segunda-feira, dezembro 18, 2006

A Árvore que Falava


O meu irmão, por ser mais velho, sempre foi o mestre das traquinices em casa, embora raramente fosse apanhado, por ser mais espertalhaço e cuidadoso que eu.
Às vezes esmerava-se nos seus jogos, sem medir as consequências, como costuma ser normal na meninice...
Sempre teve um jeito especial para se empoleirar em árvores, como se quisesse imitar o Tarzan. Uma das suas brincadeiras especiais teve como protagonista uma árvore, também especial, de Salir de Matos. A árvore era enorme e ficava próximo da casa de uma das nossas tias, rente à estrada principal de alcatrão que nos levava à Santa Catarina do Zé do Carmo. Ele adorava esconder-se por entre a folhagem e pregar sustos a quem passava, com tiradas únicas. Assobiava, gritava, imitava vozes, etc. Curiosamente, as pessoas olhavam para todos os lados menos para cima.Eu quando dava pela sua falta já sabia onde estava...
Costumava ficar a apreciar o espectáculo, afastado, para não ser descoberto. Fartava-me de rir com a reacção das pessoas. Quem estivesse por perto, pensava que eu era maluquinho...
A única vez que não achei muita graça foi quando a vitima foi um senhor que conheciamos por "Ti Zei". Ele vinha sossegado na sua bicicleta e ao ouvir o seu nome, começou a ziguezaguear, até ficar estatelado no chão, uns metros mais à frente. Claro que sorri ao vê-lo andar aos ésses, mas depois de o ver cair, deu-me vontade de descer e ir ajudá-lo. Não foi preciso porque ele levantou-se rapidamente, irritado. Ainda voltou para trás, a falar alto, à procura do «cabrão que o tinha feito cair, rasgar as calças e lixar o joelho». Mais uma vez, olhou para todos os lados, menos para cima. Também se olhasse para cima não via o meu irmão, porque ele estava bem escondido por entre as folhas da amoreira.
O "Ti Zei" lá se fez à vida, com as calças rotas no joelho e sangue à vista. Caminhava direito na estrada, pelo que vi que não havia problemas de maior...
Outras vezes assobiava e era ver os carros e as motorizadas a travarem, com os condutores a olharem para todos os lados, até perceberem que tinham sido vitimas de um brincalhão...
E se ele adorava esta brincadeira...
Normalmente falava quando as pessoas iam já uns metros à frente da árvore. Um simples «boa tarde» era o suficiente para assustar as pessoas, especialmente as mulheres, que gritavam sempre: «Ai credo! Que susto»!
A melhor imagem que encontrei com árvores e um caminho, foi este óleo de Malhoa, que retrata de uma forma soberba a bonita e misteriosa "Mata das Caldas".

10 comentários:

Anónimo disse...

As traquinices que fazemos quando somos miúdos, contadas de uma forma tão bonita... e com um dos muitos caminhos da mata de Caldas!
Lindo este post.

Sininho disse...

Aí está uma coisa de que sinto uma certa inveja: As brincadeiras com os irmãos. Sou filha única...
Mas há brincadeiras, com amigas de infância, que não esquecem mais.
Esse tipo de travessuras, aqui tão bem descrito, é absolutamente irresistível.

mfc disse...

Que história deliciosa... com os meus irmãos era mais duro... era com pedras e com o que havia à mão depois de bem escondidos!

Luis Eme disse...

É verdade Maria, as traquinices que fazemos na infância...

Luis Eme disse...

Tens razão Sininho. Falei ao meu irmão que tinha metido esta história no blogue, ele sorriu e deu-me mais algumas dicas, porque lembrava-se do episódio melhor do que eu.
O mais curioso é que nunca foi descoberto.

Luis Eme disse...

Nós não iamos tão longe... isso seria um convite à guerra. Éramos demasiado pequenos para batalhas deste género...

Rosa dos Ventos disse...

Como sempre uma bela imagem associada a uma divertida lembrança!

Luis Eme disse...

É verdade, Rosa dos Ventos...

jcfrancisco disse...

Há uma diferença de 10 anos. No meu tempo a estrada era mesmo de macadame e não de alcatrão. Vinham os presos da cadeia das Caldas para limparem as valetas. Ao menos andavam distraídos e não vendiam drogas no recreio. Os carros de mão ficavam no meu barracão até ao outro dia.

Luis Eme disse...

Pois, a estrada da "Estrada de Macadame", crónica quinzenal imperdível publicada na "Gazeta das Caldas".