domingo, abril 18, 2010

A Conversa era Outra...

Não sabia o que colocar nas "Viagens" e fui à pasta das minhas fotos e escolhi aquela. Depois acrescentei-lhe palavras...

Falava mais da paisagem que do comboio, que anda à vinte anos (pelo menos...) a ser maltratado, a ser quase obrigado a não servir e transportar ninguém, a não ser que seja um qualquer habitante de um apeadeiro longinquo, sem carro, onde ainda passa o comboio uma ou duas vezes por dia...
Falava que a entrada e saída pela Linha do Oeste era feia, triste, abandonada, tal como os composições e as máquinas com aquele som característico que aprendemos na primária: «pouca terra, pouca terra, pouca terra...»

Em relação ao resto, têm toda a razão...
Em nome das portagens, do negócio da gasolina e dos automóveis, destruiu-se no nosso país, em poucos anos, o melhor transporte do mundo...

sábado, abril 17, 2010

Chegar ou Partir pela Linha do Oeste

Embora não se note, esta é uma das entradas, ou saídas, das Caldas da Rainha. Depende apenas do nosso destino, se vamos para Norte ou se vamos para Sul...
Além das viagens incontáveis que fiz de comboio, também percorri bastantes vezes esta linha a pé, num dos muitos exemplos das aventuras inconscientes, próprias da juventude, que todos praticamos.
Sei que não é das melhores entradas da cidade, porque a paisagem que encontramos em ambas as bermas, está longe de ser bonita. É uma parte que não cresceu nem foi aproveitada para se fazer um "lava olhos".
Como podem ver pela imagem, está um pouco abandonada, como destaque para os antigos celeiros da Ceres, que são olhados, quase como os arranha-céus (para não lhe chamar outro nome...) das Caldas.

sábado, abril 10, 2010

A Necessidade Aguça o Engenho

O dito "A Necessidade Aguça o Engenho" faz parte da sabedoria popular e também da natureza humana, felizmente.

Sei que há várias maneiras de se reagir à adversidade. Talvez que a mais comum seja mesmo baixar os braços. Talvez.
É por isso que é bom valorizar e aplaudir as pessoas que passam a vida a "remar contra a maré", mesmo quando as forças começam a faltar.
Tudo isto para dizer que gosto da forma como os comerciantes caldenses têm procurado contornado a crise, vindo para a rua, chamar os clientes.
Gostava que em Almada também fosse assim, mas parece que ainda falta alguma cultura do comércio aos lojistas da Margem Sul...

A imagem foi retirada das Águas Mornas do Zé Ventura.

sexta-feira, abril 02, 2010

É Verdade...

É verdade.

Estou em falta com o Oeste, estou a viajar muito pouco pelas minhas bandas, é que isto de "alimentar" três blogues tem que se lhe diga...
É a única desculpa que me ocorre, embora também esteja em falta com a minha cidade natal, pois nunca estive tanto tempo sem aparecer por lá...

São fases pelas quais passamos.
Talvez precise de remodelar a "casa", talvez precise de entrar por outros lugares, mas parar, não, não está nos meus horizontes. As "Viagens" ainda estão longe de estarem a prazo...

(resposta a uma pergunta de um leitor atento, devidamente identificado, via telemóvel...)

quinta-feira, março 25, 2010

O Parque Cheira a Primavera

Apesar da distância física, sei que o nosso Parque neste começo de Primavera, deve estar um espectáculo.
Aliás, o nosso Parque, é um espectáculo o ano inteiro. Nem mesmo o Inverno o dobra e o transforma num lugar feio e sem alma...

domingo, março 21, 2010

A Praça Nocturna


a praça nocturna
descansa, deserta e abandonada,

aguarda pela madrugada
abraçada aos candeeiros
sempre silenciosos e frios
que tentam iluminar a velha calçada

anseia pela claridade
que lhe devolve o sorriso e a vida
que saltam de dentro da gente simples
que a invade e devolve ao mundo

sonha com os pregões diários do mercado
para esquecer o vazio e à lentidão da noite fria…

As palavras são minhas, a fotografia é de certeza de um excelente fotógrafo, que desconheço e aplaudo...

quarta-feira, março 10, 2010

A Praça Pintada por Mártio

Coloco aqui mais um quadro da Praça da Fruta, pintado por Mártio, artista plástico almadense.
Um lugar que continua a manter o encanto e a cor, apesar de se perceber que é preciso fazer alguma coisa, para acabar com o marasmo que vai tomando conta daquele autêntico "monumento vivo" das Caldas.

sábado, março 06, 2010

Os Livros e a Sensação de "Barata Tonta"

Ontem quando me deslocava de cacilheiro para Lisboa, para o lançamento do livro, "Palavras em Jogo" (trinta entrevistas e um memória, um olhar invulgar sobre o desporto), de José do Carmo Francisco, poeta e jornalista, com raízes no Oeste, pois nasceu em Santa Catarina, Caldas da Rainha, lembrei-me do que me acontece em lançamentos de livros e inaugurações de exposições, na qual sou um dos principais intervenientes.

O nervoso que me acompanha (mesmo depois de começar a ser habitual...), e as muitas solicitações de amigos, familiares e até desconhecidos, faz com que ande de um lado para o outro, quase como uma "barata tonta". E muitas vezes, só depois é que me lembro que não falei com alguém que me é especial, limitámos-nos apenas a um cumprimento de fugida.
Regressando ao lançamento, a chuva diluviana que caiu por Lisboa a meio da tarde, não me afastou do "Teatro Trindade", pela amizade que tenho ao autor, e claro, porque o livro apresentado tem todo o interesse, pois estão lá entrevistas de pessoas de grande valor cultural, algumas das quais também tive o grato prazer de entrevistar para jornais.
Ou seja, esta obra de José do Carmo Francisco, vale a pena ser lida, não por abordar a temática desportiva, mas sim pela sua singularidade e pelo peso das palavras dos entrevistados.
Curiosamente, por contratempos de última hora, o livro acabou por ser apresentado pelo jornalista, António Simões, do jornal "A Bola", que viveu parte da infância e adolescência nas Caldas da Rainha, onde foi meu companheiro na equipa de atletismo do Arneirense.

domingo, fevereiro 28, 2010

O Banco do Parque

Gosto de fotografar janelas, portas, bancos.
De preferência vazios e limpos de gente.
Não sei explicar muito bem o porquê. Acho que tem muito a ver com a diversidade e com a própria arquitetura de cada um destes objectos.
Esta imagem do nosso Parque, tem muito a ver com este tempo, cinzento, com chuva, vento, frio, muitas folhas e troncos caídos no chão.
Hoje de manhã estive no café, a conversar, a olhar e a escrever.
Um dos meus companheiros chamou-nos a atenção que as últimas grandes catástrofes no nosso país, tem acontecido em Fevereiro. Dissemos quase em coro: «o que vale é que amanhã é Março». Não confirmei os dados, mas ele disse que as grandes cheias de Sacavém, Vila Franca de Xira e arredores, que fizeram centenas de mortos e milhares de desalojados (números branqueados pela censura, que nos fizeram recordar o papel de AJJ em relação à Madeira...), o terramoto de 1969, e agora a tragédia da Madeira, são de Fevereiro...

terça-feira, fevereiro 23, 2010

A Areia da Foz do Arelho

Estive a fazer um exercício de memória, em busca das primeiras recordações que tinha da Foz do Arelho.

Lembrei-me de uma manhã de nevoeiro, onde descobri a beleza dos seixos, aquelas pequenas pedras entre o esférico e o oval, de várias cores, quase sempre polidas pelo mar. Era pequenote e trouxe o balde quase cheio para casa...
Não me lembrei do frio, da maresia que nos refrescava a cara e o corpo, nos dias em que o sol teimava esconder-se, até pelo menos à hora do almoço.

As praias de Salir e S. Martinho do Porto, mais frequentadas pela família, não tinham nada daquilo, apenas a areia fina manhosa, que adorava colar-se ao nosso corpo e que sempre detestei...
Nesses tempos a família era mesmo uma instituição, lembro-me de fins de semana na praia, com os meus avós, tios e primos. Era uma animação...
Os almoços tornavam-se em autênticos piqueniques, em pinhais próximos da praia, com direito a sesta e tudo. Da ementa havia sempre arroz de tomate e panados, que comíamos em pratos de plástico, num ambiente de alegria e partilha, que hoje está tão em desuso...

A Foz do Arelho desse tempo tinha fama e algum proveito de ser uma praia perigosa, porque facilmente se perdia o pé nas margens da Lagoa. E a aberta também costumava fazer das suas, especialmente a nadadores incautos, que se assustavam ao mínimo sinal de remoinhos e por lá ficavam...
Mesmo com estes perigos, no começo da adolescência, começámos a saborear a praia sem a companhia dos pais. De bicicleta, lá íamos nós do Bairro dos Arneiros até à Foz do Arelho. Eu era o mais pequeno e o mais "reguila", daquele grupo de amigos que já não há...

Interrompi esta "prosa" para ir levar a minha filha à escola.

O vento fez-nos companhia, na caminhada. Houve mesmo um momento em que fechei os olhos e recordei outras caminhadas, já adulto, à beira-mar, fora de época, em que também fechava os olhos e sentia aquela frescura atlântica, tão agradável, perfumada com o sal do Mar mais comunicativo que conheço...
Sim, o mar da Foz , fala, ruge, irrita-se. É por isso que está a tomar conta do areal. É provável que ande um pouco indeciso, porque também gosta de ter companhia. Só espero é que não se lembre dos "auto-falantes" de Verão, para não se enfurecer ainda mais...

domingo, fevereiro 21, 2010

Um País Trágico

Com os Invernos mais rigorosos começa a vir ao de cima o pior que temos feito nos últimos trinta anos, ao nível do planeamento e ordenamento do território, assim como da própria defesa do meio ambiente onde estamos inseridos.

A Lagoa de Óbidos e a praia da Foz do Arelho só estão a passar por todos os problemas que conhecemos, porque nunca se fez nada para resolver os pequenos problemas que foram surgindo ano após ano, e que hoje são um caso dramático, ao ponto de já se colocar em causa a continuidade da Foz do Arelho como praia, pelo menos de mar...

O mesmo posso dizer da Ilha da Fuzeta, onde foi a própria natureza a "correr" com as dezenas casas abarracadas que existiam na Ilha...

E agora foi a vez da Ilha da Madeira, um paraíso que se transformou num pesadelo para os seus habitantes, em apenas dois dias, devido aos caprichos do tempo e dos homens, especialistas em cobrir ribeiras secas com betão...
Será que ainda não é desta que aprendemos com os erros que cometemos, de Norte a Sul, com passagem pelas nossas belas Ilhas?

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Outros Carnavais...


Quando somos pequenos achamos graça a tudo, felizmente...

Era por isso que o Carnaval era uma festa.
Na minha infância ainda não estavam em voga os balões de água, mas todos nós tínhamos uma bisnaga, meia dúzia de "estalitos" no bolso, e os mais atrevidos até tinham essas coisas perigosas que hoje são proibidas, a que chamávamos "bombinhas de carnaval". Fazíamos as habituais guerras de "índios e caubóis", desta vez com munições, embora liquidas. A única tragédia eram as chegadas a casa, mais molhados que secos...
Havia outro atractivo, que ainda hoje se usa, os ovos. Mas nós no meu bairro usávamos mesmo ovos dos bons, podres, daqueles pestilentos. Isso acontecia porque conhecíamos uma "lixeira" de um aviário, onde nos abastecíamos. E era com eles é que fazíamos verdadeiras guerras de carnaval nas ruas do bairro...
Depois cresci um palmo e também comecei a frequentar os bailes de carnaval, outro espaço privilegiado para a "malandragem", que aparecia sempre completamente mascarada. Ainda hoje estou a espera de ver cumpridas algumas promessas feitas por algumas musas, que acabavam sempre por deixar pistas, que as acabavam por identificar...

Não sei se crescemos, se envelhecemos. Sei apenas que as máscaras e os bailes são mesmo passado. Coisas de outros carnavais...
O óleo é de Philipe Guston.

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

A Boa da Electricidade

Estava a conversar com amigo, sobre este triste país antes de Abril.
Embora sejamos da mesma geração, crescemos em sítios diferentes. Eu no Litoral, ele no Interior.
Ambos sabemos que a diferença entre a proximidade do mar e o distanciamento sempre existiu, não é coisa dos nossos tempos...
Mas o que nos uniu na conversa foi o facto de a maior parte das aldeias do interior não terem electricidade. Recordei a aldeia dos meus avós paternos, onde a única televisão que existia era a do também único café, movida por um gerador ensurdecedor. Ele recordou outras onde nem gerador existia...
Nós quando somos pequenos adaptamos-nos a tudo e não achamos as coisas estranhas. Eu por exemplo, vivia na cidade, numa casa normal, sem luxos mas com tudo o que deveríamos ter direito. E nunca estranhava ir para a casa dos meus avós maternos, onde passávamos parte das férias, dormir por exemplo num colchão cheio de folhas secas de milho. Até gostava de saltar em cima dele e ver como ficava deformado... Embora já tivéssemos electricidade (nunca me lembro da casa dos meus avós sem luz eléctrica... fomos mesmo dos primeiros de Salir de Matos a ter a instalação eléctrica, graças ao meu tio electricista), visitava algumas casas que apenas eram iluminadas a candeeiro de petróleo, daqueles de vidro, e a candeias de azeite.
Consigo ver todos à volta da mesa, na casa dos Antunes, a jantarem, com os rostos cheios de sombras do reflexo do candeeiro. Na altura achava aquilo exótico...
E sem luz não existiam frigoríficos, haviam sim as arcas de salmoura, onde se conservava a carne com sal grosso. Até o peixe era salgado (detestava os carapaus salgados, que só via pendurados na cozinha da avó)...
Foi Abril que trouxe a electricidade a quase todas as aldeias do país, assim como estradas, mais ou menos decentes.
Pensar que há por aí, quem queira o regresso de "Salazar".
A ignorância sempre foi e será, muito atrevida...

domingo, janeiro 31, 2010

Um Republicano na Terra da Rainha

Rafael Bordalo Pinheiro nunca escondeu a sua simpatia pela República.

Embora partisse antes da sua implantação, foi uma figura especial que desde cedo pugnou pelos valores republicanos.
Não deixa de ser curioso que tenha vindo revolucionar a cerâmica da "Terra da Rainha", as nossas Caldas, com a sua arte que continua a perdurar e a merecer cada vez mais atenção e respeito.
Esta gravura foi retirada do álbum, "Bordalo, a Rolha".

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Era Aqui...

Foi aqui, neste lugar, que existiu um hospital (de Santo Isidoro), que depois de muitos anos de abandono, foi recuperado e faz agora parte da ESAD (Escola Superior de Arte e Design).

Na minha infância corria o boato que trocavam por lá os bebés.
Não foi só por isso que fui nascer a Salir de Matos, à casa dos meus avós maternos, no mesmo quarto onde nasceu a minha mãe, os meus tios e o meu irmão, mas...

sábado, janeiro 16, 2010

O Mar Quer a Minha Praia

O mar quer ficar com a minha praia só para ele.

Olho-o de frente e sinto que não é por egoísmo, é sim para nos dar uma lição. O mar já tinha deixado alguns avisos, de que estamos a abusar da sua bondade há tempo demais.
Não sei se os avisos foram ouvidos por quem de direito. Provavelmente, os responsáveis dos Municípios de Caldas e Óbidos, assim como os senhores engenheiros do INAG, vão continuar a fingir que estão a resolver o problema, com as mãos nos bolsos e com algumas desculpas ensaiadas, que culminam sempre com a sua "fragilidade humana", de não conseguirem lutar contra a "violência" do mar...
Mas dói, dói ver esta gente no habitual deixa andar, ignorando as potencialidades da Lagoa de Óbidos e da praia da Foz do Arelho. É assim há mais de trinta anos...

Talvez um dia destes acordem mesmo sem praia, sem terem espaço para colocar as colunas de som, com que tentam falar mais alto que o mar, ou para montarem palcos no areal para os espectáculos nocturnos de Verão...

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Quando Deixamos as Janelas Fechadas...

Quando nos distraímos e deixamos de aparecer nos sítios, de abrir as janelas, a natureza encarrega-se de nos oferecer algumas surpresas.
Foi por isso que vim aqui às "Viagens", abrir as janelas, abrir a porta, sem me importar com a humidade ou os pingos de água que vão caindo, neste Inverno, que além de ter virado do avesso algum Oeste, também já conseguiu encher o maior lago da Europa (algo impossível, para os profetas da desgraça...), lá para Além do Tejo.
Vamos ver se retomo o ritmo, pelo menos semanal, de passar por aqui, para deixar um olá.

terça-feira, dezembro 29, 2009

Mau Tempo no Oeste

O Oeste - especialmente os concelhos de Torres Vedras e Lourinhã - foi fustigado pelo mau tempo na época natalícia, com um turbilhão de vendavais, que destruíram plantações, arrancaram telhados, provocaram inundações, deitaram abaixo árvores e postes de electricidade, de baixa, média e alta tensão, etc.

Estes últimos acabaram por ser os que mais falta fizeram às populações locais, que foram forçadas a recuar quarenta e cinquenta anos e a passarem o Natal à luz da vela e com os velhos candeeiros a petróleo.

À distância, pode parecer poético e nostálgico, passar o Natal desta forma, de volta às lareiras e às conversas em família, sem a habitual interrupção da televisão. Mas deve ter sido tão estranho, passar vários dias sem a companhia dos novos meios de comunicação (sim, a "net" também) e sem poder desfrutar das iluminações de Natal e do conforto da modernidade...

O que é certo, é que às vezes fazem bem alguns "apagões", para desenferrujar a língua e abrir uns sorrisos esquecidos, aqui e ali...

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Um Poema do Poeta-Mor do Oeste


Nada melhor para comemorar esta quadra festiva, que um poema de Manuel Alegre, poeta-mor do Oeste.
Boas Festas para Todos.

NATAL

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.
Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

O Palacete da Família Pinto Basto

A vila das Gaeiras, do concelho de Óbidos, encerra vários espaços únicos.
Um deles, é o Palacete da família Pinto Basto.
Palacete que só conheço do exterior.
Imagino a sua beleza interior...

sábado, dezembro 19, 2009

Luiz Pacheco e as Caldas


Por José do Carmo Francisco

«1 Homem dividido vale por 2» - Luiz Pacheco

Trata-se de um livro duplo: além do material respeitante a Luiz Pacheco (o autor) as suas 378 páginas integram a bibliografia completa de Pacheco (o editor). Entre outros a Contraponto de Luiz Pacheco editou Apollinaire, Raul Brandão, Alfonso Castelao, Camilo Castelo Branco, Mário Cesariny de Vasconcelos, Natália Correia, Dostoiewski, Hélia Correia, Manuel Grangeio Crespo, Durrenmatt, António Ferreira, Garrett, Vergílio Ferreira, Carlo Goldoni, Herberto Hélder, Ibsen, Ionesco, Karl Jaspers, Kleist, Manuel Laranjeira, Raul Leal, Manuel de Lima, António Maria Lisboa, António Tavares Manaças, José Alberto Marques e Virgílio Martinho.
No que diz respeito a Pacheco (personagem) o outro lado do livro refere uma curiosa ligação afectiva a Caldas da Rainha: «Não me julguem que chegado a esta terra como náufrago ou foragido (e alguns sabem-no) sou aqui um tipo género pára-quedista. Por acaso, sou muito mais Caldense que muitos que por cá nasceram ou vivem – e isto bastantes o sabem já. Um dia espero contar como cheguei, quem já conhecia; quem já não vim encontrar e me fez deambular, meio-sonâmbulo, ensimesmado, pelas áleas do cemitério: a Dona Eugénia Soeiro de Brito, o Pai Freitas, o dono (como se chamava? Tiago?) do Gato Preto; o Jaime Arsénio de Oliveira e outros fantasmas mais. E aqueles que vim a conhecer, me deram a mão, ficaram Amigos ou malquistos e enchiam esta página. As minhas memórias de caldense adoptivo dariam um rico volume, se o chegar a escrever. E se não sair em letras está-me escrito na pele.»
(Editora: D. Quixote – Biblioteca Nacional, Comissário: Luís Gomes)

quinta-feira, dezembro 17, 2009

O Café Bocage

O Café Bocage agora é cafetaria.
São sinais dos tempos, mas pelo menos resiste, no alto na Praça da República, a sempre popular Praça da Fruta das Caldas...
Sempre achei curioso este café, não sei se pelo nome, nesse tempo mais associado ao "herói" das anedotas (sim, herói, era um vencedor, ludibriava tudo e todos, inclusive franceses, alemães e americanos, os cromos mais difíceis de se deixarem levar...) que ao poeta das palavras proibidas.
Quando somos jovens, não paramos muito em cafés, gostamos mais da rua.
É por isso que todas as "tertúlias" de café caldenses, não fazem parte do meu imaginário...

terça-feira, dezembro 08, 2009

Quase Jardim Interior

Estava a ver algumas fotografias quando parei nesta, que tirei na última vez que visitei Salir de Matos, ainda na Primavera.

A fotografia não ficou muito boa porque foi tirada do muro, porque todo aquele espaço pertence agora à paróquia local e não quis passar por "invasor"...
É uma parte do pátio da casa dos meus avós maternos e aquele telheiro interior foi sempre um lugar especial para nós. Permitia-nos brincar em pleno Inverno, ao som da chuva que caia ali mesmo ao lado.
Como o chão era de areia, podíamos fazer buracos (sem exageros, claro...) e construir estradas para os nossoa carrinhos, ou jogar ao berlinde...
Claro que muitas vezes acabávamos por inventar outras brincadeiras, com a água da chuva, acabando por nos molhar e ouvir a avó...
Ainda hoje sinto que havia algo de "mágico" naquele lugar, aberto, mas protegido do rigores do Inverno e do Verão...

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Quase pausa nas "Viagens"...

Tenho escrito cada vez menos por aqui.

Não há grandes explicações. Digo eu.
Embora este 2009 tenha sido o ano que fui menos vezes às Caldas.
Mas se me esforçar, sempre encontro várias razões. Além de ter tido menos disponibilidade de tempo (sem esquecer os custos de uma viagem de carro, de ida e volta, sozinho às Caldas... gasolina e portagens é coisa para se aproximar dos 40 euros, um luxo nos dias que correm...),também tive menos motivos para aparecer...
Por outro lado, como cá em casa não morrem de amores pelo Oeste, também me vou rendendo.
Mas acho que em 2010 vou voltar mais vezes, apenas porque sim...
Esta fotografia primaveril de S. Martinho do Porto, serviu para provar que nem sempre por aqueles lados, "o diabo anda à solta", espalhando aquela areia fina (que detesto) por todo o lado, como se estivéssemos no deserto do Sahara...

terça-feira, novembro 24, 2009

Rafael e as Imitações

Ainda na continuação das "Culturas Caldenses", não posso deixar de ficar satisfeito por Rafael Bordalo Pinheiro ter sido motivo de um Congresso Internacional, organizado por uma universidade lisboeta.

E tenho de voltar à loiça malandra, que foi valorizada em várias exposições, com muitas imitações e inovações, na primeira mostra organizada pela Confraria do Príapo.
Por exemplo na nossa Praça da Fruta, já literária, é possível encontrar este Zé Povinho, demasiado "louro", com o chamado "bigode quase de arame" e até com um cigarro no canto da boca. Mas continua a oferecer-nos o "toma"...

quarta-feira, novembro 18, 2009

As Caldas e a Cultura

Noto que nos últimos temos há uma outra dinâmica, uma outra forma de se olhar e fazer cultura nas Caldas da Rainha.

Pelo menos esta é a impressão que fica de quem acompanha a vida cultural pela "Gazeta" e por alguns blogues...
Embora não tenha a noção do êxito da "1ª Mostra Erótica-Paródica de Caldas da Rainha", mas só o simples facto de ter sido organizado, já é uma vitória contra o conservadorismo que povoa uma cidade cheia de potencialidades.
Como estou ligado aos livros, fiquei também bastante satisfeito com a edição dos dois últimos sobre as Caldas, o romance de Carlos Querido, "Praça da Fruta" e o ensaio de Mário Tavares, "Caldas nos Tempos da II Guerra Mundial".

Que esta "febre" continue...

quarta-feira, novembro 11, 2009

O São Martinho e a Prova do Vinho Novo

O São Martinho recorda-me sempre o meu avô materno e a prova do vinho novo na adega, povoada com barris de todos os tamanhos.

O avô conseguia transformar uma coisa simples num acontecimento memorável (é a explicação para a lembrança...)
, quase sempre com algumas histórias de vidas à mistura...
A prova raramente se ficava por uma único barril porque, embora o vinho fosse feito na mesma altura, existiam outros aspectos que podiam ou não, alterar a graduação e o gosto do vinho, como era o caso da própria madeira das pipas. À medida que se iam abrindo, a rolha de cortiça era substituída pela torneira metálica da ordem...

A fotografia é de João Soeiro, do álbum, "Arealva - Memórias Dispersas no Tempo", onde colaborei com um texto sobre a história desta bonita quinta...

terça-feira, novembro 03, 2009

O Voleibol Caldense ao Mais Alto Nível

Tenho acompanhado pelos jornais a passagem da Sporting Clube das Caldas pela 1ª Divisão de voleibol, onde tem dado boa réplica às melhores equipas.

Apesar de ter apenas uma vitória, tem perdido vários jogos pela diferença minima, inclusive com algumas das melhores equipas.
Os seus atletas, técnicos e seccionistas estão de parabéns. E se mantiverem esta postura, de certeza que as vitórias não tardam por aí, tal como a manutenção na divisão principal.

sábado, outubro 24, 2009

Termo de Óbidos

João Miguel Fernandes Jorge é um escritor-poeta do Oeste, que nos oferece na obra, "Termo de Óbidos", algumas memórias deliciosas da sua infância e juventude, que resolveu construir com a forma bonita dos poemas.

É uma viagem extremamente rica, que percorre alguns sítios que conheço e outros que fiquei com muita vontade de conhecer, embora saiba que o tempo não perdoa e que as aldeias e as vilas cresceram demasiado nos últimos trinta anos. É por isso que a "prodigiosa memória de poeta" do João, funciona também como um registo histórico...
Sim, este livro, além de acolher uma parte da vivência do autor, também é um roteiro poético e etnográfico, que visita lugares como "A Feira de Atouguia", "Santo Antão de Óbidos", o culto no Carvalhal na "Noite de 25 de Dezembro de 2004" e até o "Café Central", esse mesmo, o das Caldas...
Outra coisa única neste livro são as pessoas que surgem, poema a poema, "pintadas" de memória pelo poeta, que como todos devem saber, é um nome grande da literatura portuguesa contemporânea.

domingo, outubro 18, 2009

Um Gato Azul Para a Isabel

No último texto que publiquei, houve quem confundisse as coisas na caixa de comentários e tentasse seguir a linha perigosa do Rui Rio no Porto (que devido à teimosia tem desviado parte da vida Cultural da Cidade para a vizinha Vila Nova de Gaia...). Felizmente os agentes ou activistas culturais "pedinchas" ou "chulos", são uma minoria, embora seja bom falar neles, quando não se quer apoiar, qualquer iniciativa artística.

Claro que o Rio tem muitos seguidores de Norte a Sul. Não é por acaso que as Caldas têm perdido muitas coisas para Óbidos, como todos sabemos, mas nem vale a pena aprofundar o assunto, trata-se sobretudo de visões diferentes sobre qual deve ser o papel da Cultura nas cidades...
É por isso que ofereço este "Gato Azul", da autoria do brasileiro Aldemir Martins, à Isabel Castanheira, que tanto tem feito pela cultura caldense, sem estar à espera de qualquer apoio autárquico
.

sexta-feira, outubro 16, 2009

À Boleia do Tempo

Ontem encontrei-me com um amigo e conterrâneo, à beira Tejo.

Sei que não nos devíamos ter encontrado tão próximo das eleições, evitávamos falar de "duques e de senas tristes"...
Como é natural a conversa descambou para a política, para o quase abandono cultural de uma cidade que tem tantas potencialidades. O Costa como qualquer político que se preze, prometeu agora fazer em quatro anos o que não fez em oito (querem melhor autocrítica que esta?...). Ambos sorrimos a esta "pérola", mas temos algum receio do que ele possa fazer à cidade, pelo menos no campo urbanístico, com tanta vontade de fazer coisas...
O Rui falou-me com entusiasmo do Museu Bernardo, da revolução cultural que tem proporcionado na nossa cidade, fazendo um brinde ao Joe Berardo, porque sem ele e sem o seu museu instalado no CCB, o Bernardo não teria avançado com toda aquela energia. A Teresa também já me tinha falado igualmente com entusiasmo. Tenho de conhecer o museu e o Bernardo...
Depois de lhe dar o último livro que escrevi sobre Cacilhas, ele disse que eu devia fazer algo parecido sobre as Caldas. Tive de ser sincero e de lhe dizer que conheço de uma forma mais profunda a história de Almada que a das Caldas...
Já depois do meu livro anterior, o meu irmão também me falou na possibilidade de escrever um parecido sobre as Caldas...
Mas as coisas não são assim tão simples...

quinta-feira, outubro 08, 2009

O Meu Oceano

O telemóvel tocou várias vezes até ele atender. Era ela.

«Onde estás? Sempre vens?» As mulheres são assim, são capazes de fazer mais que uma pergunta na mesma frase...
Sentia-se tão calmo e distante, que disse: «Estava tão longe... deixei-me levar pela música forte do Oceano e consegui esquecer-me de uma boa parte do mundo. Da menos prestável.»
Curiosa como todas as descendentes de Eva, queria saber onde ele estava, «Em que Oceano estás?»
«No nosso.»
Ela ficou mais descansada, estava perto, a olhar o areal onde passearam vezes sem conta, na companhia das ondas do mar...
Extraído de um pequeno conto meu, porque sim...

quinta-feira, outubro 01, 2009

Mansões Abandonadas

Gosto deste título, "Mansões Abandonadas".
Provavelmente não é inocente, acompanha o percurso do seu autor, farto de ser mais um "santo da terra, proibido de fazer milagres"...
Falo de José do Carmo Francisco, um poeta do Oeste, natural da Freguesia de Santa Catarina, no concelho das Caldas da Rainha, terra que conheço desde sempre, porque era
o destino final das camionetas de carreira que apanhava para Salir de Matos, quando ia de visita ou de férias para a casa dos meus avós maternos...
Conheci-o graças ao jornalismo no começo da década de noventa e nunca mais nos perdemos de vista.
A sua aventura literária começou em 1981, com o livro, "Iniciais", "Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores", seguiram-se mais catorze livros, em quase trinta anos de carreira literária.
A par da poesia também tem escrito em vários jornais e revistas ("Diário Popular", "Record", "A Bola", "Ler", Sporting", "Notícias da Amadora", "O Mirante", "Gazeta das Caldas", etc), e é um dos animadores do blogue "Aspirina B".
Apesar de se sentir marginalizado enquanto poeta e ter dificuldades em publicar, José do Carmo Francisco foi reconhecido recentemente além fronteiras, com a publicação de uma antologia da sua obra poética no Brasil, na colecção "Ponte Velha", que quer ser uma ponte entre a poesia portuguesa e a poesia brasileira.
Falo do tal título feliz, "Mansões Abandonadas", editado pelas Escrituras Editora, no outro lado do Atlântico.

terça-feira, setembro 29, 2009

A Escola do Bairro da Ponte

Hoje, sem qualquer razão aparente, recordei-me de alguns amigos de infância, dos tempos da primária, do ciclo e começo da secundária.

E também da minha professora da escola do Bairro da Ponte, uma senhora açoriana, que não consigo recordar o nome, por mais voltas que dê à "memória".
Foi uma professora muito importante para mim, sempre me estimulou a escrever e sempre gostou das minhas histórias.
Acho que fiquei sempre com saudades da familiaridade que existia na primária, impossível de existir nos outros graus de ensino, por termos vários professores, uns com mais jeito para ensinar, outros com menos...
Ainda por cima andei pelo ciclo e pela secundária, nos tempos quentes da revolução, em que a escola era uma "bagunçada" e em muitas disciplinas os professores só apareciam no terceiro período...

Por tudo isso, os tempos de escola na qual fui mais feliz, foram sem dúvida, os da primária, no Bairro da Ponte.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Quase que Parece...


Sim, quase que parece um cenário de guerra.
Mas não é.
Trata-se apenas de canto meio abandonado de Salir de Matos, comum a muitas aldeias.
Achei graça o machado estar preso no cepo, provavelmente à espera de mais uma leva de lenha, lá mais para o Outono...

sábado, setembro 19, 2009

O Hotel Lisbonense

Não vivi os tempos áureos do Hotel Lisbonense, que calculo que tenham sido vividos na primeira metade do século XX.
Nem sei se foi um negócio lucrativo, já que era demasido grande para uma pequena cidade, como eram as Caldas da Rainha.
Quando comecei a reparar mais nele, já funcionava como albergue de "retornados" (as pessoas que regressaram das colónias nunca gostaram desta denominação, não sei porquê, já que retornaram ao país de onde partiram...), que tinham sido forçados a regressar ao Continente devido à Guerra pelo Poder nestes novos países (que duraria mais tempo que a Colonial...), principalmente em Angola.
Participei em vários bailes de Carnaval e Fim de Ano, e pouco mais. Aliás, nunca entrei num único quarto do hotel.
Ao olhar este postal lembrei-me de falar deste hotel, que nem a fachada sobrou, devido à "esperteza" dos empresários...

segunda-feira, setembro 14, 2009

Dez Cartões Vermelhos

A Vela desafiou-me para que eu mostrasse dez cartões vermelhos. Podia mostrar vinte sem grande dificuldade. Decidi escolher 10 pessoas, que ultimamente se têm colocado a jeito de levar com a cartolina que dará direito à expulsão para outra "república também com bananas", de preferência distante...

O mais curioso é que estão de tal forma colados (e alienados) ao poder, que não há cartão que os afaste da nossa vista...

Eis a lista:

Alberto João Jardim
Dias Loureiro
Jardim Gonçalves
Aníbal Cavaco Silva
Manuela Ferreira Leite
Santana Lopes
Fátima Felgueiras
Valentim Loureiro
Isaltino Morais
Pinto da Costa

O país ficava mais saudável sem a sua presença, pelo menos na vida pública.

Quem quiser, está à vontade para pegar no mote e mostrar os cartões a quem lhe apetecer.

sábado, setembro 12, 2009

Os Portugueses no Mundo

Achamos quase sempre que somos muito acolhedores e simpáticos, os estrangeiros também nos acham um "doce". Umas vezes concordo, outras não. E por vezes até chego a pensar que a tal simpatia de que os estrangeiros tanto gostam, não passa de "servilismo"...

Passei uma semana fora do país, em Paris, a grande capital multicultural, há várias décadas.
Fui encontrando pelo caminho vários portugueses, ocasionalmente. Uns por bons motivos, outros nem por isso.
Logo à chegada, uma jovem simpática ao escutar a nossa língua, percebeu que estávamos um pouco "deslocados" e ofereceu os seus préstimos para nos indicar a rua do hotel onde iríamos ficar.
Encontrámos mais duas portuguesas simpáticas, de cor, provavelmente de origem caboverdiana, pelo seu tom de pele. Uma delas de grande ajuda num restaurante, onde a língua "universal" era apenas o francês...

Mas encontrámos de tudo, como o português que insultava o filho menor na rua, puxando-o pelo colarinho da camisa, ou a senhorita que quase me atropelou com a mala e ainda teve a lata de dizer em bom português (com maus modos) que eu é que me atravessei no seu caminho...

Passei a gostar mais dos franceses, depois de um dos meus tios, emigrante em França, durante quase quatro décadas, me ter contado o grande carinho que sentia por este povo, que sempre o tratou bem.
Quando saiu do país a salto nos anos sessenta, começou logo a ser enganado por portugueses e espanhóis, durante a caminhada interminável por montes e vales, até ter passado a fronteira. Ainda se recorda das boas vindas dadas pelos franceses, que lhe arranjaram alojamento e comida quente, ao verem o estado em que se encontrava, tão faminto e cansado, entregue à sua sorte, num país desconhecido...
A história continuou...
Não demorou muito tempo a perceber que aqueles que fingiam ajudá-lo, eram quem mais o explorava. Desde o casal de portugueses, que lhe alugou um reles quarto ao preço de uma suite, a outros "compatriotas" que lhe cobravam todos os "favores" prestados, a preço de ouro.
Só quando começou a falar francês, percebeu onde estava metido, o muito que tinha pago por coisas que eram de graça, eram direitos (uma palavra que também desconhecia...).

Claro que, como em tudo na vida, trata-se "apenas" de uma questão de sorte ou de azar...
Provavelmente se tenho encontrado a senhorita portuguesa da mala, no restaurante, até era capaz de comer carne de burro...
É por estas e por outras que não sei se somos tão simpáticos e acolhedores como parecemos.

quinta-feira, setembro 03, 2009

Setembro...

Setembro sempre foi um mês especial.

Penso que existe mesmo uma duplicidade de olhares e sentimentos em relação a este mês que funciona quase como fronteira entre as férias e o trabalho e a escola.
É por isso que é olhado com desencanto para muitos e de alivio para alguns...
Desencanto para quem adora o Verão e o tempo de férias, alívio para quem não morre de amores por esta época tão quente, movimentada e excessiva.
Mas é assim todos os anos, há algo que acaba e algo que começa...
Na minha meninice e juventude Setembro tinha também o atractivo das vindimas. Era uma aventura e pêras, seguir por aqueles caminhos, que se enchiam de lama com as primeiras chuvas.
O caminho para o "Vale da Moira" (uma das vinhas do avô...) era digno de um documentário, sobre a força dos bois e a coragem do avô, que não lhes dava tréguas, tanto na subida (que também se tornava perigossíssima a descer, com as tinas cheias de uvas ...), como na tal parte do vale, em que a estrada se confundia com um ribeiro e as pernas dos bois e até do avô quase que desapareciam no meio do lamaçal...
Sinto saudades daquela azáfama dos finais de Setembro, em que tudo era uma aventura e os perigos eram enfiados no bolso. E claro do lagar, do pisar as uvas e fazer o vinho...

Setembro continua a ser um mês especial, mesmo que as vindimas sejam só uma boa recordação...
A fotografia é do Parque das Caldas...

terça-feira, agosto 25, 2009

O Microclima do Oeste

Enquanto andávamos esbaforidos com o calor, o Zé Ventura, lembrou-nos, e muito bem, da existência do microclima especial da Região do Oeste.

Sentem-se logo as mudanças quando passamos a Serra de Montejunto...
Um ano destes tentei desviar a minha família para as praias do Oeste. Estivemos menos tempo no Algarve e ficou uma semana para aproveitarmos as "delícias" de praias como a Foz do Arelho, Salir, São Marinho do Porto ou o Baleal.
Mas a semana foi terrível, quase que choveu e tudo...
Na Foz era preciso andar de "sobretudo", em São Martinho, parecia que estávamos dos desertos do Sahara, com a areia sempre no ar...
Lá se acabaram as férias no Oeste, para pena minha, que até dos nevoeiros matinais da Foz do Arelho gosto...

terça-feira, agosto 18, 2009

Agosto Quente


Nunca pensei que este Agosto aquecesse tanto...
Ao ponto de ser extremamente desconfortável andar na rua nas horas de maior intensidade solar.
Nem à sombra se está bem...
Este mês não tenho passeado por Lisboa como noutros anos, nem tenho andado rente ao Tejo.
Não sei se me serve de consolo pensar que depois de amanhã é Setembro...

quarta-feira, agosto 12, 2009

O Jardim da Lurdes

No principio do ano fui surpreendido por um telefonema, de alguém que conhecia desde a meninice, de Salir de Matos, a Lurdes do Jardim. Sim, ela para mim foi sempre a Lurdes do Jardim, uma das educadoras do Jardim de Infância da aldeia, que sempre foi um exemplo escolar para a primeira infância. Havia mesmo quem viesse das Caldas, deixar os filhos a Salir de Matos...

Fui crescendo e comecei a visitar cada vez menos Salir de Matos. Sei que estive muitos anos sem ver a Lurdes. Por essa razão ainda fiquei mais surpreendido com o telefonema...
Ela contou-me que o Jardim de Infância fazia 40 anos em Outubro e como sabia que eu escrevia, queria que eu fizesse a história da instituição.
Fiquei surpreso e tentei fazer-lhe ver que estava demasiado afastado de Salir de Matos e da realidade da instituição, para escrever o que quer que fosse. Também argumentei que tinha dois livros para acabar durante o ano...

Nada a demoveu e acabámos por manter contacto por "e-mail". Fiz um pequeno inquérito para ser enviado às pessoas que estiveram de alguma forma ligadas à fundação da Instituição. Também acabámos por nos encontrar, numa das poucas vezes que visitei Salir de Matos, onde me contou o porquê de todo aquele interesse, tendo já bastante documentação e fotografias. Foi quando ela soube que eu vivia em Almada e não nas Caldas...
Entretanto como estava envolvido noutros projectos, não me preocupei muito com esta história.

Posteriormente a minha mãe disse-me que ela estava doente, vitima da doença mais traiçoeira e perigosa que nos persegue, o cancro...
Quando cheguei de férias soube que tinha falecido.
Provavelmente levou consigo o sonho do livro, no qual queria que ficasse registado a verdadeira história do Jardim de Infância de Salir de Matos...

A vida é mesmo assim, injusta, para a Lurdes, e para todos nós...

domingo, agosto 02, 2009

Agosto Fresco

A chuva que caiu ontem fez com que um amigo me dissesse que o Inverno começa quase sempre em Agosto...

Claro que não passou de uma metáfora, de uma tentativa de me explicar que embora Agosto seja o mês por excelência das férias dos portugueses, é também o mais brincalhão, aquele que acolhe as chuvas e o frio, ainda que passageiro, com um sorriso traquina, de quem consegue trocar as voltas a muito boa gente.

Sempre gostei mais de Julho para férias. É assim há mais de vinte anos (só gozei férias em Agosto, obrigado...), até porque Lisboa, Almada (sim, apesar da Costa de Caparica ser a dois passos, fica mais calma), ou outra cidade que não seja local de férias de veraneio, ficam sempre mais calmas...
O mesmo não se pode dizer das Caldas, que fica sempre com mais vida nos meses de Verão, por ser o centro urbano mais próximo da Foz do Arelho e de S. Martinho do Porto.

quinta-feira, julho 16, 2009

Janela Azul

Gosto desta janela de Guilherme Parente, onde se olha o azul do mar e o azul do céu...
Só não percebo o que faz por ali, aquela nuvem castanha. Caprichos do artista, só pode...
Caprichos que se estendem à parte inferior, onde nem falta alguém de chapéu, com um livro na mão.
E sabe tão bem ler, dentro de uma sombra, olhando nos intervalos das palavras, o azul do mar e o azul do céu...
Prometo voltar em Agosto.

sábado, julho 11, 2009

«Gosto Muito do Cheiro do Atlântico»

Não tenho andado muito por aqui, foi por isso que deixei as palavras de Manuel Alegre, sobre a Foz do Arelho, na reportagem da "Visão" desta semana, "memórias da minha praia", à espera.


O poeta disse: «[...] Lembro-me bem do cheiro da ria... essa é a praia das praias. Mas nos anos 1980, descobri a Foz do Arelho, mais selvagem, em estado puro, um sítio onde podia pescar robalos à vontade. Gosto muito do Atlântico, do cheiro do Atlântico - lembro-me que quando estava exilado em Paris, ia até Biarritz só para sentir o cheiro do mar. Gosto das águas fortes e lá ouve-se o silêncio e a música do mar. E ainda vou na Primavera, no Outono e no Inverno... Tenho muitos poemas escritos ali. E da minha varanda vêem-se Peniche e as Berlengas. E às vezes só a neblina.»

É também por tudo isto que gosto da Foz do Arelho, daquele mar único. E não fazia ideia que tinha descoberto este meu Mar muito mais cedo que Manuel Alegre. Sim, descobri-o logo nos anos sessenta, na década em que nasci...

segunda-feira, julho 06, 2009

Outros Adiamentos...

As viagens nem sempre são possíveis de concretizar por questões económicas e pela ausência de dias vagos para se terem férias mais pessoais. Quem tem filhos menores, planeia sempre as férias a pensar na praia, muito importante para a saúde no ano inteiro (o único ano que não fiz praia, fui atacado por uma gripe que durou uns três meses...).
Mas o que quero falar agora, é de outros adiamentos, das leituras dos livros que vão ficando na prateleira, embora alguns não desistam de nos acenar...
Há livros que estão lá porque sim (não há grande vontade de ler...), outros é mesmo falta de tempo e medo (sim esta mania de se escreverem livros com mais de quinhentas páginas não tem muito a ver comigo, sinto que são palavras a mais e tenho dificuldade em agarrá-los...).
Foi por isso que ainda não li livros que já estão na estante há mais de uma década, embora ainda me pisquem o olho, de vez enquanto, como são os casos de, "O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago e do, "Fado Alexandrino", de António Lobo Antunes (este recomendado pelo autor...).
Dos mais recentes, também me piscam o olho, embora menos, o "Equador", de Miguel Sousa Tavares, o "Eu Hei-de Amar uma Pedra", novamente Lobo Antunes, a "Cara da Gente", de Batista-Bastos... e depois há outros mais curtos como, "Os Duros não Dançam", de Norman Mailer, "A Virgem e o Cigano", de D. H. Lawrence, que me atrairam sobretudo pelos títulos (estes dois devem ir de férias comigo, finalmente...).
E, sem saber explicar muito bem, existem outros livros que me ofereceram que não tenho vontade de ler. Alguns de José Rodrigues dos Santos, da Margarida Rebelo Pinto e até o "Código Da Vinci", de Dan Brown. Sei que é uma falha minha, devia ler para perceber o porquê dos seus sucessos, mas...
O óleo é de Juan Gris, um nome grande do cubismo.

sábado, julho 04, 2009

A Vida É...

A vida é quase um "mar" de adiamentos...

Tanta coisa que queremos fazer e que vão ficando pelo caminho, à medida que vemos o tempo a passar por nós, como um comboio que vemos partir de uma qualquer estação e que vai ganhando cada vez mais velocidade...
Tudo isto apenas porque me lembrei das lista de cidades que queria conhecer e que ainda não sairam do papel.
Sim, Nova Iorque, Salvador da Baia, Berlim, Budapeste, Buenos Aires e Praga, continuam no topo da lista, cada uma por motivos diferentes...
Provavelmente não as vou visitar todas, talvez duas ou três.
Porque a vida é quase um "mar" de adiamentos...

O óleo é de Claude Monet...