sábado, setembro 27, 2008

O Outro Lado do Museu


Sei que a maior parte dos visitantes do Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha, não passam pelas traseiras do edifício. Acabam por ficar a perder, já que não vêm os bonitos paineis de António Duarte...

Até poderia haver um letreiro em forma de convite, na recepção do Museu, com a informação...

quinta-feira, setembro 25, 2008

Encontros e Desencontros...

Encontrei-me por acaso, com um companheiro de escola, que não via há mais de vinte anos, numa carruagem de comboio. Se ele não se metesse comigo, não o reconhecia.

É engraçado, há pessoas que envelhecem sem mudar muito os seus traços e outras, pelo contrário, transformam-se completamente, como se passassem a ser outras pessoas, tão diferentes daquelas que conhecemos...
Quando as olhamos, notamos algo de familiar. Mas isso é tão vulgar, com a passagem dos anos. Há sempre alguém que nos lembra alguém...
Falámos apenas do trivial, de lugares, pessoas, filhos, porque a estação era logo ali...
Nem sequer trocámos números de telemóvel...

quarta-feira, setembro 17, 2008

Estão Aí as Vindimas...

Desde pequenote que me habituei a percorrer as vinhas do avô. Primeiro a brincar às escondidas com o meu irmão e amigos, depois já com um balde e uma tesoura na mão, a cortar os primeiros cachos de uvas, e claro, desejoso de entrar, lá mais para a tardinha, no lagar, para transformar todos aqueles bagos em vinho, com os pés, numa quase dança milenar...

Não tenho dúvidas de que as vindimas são uma das actividades menos entediantes do campo, até por estarem ligadas ao convívio entre familiares e amigos, quase sempre alegre e brejeiro.
A habitual lavagem de roupa suja, protagonizada pelas mulheres, é quase sempre reforçada por deixas masculinas, próximas da anedota, que deixam toda a gente a sorrir, amenizando o ambiente.
Também é espaço de novidades, quase transformado num jornal de aldeia "cor de rosa", com uma lista enorme de casamentos, ajuntamentos e separações, claro. Também aparece sempre a filha de alguém, que é ou vai ser mãe solteira. O espanto das mulheres é suplantado mais uma vez pela bonomia dos homens, que deitam fora os falsos moralismos de ocasião: «para quê tanta admiração, se até os bichinhos gostam?» E lá voltam as gargalhadas, as anedotas e as histórias de outros tempos.
É por esta razão que um dos meus tios de Salir de Matos, não recusa qualquer convite para participar nesta "festa do vinho"...

quinta-feira, setembro 11, 2008

Recuando Até Agosto

Nos últimos anos tenho assistido a uma das muitas festas de Verão que dão cor a alegria ao mês de Agosto, numa aldeia do interior.

Sou sempre mais observador que actor nestes lugares, por ter dificuldade em perceber a separação que ainda existe de género. Custa-me mais a entender estas divisões por saber que a maior parte dos visitantes da aldeia vivem na cidade.
Uma das coisas que mais me aborrece é que ao homem, esteja destinado o balcão dos bares. Quem como eu, não gosta de beber por beber e que para conversar não tem necessidade de estar com um copo de cerveja ou de caipirinha na mão (parece que é a bebida da moda nestes lugares), sente-se como "peixe", completamente fora de água...
Este fenómeno dá lugar ao outro, não menos curioso. Como a maior parte dos homens estão no bar, o espaço de dança é ocupado maioritariamente por pares de mulheres, de todas as idades, que gostam de dançar.
Numa das noites reparei que estavam a dançar em frente ao palco onze pares e dez eram compostos por mulheres. Quando comentei o facto com um amigo, a observação dele, cingiu-se à alegria do felizardo, por estava a dançar rodeado de tantas mulheres...

A fotografia é de Robert Doisneau, "As Curvas de 14 de Julho" (desculpem este abuso do Robert, mas ele é excelente...).

sexta-feira, setembro 05, 2008

Pérolas na Foz

Um vereador da Autarquia Caldense, de nome Hugo Oliveira, disse umas coisas muito interessantes na "Gazeta das Caldas", que chegou hoje à caixa do correio. Algumas quase que podiam entrar no mundo dos "bivaldes", entre o tradicional berbigão da Foz (interdito no Verão) e as pérolas à Costa...

Em relação ao ruído, tão contestado, disse: «revelaram valores abaixo do limite máximo permitido por lei.» Boa! Desde que estejam abaixo dos máximos, está tudo bem na praia...

Acredita que o Oeste tem potencial para se afirmar como «um novo Algarve» (esqueceu-se foi do éle do Pinho...)

Mas a melhor da reportagem é o facto do senhor vereador assegurar que:«o Verão Foz é um conceito que evoluiu muito favoravelmente, assumindo-se sem dúvida como uma marca e uma referência do Verão do centro do país.»

Com esta conversa e neste país, acreditamos que este vereador poderá ir longe...

A Foz do Arelho e as Caldas da Rainha é que poderão continuar na marcha lenta que se sabe, sem ser preciso ir muito longe, basta comparar com a vizinhança...

quarta-feira, agosto 27, 2008

Aquele Querido Mês de Agosto

O filme português, "Aquele Querido Mês de Agosto", de Miguel Gomes acabou de estrear nas nossas salas de cinema.

O realizador fez o filme possível (o dinheiro era curto...) que anda muito á volta do seu imaginário, das suas férias de infância, das festas que quase todos conhecemos de aldeia, animadas por grupos musicais de baile e também por cantores do "universo pimba".
Não vi o filme pelo que não vou falar dele. Vou falar sim da festa da minha infância, que se realizava em Salir de Matos, e que por acaso também tinha o seu grupo "fetiche", o "Conjunto Jaime Ferreira".
Realizava-se anualmente no começo de Agosto e era o acontecimento mais relevante da aldeia. Penso que todos os meus tios foram festeiros...
Claro que cresci e fui deixando de aparecer... porque os bailaricos de aldeia eram uma coisa pirosa para os "rapazes da cidade"...
Há pouco tempo soube que esta festa já não se realizava. Quis saber porquê. Contaram-me que os responsáveis pelo último ano de festejos não tinham apresentado contas, havendo mesmo suspeitas da falta de honestidade de alguns elementos.
Esta irresponsabilidade acabou por colocar fim a uma tradição de largas dezenas de anos...
Faz-me confusão que os anos passem e Salir de Matos não volte a ter a sua Festa no mês de Agosto, perante a passividade de toda a Freguesia...

sexta-feira, agosto 22, 2008

viagem pelo oeste - cinco

Vou concluir este fim de semana caldense, com a sempre bonita e perfumada, Praça da Fruta.

Tenho pena que ninguém lhe "lave o rosto", que "quem pode" não se mostre preocupado com o seu futuro, com a beleza que é a existência de uma praça ao ar livre, com fruta, legumes e outras coisas atractivas, como a louça, as flores e os vimes...
Provavelmente estão à espera que este monumento popular morra de "morte matada", para não lhes dar chatices, ou então que seja vitima de uma intervenção da sempre diligente, ASAE...

quinta-feira, agosto 21, 2008

viagem pelo oeste - quatro

Se há lugar que não dispenso nas minhas passagens pelas Caldas, é o Parque D. Carlos.

Mesmo sem o Museu José Malhoa (em obras há tanto tempo...) aberto ao público, não faltam atractivos, neste jardim agradável...
Como por exemplo o passeio de barco, que ficou combinado para a próxima...

quarta-feira, agosto 20, 2008

viagem pelo oeste - três

Também estive em São Martinho do Porto, a nossa bela concha do Oceano.

Estranhei que as suas águas continuem tão sujas, ao contrário da Foz do Arelho, onde até junto ao Cais, a água se apresenta transparente...
Mas as pessoas continuam e encher o areal e as bonitas barracas de pano...

terça-feira, agosto 19, 2008

viagem pelo oeste - dois

Apesar das ameaças de mau tempo durante o fim de semana, na quinta e na sexta-feira o tempo esteve excelente.

A fotografia tirada de um dos miradouros da Foz do Arelho, é a melhor prova do que digo.
O céu estava limpo, além de se avistarem as Berlengas e os Farilhões, era possivel ver o Baleal e Peniche e todo aquele areal delicioso...

segunda-feira, agosto 18, 2008

viagem pelo oeste - um

Desta vez passei o 15 de Agosto no Oeste...
Andei por muito lugar, até percorri a Feira Anual das Caldas, coisa que não devia fazer há mais de quinze anos...
Cheguei na tarde de quinta, já com um passeio de "caiaque" na Lagoa de Óbidos, previamente combinado. Foi a estreia do Miguel, que até passeou por debaixo do Cais com o padrinho...

quinta-feira, agosto 14, 2008

Acordei e Afinal...


Afinal, era mentira...

As barracas e os negócios de Verão continuavam agarrados à praia, os altifalantes não tinham desaparecido...

O areal não estava deserto, nem tão pouco estava um dia cheio de sol...

Eu sabia, que só me era permitido ter uma praia "só para mim", lá mais para Outubro...

quinta-feira, agosto 07, 2008

As Eiras Sonoras de Agosto

Lembro-me de assistir à debulha de cereais e legumes numa das eiras (já de cimento, quase comunitária...) de Salir de Matos, fascinado pelo som daquelas varas compridas, usadas para malhar o trigo, a cevada e até o feijão seco...

Era um espectáculo impressionante para qualquer criança.
Sei que também tentei "malhar" as plantas secas, mas era pequeno demais e sem grande força e jeito para manejar a vara. Também ajudei a apanhar os "frutos" que se soltavam e depois eram peneirados pelas mulheres da família...
Agosto era um mês cheio de atractivos no campo durante a minha meninice. Isto claro, antes da adolescência, antes da praia ocupar quase todo o mês de Agosto, de deixarmos de passar semanas inteiras de férias na casa dos avós, em Salir de Matos...

Este óleo, "Milho ao Sol", de José Malhoa, mostra-nos um pouco como eram as eiras, terrenos direitos, onde se espalhavam os cereais e legumes ao sol, para depois serem debulhados...

sábado, agosto 02, 2008

Manifestação


Li hoje nas páginas do "Sol" que Manuel Alegre e João Queirós e Melo, estão à frente de um movimento, apoiado por veraneantes, moradores e comerciantes da Foz do Arelho, que se prepara para se manifestar contra a "balbúrdia", com que o Município das Caldas - que não devia ser apenas do Costa -, faz questão de oferecer a todos aqueles que procuram aquele lugar especial em busca de paz e descanso...

Embora esteja um pouco afastado da "minha praia", principalmente no Verão, estou completamente solidário com os manifestantes.
Se há um lugar que não precisa de altifalantes e de música, é a Foz do Arelho, o som do Mar único, basta para animar a praia e os seus frequentadores dilectos...

segunda-feira, julho 14, 2008

As Ceifas

A ceifa dos campos está associada ao Verão...

Lembro-me no começo da adolescência de a minha avó me ter ensinado a ceifar. Embora, na verdade, nunca me ajeitasse muito com a foice.
Pouco tempo depois, tive oportunidade de colocar em prática os ensinamentos da avó. Não sei bem porquê, sei apenas que eu, o meu irmão e o meu pai, tivemos de ceifar o pasto que o avô tinha semeado para o gado, na parte superior da Ambrósia.
Claro que aquilo era mais brincadeira que ceifa, ao ponto de o pai, ceifar mais de metade do pasto...
Para não ficarmos muito desanimados, explicou-nos o porquê de ceifar tão bem, contando-nos as suas aventuras no Alentejo, nos tempos de escassez de comida e de trabalho...
O pai e o seu avô, assim que se aproximava a época das ceifas, faziam a trouxa e partiam para da Beira Baixa para o Alentejo, onde passavam dias e dias a ceifar, de sol a sol, atrás do "pão", amassado por algum parente do diabo...
Claro que nem tudo era mau, havia sempre o convívio, a alegria do povo que vinha de várias regiões, para o Sul, e as histórias, que ia ouvindo aqui e ali, sobre outros mundos, além da sua Beira, tão inóspita...

O belo óleo, "A Salmeja", é da autoria de Silva Porto.

terça-feira, julho 08, 2008

Descobrir Esta Foz do Arelho

Este óleo de Constâncio Silva, datado de 1943, deixa-me com algumas dificuldades, em identificar esta Foz do Arelho.

Penso que a paisagem que se vê ao longe, será da Margem Sul, ou seja do lado dos "belgas". Penso que esta parte da lagoa, ainda está distante da aberta... talvez entre o cais (inexistente na época - pelo menos o actual de cimento armado, que sempre conheci...) e o palacete do conde D'Almeida Araújo.

Aceitam-se pistas e deduções...

quarta-feira, julho 02, 2008

O Primeiro Pinheiro Chagas

Depois de visitar o blogue caldense, Águas Mornas, apeteceu-me ir à procura da história de um edifício curioso, que ocupava o mesmo espaço do Cine-Teatro Pinheiro Chagas, que visitei tantas vezes na infância, uns bons anos antes.


Acabei por descobrir que era mesmo uma outra sala de espectáculos, também com o nome de Pinheiro Chagas, inaugurada em Setembro de 1902...

A hoje, Praça 5 de Outubro (obrigado Rolando...), popularmente conhecida por Praça do Peixe, apesar de já não se vender pescado há uns anitos, era bem mais bonita, neste postal do começo do século vinte, que na actualidade...

Este postal foi editado em 1906 pela tipografia Dias & Paramos.

quinta-feira, junho 26, 2008

As Férias Grandes

Por esta altura já estava de férias, as famosas férias grandes, que se prolongavam até ao fim de Setembro...
Na infância, as férias eram repartidas pelo campo (a casa dos avós maternos em Salir de Matos), pela praia (muito Salir do Porto, alguma Foz do Arelho, pouco Baleal) e pelas ruas do bairro (com jogatanas de futebol intermináveis na rua detrás, da terra que nos pintava as pernas e a roupa de negro).
No começo da adolescência, a praia ganhava ao campo, e a Foz do Arelho, arrumava definitivamente as outras praias... lembro-me de quase abrirmos a época balnear e de a fecharmos em Setembro... muitas vezes com nevoeiro e frio, éramos os únicos "malucos" que não arredavam pé, e não passavam sem os banhos e as diversões dentro de água...
Os únicos seres que rivalizavam connosco, como "proprietários da praia", eram as gaivotas...
E foi assim, até crescermos um palmo e perdermos esta "boa vida"...

O óleo, "Gaivotas", é do setubalense, João Vaz.

sexta-feira, junho 20, 2008

O São João nas Caldas

Não sei porquê, mas o S. João sempre foi o Santo mais querido das Caldas da Rainha.
Aliás, penso que ainda se realiza a Feira de S. João, com as atracções do costume, embora com bastante menos povo...
Há quarenta anos esta feira era um mimo, ainda se achava graça ao circo, ao carrocel, aos carrinhos de choque, ao poço da morte, às farturas e até aos vendedores de "banha da cobra"...
Nesses tempos longínquos a feira realizava-se na Mata da Rainha, assim como a de 15 de Agosto. Era um nunca acabar de barracas de quinquilharias, de brinquedos, de roupas, de comes e bebes, e claro, a parte mágica, de diversões.
Provavelmente não era bem assim, mas estou a escrever por cima da memória da criança que olhava para tudo, quase rente ao chão, e por isso, tudo lhe parecia grandioso...

Mais um Malhoa excelentissimo, "As Padeiras"...

sexta-feira, junho 13, 2008

Quando Alberto é Nome de Poeta e de Pessoa...


Sou um guardador de rebanhos,
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

in "Poemas de Alberto Caeiro", obra poética de Fernando Pessoa. O óleo, "Gritando ao Rebanho" é de José Malhoa