segunda-feira, julho 14, 2008

As Ceifas

A ceifa dos campos está associada ao Verão...

Lembro-me no começo da adolescência de a minha avó me ter ensinado a ceifar. Embora, na verdade, nunca me ajeitasse muito com a foice.
Pouco tempo depois, tive oportunidade de colocar em prática os ensinamentos da avó. Não sei bem porquê, sei apenas que eu, o meu irmão e o meu pai, tivemos de ceifar o pasto que o avô tinha semeado para o gado, na parte superior da Ambrósia.
Claro que aquilo era mais brincadeira que ceifa, ao ponto de o pai, ceifar mais de metade do pasto...
Para não ficarmos muito desanimados, explicou-nos o porquê de ceifar tão bem, contando-nos as suas aventuras no Alentejo, nos tempos de escassez de comida e de trabalho...
O pai e o seu avô, assim que se aproximava a época das ceifas, faziam a trouxa e partiam para da Beira Baixa para o Alentejo, onde passavam dias e dias a ceifar, de sol a sol, atrás do "pão", amassado por algum parente do diabo...
Claro que nem tudo era mau, havia sempre o convívio, a alegria do povo que vinha de várias regiões, para o Sul, e as histórias, que ia ouvindo aqui e ali, sobre outros mundos, além da sua Beira, tão inóspita...

O belo óleo, "A Salmeja", é da autoria de Silva Porto.

terça-feira, julho 08, 2008

Descobrir Esta Foz do Arelho

Este óleo de Constâncio Silva, datado de 1943, deixa-me com algumas dificuldades, em identificar esta Foz do Arelho.

Penso que a paisagem que se vê ao longe, será da Margem Sul, ou seja do lado dos "belgas". Penso que esta parte da lagoa, ainda está distante da aberta... talvez entre o cais (inexistente na época - pelo menos o actual de cimento armado, que sempre conheci...) e o palacete do conde D'Almeida Araújo.

Aceitam-se pistas e deduções...

quarta-feira, julho 02, 2008

O Primeiro Pinheiro Chagas

Depois de visitar o blogue caldense, Águas Mornas, apeteceu-me ir à procura da história de um edifício curioso, que ocupava o mesmo espaço do Cine-Teatro Pinheiro Chagas, que visitei tantas vezes na infância, uns bons anos antes.


Acabei por descobrir que era mesmo uma outra sala de espectáculos, também com o nome de Pinheiro Chagas, inaugurada em Setembro de 1902...

A hoje, Praça 5 de Outubro (obrigado Rolando...), popularmente conhecida por Praça do Peixe, apesar de já não se vender pescado há uns anitos, era bem mais bonita, neste postal do começo do século vinte, que na actualidade...

Este postal foi editado em 1906 pela tipografia Dias & Paramos.

quinta-feira, junho 26, 2008

As Férias Grandes

Por esta altura já estava de férias, as famosas férias grandes, que se prolongavam até ao fim de Setembro...
Na infância, as férias eram repartidas pelo campo (a casa dos avós maternos em Salir de Matos), pela praia (muito Salir do Porto, alguma Foz do Arelho, pouco Baleal) e pelas ruas do bairro (com jogatanas de futebol intermináveis na rua detrás, da terra que nos pintava as pernas e a roupa de negro).
No começo da adolescência, a praia ganhava ao campo, e a Foz do Arelho, arrumava definitivamente as outras praias... lembro-me de quase abrirmos a época balnear e de a fecharmos em Setembro... muitas vezes com nevoeiro e frio, éramos os únicos "malucos" que não arredavam pé, e não passavam sem os banhos e as diversões dentro de água...
Os únicos seres que rivalizavam connosco, como "proprietários da praia", eram as gaivotas...
E foi assim, até crescermos um palmo e perdermos esta "boa vida"...

O óleo, "Gaivotas", é do setubalense, João Vaz.

sexta-feira, junho 20, 2008

O São João nas Caldas

Não sei porquê, mas o S. João sempre foi o Santo mais querido das Caldas da Rainha.
Aliás, penso que ainda se realiza a Feira de S. João, com as atracções do costume, embora com bastante menos povo...
Há quarenta anos esta feira era um mimo, ainda se achava graça ao circo, ao carrocel, aos carrinhos de choque, ao poço da morte, às farturas e até aos vendedores de "banha da cobra"...
Nesses tempos longínquos a feira realizava-se na Mata da Rainha, assim como a de 15 de Agosto. Era um nunca acabar de barracas de quinquilharias, de brinquedos, de roupas, de comes e bebes, e claro, a parte mágica, de diversões.
Provavelmente não era bem assim, mas estou a escrever por cima da memória da criança que olhava para tudo, quase rente ao chão, e por isso, tudo lhe parecia grandioso...

Mais um Malhoa excelentissimo, "As Padeiras"...

sexta-feira, junho 13, 2008

Quando Alberto é Nome de Poeta e de Pessoa...


Sou um guardador de rebanhos,
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

in "Poemas de Alberto Caeiro", obra poética de Fernando Pessoa. O óleo, "Gritando ao Rebanho" é de José Malhoa

domingo, junho 08, 2008

Tudo Começou no Oeste...

Tudo começou no Oeste, no velho Campo da Mata...
Na início acho que gostava muito mais de ir com o meu pai ao futebol, de mão dada, pelas ruas da Cidade até à velha Mata, pelo orgulho que sentia da sua companhia, que pelo espectáculo do futebol.
Acho não, tenho a certeza.
O meu pai era um mestre dos silêncios, nunca foi de muitas palavras. Nem mesmo durante o jogo. À nossa volta gritava-se, chamavam nomes (alguns dos quais desconhecia na inocência dos meus seis anos...) ao árbitro e aos jogadores adversários. O meu pai via o jogo pelo jogo, irritava-se com os falhanços dos jogadores do Caldas, mas raramente arranjava bodes expiatórios ou gritava.
Embora não o interiorizasse na época, foi a partir desse momento que percebi que o futebol era composto por dois espectáculos, um dentro do campo e outro nas bancadas.
Felizmente, sempre me interessou mais o que se passava no terreno de jogo, os golos e a arte dos futebolistas.
Mais uma vez o dedo do meu pai estava presente. Nunca usámos cachecóis ou bandeiras, éramos uma espécie de espectadores anónimos no meio dos adeptos...
Foi sempre assim pela vida fora. Já em Lisboa. nunca subi para o histórico terceiro anel, que tanto abanava como tremia, com cachecol, nem mesmo nas noites europeias frias do Inverno...
Esta prosápia deve-se ao corropio aqui de casa, com bandeiras, cachecóis, lenços, cornetas, durante o jogo de Portugal, que ganhámos á Turquia. Percebo que sou o único que aprecia o futebol, o resto da "turma" gosta mais do outro espectáculo, até querem ir festejar a vitória para a rua...

domingo, junho 01, 2008

O Cinema é Sempre Um Espectáculo

Hoje fui ao cinema, porque o meu filho achou que era um bom dia para vermos o "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal".

Antes do filme assistimos a um desfile agradável de anúncios. Ele disse-me que eram mais completos que na televisão, como se fossem quase um pequeno filme... e tem toda a razão, a própria produção desta publicidade é muito cinéfila, como sempre foi a da Martini.
Lembrei-me de como a história do tempo mudou as primeiras partes dos filmes. Do tempo dos meus pais, havia sempre um documentário, no meu eram os desenhos animados, hoje é a publicidade...
Assim como as salas. Desta vez vi o filme numa sala mais ampla que o habitual. Recordei-me dos primeiros filmes que vi no Cine-Teatro Pinheiro Chagas e no Salão Ibéria, salas que pertencem quase à "pré-história" para os caldenses que têm menos de trinta anos...

segunda-feira, maio 26, 2008

Notícias da Cultura na Minha Cidade...

Finalmente, a Cultura voltou a ter um espaço digno nas Caldas da Rainha, com a inauguração do Centro de Cultura e Congressos da Cidade (CCC).

Agora, o mais importante é que os responsáveis pela Cultura das Caldas saibam tirar o melhor proveito de umas instalações com esta dimensão, bastante multifacetadas, que também devem ter as portas abertas aos artistas do concelho...

É bom mudar hábitos, esquecer o ditado que diz: «santos da terra não fazem milagres», e que tanto jeito tem dado a muito boa gente...


Que esta bonita ilustração de Jacek Yerka, seja inspiradora e haja lugar para tudo e para todos no novo CCC das Caldas da Rainha...

quarta-feira, maio 21, 2008

A Nossa Guerra

Deve haver muito pouca gente, que não tenha tido um familiar em África, a defender as nossas antigas colónias.
Eu tenho dois tios e dois primos, que estiveram em Angola, Moçambique e Guiné. Felizmente regressaram sem marcas visíveis desta passagem, próxima do "inferno"...
O mesmo não aconteceu a Mário Henriques, o primeiro mártir desta guerra estúpida, que conheci, amigo de infância dos meus tios de Salir de Matos.
Tinha apenas onze anos (pensava que tinha menos, mas o meu tio Zé disse-me que ele já faleceu depois da Revolução de Abril...), quando nos chegou a notícia da sua morte...
Toda a aldeia de Salir de Matos sentiu aquela morte, de uma forma profunda, por ser um meio pequeno e por toda a gente se conhecer. Os seus pais e a sua namorada, que passou por uma espécie de viuvez, foram quem sentiu mais esta perda...
Passados todos estes anos, ainda me lembro do seu sorriso, da sua alegria de viver, das suas brincadeiras, de andar às suas cavalitas...
O Mário é apenas um exemplo, entre muitos, dos milhares de jovens portugueses, que perderam a vida no Ultramar, nos anos sessenta e setenta, em defesa da pátria.

sábado, maio 17, 2008

A Importância da Água

Há um século, a água era um bem, muito menos desperdiçado, que nos nossos dias, cada vez menos fartos, apesar da ilusão consumista...

Esta fotografia de Jorge Almeida Lima, era comum a tantas terras, ainda sem água canalizada em casa, que se socorriam dos chafarizes públicos, para abastecer os lares deste liquido precioso.
As pessoas acorriam, muitas vezes com sofreguidão, com medo que a água acabasse, enchendo baldes e cântaros, para as lavagens e usos domésticos.
Das bicas saía a água para beber, guardada nas tradicionais bilhas de barro, onde se mantinha fresca...
Apesar de não ter um século, ainda sou "deste tempo" dos chafarizes públicos, pelo menos quando passava férias em Salir de Matos. Devo acrescentar que era uma festa ir buscar água ao chafariz da aldeia, com as brincadeiras do costume, em que acabava no mínimo salpicado, nas muitas "batalhas navais", travadas com o meu irmão nos tanques...

terça-feira, maio 13, 2008

As Cavacas das Caldas

O primeiro símbolo gastronómico que conheci na minha cidade, foram as célebres e doces Cavacas das Caldas.

E, imaginem só, em Salir de Matos...

Uns tios e primos tinham uma fábrica artesanal destes doces, na aldeia, penso que gerida pela tia Glória com o auxílio dos filhos e de uma empregada, da qual não recordo o nome.

O que sei, é que tanto eu como o meu irmão, adorávamos aparecer e deliciarmos-nos com os restos de açúcar que ficavam dentro dos alguidares de alumínio...

Estes nossos familiares acabaram com o negócio das Cavacas, por razões que desconheço. Sei apenas que ainda éramos pequenotes e durante algum tempo, sentimos saudades daquela fábrica de doces...
Este postal antigo mostra-nos as vendedeiras de Cavacas, na famosa Praça da Fruta...

terça-feira, maio 06, 2008

O Fim das "Quintas Pedagógicas" Domésticas...

O meu filho sempre gostou do campo. Desde pequenote que gosta de brincar na terra (pobre quintal da avó, tão esburacado...), de ver crescer as plantas e de descobrir o mundo dos animais...

Uma das nossas visitas imperdíveis em Salir de Matos é ao casal do tio Arcelino, onde o meu filho tem a oportunidade de ver de perto um verdadeiro "zoo" da bicharada doméstica.

Claro que as coisas já não são o que eram, devido ao aparecimento da ASAE e de uma série de restrições legais (que até se intrometem nas tradições locais, como a matança do porco em família...), que não permitem a qualquer pessoa ter animais em casa...
Nos seus melhores momentos, encontrávamos um bezerro, uma porca e leitões, coelhos, galinhas, galos, patos, ovelhas e cabras, espalhados ao longo dos vários currais e capoeiras do casal.
Hoje existem menos espécies de animais domésticos, mas nem mesmo assim o Miguel dispensa uma visita à "quinta pedagógica" do tio Arcelino...

domingo, abril 27, 2008

Os Jardins da Família de Salir de Matos

Um dos motivos de orgulho da nossa família era o jardim da casa da avó, sempre muito bem cuidado pelo avô e tão elogiado pelas pessoas que passavam pela nossa rua, a caminho da igreja de Salir de Matos, com vontade de colher uma ou outra flor.

Os dotes do avô, felizmente tiveram continuidade.
O jardim da casa dos tios Zé e Lurdes, é um mimo de se ver, cheirar e sentir, tal é a variedade de flores e plantas, ao qual nem falta um pequeno lago, com peixes e rãs, que são o encanto dos mais pequenos...

Este jardim não é tão apreciado como o do avô, apenas por estar mais resguardado dos olhares públicos, que o da velha casa da avó...

sexta-feira, abril 25, 2008

A Minha Pequena Revolução

«Apesar de ter apenas onze anos, recordo-me bem do dia 25 de Abril de 1974, «inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio», como tão bem retratou, a nossa Sophia de Melo Breyner Andresen.
Como vivia nas Caldas da Rainha, uma cidade de província notoriamente conservadora, não se sentiram grandes ecos revolucionários, pelo menos até ao fim da tarde.
Penso mesmo que a cidade viveu este dia de uma forma apreensiva, até porque um mês e alguns dias antes, os militares do RI 5 tinham saído do Quartel em direcção a Lisboa, para participar numa outra Revolução, que tinha entretanto sido adiada...
A censura tentou, e conseguiu, que o 16 de Março fosse tratado de uma forma ligeira, sem merecer grande destaque nos jornais, na rádio e televisão. O saldo desta tentativa de revolta, saldou-se pela prisão e destacamento dos militares envolvidos, para evitar males maiores.
Como é óbvio, a Cidade teve conhecimento do caso, embora a maior parte das pessoas não soubessem ao certo o que tinha acontecido. Não me lembro de ter sido tema de conversa em casa. Como eu e o meu irmão ainda éramos menores, os meus pais não falavam destas coisas à nossa frente. Mas na Escola Preparatória Rafael Bordalo Pinheiro, onde estudava, esta rebelião foi bastante falada, e até ficcionada, pela imaginação fértil das crianças de onze e doze anos, que nutrem um fascínio especial por histórias de “guerra”, entre os bons e os maus.
Um dos meus melhores amigos, filho de um militante do PCP, facto que desconhecia na época, contou-me, quase como se fosse um segredo de estado, que o pai tinha estado nesse dia com alguns amigos, a observar à distância as movimentações dentro e fora do Quartel. Munido de binóculos assistiu à saída e entrada de viaturas militares, assim como das forças da autoridade.
Felizmente, quarenta dias depois, a Revolução saiu mesmo à rua.
Militares vindos de várias regiões do país invadiram a Capital e ocuparam os lugares estratégicos da cidade. As dúvidas iniciais dos “Capitães de Abril” transformaram-se em certezas, graças ao apoio popular de milhares de pessoas, que surgiram de todos os lados, de uma forma completamente expontânea, para dar vivas à Revolução e à Liberdade.
Enquanto a multidão invadia a baixa e deixava o Largo do Chiado em estado de sitio, eu brincava no quintal da minha casa, satisfeito pelo “feriado” escolar inesperado. Assistia serenamente à troca de informações entre a mãe e uma vizinha, que não tiravam os ouvidos do rádio, que dava conta dos últimos desenvolvimentos (nessa altura já tínhamos televisão, mas as emissões deviam ter sido interrompidas, pois só me recordo da transmissão das notícias radiofónicas...) da Revolução.
O ponto alto desse dia acabou por ser a rendição de Marcelo Caetano e de todo o governo. Era o sinal mais da vitória dos Militares de Abril.
A minha mãe ficou bastante dividida nesse final de tarde, porque era uma das muitas espectadoras atentas às “Conversas em Família” do Marcelo Caetano, por quem tinha uma grande admiração, considerando-o um bom governante e um homem sério.
O meu pai, de espírito mais libertário, ficou bastante satisfeito com este desfecho. Acreditou firmemente na possibilidade de Portugal se tornar um país mais justo, tal como milhões de portugueses...
Uma das coisas que mais o chocava eram os constantes abusos de autoridade, praticados por quem detinha qualquer poder. Qualquer soldadeco da GNR ou agente de terceira da PSP, procedia como se fosse dono deste, ou de qualquer outro mundo. O pai tratava-os por “pançudos” e realmente, nessa época, eles eram todos bem anafados...
Como devem calcular, mais chocado ficava, quando sabia que alguém tinha sido preso ou interrogado, pelo simples facto de defender um Portugal mais livre e democrático.
Acabo como comecei, com as palavras de Sophia. Tenho algumas dúvidas que «esta é a madrugada que eu esperava», porque trinta e três anos não foram suficientes para nos termos tornado um país mais justo e igualitário. Claro que «livres habitamos a substância do tempo»... e a Liberdade continua a ser a herança mais preciosa da Revolução de Abril.»


Esta é a minha crónica, que consta no livro "25 Olhares de Abril", coordenado por Carlos Garrido (apresentado no próximo dia 29 de Abril, na livraria "CIrculo de Letras", em Lisboa), que me pediu para lhe contar como tinha sido o meu 25 de Abril, em 1974. Claro que é um olhar sem profundidade e sem mágoa, de alguém com onze anos, que pouco ou nada sentiu, os reflexos do salazarismo ou marcelismo. Limitou-se a ouvir falar. Mas o dia, foi assim...

quarta-feira, abril 23, 2008

Não Um, Mas Dez Livros Especiais...


(Continuação do "Largo da Memória"...)

Mais tarde ainda, antes de me cruzar com José Cardoso Pires no “Ribadouro” (e com o Fernando Lopes que adaptou o romance ao cinema, só podia ser ele...), li o “Delfim” e percebi um pouco melhor como se vivia antes de 1974, onde havia gente ligada ao regime, que era quase dona do mundo português...
Pelo meio fui transportado para a Margem Sul, onde conheço os “Bonecos de Luz” (novamente o cinema...) de Romeu Correia, que também se torna um amigo especial, e me apresenta Almada, de uma forma fascinante.
Desço um pouco mais para Sul e aparece-me, de mão beijada, “O Fogo e as Cinzas”, de Manuel da Fonseca, que me oferece um olhar especial sobre o Alentejo...
Já homem grande, ainda me consegui enternecer com a beleza das palavras de Luís Sepúlveda, em “O Velho que Lia Romances de Amor”...
O curioso em todas estas leituras, é a compulsão que sinto em ler, quase de seguida, toda a obra dos escritores que descubro e amo as palavras.
Bem... provavelmente, o melhor é ficar por aqui, tentar “desligar” a memória, antes que me apareçam mais livros e autores, a pedirem umas palavras, a recordarem-me o prazer com que li as suas “vidas de papel”...



Este texto tem dedicatória... é dedicado a uma senhora que talvez goste mais de livros que de gatos, a Isabel Castanheira, que me pediu um texto sobre um Livro da minha vida e recebeu mais nove...

terça-feira, abril 22, 2008

Dia da Terra

O meu avô dizia-nos, a mim e ao meu irmão, que era da Terra que nasciam todas as coisas...
Gostava de encher as mãos daquela terra castanha dos campos e deixá-la cair, por entre os dedos.
Nós olhávamos um para o outro e depois imitávamos o avô, com um sorriso nos lábios, a ver a como a Terra nos escapava das mãos...
Fico muito feliz por saber e sentir, que os meus filhos amam a Terra, em toda a sua plenitude. Gostam de brincar, de se sujarem na Terra, de tentarem perceber a origem das pequenas coisas...
Esta bonita paisagem, "Pombeiro", é da autoria de Alfredo Keil.

sábado, abril 19, 2008

Andar Perdido Dentro de Campo...

A nossa memória é tão selectiva... e recorda-nos coisas tão estranhas.
Foi o que aconteceu esta manhã, quando me recordei da coisa mais estranha que aconteceu, na minha curta carreira de futebolista...
Jogávamos em casa, no velho Campo da Mata contra um adversário que não recordo. Estava sentado calmamente no banco de suplentes, naquela que era a minha primeira época de juvenil, quando o treinador (qualquer coisa Reis...), olhou para mim e mandou-me aquecer para entrar no jogo...
Aqueci e depois a única indicação que recebi, foi: «vais marcar aquele gajo, vais andar sempre em cima dele e não o deixas tocar na bola.»
Entrei em campo e senti-me completamente perdido. A única referência que tinha no campo, era um jogador habilidoso e rápido, que tinha de perseguir e tirar-lhe a bola, se conseguisse... não tinha uma posição, um espaço.
Joguei pessimamente, completamente desenquadrado do jogo, andava ali, à procura de quase nada...
O treinador não falou comigo depois do jogo, mas percebi que não tinha gostado da sua opção...
A esta distância, sei que nenhum treinador devia pregar uma partida destas a um rapaz de quinze, dezasseis anos, sem lhe ter explicado antes, o que era isso da marcação "homem a homem"...

terça-feira, abril 15, 2008

O Mercado de Santa Suzana

Esta bonita foto de Jorge Almeida Lima - que nos deixou excelentos registos fotográficos sobre a região das Caldas da Rainha - é de 1913 e retrata o Mercado de Santa Suzana, uma das aldeias do Concelho.

Este mercado merece um realce especial, por ter conseguido ultrapassar o milénio, sem interrupções, continuando a realizar-se mensalmente, acho que ao primeiro domingo de cada mês, e a ser um dos maiores, senão o maior, mercado do Concelho, mesmo com a atenção e vigilância apertada da ASAE nos dias de hoje...
Adenda:
Não quis alterar o texto, mas ele tem um grande equivoco (esclarecido pela minha mãe...). Ou seja, fiz confusão entre o Mercado de Santa Suzana e o de Santana. Este último é que continua a realizar-se todos os domingos e é um acontecimento local. Não sei se ainda se realiza algum mercado em Santa Susana, sei sim que tinha uma grande romaria (e raparigas giras), que cheguei a visitar com amigos...
O seu a seu dono...

terça-feira, abril 08, 2008

Abril-Abril

Abril, quando é mesmo Abril, trás sempre a chuva numa das "mãos".
É por isso que este mês tem tanto de bonito como de chato, pois nunca sabemos muito bem com que roupa vamos sair de casa, no dia seguinte...
E na actualidade as coisas conseguem ser ainda mais estranhas, já que conseguirmos ter as quatro estações, num só dia...
Não deixa de ser giro, todos gostarmos da chuva, ou seja, do espectáculo da chuva. É por isso que preferimos, quase sempre, a protecção dos alpendres ou as janelas... não gostamos muito de quando ela cai, mesmo por cima de nós. E da combinação Chuva-Vento, óptima para guerrear e destruir os chapéus de chuva menos resistentes, nem se fala...
Mas não é por isso que deixo de gostar de Abril...

O "Efeito das Nuvens" é de Alfredo Keil.