quinta-feira, janeiro 31, 2008

António Duarte e a Arte Caldense


António Duarte é uma das principais referências artísticas das Caldas da Rainha.

Em boa altura o Município Caldense decidiu criar o Centro de Artes das Caldas, que engloba o Atelier-Museu António Duarte, onde podemos encontrar alguns dos seus trabalhos escultóricos mais significativos, em bronze, pedra e gesso.

Se estivesse entre nós, António fazia hoje a bonita idade de 96 anos...

Se gostam de Arte, quando visitarem as Caldas, não percam a oportunidade de visitar o Centro de Artes, onde também estão instalados o Museu-Atelier João Fragoso e o Museu Barata-Feyo.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Segredo dos Famosos


Não fazia ideia que havia uma rúbrica com este nome na revista de domingo do "24 Horas".
Muito menos que um comentário da jornalista Vânia Custódio, na caixa das "Viagens" iria proporcionar a minha colaboração neste trabalho sobre o José Fragoso, actual director de programas da RTP.
Tudo começou com o "post" que escrevi aqui sobre a minha passagem pelas camadas jovens do Caldas Sport Clube, acompanhado de muito boa gente, como o José Mourinho e o José Fragoso...
A reportagem aí está (cliquem para ler...).
Gostei do trabalho da Vânia...

sábado, janeiro 26, 2008

O Jardim Interior

Um dos espaços onde costumávamos brincar na casa da avó, especialmente quando estava mau tempo, era uma espécie de jardim interior, que nos permitia estar em contacto com o sol, com a chuva e com as nuvens, protegidos por um telheiro...

Era um ponto de passagem quase obrigatório, pois convergia com um dos páteos, com a casa do tio João, com o palheiro do sotão e também com a chamada "casa velha", onde se guardavam velharias...
Debaixo do telheiro, encostada à parede, estava um arca enorme de madeira, onde se guardava o trigo, que se trocava por farinha, na moagem da aldeia. O seu tampo (na altura, enorme...) era quase sempre ocupado pelos nossos carros, onde inventávamos mil e uma brincadeiras...

A pintura surrealista que acompanha este texto (também ele, para o surrealista...) é do italiano Giorgio De Chirico...

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Os Colchões de Palha da Casa da Avó...


Sem saber explicar muito bem porquê, lembrei-me dos colchões de palha da casa da avó, presentes em todas as camas onde dormíamos...
Para os nossos filhos, é mais uma daquelas histórias, quase inverosímil. Colchões para eles, só os de molas...
Na minha infância a a sua existência era tão natural, que nem sequer os comparava com os da nossa casa, na cidade.
Quando chegávamos, no começo das férias grandes, a avó tinha acabado de mudar as folhas secas (penso que de milho...) e os colchões ficavam mais altos. Era uma delícia mergulhar naquela palha e fazer buracos, aqui e ali, com as marcas do nosso corpo...

Não faço ideia se ainda existem destes colchões, mas acredito que sim. Ainda se devem encontrar alguns exemplares nas aldeias mais afastadas do progresso e deste mundo que gira em volta das televisões...

Escolhi o óleo, "À Sombra", de José Malhoa, para ilustrar o texto.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

«Dá-lhe! Dá-lhe!...»

O meu filho quis ir ver um jogo de juvenis do Beira Mar, o clube mais próximo da nossa casa, para ver jogar o Miguel Arcanjo (que já foi nome de craque, nas Antas...), nosso vizinho, que quer ser craque a sério, com o apoio e o orgulho do pai, talvez com a esperança de ter uma velhice mais calma...

O campo sintético ainda não tem bancadas, pelo que assistimos ao jogo no "peão".
Quase ao nosso lado, o progenitor de um dos jovens, não parava de "incendiar" o jogo, com a frase: «Dá-lhe! Dá-lhe!...». Percebi quem era o rapazola, porque olhava de lado para o pai, envergonhado pela sua tentativa de se meter dentro da partida.
Esta expressão irritante, que me fez mudar de lugar, levou-me à infância, aos jogos de rua, em que raramente havia assistentes. Aliás o único assistente que me lembro de ver, era o protagonista da história que vou contar, pai do Sérgio, um rapaz fraquito e sem grande talento. O homem já devia sonhar, com a existência de craque lá em casa...
Quando este perdia a bola (era quase sempre...) lá estava o senhor, de bigode eriçado, empoleirado na varanda, a gritar: «Dá-lhe! Dá-lhe!...» E o Sérgio, sem saber o que fazer, já que era a bola que lhe fugia dos pés, a maior parte das vezes...
Nós olhávamos uns para os outros, com um sorriso malandreco, gozando o prato...
Claro que o senhor, nunca mais deixou de ser o «Dá-lhe! Dá-lhe!...», para a malta da rua...

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Os Carros de Madeira

Os carros de madeira, que os os tios, Zé e Arcelino, faziam para nos transportarem, a mim e ao meu irmão, ainda bem pequenotes, pelas ruas de Salir de Matos, são uma das primeiras boas recordações que tenho da minha Aldeia...
Recordei-os com um sorriso, quando olhei o óleo de Júlio Pomar, "O Carro na Calçada".
Às vezes acontece.
Uma simples fotografia ou um quadro, são o suficiente para nos levarem de viagem até ao passado...

quarta-feira, janeiro 09, 2008

As Guerras de Balneário...

A recente zanga entre Luisão e Katsouranis, fez-me recordar a diferença de ambientes que existe entre o futebol e as outras modalidades desportivas.
Quando joguei futebol nos iniciados e juvenis do Caldas, notei logo que existiam pequenos grupos, graças a algumas vedetinhas que já manifestavam o desejo de dividir para reinar. Além disso, nem todos éramos amigos, alguns de nós só nos encontravamos nos treinos e jogos, devido à projecção do clube, que ultrapassava a própria cidade...
Depois de ter andado uns tempos dividido, acabei por me decidir pelo atletismo, no Arneirense. Foi o melhor que fiz, porque no clube do meu bairro, éramos todos bons amigos. Havia uma relação muito forte entre treinador, dirigentes e atletas, funcionávamos quase como uma família.
Anos mais tarde, já como jornalista, contactei desportistas de todas as modalidades. Percebi que grande parte deles (alguns dos quais campeões do mundo e da europa) eram muito mais humildes que qualquer jogador de futebol da terceira divisão.
E eram terrivelmente injustiçados pela comunicação social, que só se lembrava deles quando eram campeões da europa, do mundo ou ganhavam uma medalha olímpica...
Hoje as coisas continuam iguais. No futebol, passa-se tudo ao contrário, qualquer miúdo que suba aos seniores do Benfica ou do Sporting, é logo colocado no Olimpo, mesmo sem ter provado nada. É sempre catalogado como o novo qualquer coisa. Muitos acabam por não aguentar a pressão, e adeus sonho bom, de craque da bola...
Voltando aos balneários, é raro o clube que consegue funcionar sem grupos e sem "guerras" entre as várias "tribos" do futebol que fazem parte do plantel. Muitos não se falam nem se cumprimentam e só passam a bola dentro de campo, se não existir outra alternativa. Chamam nomes uns aos outros no balneário, nos treinos, nos jogos, e por vezes, chegam mesmo a vias de facto, como todos nós sabemos.
Se neste Benfica actual, além da "tribo" portuguesa, existe ainda a brasileira (sempre numerosa e influente...), a argentina, a africana, a grega, a alemã e a paraguaia, torna-se extremamente difícil gerir estas culturas talentos e línguas, tão diversificadas, mesmo com um grande lider no comando da equipa...
Claro que o mal maior, está na própria cultura futebolística, que tanto idolatra como destroi, jogadores e treinadores, esquecendo que eles não são de barro nem de plástico, são pessoas, como nós...
Esta fotografia é dos anos cinquenta e mostra-nos Matateu a driblar um jogador do Caldas, no Campo da Mata, durante a passagem do clube pela primeira divisão.

domingo, janeiro 06, 2008

Luiz Pacheco no Oeste...

Luiz Pacheco escolheu a véspera do dia de Reis para partir, ele que sempre foi um desalinhado, preferindo sempre a "corte" dos marginalizados, à "cúria" dos hipócritas, que sempre vegetaram (e vegetam...) nos meios culturais deste curto país...
Luiz Pacheco passou pelas Caldas da Rainha nos anos sessenta. Não foi uma passagem invísivel, como muito bem nos conta João B. Serra, no seu livro de crónicas dos anos 50/60, "Continuação":
«[...] Chegou às Caldas, vindo de Setúbal, no final do ano de 1964. Hospedou-se no Hotel Lisbonense, enquanto procurava condições para instalar a família. Em Dezembro, quando editou o panfleto O Cachecol do Artista, indica já como morada a R. Rafael Bordado Pinheiro, 2 , r/c. [...] Dispunha de um curriculum apreciável quando aportou às Caldas, como editor, como tradutor e como observador crítico da vida literária e artística portuguesa. Os traços da sua personalidade intelectual estavam definidos: discernimento e ousadia raros como editor, irreverência contundente como comentador, independência e lucidez incómodas como crítico. [...]»

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Ano Novo, País Velho

Ontem cruzei-me com uma senhora açoreana, que já deve andar próximo das oitenta primaveras e que já não via há meses.
Pela dificuldade em andar, mesmo com o auxilio da bengala, percebi o motivo...
Recordei-me da existência de uma espécie de antecâmara da morte, que nos vai toldando os movimentos e manietando, a pouco e pouco, o dia a dia. Obriga-nos a reduzir as saídas de casa, até deixarmos de sair, quase definitivamente. Começamos a querer ficar até meio da manhã na cama até ficarmos por lá, quase o tempo todo, mais que preparados para que a "coisa negra" passe e nos leve...
Costumávamos frequentar o mesmo café. Lembro-me dela desde sempre, tinha uns gostos um pouco exóticos, na maneira de vestir, de se maquilhar e até de tomar o pequeno almoço, embora fosse sabiamente compreendida pelos senhores, Manuel e Inácio, empregados de mesa.
Só trocávamos bom dia e boa tarde, embora uma vez me surpreendesse, dizendo que tinha gostado de ler um dos meus livros...
Tal como ela, todos os anos desaparecem rostos familiares das mesas do "Repuxo". Este ano o número deve aumentar, com a demasiado saudável, proibição de fumar, nos cafés e restaurantes...

O desenho é de Jorge Barradas...

segunda-feira, dezembro 31, 2007

A Passagem de Ano

O Natal sempre foi mais importante que a Passagem de Ano, na minha familia. Ainda hoje é assim.
Como era normal na época, só na adolescência é que comecei a comemorar a passagem de ano fora de casa. Lembro-me de algumas festas de garagem com amigos próximos, em que as miúdas tinham recolher obrigatório, logo após as doze badaladas, de alguns bailes no hotel Lisbonense, nos Pimpões, na Columbófila e também no ginásio da Escola Rafael Bordalo Pinheiro. E claro, de algumas visitas a discotecas caldenses, como o histórico "Ferro Velho", o "Inferno d'Azenha" ou a "Greenhill", na Foz do Arelho.
Como praticava desporto, não usava e abusava do álcool, muito menos de outros "desinibidores" mais perigosos...
Talvez seja por isso que não me recordo de nenhuma passagem de ano com um gosto ou história especial.
Isso não quer dizer que entenda a Passagem de Ano, como mais um dia que vem aí, a seguir ao outro. Mesmo sem ter o hábito de me colocar em cima de cadeiras ou bancos a abanar notas ou bater tampas de panelas à janela, acredito que o amanhã pode ser melhor que hoje...
É por isso que há sempre desejos que ficam no ar, quando ecoam as doze badaladas...
Este ano não vai ser diferente, de certeza que vou desejar um ano melhor para mim e para os meus familiares e amigos.
Com a antecipação de algumas horas deixo-vos aqui, nas "Viagens", o desejo de que 2008 seja um excelente ano para todos vós.
Apesar das "nuvens" que nos rodeiam, é sempre bom acreditarmos que o amanhã pode ser melhor que hoje...

Ofereço-vos também "O Baile do Moulin de la Galette" de Renoir...

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Os Pavilhões do Parque

Os velhos Pavilhões do Parque já foram tanta coisa e hoje são quase nada...
Num tempo em que nem sequer se falava de bibliotecas municipais, era a Fundação Calouste Gulbenkian que patrocinava a leitura em todo o país, nas principais cidades com bibliotecas normalizadas e nos meios mais pequenos com as suas carrinhas-bibliotecas, que eram a alegria de tanta rapaziada, nas aldeias e vilas deste país...
Li muitos livros desta biblioteca, que ficava no piso inferior dos pavilhões...
Mais tarde frequentei o Liceu (mais tarde Escola Secundária Raul Proença) nos mesmos pavilhões...
Bons tempos...
Não sei qual será o seu futuro, nem tão pouco, se têm futuro.
Mas são enormes e têm um passado riquissimo, ao serviço da Cidade das Termas...

sexta-feira, dezembro 21, 2007

A Vila Natal de Óbidos

Já devia ter escrito há mais tempo sobre a Vila Natal de Óbidos, mas o tempo foi passando e...
Estive por lá no passado sábado e embora reconheça que a Vila Natal está bonita e é uma grande ideia para Óbidos e que deve deixar toda a gente feliz, especialmente os comerciantes locais... há por ali ambição a mais para um espaço tão pequeno (interior da Cerca do Castelo e da própria vila), sem capacidade para acolher tanta gente.
Como eu não pertenço ao número (pelos vistos grande...) de pessoas que gostam de estar rodeados de milhares de pessoas, quase sem se conseguirem mexer, não me senti muito confortável naquele lugar, apesar da sua inegável beleza...
Já tinha sentido aqueles "apertos" no Festival do Chocolate, pelo que sabia ao que ia...
Talvez Telmo Faria e a sua engenhosa equipa de trabalho merecessem uma cidade maior e mais espaçosa.
Pior deve ter sido no domingo, pois quando regressava à Capital, a fila de carros na A 8, era bem visível, ainda antes da saída da auto-estrada, o que não acontecera no sábado...
Claro que com tanta confusão, é impossível fruir de todas as ofertas que fazem parte do bilhete, ou seja, em bom português, pagamos e ficamos mal servidos...

quinta-feira, dezembro 13, 2007

O Natal Neste Nosso País...

Pode soar estranho, mas cada vez gosto menos deste Natal, que nos impingem de todas as maneiras e feitios.
Irrita-me que sejamos reféns desta obrigação de comprar presentes, esquecendo a canção (que infelizmente não passa mesmo de uma canção, de que o Natal é todos os dias ou que o Natal é quando um homem quiser.
Irrita-me que de repente apareça muito mais gente a sorrir e se prepare para ajudar os pobrezinhos, nas vésperas da data festiva, apenas porque é Natal e fica bem (nem que seja só para a televisão...), embora não esqueçam os desinfectantes e os cremes, porque o "povo" sem abrigo fede.

A única coisa que sobra nesta quadra são as crianças, que ainda mantêm uma capacidade, quase ilimitada de sonhar, e é para elas que o Natal continua a fazer sentido...
Imagino o quanto importante é para um menino pobre, cujos pais (e deve haver tantos por este país fora, inundado pelo desemprego...) não têm possibilidade de lhe oferecer um presente, que seja um brinquedo, e não a peça de roupa tão necessária, receber algo que lhe ofereça grandes momentos de diversão, ao contrário dos nossos filhos, cuja magia de Natal dura pouco mais que os minutos que demora o abrir as prendas e o olhar para elas (algumas das quais, nem sequer chegam a brincar uma única vez...).
É por isso que neste Natal, a maior prenda que gostava de receber, embora saiba que é um daqueles presentes impossíveis, iguais aos que enchem a imaginação dos meninos pobres, era descobrir que o nosso país estava a fazer uma inversão política e a tornar-se, de novo mais justo e mais igualitário.
Digo isto sem qualquer hipocrisia e sem fazer parte deste ou doutro espírito natalício. Este presente faz parte sim do espírito humano, em que todas as pessoas deveriam ter os mesmos direitos e as mesmas oportunidades.
O mais grave disto tudo é saber que nunca surgiu nada de bom nos países onde o fosso entre ricos e pobres, vai aumentando, dia para dia, como é o caso deste nosso Portugal, cada vez mais capitalista... e onde se ignora o reflexo das sociedades excessivamente liberais e materialistas: o aumento da revolta, da violência, do desamor, da miséria, do vício, da corrupção, etc.

É uma pena descobrir que neste país, é cada vez menos Natal, apesar das ruas estarem mais iluminadas, fazerem-se mais festas e distribuírem-se mais presentes...

terça-feira, dezembro 11, 2007

Caldas: Que Cidade Cultural? (2)

No texto anterior tinha-me ficado pelo Rafael, considerando-o mesmo a maior referência cultural da cidade, apesar de não ser natural da cidade nem ter tido uma passagem muito longa pelas Caldas.
Isso deve-se ao facto de ter tido uma passagem revolucionária pela indústria cerâmica caldense, que ainda hoje se revê, orgulhosamente, na arte deste grande cidadão do mundo.
Claro que a secundarização dos outros grandes vultos da arte caldense (Malhoa, Duarte e Fragoso), também está em parte ligada ao ditado de que santos da terra não fazem milagres.
Na actualidade não noto que exista algum acompanhamento privilegiado a artistas como Gomo, João Paulo Feliciano ou Mário Feliciano, apesar de serem reconhecidos nas suas áreas, mesmo a nível internacional.
Claro que isto não é típico das Caldas, passa-se um pouco por todo o lado e faz parte dos "catrapázios" da sabedoria popular. Pelo que, paciência...
O que é penoso é não se notar a existência de qualquer política local no aproveitamento das condições naturais e materiais que existem actualmente na cidade.
Todos sabemos que é tão importante (ou mais) educar e sensibilizar a população (especialmente a estudantil...) para o mundo das artes e letras como construir museus. E neste último campo o que existe é de uma riqueza extraordinária (quantas cidades não gostariam de ter os espaços museológicos da cidade...).
Pergunto: estes lugares cumprem os seus objectivos? As escolas do concelho, de todos os níveis de ensino, levam os alunos aos museus, mesmo que de uma forma lúdica?
Não tenho certezas, mas acredito que não se faça esse aproveitamento, porque as Caldas é tradicionalmente elitista...
O mais estranho é que, apesar de ter gasto algumas palavras sobre esta temática, continuo com dificuldade em classificar a cultura na minha cidade natal...
Pelo que o melhor é mesmo encerrar esta questão...

sábado, dezembro 08, 2007

Caldas: Que Cidade Cultural? (I)

Perguntaram-me que espécie de cidade, eram as Caldas da Rainha, em termos culturais.
A primeira frase que me ocorreu foi: «não sei.»
Era uma pergunta das difíceis, porque a cidade continua a não ser muito fácil de caracterizar, apesar de possuir excelentes casas de artes.
O pior da cidade é continuar muito fechada e conservadora e isso tem sempre o seu preço.
Desculpei-me que não era a melhor pessoa para falar da cultura caldense, porque estava fisicamente afastado há pelo menos duas décadas, e só sabia do que se passava, pela imprensa regional.
Mas lá fui falando, descobrindo aqui e ali, pontos positivos e negativos.
O aspecto mais negativo (para mim, claro) foi o fecho do histórico Casino do Parque, mais tarde Casa de Cultura, onde se faziam coisas muito importantes e onde estava sediado o Teatro da Rainha (que felizmente voltou...). Esta história nunca foi bem contada, mas havia uma grande “dor de cotovelo” dos sociais democratas instalados no poder (ainda lá estão, os malandros...), perante a sensibilidade e capacidade de trabalho cultural dos “esquerdistas”, “comunas”, “drogados”, “vagabundos”, etc. A forma de destruir aquele trabalho, demasiado visível, foi inventar umas obras, piores que as da Santa Engrácia... como todos os caldenses sabem...
O aspecto mais positivo que referi foi a instalação da ESAD (Escola Superior de Arte e Desenho), que mudou bastante as coisas, pelo menos no campo das artes plásticas. Trouxe gente nova que conseguiu baralhar as cabeças “velhas” da gente instalada no poder, que tiveram de aceitar uma série de “modernices” a abrir algumas galerias de arte, aqui e ali.
Quando se falou de pessoas lembrei-me de Bordalo Pinheiro, de José Malhoa, dos escultores António Duarte e João Fragoso, e senti que Bordalo continua a ser a presença artística mais viva, apesar de ser o único que não nasceu na cidade e que até teve uma passagem mais curta e há mais tempo na cidade termal...
E nem estava a pensar na “louça malandra”...

Este desenho de Bordalo com dedicatória a todos os caldenses, assenta que nem uma luva neste texto...
(continua...)

segunda-feira, dezembro 03, 2007

O Homem do Apito

Por hoje ser um dia especial, vou falar de um arrumador de carros, sempre munido de boné de pala e de apito, que costumava trabalhar no largo do Hospital Termal, nas Caldas da Rainha.
Estava longe de ser uma pessoa simpática e coxeava, arrastando uma das pernas.
Nunca soube o seu nome.
Sei, que nós, durante a meninice, gostávamos de lhe oferecer vários mimos e de nos escondermos atrás dos carros, a ouvir a sua habitual reacção.
Ele quando ouvia a palavra «coxo», ficava fora de si, olhava para todos os lados e oferecia impropérios a quem por ali passasse, que eram a nossa alegria...
Traquinices de infância, de um tempo que não volta...

Espero que estas palavras não soem a mau gosto, por hoje se comemorar o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. Retratam a realidade e também a maldade que existe dentro de nós, desde pequenotes...
O pior de tudo, é trinta e tantos anos depois, continuarmos sem saber lidar com as pessoas diferentes...

segunda-feira, novembro 26, 2007

David & Golias

Colocando de parte alguma baixaria política na guerra de poderes cor de laranja, não posso deixar de tirar o chapéu ao "alcaide" da vila de Óbidos, que, graças à sua clarividência e acção, tem conquistado pontos à cidade vizinha, presidida por mais um "dinossauro", igual a tantos outros, que se habituaram ao poder e não conseguem viver sem ele - mesmo que já tenham ultrapassado o prazo de validade como autarcas -, como se de uma droga se tratasse...
Estou a falar de Telmo Faria e de Fernando Costa, claro.

Mas não deixa de ser estúpido andarem com o passo trocado, há vários anos, não aproveitando a beleza de toda a região, com a realização de actividades conjuntas...

terça-feira, novembro 20, 2007

Os Campos de Cimento

Um dia destes percorri o caminho que fazia diariamente, para a escola primária, de regresso a casa, entre o Bairro da Ponte e o Bairro dos Arneiros ...
Consegui encontrar os amigos que me acompanhavam, sempre com mil e uma brincadeira, em ambas as direcções, numa estrada ainda pouco perigosa, com muito mais bicicletas e motorizadas que carros...
Tanto espaço aberto, hoje ocupado por urbanizações...
Desapareceram as áreas verdes (pinhais e hortas) que cercavam o bairro, a estrada única de entrada deu lugar a outras passagens e até a uma ponte sobre a Linha do Oeste, que quase apagou a antiga passagem de nível.
A velha casa do Zenário (penso que é assim que se escreve...) e os mil e um anexos que a rodeavam foram substituídos por apartamentos...
Já no meu bairro, parei na rua detrás, junto da escola primária, que vi construir. Olhei os desaparecidos campos de terra escura, onde corri quilómetros atrás das bolas que apareciam, sempre pela equipa da rua do meio (a rua 26, que é agora a rua do Compromisso...).
Olhei os prédios em frente da escola e puxei pela memória, à procura dos moradores da minha geração. Apareceram o Fernando, o Pedro e os irmãos, o João e o Hilário, a Luísa... quem também não perdeu a oportunidade de aparecer foi a impagável leiteira - que distribuía o leite e o "jornal" porta a porta - e o marido claro, muito pequeno e magro, uma autêntica caricatura ambulante.
Senti-me quase prisioneiro naquela selva, porque os Campos agora são de cimento...

A fotografia não tem muita qualidade mas retrata os primeiros tempos do Bairro dos Arneiros, nos anos cinquenta, com a casa do Zenário, logo à sua entrada...

quinta-feira, novembro 15, 2007

O Penedo Furado

Muitas vezes, depois de conversas de trabalho informais, sobra algum espaço para sabermos mais coisas uns dos outros.
Foi o que aconteceu ontem à tarde, quando uma senhora descobriu que eu era de Caldas da Rainha. Sem que a interrompesse, disse que costumava passar férias na Foz do Arelho durante a infância e visitava sempre a cidade da louça e das cavacas (são palavras dela...).
Ainda teve o cuidado de dizer que já não se perdia por aqueles lados há uns bons vinte anos.
O mais curioso foi perguntar-me se aquela rocha com um buraco enorme, ligeiramente afastada da praia, ainda existia. Com o desenvolvimento da conversa percebi que estava a falar do Penedo Furado. Disse-lhe que sim, ainda lá estava, embora a erosão o colocasse cada vez mais em perigo.
Fiquei a pensar nas coisas que nos lembramos, nas memórias que ficam da infância...

domingo, novembro 11, 2007

Recordações do Preto

Na casa dos meus pais sempre houve animais, mas nunca os baptizámos com nomes muito humanos, não sei porquê...
Por termos espaço e vivermos ligeiramente afastados da cidade, sempre tivemos um cão de guarda e companhia, e por vezes também um gato (é verdade, nunca tivemos mais de um gato... e era sempre gato mesmo, nada de gatas, provavelmente por causa dos gatinhos...)
De todos estes animais nunca esqueci o "Preto", o bicho mais inteligente que conheci.
Não era gato de casa, de passar o tempo a ronronar e a roçar-nos as pernas, preferia ficar a olhar-nos no seu canto. Só chamava a nossa atenção com as suas habilidades. Por exemplo, era um caçador nato. Eu adorava ficar sentado no quintal a vê-lo nas suas "caçadas", a saltar pelo ar atrás das presas, e de vez em quanto lá apanhava um pássaro mais distraído...
Tinha outra característica, a preferida da mãe. Era incapaz de roubar o que quer que fosse da cozinha, ao contrário de outros sonsos que viveram lá por casa, que não podiam ver nenhum alimento à "pata de semear".
Também era um galã de telhado, no tempo das "gatas" desaparecia, só vinha a casa para as refeições...
Como acontece com tantos gatos, foi atropelado quase mortalmente. O meu pai encontrou-o estendido na estrada, a miar, próximo da nossa casa e trouxe-o para dentro.
Tinha ficado paralisado da cintura para baixo e chorava, quase como um ser humano. Eu também chorei. Acho que foi a primeira e última vez que chorei por um animal.
No dia seguinte, de manhã, já estava a preparar-se para uma nova etapa da sua vida, arrastando-se pelo quintal, incapaz de ficar à espera da morte num canto, sossegado ou a gemer...
Claro que dias depois os meus pais tomaram a decisão de o levar ao veterinário, para ser abatido, pois aquilo não era vida para um animal como o "Preto"...
Depois deste incidente, não houve mais gatos lá em casa...