sábado, setembro 29, 2007

Figuras Públicas

Estava no meio de uma conversa com "os meus botões" (adoro esta expressão, e se falo com estes companheiros...), quando, apanhei no ar duas palavras que escaparam do diálogo entre duas personagens secundárias, que atravessavam o rio, no mesmo cacilheiro que eu.
Não pude deixar de pensar no conceito que esta gente tem da "figura pública", nem tão pouco de continuar a viajar no tempo...
Tenho a certeza de que quando não havia televisão, nem se vendiam as revistas "cor de rosa foleiro", as pessoas não se tornavam "figuras públicas" por fazerem coisas absurdas e insignificantes, como andar por aí de festa em festa, a comer rissóis e a tirar fotografias, com sorrisos e poses de actores de quarta categoria.
Recuei à minha infância e não foi difícil de concluir que quem deveria merecer esta designação era o barbeiro, o sapateiro, o merceeiro, a cabeleireira, o taxista, etc, esses sim, figuras eminentemente públicas, cuja existência se devia ao facto de servirem a comunidade e não de se servirem de nós...
Mas estamos numa época em que não se mudam apenas os tempos. Está tudo em transformação permanente.
Até os ventos já não são o que eram, estão cada vez mais rebeldes...

terça-feira, setembro 25, 2007

Lugares de Outono

Um dos lugares onde melhor se sente a chegada do Outono é na Mata das Caldas da Rainha.
Andar ou correr no meio de tantas folhas caídas, ao ponto de ficarmos com os pés cobertos do "ouro", com a "música" característica do pisar das folhas secas, é normal para quem passeia neste espaço...
E quando olhamos para cima, descobrimos a nudez das árvores, que nos olham quase envergonhadas...
No Parque a tristeza é disfarçada pelas árvores que não se rendem ao Outono e permanecem imponentes, o ano inteiro...

quinta-feira, setembro 20, 2007

A Salmoira

Estava a tirar alguns apontamentos históricos, quando descobri a palavra Salmoira. Esta palavra levou-me logo de viagem até Salir de Matos...
Voltei a entrar na casa da avó, a descer a escada ao lado do forno, a percorrer o corredor da adega e a parar, junto à arca de madeira, cheia de sal grosso. Sal que cobria a carne e o toucinho, guardados após a matança do porco.
Nessa altura ainda não havia frigorífico lá em casa, nem na maior parte das habitações da aldeia...
E a carne era toda conservada em salmoira...
Esta aguarela de Maria Valente representa muito bem qualquer aldeia da Estremadura, como Salir de Matos. E como me lembra a rua detrás, dos nossos pátios, que começava na casa da tia Utilde...

domingo, setembro 16, 2007

Partir à Procura de uma Vida Diferente


Um dos meus tios, foi um dos muitos portugueses que se aventuraram a salto, até França, nos anos sessenta.
Não o fez por razões políticas, muito menos para escapar da guerra colonial, que era um "terror" para quase todos os jovens do nosso país...
Foi atrás do sonho de uma vida melhor, para ele e para os seus...
Na hora de partir, deixou muita coisa para trás, inclusive a esposa, grávida do primeiro filho...
A viagem da fronteira portuguesa até à fronteira francesa, durou catorze longos dias, com fome, frio, sede e muito medo de ser apanhado e preso.
Ele e os companheiros de fuga só descansaram quando chegaram a França, onde foram muito bem recebidos pelos locais das terras fronteiriças, que lhe deram comida e até guarida.
Hoje está por cá, mas não esquece o acolhimento que teve, no país que considera a sua segunda pátria. E se há coisa que não gosta, é de ouvir dizer mal de França e dos franceses, porque é um homem grato ao país que lhe deu a oportunidade de recomeçar uma nova vida.
Aconteceu-lhe o que acontece a tantos de nós. Partimos à procura de algo diferente, na esperança de encontramos a razão da nossa existência, e acabamos por adoptar segundas terras e segundos países...

sexta-feira, setembro 14, 2007

O Relógio do Tempo

Nas minhas férias campestres do começo de Setembro, nunca usei relógio e mesmo o telemóvel, estava quase sempre desligado, por falta de "rede"...
Mas no campo raramente nos perdemos no tempo, porque o sino da igreja da aldeia continua a replicar de hora a hora, com as badaladas necessárias e de meia em meia-hora, com apenas um toque.
Em Salir de Matos também é assim... o som ecoa por toda a freguesia, embora avise cada vez menos agricultores, porque, infelizmente, são uma espécie em vias de extinção...
Outra curiosidade matinal na aldeia era a visita do peixeiro, que começava por apitar, para de seguida, nos oferecer os fados da Amália, provavelmente ainda de cassete, enquanto visitava as ruas da localidade...

sábado, setembro 08, 2007

Sons e Saberes dos Campos


O ambiente campestre desperta-me sempre a atenção para as coisas pequenas, que normalmente nem sequer mereceriam uma linha, noutro lugar qualquer...
É por isso que...
Gostava de conhecer as aves pelo seu assobio,
uma linguagem demasiado bela e simbólica,
ou ainda pelo garrido das plumas
e pelo bater das suas asas...

Da mesma maneira que gostava de conhecer todas as plantas,
que crescem aqui e ali, ao Deus-dará (gosto desta expressão)...

A aguarela é de Ernest Duez...

quinta-feira, agosto 30, 2007

A Fruta do Oeste


A entrada na União Europeia, trouxe-nos vários dissabores.
Um dos mais graves, senão mesmo o mais grave, terá sido o quase abandono "forçado", da agricultura pelos portugueses, devido à "invenção" de quotas de produção...
Claro que ainda hoje há proprietários (especialmente os donos de grandes propriedades no Alentejo) a viverem dos rendimentos do "pousio" das suas terras...
A Região do Oeste, bastante rica em fruta, como não podia deixar de ser, sofreu um forte revés com as novas políticas agrícolas comuns...
As únicas espécies que tem resistido, são a pêra rocha e algumas vinhas, aqui e ali...
Mas o mais comum é descobrirmos campos e pomares abandonados no Oeste, porque o país agrícola de Salazar deu lugar a uma "coisa", que ainda não está bem definida, apesar do passar dos anos...
Outra das consequências deste abandono tem sido o aumento dos incêndios, por razões óbvias.
Sem pretender ser saudosista, este cartaz do Estado Novo, lembra-me que sempre produzimos boa fruta, apesar de não ser tão grada como a importada...

terça-feira, agosto 28, 2007

As Noites Escuras de Salir de Matos


Quando a electricidade chegou a Salir de Matos, não entrou logo em todos os lares...
Penso que por razões económicas, pois as casas mais afastadas do centro da aldeia tinham de pagar mais pelas "puxadas", porque a requisição era paga ao metro (penso que ainda é assim...).
A única coisa que sei é que a casa dos avós foi das primeiras a ter "luz", por estar bem localizada e também por o meu tio Zé ser electricista e ter feito toda a instalação rapidamente.
Aliás, não me lembro da casa da avó sem a luminosidade das lâmpadas (esquecendo as "escuras" ocasionais, em que tínhamos de recorrer aos candeeiros a petróleo e a velas).
Mas como disse anteriormente, havia muitos lares, sem electricidade, em que ainda se combatia o escuro da noite com candeeiros e candeias. Lembro-me de visitar a casa dos pais de uma tia por afinidade, e encontrar sombras e rostos mal iluminados, a tomarem a ceia...
Mas onde se notava mais a falta de electricidade era nas ruas. Pois havia apenas meia dúzia de candeeiros, dispersos, aqui e ali. Nas noites de Lua Nova, tinhamos de andar com cuidado, utilizando por vezes mesmo uma lanterna (também a petróleo).
Recordo que estas caminhadas no escuro em grupo eram um aventura deliciosa para mim e para o meu irmão, sempre prontos a fazer traquinices, especialmente quando estavámos acompanhados de alguém com medo da escuridão. Além de atirarmos objectos e pedras para a frente, também fingíamos ver e ouvir coisas estranhas, aqui e ali...

A imagem que ilustra este texto é da autoria de Eduardo Luiz.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Camas de Feno


As vindimas serão sempre a minha actividade campestre de eleição.
Quando me recordo das muitas aventuras que partilhei com o meu irmão, nas vinhas, nos percursos acidentados e depois no lagar, com a cumplicidade do avô, do pai e dos tios, sinto sempre uma grande nostalgia...
O ambiente da vinha também era bastante alegre e festivo. Havia sempre alguém, capaz de animar toda aquela gente, com alguma coscuvilhice engraçada ou ainda com anedotas e ditos populares, que acabavam por deixar toda a gente a sorrir.
Quantas vezes não ouvíamos a avó ou alguma tia, a dizer para taparmos os ouvidos...
Também íamos conhecendo pessoas novas, algumas com histórias de vida singulares...
Nas muitas conversas que se desenrolaram nas vinhas, nunca esqueci o relato de um homem, que nos contou um episódio, que achei único na época: a primeira vez que descobriu que existiam lençóis foi quando foi para a tropa... Até aí sempre dormira em camas de palha, por sinal bem macias, no palheiro, com a companhia dos animais da casa.
Nunca tinha imaginado até então que pudesse acontecer tal coisa...
Recebi mais uma lição de vida sobre as diferentes vivências de cada um de nós, constatando que as histórias sobre os tais berços de palha e de oiro, não era apenas uma lenda...


Escolhi um Picasso especial para ilustrar este texto, "Camponeses Dormindo"...

sexta-feira, agosto 17, 2007

O Velho Conto do Vigário

As pessoas do campo sempre foram demasiado simples - embora hoje se tenha perdido muita dessa simplicidade, por se ter quase abandonado o trabalho dos campos e pelo ambiente de globalização que se vive, primeiro com a televisão e depois com as novas tecnologias..., - e até ingénuas. É por isso que ainda existem alguns indivíduos de meia idade a caírem em alguns "contos do vigário", principalmente em feiras e romarias...
Pensava que já não se usava a técnica da carteira recheada de notas, prontamente substituída por uma cheia de pedaços de jornal... mas ainda se usa, e o mais grave, é que ainda há quem caia...
Foi o que aconteceu ao Tio Alfredo, há um ano e poucos dias, durante a Feira de 15 de Agosto das Caldas. Estou a falar de um daqueles aldeões que ainda gosta de "carregar" a carteira em dias de festa...
Estava numa barraca de comes e bebes a beber uma cerveja com uns amigos - parece que até à velha guarda já perdeu o hábito de beber vinho, cheio... -, que fez questão de pagar, exibindo o mostruário de notas de vinte e de cinquenta euros a quem quisesse olhar.
Os "contistas" deviam estar à espera de alguém, com os atributos do Tio Alfredo para lançarem a carteira para o chão, para ver o que dava...
E deu. O aldeão fiou-se no marmanjo que, desta vez nem sequer falou em dividir o dinheiro, mas sim em o entregar ao dono - vejam lá que a carteira até tinha cartões, a verdadeira claro -, e foi à procura de um local para anunciar que se tinha encontrado uma carteira. Como fiel depositário da carteira, o Tio Alfredo foi na cantada do vigarista e deu-lhe 150 euros, dos quase duzentos que tinha na carteira, não fosse fugir com os mais de quinhentos que enchiam a dita cuja. É que o outro sujeito, rematou-lhe, que nestes tempos não se pode confiar em ninguém. E estava bem certo...
Passaram-se dez minutos, um quarto de hora e o homem começou a achar grande a demora. Por curiosidade resolveu abrir de novo a carteira que lhe tinha sido confiada e que o "artista" tinha colocado num pequeno saco de plástico, para não dar muito nas vistas. Tal não foi o seu espanto quando descobriu o tradicional um molho de pedaços de jornal, dentro da carteira...
O mais curioso é que o Tio Alfredo era uma daquelas pessoas que estava farta de ouvir falar do "conto do vigário" e dizia sempre que nessa não caía...

Embora possa parecer ficção, isto aconteceu mesmo, em 2006. Claro que o sujeito em causa não se chama Alfredo, nem é meu tio, mas mora na freguesia de Salir de Matos. Escolhi "Os Jogadores" de Paul Cézanne, para ilustrar este texto, porque a vida é sempre um jogo...

terça-feira, agosto 14, 2007

A Beleza da Lua e das Estrelas

Acho que só valorizamos as estrelas e o luar, quando nos encontramos sem qualquer sinal de electricidade por perto.
Há meia dúzia de anos vivi uma experiência inesquecível, quando fui convidado para conhecer a casa de campo que um casal amigo tinha adquirido há poucos meses, no Alto Alentejo.
A única coisa que nos pediram para levar foi sacos cama e uma lanterna.
O local era especial, ficava num vale bastante verde, a poucos metros de um pequeno rio, com água gelada e cristalina, completamente afastado da civilização.
O sinal mais notório da ausência do nosso mundo era a falta de luz eléctrica...
Apesar de termos de andar com atenção redobrada, pela falta de hábito, o céu estava estrelado e a lua começava a "encher". Ou seja, a noite nem era demasiado escura...
O melhor de tudo foi todo aquele o silêncio. Além das nossas vozes, apenas se ouvia a água do rio, as aves nocturnas e um ou outro pequeno animal que passava por perto, quando pisava qualquer ramo seco...
O interior da casa, quase vazia, estava iluminada por meia dúzia de velas, colocadas em lugares estratégicos, dando um ar de novidade e até alguma beleza àquela casa antiga, bastantes rústica.
Como era natural, este lugar fez-me lembrar a infância...
Prometo voltar ao tema, mas já em Salir de Matos.

Escolhi um óleo de Mário Dionísio, "Reunião Clandestina", pela cor, pela noite e não pela clandestinidade...


sábado, agosto 11, 2007

As Corridas Diárias Entre as Caldas e a Foz

Nos anos setenta e oitenta a bicicleta era o transporte principal do meu grupo de amigos, que preenchiam as férias grandes com muita praia e muito desporto.
Esta onda desportiva tinha início no percurso feito de bicicleta entre as Caldas e a Foz do Arelho, realizado quase sempre num ritmo bastante competitivo, com a motivação da Volta a Portugal e também com as marcas na estrada de alcatrão, da estafeta pedestre organizada na Primavera pelos "Os Tufufos". De dois em dois quilómetros lá estava eu em ensaiar uma fuga e a ganhar mais uma "meta-volante".
A vingança estava destinada sempre para o fim, quando na entrada da vila os meus companheiros mais velhos (Vitor, Fernando, José Luís e Eduardo) começavam a pedalar e a desaparecer. Só os voltava a encontrar junto ao mar, onde deixávamos as bicicletas presas...
Chegámos a fazer estes dez quilómetros em pouco mais que dez minutos... e nem tão pouco ligávamos ao facto da estrada ser perigosa (na adolescência somos assim)...
Já na praia, além dos festivais diários de mergulhos na aberta (com uma prancha improvisada - saca de tecido cheia de areia), ainda íamos a trote até ao cais, onde mergulhávamos e regressávamos a nado até à aberta, aproveitando a boleia da maré vazante...
Também havia o futebol de praia, as raquetadas e as brincadeiras nas ondas, quase sempre selvagens do verdadeiro Mar, que desafiávamos, também com alguma inconsciência, apesar de sermos quase todos exímios nadadores...
O mais engraçado é que este quase ritual acompanhou várias gerações, que mostravam um grande orgulho em pertencerem aos "ibéricos"...
Eram tempos felizes e descontraídos...

Esta prosa está ilustrada com o óleo "Bicycle Race", de Lyonel Feininger.

domingo, agosto 05, 2007

Olhar o Mar


Gosto de estar junto ao mar, mesmo que a sua cor e o seu som tão característico se tornem quase banais, pela habituação...

Não sei se a Rosa pensou que eu estava a brincar, quando lhe falei da existência de uma "Rosa dos Ventos" na Foz do Arelho.

Claro que é apenas mais um, dos muitos bares que enchem a quase avenida da praia, mas quando o descobri, lembrei-me de imediato do perfume da Rosa...

quinta-feira, agosto 02, 2007

As Minhas Escolhas Literárias...


A Ida lançou-me o desafio de falar sobre os livros que li e que mais me marcaram.
Pensava não serem assim tantos, mas depois comecei a pensar e apareceram títulos e autores para todos os gostos, que me obrigaram a fazer uma quase selecção. Escolhi dez, não por serem os melhores, mas sim por serem os mais marcantes, em épocas diferentes da minha vida, que passo a referir:
Engrenagem, Soeiro Pereira Gomes – A descoberta do mundo do trabalho e do falso milagre que são fábricas, no começo da adolescência;
Sinais de Fogo, Jorge de Sena – Uma história de um outro país, que em encantou no fim da adolescência;
Malhadinhas, Aquilino Ribeiro – Marcou o meu regresso à leitura e o conhecimento deste grande escritor;
O que Diz Molero, Dinis Machado – Um retrato delicioso de uma outra Lisboa, quase de banda desenhada;
Bichos, Miguel Torga – Uma fabulação encantadora com tanta bicharada;
O Delfim, José Cardoso Pires – Um outro encontro com o tal país que pensamos distante, mas que deixou para aí alguns fantasmas;
Por Quem os Sinos Dobram, Ernest Hemingway – Um retrato prodigioso da luta pela democracia durante a Guerra Civil de Espanha;
Bairro da Lata, Jonhn Steinbeck – Fascinante. É talvez, o único grande livro que li, que não inventa qualquer história de amor;
O Velho que Lia Romances de Amor, Luís Sepúlveda – Tão simples e tão bonita esta história de amor pelos livros;
Capitães da Areia, Jorge Amado – Um retrato genial de um Brasil cheio de filhos da rua;
E como “extras” deixo ainda a poesia, toda, de Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Pessoa, Zé Gomes Ferreira e Manuel Alegre.
Escolhi propositadamente esta escultura de Francisco Simões, uma musa com um livro nas mãos (bem podias ser tu Ida...), a única do concelho deste extraordinário artista, excluido das escolhas de Arte Pública do Município de Almada...

quarta-feira, agosto 01, 2007

Castelos de Areia & etcétera

Ao descobrir uma família numerosa, que ocupava uma área considerável da praia, com vários chapéus e tapa ventos, lembrei-me de algumas idas à praia em família, à qual nem faltavam os avós...
Fiquei cheio de imagens avulsas, que prometi colar aqui nas "Viagens", quando regressasse...
Era um dia de praia em cheio, de manhã até ao fim da tarde...

Além dos banhos nas águas paradas do rio e lagoa, haviam ainda os jogos de futebol e as construções na areia... lembro-me de gostar de entrar dentro dos castelos de areia, gigantescos e bonitos, construídos com a ajuda dos tios, embora representasse um perigo, porque estava numa idade mais virada para a destruição que para a construção... muitas vezes almoçávamos no pinhal, à sombra, sentados em cima de mantas... lembrei-me também do sabor e do perfume do arroz de tomate e dos panados...

domingo, julho 15, 2007

Há Muito


Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa


Estas palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen, são muito apropriadas para este espaço, pelas saudades que tenho do areal e das grandes vagas da Foz do Arelho, tal como o óleo de Manuel Amado.

sábado, julho 14, 2007

Os Oleiros das Caldas

As Caldas foram durante o século XX um dos principais centros de indústria cerâmica portugueses. As suas fábricas albergaram a produção de uma grande variedade de loiça, quase sempre com um cunho artístico, graças à influência de vários artistas locais.
Infelizmente a "crise" nacional e a "chinesice" que tem invadido a Europa, conseguiram fechar as portas a casas emblemáticas como a Secla e colocar no desemprego, centenas de operários.

Em homenagem a todos os homens que desenvolveram e desenvolvem esta arte na minha cidade natal, ofereço-vos "Os Oleiros" de José Malhoa.

terça-feira, julho 10, 2007

A Primeira Equipa de Iniciados do Caldas

Desde muito cedo que soube que o futebol não seria o meu futuro. Mesmo assim jogava, sempre que me era possível os meus amigos de infância, porque adorava (e adoro...) este jogo. Ainda cheguei a fazer parte de algumas boas equipas de bairro, embora normalmente fosse o "tapa buracos" da equipa nos torneios de futebol em que entrávamos e costumávamos ganhar.
Quando alguns dos meus amigos revolveram ir tentar a sua sorte no Caldas - o clube mais emblemático da cidade -, que ia ter pela primeira vez iniciados (época 1977/78), resolvi aproveitar a boleia.
Não fui escolhido no primeiro treino de captação, pelo Américo, antigo jogador dos seniores e treinador dos juvenis. E já nem sequer pensava voltar ao campo da Mata, para voltar a tentar a minha sorte... mas o meu amigo Xico Mendes insistiu e lá fui (curiosamente ele é que acabou por desistir da ideia - e era um belíssimo guarda-redes -, assim como o Paulo Gaspar, outro grande amigo e colega de escola, que apenas voltou no ano seguinte. Também era bastante bom, ao ponto de ter chegado a jogar nos seniores do Caldas).
Nesse dia uma das pessoas que estava a escolher a miudagem era o treinador dos seniores, Mourinho Félix (pai de José Mourinho) que gostou do facto de eu não virar a cara à luta e chamou-me para o canto dos "eleitos". Como devem calcular, fiquei extremamente satisfeito por ser escolhido.

Apesar de não ser um predestinado, acabei por fazer toda a época como titular, a defesa central, fazendo dupla com o jogador mais talentoso e valioso da equipa, o Chagas, que chegou a internacional juvenil, com as cores do Sporting, onde fez dupla com o Venâncio. O Chagas acabou por ficar pelo caminho. Mas só não foi mais longe devido à sua baixa estatura (tinha pouco mais de um metro e sessenta, muito pouco para um central...) e não por falta de qualidade futebolística...

Desse tempo sobrou uma fotografia, em que curiosamente falta, aquele que se tornaria, duas décadas depois, na figura mais mediática daquela equipa simples, o José Mourinho, que nesse fim de semana não jogou...
Normalmente o nosso onze era composto pelos seguintes jogadores: Ginja; Ilídio, Chagas, Milheiro e Orlando; Chico, Fragoso, Zé Mourinho e Rui Pedro; Ramos e Paulo Jorge. O Vitor costumava entrar quase sempre, era avançado e a nossa arma secreta.
Vamos lá então às apresentações segundo a fotografia. Em baixo da esquerda para a direita estão: Vitor, Parrila, Rui Pedro, Chagas, Chico e Eu.
Em cima, pela mesma ordem: Santana (treinador) Paulo Jorge, Ilidio, Ramos, Fragoso, Manuel, Ginja, Orlando e Castanheira (Dirigente).
Não sei o que é feito da maior parte destes companheiros de infância. Como disse anteriormente, tirando o Chagas, ninguém foi muito longe como futebolísta. O José Mourinho tornou-se famoso como treinador, ao ponto de ser considerado um dos melhores do mundo. Outro elemento que também saiu da mediania, mas noutra actividade, foi o José Fragoso, que hoje é o director da TSF.

quinta-feira, julho 05, 2007

Os Banhos de Rio

Agora que o calor começou a apertar, recordei-me de outra das nossas aventuras da meninice em Salir de Matos, os banhos no rio que passava na aldeia.
O lugar escolhido para o banho era praticamente debaixo da ponte, quase na fronteira entre Salir de Matos e Casais da Ponte, onde se formava um pequena represa, sempre com água, mesmo no pico do Verão. Os mais pequenotes como eu, até perdiam o pé, no meio daquela quase piscina natural.
Escusado será dizer que era proibido tomar banho de calções de banho. E quem não tirasse os calções era maricas...

O óleo que ilustra este texto é de Carl Larsson...

terça-feira, julho 03, 2007

Um Exemplo de Honestidade

O meu avô materno, além de excelente contador de histórias, foi uma das pessoas mais honestas que conheci.
Era incapaz de tocar em algo que não lhe pertencesse ou de enganar alguém.
Quando era feitor numa das muitas quintas que rodeavam as Caldas da Rainha, extremamente rica em árvores de fruta, era de tal forma zeloso, que não era capaz de apanhar uma peça de fruta caída no chão.
Habituei-me a escutar nas conversas de família, inúmeros exemplos desta postura, mas a que acho mais deliciosa, passou-se quando a minha mãe, ainda criança, percorria com a avó a zona das árvores de fruta e iam apanhando algumas peças caídas no chão. O avô assim que as viu, chamou-lhes gulosas e com um gesto de reprovação, perguntou-lhes se não sabiam que aquilo não lhes pertencia. Escusado será dizer que elas não lhe ligaram. Foi com esta postura que o avô nunca enriqueceu demasiado. Foi comprando algumas courelas, aqui e ali, com grandes sacrifícios e fruto do seu trabalho e da família numerosa.
Nesta altura não existiam empréstimos bancários e os contratos eram selados apenas com a palavra e com dinheiro vivo.
Gostava de o ter visto, garboso, a cavalo, percorrendo a quinta e os caminhos entre Caldas da Rainha e Salir de Matos...

Escolhi esta aguarela de Renato Guttuso, "Campieri", para homenagear o meu avô, Manuel Joaquim Saloio...

sexta-feira, junho 29, 2007

A Poesia do Mar da Foz


O Verão está aí e a Isabel (Caderno de Campo) fez-me folhear de novo a "Senhora das Tempestades", um excelente livro de poesia e de amor de Manuel Alegre, ao Mar e à Foz do Arelho...

Foz do Arelho
ou
Primeiro Poema do Pescador

Este é apenas um pequeno lugar do mundo
um pequeno lugar onde à noite cintilam luzes
são os barcos que deitam as redes junto à costa
ou talvez os pescadores de robalos com suas lanternas
suas pontas de cigarro e suas amostras fluorescentes
talvez o Farol de Peniche com seu código de sinais
ou a estrela cadente que deixa um rasto
e nada mais.

Um pequeno lugar onde Camilo Pessanha voltava sempre
talvez pelo sol e as espadas frias
talvez pela orquestra e os vendavais
ou apenas os restos sobre a praia
«pedrinhas conchas pedacinhos d'osso»
e nada mais

Um pequeno lugar onde se pode ouvir a música
o vento o mar as conjugações astrais
um pequeno lugar do mundo onde à noite se sabe
que tudo é como as luzes que cintilam
um breve instante
e nada mais.



Manuel Alegre, Foz do Arelho, 8.8.96

terça-feira, junho 26, 2007

Os Santos Populares do Meu Bairro


Nas Caldas da Rainha os Santos Populares eram festejados em quase todos os bairros, com a realização de bailes, organizados por colectividades e comissões de festas.
Eram a grande distracção da época e também a possibilidade de aproximação de alguns rapazolas das gerações anteriores à minha, de algumas donzelas bonitas e difíceis, que não conseguiam escapar ao aperto das músicas lentas, apesar dos olhares cortantes das mães...
Na meninice assistia aos bailes do meu bairro e já pré-adolescente, também dava um salto com o meu irmão e amigos ao Bairro da Ponte.
Lembro que nem todos os anos se realizavam estes festejos no meu bairro, talvez por não existir nenhum clube recreativo com a dimensão dos "Pimpões", colectividade do Bairro da Ponte, nosso rival das futeboladas e de tudo o que pudesse gerar competição.
O que nunca se deixou de realizar na minha rua foi a fogueira do São João, onde se saltava, desafiando as labaredas altas perfumadas com o rosmaninho que apanhávamos nos pinhais que circundavam todo o Bairro dos Arneiros e que com o passar dos anos, acabaram quase todos engolidos pela especulação imobiliária.
A fogueira era mantida acesa até ao raiar do dia...
Nas Caldas também se realizava a Feira de São João. Embora fosse mais pequena e durasse menos dias, tinha quase tudo da Feira de 15 de Agosto, desde o circo, às diversões habituais do carrocel aos carrinhos de choque. E claro, as barracas de comércio, de comes e bebes e das famosas farturas, que ainda resistem ao tempo e marcam presença em todas as festas...

"As Padeiras" de José Malhoa dão cor a este texto...

sexta-feira, junho 22, 2007

O Rato e o Leão...


Nós somos tão diferentes uns dos outros...

Nos nossos dias é tão fácil encontrar pessoas que pensam que não precisam dos outros. Quanto mais poderosas se sentem, mais desprezam os outros...
Claro que isso deve-se ao próprio rumo da nossa sociedade, que vagueia ao sabor de um capitalismo quase sem regras, que nos vai empurrando para as ruelas estreitas do individualismo e egoísmo.

Podia falar de uma frase-mensagem que Álvaro Cunhal sugeriu para o final de um dos romances de Manuel da Fonseca, em que nos é transmitido que: «Um homem sozinho não vale nada!»
E não vale mesmo, por muito que se iluda.

Prefiro antes recordar uma das fábulas que o meu avô nos contou na infância, a de "O Rato e o Leão", que vai ainda mais longe e nos mostra que o ser mais importante e forte, quando menos espera, precisa de ajuda, até do ser mais insignificante que gira à sua volta...
Ainda nos consigo ver, sentados nas escadas da cozinha, em silêncio, deliciados com a arte de contador de histórias do nosso avô...
Já não me lembro de todo o enredo, sei apenas que o Leão, apesar de ser o rei dos animais, ficou preso numa armadilha feita de rede. Por lá ficaria se não aparecesse um pobre e pequeno rato, que vendo o Leão prisioneiro, foi em seu auxilio. Tanto roeu as malhas da rede que conseguiu destruir uma das malhas da rede e libertar o Leão...

Esta história pode parecer pouco actual, mas não é. Continuam a existir muitos "leões" nesta selva, que só conseguem ser libertados com a ajuda de simples "ratos" ...

A Aguarela que dá cor a este texto é da autoria de Georges Rotig.

quinta-feira, junho 14, 2007

As Coisas que nos Rodeiam

Quando estava a ajudar o meu filho nos trabalhos escolares do Estudo do Meio, lembrei-me das minhas férias campestres em Salir de Matos.
Nessa época não existia qualquer tipo de educação ambiental.
Havia sim muito cuidado, especialmente pelas coisas que se semeavam. As searas eram algo quase sagrado. Não admira, era dali que vinha o pão para toda aquela gente...
O resto era de todos e não existiam cuidados especiais na sua preservação. Acho que havia a ideia de que a natureza se auto-regulava, com a nossa ajuda e de outros animais bravios.
Por exemplo os pássaros estavam longe de ser uma espécie protegida. Eram para caçar à fisga, com armadilhas ou ainda para lhes descobrir os ninhos e destrui-los. Os peixes a mesma coisa, eram para pescar à cana ou com camaroeiros improvisados nas ribeiras. As plantas selvagens não eram olhadas com o respeito com que se olhavam as semeadas, como se estas precisassem de cuidados especiais (e precisavam de facto...) para crescerem e se tornarem comestíveis.
Claro que havia um olhar de admiração e de respeito por tudo aquilo que significasse vida... mas acho que se alimentava a ideia de que as coisas selvagens, além de serem de todos eram inesgotáveis, como se tivessem qualquer protecção divina.
Felizmente passados alguns anos mudámos de ideias e de atitude, ao percebemos que havia várias espécies de animais e plantas em risco de desaparecerem, para todo o sempre...

Apesar de todas estas considerações, continuo a pensar que as pessoas do campo têm um apego e uma sensibilidade mais apurada em relação a tudo que nos rodeia. Conhecem muito melhor as leis da natureza e sabem o quanto é importante preservarmos o Mundo onde vivemos...

terça-feira, junho 05, 2007

"O Noivo das Caldas"


Em 1956 Arthur Duarte realizou o filme "O Noivo das Caldas".
Como devem calcular estas Caldas são as minhas (aliás, as nossas...) e da Rainha...
Curiosamente, penso que nunca vi o filme.
Pelas criticas que tive oportunidade de ler - quase todas pouco favoráveis -, trata-se de um filme demasiado teatral e vulgar, com a maior parte das cenas a serem filmadas em interiores. Não deve ter sido indiferente o facto de o argumento ter sido extraído de uma peça de João Bastos.
António Silva e Josefina Silva centralizam todas as atenções da comédia, acompanhados de Fernando Curado Ribeiro, Ana Paula, Maria Olguim, Erico Braga, Costinha, Carmem Mendes, entre outros.
O filme foi estreado no São Luiz a 25 de Setembro de 1956...

domingo, junho 03, 2007

Um Anjo de Farda


Antes de entrar para a escola primária frequentei uma espécie de "jardim-escola", conhecido nas Caldas da Rainha pela Escola da "Velha da Estação", graças à sua situação geográfica, já que ficava na esquina norte, junto ao largo da Estação de Caminhos de Ferro.
Fazia a viagem entre o Bairro dos Arneiros e este estabelecimento escolar, na companhia do meu irmão, dois anos mais velho, e meu grande protector pelos anos fora. A grande recomendação da mãe em termos de segurança, era a passagem de nível, embora a senhora que abria as cancelas, nossa conhecida, não nos deixasse atravessar quando se aproximava algum comboio.
Depois de descermos a rampa da estação, encontrávamos sempre vários militares, que aguardavam a passagem da carrinha que os levava para o Regimento de Infantaria 5. Neste grupo havia um homem especial, que sempre que nos via, se metia connosco e dava-me um escudo (talvez por ser o mais pequeno...). Escudo esse que gastávamos religiosamente na Cantina da Estação, na compra de um número das pequenas colecções de aventuras em banda desenhada, com os títulos "Ciclone" e "Condor Popular".

Lembro-me muitas vezes da generosidade deste senhor, que nunca soube o nome nem qualquer outro dado pessoal. Estávamos no final da década de sessenta...


terça-feira, maio 29, 2007

Férias Inesquecíveis



Estive a mexer em papeis e descobri um recorte delicioso do “Diário de Notícias”, publicado a 9 Agosto de 1997, de uma daquelas rubricas normais de Verão, intitulada “Férias Inesquecíveis”.
O texto é da autoria de Maria Barroso e oferece-nos várias referências ao Oeste, mais concretamente à Foz do Arelho e às Caldas da Rainha.
Com a devida vénia, passo a transcrever:
[...] «Guardo estas férias longínquas num recanto da memória onde a emoção e a saudade se misturam às imagens queridas dos meus pais e avó derramando afecto os sete diabretes que nós éramos.
Mas as férias na Foz do Arelho, mais próximas ainda que distantes, são inesquecíveis.
Naquele extenso areal, que acompanhava o mar irrequieto e muitas vezes ameaçador, se imprimiram os primeiros passos dos meus filhos, se ouviram as suas vozes conquistando segurança em cada nova palavra descoberta.
Tínhamos duas barracas – uma na lagoa, a que o mar vinha muitas vezes juntar-se, confundindo as águas, e outra perto do mar.
Na da lagoa brincavam e ensaiavam os mais pequenos – filhos e alunos do Colégio – os primeiros exercícios de natação.
A do mar era o lugar de conversa e da conspiração com os amigos – o Humberto Lopes e os Freitas, os Janas e outros que apareciam, como os Jacobettys e os Ramos da Costa. [...]
Foram momentos inesquecíveis de convívio com gente de eleição, tanto do ponto de vista intelectual como humano.
Jaime Cortesão, que reverenciávamos como admirável historiador, como figura cívica exemplar, era para nós uma referência a inspirar os nossos gestos e acções.[...]
Murilo Mendes, o grande porta brasileiro, ainda o vejo de boina, abrigando-se sob um longo chapéu-de-sol, quando descíamos do carro e nos passeávamos por entre as bancadas coloridas das frutas no mercado das Caldas. Os pêssegos de Alcobaça, as pêras carapinheiras, as maças riscadinhas amontoavam-se apetitosas ao lado dos cestos transbordantes de batatas, de ovos e de hortaliças, onde às vezes as lagartas apareciam a testar o natural das culturas, ainda ignorantes dos pesticidas. Ele deliciava-se com as cores, com o movimento, o barulho das vozes regateando os preços, seguindo os meus passos habituais a percorrer os caminhos que era preciso abrir entre os montes de pessoas que mercadejavam.[...]
Ainda hoje, na nossa lembrança enternecida, se recortam os perfis, tão diversos mas tão interessantes e nítidos, dos amigos que connosco partilharam algumas das mais deliciosas férias na Foz do Arelho.»
O Mar bravio da Foz é mesmo assim, um guardião de tantas histórias, tantos sonhos, tantas conspirações, tantas personagens... a foto da família Soares, também fazia parte integrante da página do "DN".

sexta-feira, maio 25, 2007

O Roubo de Crianças



Ao passar pela acolhedora casa de palavras da Ana, Andando e Pensando, fiquei a saber que hoje se comemorava o Dia Internacional das Crianças Desaparecidas.
Desde criança que ouvi falar de histórias de crianças desaparecidas e escutei os avisos habituais dos nossos pais, para ter cuidado com estranhos e nunca aceitar nada deles. Nesses relatos dizia-se que normalmente escolhiam meninos e meninas bonitas e levavam-nos para longe, para outros países. Felizmente nunca assisti a nenhuma drama destes, próximo.
Com o passar dos anos e a aproximação dos países, este problema agudizou-se.
Hoje existem dezenas de crianças desaparecidas no nosso país. Algumas foram raptadas há mais de uma dezena de anos, embora a esperança dos familiares, de os voltarem a ver, um dia, se mantenha bem viva.
É por tudo isto que compreendo perfeitamente a revolta que os pais portugueses sentem com todo este folclore noticioso que rodeia o desaparecimento da menina inglesa. Na maior parte dos casos, as autoridades nunca deram a atenção devida aos desaparecimentos, pelo menos na fase inicial. Preferiram pensar que se podia tratar de uma brincadeira e ficaram à espera horas e dias, que se revelaram, quase sempre, fatais.
Por muito que nos esforcemos, não conseguimos sentir a verdadeira dimensão da dor destes pais. É para todos eles que deixo uma palavra de esperança e que nunca desistam de lutar por um possivel reencontro.
Este título pode parecer duro, mas é mesmo disto que se trata, do roubo de crianças!

A imagem que escolhi para este texto faz parte do livro "Estas Crianças Aqui", com palavras de Maria Rosa Colaço e fotografias de Eduardo Gageiro.

quinta-feira, maio 24, 2007

Porque Não?


Depois de meter outros desafios na gaveta e "partir" correntes, a torto e a direito, resolvi aceitar o convite da Menina Marota e dedicar a todos os visitantes das "Viagens" um meme, que gosto muito. Acredito que vocês também vão gostar...

«Os Poetas são como os faróis, dão chicotadas de luz à escuridão.»

Miguel Torga, poeta e escritor português

A fotografia que ilustra o texto é da autoria do almadense Júlio Diniz e mostra-nos o Farol "retirado" de Cacilhas nos anos setenta.

sexta-feira, maio 18, 2007

O Meu Museu Favorito...



Aparentemente pode parecer difícil escolher um, entre milhares de museus memoráveis, que nos tentam explicar e mostrar a história do mundo através dos tempos.
No entanto não tenho qualquer dificuldade em escolher o meu museu favorito.
Quem me conhece bem, sabe que só me posso estar a referir ao Museu José Malhoa, instalado no belo Parque D. Carlos I, que tem o dom de transformar a minha cidade num lugar mais calmo, fresco e colorido.
Claro que esta escolha deve-se apenas a razões afectivas... o meu Malhoa não pode, nem quer, concorrer com o Louvre ou o Prado... ou mesmo com o Museu de Arte Contemporânea da Gulbenkian...

Se não conhecem este Museu, assim que tiverem uma oportunidade de dar um salto às Caldas da Rainha, visitem-no. E já agora, passem também pelo Centro de Artes e pelo Museu da Cerâmica, que ficam nas proximidades e também oferecem muita coisa bonita para se olhar...

terça-feira, maio 15, 2007

O Quinze de Maio nas Caldas


Gosto que a minha primeira cidade tenha um dia, só dela, sem precisar de o partilhar com outras terras.
Neste feriado municipal realizam-se sempre uma série de eventos, com destaque para os espectáculos musicais, as inaugurações habituais e também a entrega das medalhas de mérito da cidade.
Este ano, um dos contemplados com uma das medalhas de prata, foi o padre Felicidade Alves. Recebi a notícia via telefone, pela Elisete, bastante satisfeita pela distinção. Convidava-nos para estarmos presentes... só que, por estas bandas, não é feriado e não pude estar presente.
O primeiro pensamento que tive, depois de desligar o telefone, foi que a prata era demasiado redutora, para quem recebera em vida a Ordem da Liberdade do Estado Português e a Medalha de Ouro da Cidade de Oeiras. Mas depois lembrei-me que o Zé nunca teve uma ligação muito forte às Caldas da Rainha. Embora nunca deixasse de visitar o Vale da Quinta, na Freguesia de Salir de Matos, onde viviam os pais, escolheu a cidade, quase sempre como ponto de passagem.
Pode ser essa a razão de não lhe terem atribuída a medalha de ouro da cidade...
A meio da tarde, sem saber muito bem porquê, lembrei-me também, que foi durante este feriado que participei na minha primeira exposição de artes plásticas, e logo no bonito Casino do Parque...
Claro que foi uma exposição meio a brincar, já que tinha apenas oito, nove anos e fiz um desenho do largo do Borlão, com a estátua do marechal Carmona, que foi escolhido para a mostra de arte dos "pequenos talentos" das escolas primárias do Concelho.
Mas nunca esqueci esta pequena honra...

quarta-feira, maio 09, 2007

Verão em Maio


Este Maio está irresistível.
O calor aperta, ao ponto de nos apetecer dar uma saltada à praia e mergulhar nas águas do Oceano.
Nunca vivi demasiado longe do mar, antes estava a dez quilómetros da Foz do Arelho, agora estou a uns treze, catorze, da Costa de Caparica.
Não sei explicar muito bem porquê, mas nunca considerei a Costa de Caparica a minha praia.
Invento que a areia é demasiado fina e o mar demasiado doce...
Mas não é só isso... sinto sempre a falta da bravura do mar da Foz do Arelho, dos mergulhos por cima das ondas, das mil e uma brincadeiras, partilhadas com os amigos da infância, adolescência e principio da vida de adulto.

domingo, maio 06, 2007

Minha Mãe



Ó minha mãe minha mãe
Ó minha mãe minha amada
Quem tem uma mãe tem tudo
Quem não tem mãe não tem nada

Quem não tem mãe não tem nada
Quem a perde é pobrezinho
Ó minha mãe minha mãe
Onde estás que estou sozinho

Estou sozinho no mar largo
Sem medo à noite cerrada
Ó minha mãe minha mãe
Ó minha mãe minha amada

Dedico este poema de Zeca Afonso à minha Mãe e a todas as Mães do Mundo. A bonita fotografia das Mães da Nazaré é de Jean Dieuzaide.

terça-feira, maio 01, 2007

A Descoberta de Abril Continuou em Maio


Mil novecentos e oitenta e um foi um ano quase mágico para mim... as coisas que descobri nesta cidade enorme e intensa, que abraça o Tejo e é a Capital deste nosso pequeno país.
Imbuído no espírito revolucionário, ou apenas curioso com todos aqueles festejos à LIberdade, dei "corda" aos meus dezoito anos e fui a todas...
Participei no espectáculo musical que teve lugar no Rossio, na noite de 24 para 25 de Abril; desfilei desde a Avenida da Liberdade até à Praça do Rossio, na tarde de 25 de Abril, lado a lado com verdadeiros democratas - que acordaram muito antes do dia vinte cinco - com um cravo na mão; e no dia Primeiro de Maio, também estive presente no espectáculo musical que se realizou no Parque Eduardo VII...
Como se comemorava apenas o sexto aniversário da Revolução senti no rosto das pessoas, que ainda estava tudo muito vivo, que ainda acreditavam, gritavam e cantavam, em coros, mesmo desafinados por um Portugal mais livre e democrático...
Nunca mais "fui a todas" como nesse ano de descobertas...
Ainda hoje não sei explicar o porquê de sentir estes acontecimentos de uma forma tão especial: se foi dos meus dezoito anos; se foi de me encontrar pela primeira vez numa grande cidade (nas Caldas, terra conservadora até ao âmago, acho que as pessoas tinham vergonha de dar vivas ao 25 de Abril e ao 1º de Maio...); se foi descobrir tantas pessoas bonitas que "nasceram" livres, muito antes de 25 de Abril...
É impossível esquecer, nesta jornada de amizade, o Zé e a Elisete, verdadeiros paladinos da Liberdade, que reforçaram os ensinamentos dos meus pais, na construção do tal mundo mais justo e solidário, constantemente adiado...

sexta-feira, abril 27, 2007

A "Sorte" da Sogra de um Vizinho "Novo Comunista"...


Uma das coisas que me fez mais confusão nos meses seguintes à Revolução foi o "milagre da multiplicação de comunistas", que se deu um pouco por todo o lado, quase todos à procura de uma oportunidade, para poderem chegar a algum lado...
Infelizmente, o que sobrou em esperteza, a estes novos "donos" da foice e martelo, faltou em idealismo e solidariedade.
Muitos dos verdadeiros comunistas foram passados para trás, alguns com dezenas de anos de luta clandestina, pagos com a passagem pelos cárceres da PIDE. Estes "salta-pocinhas", com o seu sentido apurado de oportunidade, conseguiram abanar a credibilidade do Partido.
Muitos saltaram da "carruagem" comunista, logo que se deu o 25 de Novembro, outros foram ficando, até perceberem que as únicas "escadarias" que os levavam ao poder, tinham o emblema do PSD e no PS.
O "camarada" que mais me espantou nestes clubes de "Novos Comunistas", foi um sujeito que morava na minha rua, que uma vez ouvi alegar, que uma das razões para a qual tinha entrado para o Partido, fora a esperança de se ver livre da sogra. Não sei como e quem o tinha "catequizado", mas ele estava mesmo esperançado que dessem uma injecção atrás da orelha à sogra...
Esta história pode parecer brincadeira, mas é verídica.
E não foi caso único. Os ignorantes sempre foram assim, muito atrevidos...
Nos nossos dias, se há coisa que me irrita no "mundo da política", é a tese dos fulanos, que se foram encostando à direita, e têm a lata de dizer, em sua defesa, que só os burros é que não mudam...

quarta-feira, abril 25, 2007

A Minha Pequena Revolução


Apesar de ter apenas onze anos, recordo-me bem do dia 25 de Abril de 1974, «inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio», como tão bem retratou, a nossa Sophia de Melo Breyner Andresen.
Como vivia nas Caldas da Rainha, uma cidade de província notoriamente conservadora, não se sentiram grandes ecos revolucionários, pelo menos até ao fim da tarde.
Penso mesmo que a cidade viveu este dia de uma forma apreensiva, até porque um mês e alguns dias antes, os militares do RI 5 tinham saído do Quartel em direcção a Lisboa, para participar numa outra Revolução, que tinha entretanto sido adiada.
Felizmente, quarenta dias depois, a Revolução saiu mesmo à rua.
Militares vindos de várias regiões do país invadiram a Capital e ocuparam os lugares estratégicos da cidade. As dúvidas iniciais dos “Capitães de Abril” transformaram-se em certezas, graças ao apoio popular de milhares de pessoas, que surgiram de todos os lados, de uma forma completamente expontânea, para dar vivas à Revolução e à Liberdade.
Enquanto a multidão invadia a baixa e deixava o Largo do Chiado em estado de sitio, eu brincava no quintal da minha casa, satisfeito pelo “feriado” escolar inesperado. Assistia serenamente à troca de informações entre a mãe e uma vizinha, que não tiravam os ouvidos do rádio, que dava conta dos últimos desenvolvimentos (nessa altura já tínhamos televisão, mas as emissões deviam ter sido interrompidas, pois só me recordo da transmissão das notícias radiofónicas...) da Revolução.
O ponto alto desse dia acabou por ser a rendição de Marcelo Caetano e de todo o governo. Era o sinal mais da vitória dos Militares de Abril.
A minha mãe ficou bastante dividida nesse final de tarde, porque era uma das muitas espectadoras atentas às “Conversas em Família” do Marcelo Caetano, por quem tinha uma grande admiração, considerando-o um bom governante e um homem sério.
O meu pai, de espírito mais libertário, ficou bastante satisfeito com este desfecho. Acreditou firmemente na possibilidade de Portugal se tornar um país mais justo, tal como milhões de portugueses...
Uma das coisas que mais o chocava eram os constantes abusos de autoridade, praticados por quem detinha qualquer poder. Qualquer soldadeco da GNR ou agente de terceira da PSP, procedia como se fosse dono deste, ou de qualquer outro mundo. O pai tratava-os por “pançudos” e realmente, nessa época, eles eram todos bem anafados...
Como devem calcular, mais chocado ficava, quando sabia que alguém tinha sido preso ou interrogado, pelo simples facto de defender um Portugal mais livre e democrático, pela odiosa DGS.
Acabo como comecei, com as palavras de Sophia. Tenho algumas dúvidas que «esta é a madrugada que eu esperava», porque trinta e três anos não foram suficientes para nos termos tornado um país mais justo e igualitário. Claro que «livres habitamos a substância do tempo»... e a Liberdade continua a ser a herança mais preciosa da Revolução de Abril.
A foto que ilustra o texto é de Alfredo Cunha.


segunda-feira, abril 23, 2007

Um Livro à Minha Escolha


Tinha pensado escrever sobre "Por Quem os Sinos Dobram", uma obra inesquecível de Ernest Hemingway, que nos descreve de uma forma única a Guerra Civil de Espanha. Como não encontrei na minha biblioteca a primeira edição, para digitalizar a sua capa, acabei por mudar de ideias e falar sobre o meu livro de estreia, "Bilhete Para a Violência", cuja acção se desenrola no Oeste, apesar de ter como pontos de partida e de chegada, Cacilhas.
É um romance que aborda os mundos do jornalismo e do futebol, focando algumas das suas contradições. O tema central continua bastante actual, a arbitragem do futebol, ou seja a morte de um árbitro, que irá ser investigada por um jornalista desempregado (não se assustem, é apenas ficção)...
O espaço físico centra-se no Oeste, ou seja, nas Caldas da Rainha, em Salir de Matos (Selir...), na Foz do Arelho e em Alcobaça e Óbidos.

terça-feira, abril 17, 2007

O Regresso ao Meu Bairro


Quando somos pequenos as coisas são todas enormes...

Provavelmente, foi por isso que senti as ruas, as casas, mais estreitas e pequenas, quando regressei ao Bairro onde cresci e vivi até ao fim da infância.

Senti tudo tão diferente...

Os baldios das ruas detrás, onde jogávamos à bola, estavam agora ocupados por prédios, com os espaços vazios preenchidos por veiculos de quatro rodas, cada vez mais donos e senhores de todas as artérias urbanas. Estava tudo tão desumanizado. Não se viam pessoas nas ruas, tinham sido substituidas pelos carros que ocupavam os passeios.

Este vazio levou-me a reconstruir, passo a passo, as coisas e as pessoas que tinham desaparecido, desde o sapateiro, o Lugar onde se vendiam legumes e frutas, até às tabernas que já começavam a ficar a meio caminho entre a tasca e o café, com duas divisões, uma com a oferta do visionamento da televisão.
Lembrei-me dos amigos de infância, das suas casas... apeteceu-me espreitar as escadas interiores do prédio onde vivi, espaço de milhentas correrias e trambulhões, com as quais, eu e o meu irmão, punhamos a vizinhança em reboliço...

Procurei em vão, nos rostos com quem me cruzei na rua, gente conhecida. Não descobri traços familiares, foi como se tivesse chegado a outro bairro. Claro que isto acabava por ser compreensível, tinham-se passado mais de trinta anos...

Antes de tirar uma fotografia ao rés de chão onde vivi, e que ainda resistia ao tempo, perguntei aos meus botões: «estamos a transformar-nos em quê?»

terça-feira, abril 10, 2007

Um Outro País


Fugi da civilização por apenas quatro dias, tempo mais que suficiente para sentir que o bom da vida não está nas grandes metrópoles, para onde todos caminhamos, atrás de sonhos que raramente se cumprem...
Apesar do abandono, da solidão e da tristeza a que foram votadas as aldeias do nosso interior e os seus habitantes, quase sempre idosos, a grande maioria mulheres de negro, cuja viuvez é uma matriz cada vez mais forte nesta parte esquecida de Portugal, é sempre possível encontrar um lado positivo nestas coisas.
Como sou sempre o primeiro a levantar-me, depois de tomar um pequeno almoço ligeiro, dou sempre uma volta pelos arredores da aldeia. Sabe-me bem andar no meio dos campos em pousio, especialmente agora, que está tudo florido e bem cheiroso.
Gosto de escutar o que se esconde por detrás do tão falado silêncio campestre, de descobrir a diversidade do canto dos pássaros, assim como as suas tonalidades e até a forma como dão às asas.
Depois de andar uns bons metros, gosto de parar e girar lentamente, olhando para todos os lados, a ver o tempo passar por mim. Tão lentamente, que me dá espaço para quase tudo...
Até consigo reparar que o vento transforma o simples toque nas ramagens das árvores em coros afinados, que podem ser confundidos com orquestras naturais, que dispensam qualquer maestro, por melhor que seja...
Depois regresso a casa. Abro a porta com cuidado, porque eles ainda estão a dormir o sono dos justos...

O óleo que acompanha este texto chama-se "Só na Aldeia" e é da autoria de José Malhoa.