segunda-feira, dezembro 04, 2006

Um Grande Ser Humano



Depois do Cardeal Cerejeira ter decretado o seu afastamento compulsivo de Belém e da Igreja Católica no final de 1968, o Padre José da Felicidade Alves teve de iniciar uma vida nova que culminou com o casamento civil com Elisete Ascensão em Agosto de 1970.
Nessa altura já tinha recebido várias vezes a visita de agentes da PIDE, na sua casa, sempre com pretextos pouco consistentes. Foi interrogado mais de uma dúzia de vezes e acabou mesmo por ser preso, entre 19 e 29 de Maio de 1970, nos calabouços da PIDE, sem culpa formada, como era hábito nesse tempo tenebroso.
Estes episódios só fizeram com que se tornasse ainda mais solidário para com todos aqueles que eram vitimas das arbitrariedades do regime, agora marcelista. Foi assim que fez parte da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos e de outras iniciativas que tinham como objectivo apoiar as vitimas do marcelismo e desmascarar a prática repressiva do “lobo que vestia pele de cordeiro”, graças à sua sapiente oratória, levada ao extremo nas populares “Conversas em Família”.
A par destas actividades, trabalhou em vários sectores da sociedade, tendo como última ocupação o lugar de assessor literário do director dos “Livros Horizonte”, onde foi o responsável e autor de uma série de estudos sobre Lisboa, com destaque para o trabalho de investigação original sobre o Mosteiro dos Jerónimos, publicado em três volumes.
O dia 25 de Abril de 1974 foi um dia extremamente belo e inesquecível, para ele e para todos os democratas... porque marcou o início de uma nova vida, em Liberdade...
Vinte anos depois viu recompensada a sua acção enquanto resistente, quando foi foi condecorado por Mário Soares com a Ordem da Liberdade, no dia 10 de Junho. Meses antes tinha sido eleito Académico pela Academia Nacional de Belas Artes, graças ao seu profícuo trabalho intelectual.
Infelizmente alguns dos problemas de saúde que padecia, agravaram-se nos últimos anos de vida, limitando-o bastante, fisicamente.
Alguns meses antes de se despedir de nós, o novo Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo (também natural do concelho de Caldas da Rainha...) promoveu a reconciliação do Padre Felicidade Alves com a Igreja Católica, assumindo o pedido de perdão e presidindo na Cruz Quebrada ao seu casamento canónico com a sua companheira de sempre, Elisete Alves, no dia 10 de Junho de 1998.
A 14 de Dezembro do mesmo ano, o Padre José da Felicidade Alves partiu, deixando todos aqueles que tiveram o prazer de privar com a sua companhia, com uma saudade imensa, do seu grande sentido humanista e da sua inteligência.

Este texto está ilustrado com a capa do livro "Testemunho Aberto", edição póstuma de textos do Padre Felicidade Alves, organizada por Abílio Cardoso e João Salvado Ribeiro.

4 comentários:

Maria disse...

D. José Policarpo, de Alvorninha...
Voltando ao Felicidade Alves, está tudo dito. Podemos é voltar a repetir o que disseste nestes posts, acrescentando só a memória do convívio de tantos ali no café do largo, o velhinho Candeeiro... que penso ter fechado mesmo antes do 25 de Abril ou logo a seguir...
Obrigada por nos teres trazido estas lembranças, e dares a conhecer o Felicidade Alves a quem não o conhecia.
Um abraço

Luis Eme disse...

O facto do padre Felicidade Alves ser extremamente simples, sem nunca se colocar em bicos de pés, fez com que fosse facilmente esquecido... tal como acontece com outras pessoas de grande qualidade no nosso país...
País onde se premeia a futilidade com demasiado facilidade, desde as lilis aos lálás...

Luis Eme disse...

Bom regresso às "Viagens"... porque QUEREMOS CONTINUAR A SER PESSOAS LIVRES, Zé do Carmo Francisco.

Anónimo disse...

Quando era menina conheci bem o padre Zé em Lisboa foi um bom orientador, era excepional no contacto com os jovens, reservo boas memórias das suas conversas.