira janela especial, a da sala da casa onde vivi a minha infância, no Bairro dos Arneiros. Foi lá que aprendi a olhar para as coisas, com olhos de ver.
Passava horas entretido a brincar com os meus carrinhos, no parapeito da janela, enquanto olhava para a chuva que caia na rua...
Ficava deliciado a ver a Rua 26 transformar-se num grande lamaçal, quase intransitável. Sorria ao ver os transeuntes circularem aos ziguezagues, tentando escapar das poças de água. De vez em quanto lá surgia um carro, preparado para dar um banho de água castanha a quem não se precavia. O meu sorriso transformava-se numa gargalhada sempre que isto acontecia, porque nós crianças, adoramos estas cenas "maléficas", dignas de qualquer um filme tragico-cómico.
Nesta altura o alcatrão ainda era um miragem, pelo menos nos bairros limitrofes da Cidade das Termas...

9 comentários:

jcfrancisco disse...

nesse tempo havia uma coisa muito curiosa: como os Invernos eram mesmo a sério, as poças de água transformavam-se em bocados de gelo na manhã seguinte. E havia rapazes que iam para a escola primária descalços. Isto era na estrada de macadame, pelos vistos muito parecida com as ruas do Bairro dos Arneiros.

Luis Eme disse...

Felizmente, não me recordo de ver crianças no meu bairro descalças (excluindo os ciganos, que viviam acampados, quase de uma forma permanente, num dos pinhais das redondezas).
Claro que isto deve-se, em parte, ao facto de sermos de gerações diferentes, Zé do Carmo Francisco...
Em Salir de Matos, ainda me lembro de ver no Verão alguns rapazolas de pé descalço, Recordo-me que detestavam andar calçados, por força do hábito...

Tit disse...

Quem sabe não passei a essa tua janela algumas vezes... ;)
Adoptada por Torres Vedras mas natural de um local mais perto do Bairro dos Arneiros, como talvez tenhas suspeitado pela minha entrada "Sonho de uma Noite de Verão".
Na minha infância também já não andei pelas ruas descalça... mas em casa calculo que sim - é que ainda hoje passo o tempo, em casa, a perder os chinelos [risos]

Bom fim-de-semana e obrigada pela visita.

Luis Eme disse...

Obrigado também pela visita Tit... não deixa de ser curiosa e engraçada, esta "proximidade" de lugares da nossa infância.

Nia disse...

Olha..acho que te vou mandar uma outra janela pelo correio...a minha! :)

Luis Eme disse...

Fico à espera da janela...

Alice C. disse...

As janelas são sempre um encanto. São meioa caminho para a liberdade.

Luis Eme disse...

Quanto mais não seja, em sonhos...

Anónimo disse...

Os catraios são sempre muito inventivos, e quando alguém tropeça e cai...As estradas naquele tempo eram de lama no Inverno e pó no Verão. No Inverno, os buracos cobertos de gelo, divertia os miúdos, quando, com os pés pequeninos e descalços partiam o gelo.No Verão, quando duma zaragata,apanhavam "punhados" de terra,e davam origem a uma verdadeira batalha campal...