terça-feira, dezembro 12, 2006

O Largo da Igreja de Salir de Matos


O Largo da Igreja de Salir de Matos da minha meninice era muito diferente do jardim bonito, cheio de escadarias, dos nossos dias.
Nesse tempo a Igreja estava delimitada por um muro e pelas paredes das habitações próximas. Tinha também dois portões de ferro. No seu interior existiam várias lápides rasas, bastante antigas, com inscrições em latim - não faço ideia o que aconteceu a estas pedras com história, só espero que não tenham sido destruidas... -, e também um pequeno coreto, praticamente só usado nas brincadeiras da garotada.
Aquele lugar nunca foi um local demasiado sagrado, sempre me lembro de brincarmos junto à igreja... por vezes até exagerávamos e para além das brincadeiras habituais da apanhada e das escondidas, fazíamos "tiro" ao sino, com as pedras que apanhávamos do chão...
O barulho alertava as pessoas e nós acabávamos por ter de escapar para as traseiras. O sacristão da Igreja era mudo, mas acho que não era surdo, até porque era ele que fazia os vários toques do sino, quando era necessário. Ele aparecia sempre, no papel de vigilante daquela capela e quando nos via, mirava-nos com cara de caso.
Mas a aventura mais engraçada, que guardo do Largo da Igreja, aconteceu durante uns festejos do Santo Antão. Nessa altura faziam-se vários jogos tradicionais, para angariar dinheiro e divertir as pessoas. Um deles foi o popular "Pau de Cebo" - um tronco de eucalipto liso e com cebo, enterrado no chão, com um objecto colocado no seu topo, o prémio do vencedor -, que estava tão encebado que ninguém conseguiu subir e alcançar a garrafa de vinho do porto. Extra-campeonato, já sem assistentes, o meu irmão, com a ligeireza dos seus doze anitos, começou a subir o pau por brincadeira. Como qualquer "macaco" que se prezasse, conseguiu chegar lá acima, deixando cair a garrafa no solo...
Sorrimos quase em silêncio depois da façanha. Olhámos para todos os lados, como não havia ninguém por perto, pegámos no "prémio" misturado com a roupa e fomos para a casa da avó...
Quando ela nos viu com a garrafa, tivemos logo "serão e missa cantada". Depois de explicarmos o que tinha acontecido, ela lá se acalmou e a garrafa acabou por ser colocada ao lado de outras, no guarda loiça da sala.
Sei que, apesar do Largo ter sido baptizado como Largo Padre José da Felicidade Alves, vai continuar a ser o Largo da Igreja...
A fotografia que acompanha este texto foi tirada da torre da Igreja, há uns anitos... ainda se vê um pedaço do célebre sino.

11 comentários:

Maria disse...

Ouvi dizer a alguém que quando nos começamos a lembrar de coisas de quando éramos miúdos é porque estamos a ficar velhos.
Não concordo, acho mesmo que a nossa infância foi, fellizmente, tão rica de experiências, que temos necessidade de a recordarmos para podermos contar, como estórias, aos nossos filhos e netos...
E não é que eles seguramente se vão encantar com o famoso "pau de cebo"?
Obrigada pela fotografia e por mais esta memória...

Ida disse...

Foto deliciosa. Lembra-me o adro da Sé de Vila Real, Trás-os-Montes. Vou ver se encontro umas fotos q lá tirei no ano passado. Têm gosto, não da minha infância, que não a passei nessas terras, mas da minha infância imaginada, do que lembro do que não vivi, mas sonhei. Isso lembra-me outro verso, nem tão lugar comum como o q mencionaste "É o que me sonhei que eterno dura, é esse que regressarei"... o mesmo "mensageiro desejado".

Ida disse...

Primeiro impressionou-me a foto. A seguir, fui ler o texto. Adorei. Delicinha ter pouco mais de um metro de altura. E companhia para travessuras. Tens sorte. Tens boas lembranças.

Sininho disse...

Mesmo que estejamos a ficar velhos, é sempre excelente ter coisas boas para recordar.
Triste de quem não as tem.

Cris Caetano disse...

Ih...então já estou gagá hehehehe, adoro recordar todas as coisas boas. Com apenas uns 4 anos de Brasil, vivo recordando meus tempos de Portugal, e não só! Já disse e repito: Luís, é muito gostoso ler as tuas histórias. E podemos ajudar a nós próprios, segurando uns as bengalas dos outros lololololol

um grande abraço!!!

Luis Eme disse...

Maria,
não quer dizer que estejamos velhos... embora á medida que os anos vão passando, vá recordando com mais nitidez as minhas histórias de infância...

Luis Eme disse...

Ida,
penso que estas recordações são comuns a muita gente, só que estão esquecidas... ou então acham que não vale a pena contá-las...
Claro que vale, não achas?

Luis Eme disse...

Sininho,
concordo contigo. Como diz o Garcia Marquez, é preciso "Viver para Contá-la".

Luis Eme disse...

Cris,
compreendo-te perfeitamente. Quando estamos longe, é mais fácil viajarmos pela memória... e claro que não precisamos de ter cabelos brancos.

Anónimo disse...

Como é bom ter recordações!! E o coreto? Onde os vi brincar tanta vez...Recordações vividas e agora saboreadas. Parabéns

Anónimo disse...

Não tenho a certeza mas, penso que, seria na festa de Sto António, porque a de Santo Antão, esteve muitos anos sem ser realizada. Só recomeçou com um grupo de pessoas, entre eles o padre Jesuíno. Compraram um porco a pequeno agricultor, mataram na casa de outro pequeno agricultor e trataram de fazer os chouriços, sempre com o receio de não conseguirem recuperar o dinheiro gasto... a festa correu bem deu para a despesa e ainda sobrou dinheiro que reverteu a favor da igreja. Desde essa altura,nunca mais deixou de haver festa de Sto Antão. A festa de Sto António na época era extrordinária, não havia outra tão bonita: haviam muitos jogos durante aqueles dias, assim como ir ao borrego(pipo de vinho) para quem quisesse, fogaças para serem vendidas, todos, mas todos nesta festa esperavam pela queima da boneca...È bom reviver.