terça-feira, outubro 24, 2006

A Praça da Fruta



Tenho lido algumas opiniões sobre o futuro (quase sempre pouco risonho...) da Praça da Fruta, que foi durante largos anos um dos retratos mais pitorescos das Caldas da Rainha do século vinte, pelo menos para muitos turistas.
Parece-me claro, que o divórcio entre os vendedores e os compradores locais continua a crescer. Há várias razões, a principal, deverá ser o preço demasiado elevado dos legumes e frutas, quando comparados com o das várias superfícies comerciais existentes na cidade. Sei que a simpatia dos agricultores também já não é a mesma de há alguns anos a este parte. A maior parte destas pessoas "aburguesaram-se". Não o digo por terem substituido as suas carroças por carrinhas e jipes, para se fazerem transportar das aldeias vizinhas para a cidade, mas sim pela forma como atendem as pessoas. Perderam a simplicidade, a simpatia e até o jeito brejeiro de negociar os preços. Lembro-me muito bem de ir de mão dada com a minha mãe às praças da fruta e do peixe, e de assistir a autênticos espectáculos entre as vendedoras - principalmente as peixeiras - e as freguesas, em que todos os preços eram bem regateados, à boa maneira marroquina...
A própria qualidade dos produtos nem sempre é a melhor. Por vezes os agricultores tentam vender gato por lebre, ou seja, venderem produtos espanhóis, de segunda, como se fossem produzidos no Oeste. Espertezas muito pouco saloias...
Lembro-me que o meu avô também vinha vender alguns dos produtos que semeava à praça. A minha avó ficava sempre espantada pela rapidez com que ele vendia as coisas, chegando a casa, quase sempre a tempo de almoçar. Como não tinha alma de vendedor, acabava por vender as coisas ao preço pedido pelos clientes, despachando a mercadoria rapidamente, embora a margem de lucro não fosse muito elevada. Claro que o meu avô era um "amador" nestas coisas do comércio, por isso é que nunca enriqueceu.
Voltando à Praça da Fruta, tenho pena que se perca este mercado cheia de cor e vida, mas o tempo é mesmo assim: anda sem parar e muda sem avisar...
Sei que quando atravessar a Praça da República a meio da manhã e não sentir o bulício mercantil habitual, só me resta parar no tempo e ficar a olhar para dentro de uma das minhas janelas da memória, à procura de um sinal. Talvez encontre algumas pessoas a circularem, de um lado para o outro, com os olhos fixos na fruta e nos legumes das bancas e dos cestos, enebriadas pelo cheiro a campo...

15 comentários:

Ana Ramon disse...

Olá Luís. Estas viagens pelos blogs acabam por ser imprevisíveis. Começa-se pelos amigos e depois seguimos a espreitar os amigos dos amigos e depois quando damos por nós já estamos a ler temas muito diferentes dos que nos motivaram no início. Estava a ler este post sobre a praça da fruta e a lembrar-me que nos meus tempos de meninice em que vivia em Almada, não compravamos fruta na praça por ser mais cara do que a vendida na rua. Mas mesmo na rua, havia duas vendedoras.. uma tinha a fruta melhor e era um pouco mais careira do que uma outra que vendia fruta mais pequena e esburacada do bicho. As mãos quase castanhas de unhas negras, as roupas cheias de nódoas e os filhos com o ranho a escorrer pelos queixos, deram origem a que recebesse a alcunha de "Porca Suja". Pois era mesmo a esta que a minha comprava a fruta, tendo o tarbalho em casa de a cortar de forma a ficar mais apresentável para a mesa. Tempos muito difíceis. Engraçado como estas memórias emrgiram ao ler este teu post. De vez em quando passarei a visitar-te. Um abraço

Maria disse...

Olá Luis
Esta foto já tem uns anos. O edifício do actual Millenium estava por construir (uma das aberrações de Caldas).
E o prédio onde eu nasci está mesmo ali... na praça.
Um abraço

Luis Eme disse...

Obrigada pela visita Ana, a este espaço de memórias...

Luis Eme disse...

Maria, esta foto é dos anos setenta. Vê-se o "buraco" onde ergueriam mais tarde o tal "monstro" da Praça...

Maria disse...

Luis
Se soubesse os anos que eu recuo quando passo por este blogue...
O que eu brinquei no quintal que existia na casa onde na foto está o "buraco"...
O que eu saltei a corda na Praça...
O que eu brinquei naquela passeio, frente à farmácia freitas e frente à Zaira...
Já foi há tanto tempo, mas é tão bom lembrar...
Obrigada pelo blogue, mais uma vez

jcfrancisco disse...

ESta praça tem para mim a memória dos Armazens do Chiado onde a minha mãe me comprou um fato qaundo fiz a quarta classe em 1961. E a memória doce da minha tia Francelina que vinha vender coisas da terra (Casal dos Carvalhos) para equilibrar as contas da casa. Todos afinal estamos lá ainda hoje...

Luis Eme disse...

Obrigado Maria, pelas palavras e pela visita (que bom que é viajar no tempo)...

Luis Eme disse...

Pois é Zé do Carmo Francisco, esta Praça é, e será, um campo aberto de memórias... mesmo sem os legumes e a fruta que lhe deu o nome.

A Cor do Mar disse...

Eu nao posso ter o mesmo fascinio,dos tempos idos, dado que visitava a Praça da Fruta e restante Caldas só de passeio. Mais tarde acompanhando o m/ filho num curso, ate que a paixão deu mesmo em casamento, e hoje vivo com a cidade. Adoro cá viver, ou nao fossem as minhas raizes maternas da costa oeste, mm mm junto ao mar. Que bom vir a janela e sentir o "cheiro das Caldas" (como a Maria sente o Cheiro da Ilha ).
Um abraço a todos amigos das Caldas*

Maria disse...
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Maria disse...

cor do mar
Eu já tinha desconfiado...
Estive a ver o teu blog anteontem, com pormenor, e as muitas fotos da Foz/Lagoa, as peças de cerâmica do teu filho (que eu associei a alguns artistas de Caldas ou a viver em Caldas), o pôr do sol da tua varanda (pareceu-me ser na zona da encosta do sol, acho que é assim que se chama), etc., dei comigo a pensar que se calhar... andavas por aí.
Às tantas já nos cruzámos nessa terra, onde eu vou só às vezes...

Luis Eme disse...

O Oeste é assim... muito mar selvagem, muita história e monumentos, muito verde de parques, matas e pinhais... muito castanho da terra.
Muita beleza, concerteza!

Cris Caetano disse...

Ah, Luís, que texto interessante e saboroso de ler!
Mas acredito que teu avô é uma excessão à regra *rs*, não existe melhor povo para negócios que o povo português. Tenho uma teoria que aprenderam com os mouros e aperfeiçoaram a técnica superando-se a estes.
Vivi mais de 10 anos neste teu país, por isso posso dizer que gosto dele e concordo contigo, é uma pena o "aburguesamento" - o termo é óptimo, inclusive para enrolar a língua - dos comerciantes, ainda tive o privilégio de regatear preços e ver meus pais fazerem o mesmo.
Óptimo post!

Luis Eme disse...

Obrigado pela visita e pelas palavras Cris.

Kinha disse...

BOm dia Luis,
Adorei o blog. Entra em contacto comigo para uam possivel proposta!
catarina@minube.com
Obrigada,

catarina